O imperialismo criminoso de Putin e a invasão da Ucrânia. Os povos nunca devem ser identificados com o regime

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25 Fevereiro 2022

 

"Populismonacionalismomilitarismo, essas três doenças mortais da política, arruinaram como nunca antes a convivência dentro dos países, incluindo o nosso, e entre países nos últimos anos. E não apenas por causa de Putin. O Ocidente também é responsável por isso", escreve Vincenzo Passerini, que foi conselheiro regional de Trentino-Alto Adige de 1993 a 2003, presidiu de 2011 a 2014 o Ponto de Encontro, fundado por Don Dante Clauser, que acolhe moradores de rua em Trento, e de 2015 a 2018 liderou a federação Trentino-Alto Adige da Cnca (Coordenação Nacional da comunidade anfitriã), em artigo publicado por Vita Trentina, 24-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Agitamos idealmente a bandeira da paz diante dos tanques russos que invadiram a Ucrânia e gritamos bem alto: Voltem para casa! Chega de guerra! Chega de guerra!

Aqueles tanques nos lembraram das imagens lúgubres de outras invasões russas: Hungria em 1956, Tchecoslováquia em 1968, Afeganistão em 1979.

O que restou disso? Escombros humanos e políticos, e mortos. E refugiados. Inclusive desta guerra restarão escombros humanos e políticos. E mortos e refugiados.

Recordamos as palavras do vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2021, o corajoso jornalista russo Dmitri Muratov, odiado por Putin, no discurso de recebimento do prêmio em 10 de dezembro passado (pode ser lido no meu blog):

"Em nosso país (e não só) é comum pensar que os políticos que evitam o derramamento de sangue são fracos. Enquanto ameaçar o mundo com a guerra é o dever dos verdadeiros patriotas. Os poderosos promovem ativamente a ideia de guerra. O marketing agressivo da guerra influencia as pessoas e elas começam a pensar que a guerra é aceitável... Além disso, na cabeça de alguns lunáticos geopolíticos, uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia já não é mais algo impossível. Mas sei que as guerras terminam com a identificação dos cadáveres dos soldados e a troca de prisioneiros”.

Muratov, praticamente ignorado na Itália, até pelos pacifistas, é o editor do "Novaya Gazeta", o jornal no qual publicava suas memoráveis reportagens sobre as ferozes guerras no Cáucaso Anna Politkovskaya, assassinada em 2006, que escreveu a verdade sobre as desumanas repressões do exército e os assassinatos de defensores dos direitos humanos e dizia de Putin que "uma vez tornado presidente, não soube erradicar o coronel da KGB que vive nele".

Putin está no poder há 22 anos. A solidão do comandante único da nação nunca nos pareceu tão arrogante quanto patética como naquelas imagens televisivas dele sentado em uma ponta daquela longa mesa conversando, pontificando e contando a sua versão da história.

Quantos anos ainda vai durar? E o que ele vai deixar? Outros e mais poderosos do que ele viram seus monumentos, materiais e ideais logo jogados ao chão e despedaçados.

Mas a Rússia é um pedaço da alma da Europa, uma alma cultural e espiritual, e nós sofremos não apenas, em primeiro lugar, com os ucranianos agredidos pelo regime prepotente, mas também sofremos pelo povo russo e com o povo russo.

Não queremos uma nova cortina de ferro. Não queremos guerras com a Rússia.

Nós, ítalo-fascistas, também a invadimos junto com os alemães-nazistas, em vez de ficarmos em casa. E também acabamos precisando dos russos-soviéticos para nos libertar dos nazistas com os quais havíamos nos aliados.

Não temos, nós, uma história inocente. E não podemos olhar ninguém de cima como tantos comentaristas políticos que estão sempre prontos, a partir de uma história truncada, a lembrar as invasões e os crimes alheios e esquecer invasões e crimes, muitas vezes horrendos, nossos (na África, na França, na Grécia, na Iugoslávia, na Rússia).

Não precisamos apenas de gás russo, precisamos da Rússia. De seu imenso patrimônio cultural e espiritual, que representa, como dizia o Papa João Paulo II, a outra metade da Europa.

O imperialismo criminoso de Putin não pode nos fazer esquecer isso. Os povos, e o que eles custodiam, jamais podem ser identificados com o regime do momento.

Populismo, nacionalismo, militarismo, essas três doenças mortais da política, arruinaram como nunca antes a convivência dentro dos países, incluindo o nosso, e entre países nos últimos anos. E não apenas por causa de Putin. O Ocidente também é responsável por isso.

As demagogias populistas envenenaram o quotidiano dos cidadãos, alimentando os seus medos contra os outros, principalmente os estrangeiros, espalhando sentimentos de ódio, medo e insegurança.

O nacionalismo, que não é o amor pelo próprio país, mas a exaltação do próprio país contra os outros países, multiplicou arames farpados e muros nas fronteiras.

O militarismo, terceira e lamentável doença, impulsionada pela indústria armamentista e por políticos tão arrogantes quanto incapazes, cresceu em todos os lugares e a força das armas voltou a ocupar o lugar da política.

Não esqueçamos que os gastos com armas da Rússia representam 3% (60 bilhões de dólares) do gasto mundial, enquanto aqueles dos Estados Unidos chegam a 29% (778 bilhões de dólares) e os da China 13% (252 bilhões), como documenta Riccardo Sorrentino no “Il Sole 24 ore”.

O comércio internacional de armas vem crescendo nos últimos anos com seus valores bilionários assombrosos e em responsabilidade principalmente do Ocidente.

A Itália também está fazendo cada vez mais negócios neste infeliz setor. E é emblemático dessa força de armas e fraqueza da política, que um poderoso político de esquerda como o ex-ministro Marco Minniti tenha abandonado sua cadeira de deputado do Partido Democrata no ano passado para trabalhar como consultor da Leonardo, a fábrica de armamentos estatal italiana, uma das maiores do mundo.

Mas o que precisamos, em vez disso, é exatamente o oposto: mais política e menos armas.

Mais capacidade de construir confiança para estabelecer relações internacionais de convivência e não de confronto e de contínuas exibições musculares ao som de tanques, mísseis, satélites e porta-aviões.

Mais sabedoria política e visão.

Se a política restabelecer condições de confiança e credibilidade, a guerra na Ucrânia também será extinta e voltaremos aos acordos de Minsk de 2014 e 2015.

Aqueles acordos que preveem um estatuto especial de autonomia para o Donbass que garante os direitos da minoria russa dentro da intangibilidade das fronteiras nacionais sancionadas por um referendo com 90% dos consensos.

Um estatuto especial que, como no caso do Trentino-Alto Adige, atenua a fronteira nacional respeitando-a.

Infelizmente, os acordos de Minsk se revelaram fracos, frágeis, com uma ancoragem internacional insuficiente e falta de vontade de ambos os lados para implementá-los. Mas a partir dos quais inevitavelmente teremos que recomeçar, quando a inteligência da política voltar a assumir o controle sobre a estupidez funesta das armas.

A história da autonomia especial do Trentino e do Alto Adige nos ensina muitas coisas sobre isso.

Ensina-nos que são necessários, justamente, uma sólida ancoragem internacional, instituições com autoridade, órgãos bilaterais e multilaterais que enfrentem sistematicamente os velhos e novos problemas, e além disso paciência, tempo e muita, muita confiança mútua. Não há alternativas.

A paz e a convivência, sabemos disso também pela história da nossa pequena região fronteiriça europeia, são construções complexas e laboriosas. Aqui vemos do que a política é capaz. Mas, como Dmitri Muratov dizia em seu magnífico discurso do Nobel, "não é justamente uma grande ambição para políticos ou jornalistas aquela de criar um mundo sem notas 'mortos em batalha?'".

 

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