"A casta dos castos": como o celibato obrigatório dos padres perverte a Igreja

Fonte: Pixabay

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04 Fevereiro 2022

 

Está sendo publicado na França o ensaio de Marco Marzano "La casta dei casti" (A casta dos castos, em tradução livre), no qual o sociólogo italiano analisa a relação dos padres com sua intimidade. Denuncia uma instituição tornada "esquizofrênica" pela exigência de castidade, e dentro da qual a sexualidade é onipresente, mas oculta.

 

A reportagem é de Benjamin Sèze, publicada por Le Monde, 27-01-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Por que Marco Marzano por três vezes, na adolescência e depois na idade adulta, se viu de forma fortuita e indesejada, com a mão de um padre em sua coxa? Como os membros do clero puderam cometer abusos sexuais durante cinquenta anos e em dezenas de jovens no coro da catedral de Regensburg, na Alemanha? Essas são algumas das perguntas que deram início à investigação conduzida pelo italiano Marco Marzano em seu livro La casta dei casti. I preti, il sesso e l’amore.

Professor de sociologia da Universidade de Bergamo, tendo concluído os seus estudos em escolas católicas, Marco Marzano não aceita a ideia "muito simplista" segundo a qual "na Igreja se escondem perigosos pervertidos sexuais, maçãs podres, cujos crimes são frequentemente cobertos por superiores que só desejam evitar escândalos". O mal não seria mais profundo?, ele se pergunta. Não é mais intrínseco à "cultura eclesial", ao modo como os padres católicos são educados nos seminários, ao modo como vivem a sua sexualidade e a sua afetividade durante e após os anos de formação?

 

Imaturidade sexual

 

Sem tentar atenuar a responsabilidade individual dos autores de abusos sexuais e daqueles que os encobrem, o sociólogo questiona-se sobre o funcionamento do sistema clerical e se pergunta em que medida ele contribui para gerar tais abusos. Para responder a essas perguntas, o sociólogo combina seu rigor universitário e sua sensibilidade. O resultado é uma constatação esmagadora, baseada em dezenas de testemunhos de padres italianos encontrados durante a pesquisa.

Para Marco Marzano, se a Igreja Católica se prende ao celibato e à castidade de seus "funcionários", é antes de tudo para preservar seu poder. Porque as duas exigências garantem, por um lado, a dependência dos padres da instituição e, pelo outro, a imagem de "seres superiores" que usufruem aos olhos dos fiéis que assim aceitam obedecer-lhes.

O sociólogo descreve também uma instituição esquizofrênica dentro da qual o princípio se choca constantemente com a realidade. Proibida, a sexualidade, tanto homossexual quanto heterossexual, é onipresente na mente e na prática de muitos padres e seminaristas. A hierarquia eclesial fecha os olhos sob a condição de que tal sexualidade permaneça oculta. Segundo Marco Marzano, essa “hipocrisia” institucional alimenta em alguns padres “uma visão das regras morais como algo a ser respeitado apenas formalmente e em público”.

A cultura do silêncio e da negação descrita, dentro da qual a sexualidade é elevada ao status de tabu, mantém "uma profunda imaturidade sexual" e favorece comportamentos que deixam pouco espaço para a compreensão das emoções e das necessidades afetivas, para a compreensão do desejo e da vontade do outro. O quadro pintado por Marco Marzano é decididamente sombrio e sua acusação contra a instituição católica é muito pesada. Mas o autor assume para si essa “crítica sociológica radical do sistema clerical”.

 

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