Realmente não existe mais religião na Itália? Os números contam uma história diferente. Artigo de Marco Marzano

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01 Junho 2021

 

"As ladainhas sobre o fim do cristianismo que se ouvem de muitos círculos católicos e ateus devotos são amplamente exageradas e se assemelham às de muitos professores sobre a morte da cultura o embrutecimento da juventude. A secularização está em andamento, mas segue trilhas e caminhos tortuosos e inesperados. A igreja, também graças à enorme popularidade de seu líder supremo", escreve o sociólogo italiano Marco Marzano, professor da Universidade de Bergamo, em artigo publicado em Domani, 31-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Quando a pandemia finalmente passar, teremos que tentar entender o impacto da suspensão de muitas atividades pastorais, a redução dos lugares disponíveis nas igrejas, o fechamento prolongado das escolas dominicais, o adiamento das primeiras comunhões, confirmações e matrimônios. Muitos padres já estão traçando hoje um balanço apocalíptico para a igreja, argumentando que muitos praticantes nunca mais retornarão, que muitas crianças renunciaram para sempre à iniciação cristã, que os fiéis mais mornos abandonaram os bancos da igreja e que apenas os mais teimosos e motivados retornarão para a paróquia.

É claro que, nas fileiras do clero, não faltam aqueles que consideram tudo isso não uma desgraça, mas uma sorte, que liberta a Igreja da devoção cansada, meramente ritual e conformista de tantos católicos por hábito e restaura à comunidade cristã aquela dimensão de “pequeno rebanho” julgada ideal para um retorno às raízes do Evangelho.

 

A religiosidade dos italianos

 

Haverá tempo para verificar a veracidade dessas profecias "declinistas". O que podemos fazer hoje é avaliar mais uma vez a situação da religiosidade italiana antes do início da pandemia. A oportunidade nos é dada pela apresentação, realizada pela Critica liberale, do décimo quarto "relatório anual sobre a secularização", rico em dados quantitativos obtidos em várias fontes oficiais. Entre os tantos números presentes no relatório, há pelo menos três que, se observados na perspectiva temporal de pelo menos quinze anos, sinalizam claramente um distanciamento crescente dos italianos da tradição católica.

Trata-se do percentual de primeiros casamentos de cidadãos italianos (portanto, não estrangeiros e não divorciados ou novamente casados) celebrados com rito civil sobre o total de primeiros casamentos, que passou de 20,7 por cento em 2004 para 31,3 por cento em 2018, aqueles dos nascidos vivos fora do casamento sobre o total de nascidos vivos, que passou de mais de pouco mais de 10 por cento em 2002 para 32 por cento em 2018 e o de "casais não casados" no número total de casais, que parece ter aumentado quase cinco vezes entre 2000 e 2018. Desses três dados, uma indicação bastante clara pode ser obtida: quando se trata de decidir que forma dar à vida de casal e ao contexto da parentalidade, um número crescente de italianos (em geral ainda minoritário) se inclina para um modelo distante da tradição religiosa católica.

 

Uma relação estável

 

Posto isto, deve-se notar que muitos dos outros dados contidos no relatório vão em uma direção decididamente diferente, ou seja, testemunham uma substancial estabilidade na relação entre os italianos e a Igreja Católica. Vamos tomar, por exemplo, os dados relativos aos batismos. É verdade que a porcentagem de batizados entre zero e sete anos sobre o total de nascidos vivos caiu, em pouco mais de quinze anos, em dez pontos, de 85 por cento em 2002 para 76,8 por cento em 2018, mas isso parece mais um efeito do aumento do número de filhos de imigrantes nascidos na Itália que do aumento significativo da decisão dos pais italianos de não batizarem seus filhos (além disso, o dado já está estável há cerca de dez anos).

O mesmo discurso se aplica para as primeiras comunhões e confirmações, cuja diminuição absoluta em números é, pelo menos em parte, explicada pelo declínio demográfico dos últimos anos. O número de crianças que se valem do ensino da religião católica na escola também continua muito elevado, descendo em dez anos, de 2008 a 2018, em apenas cinco pontos percentuais, passando de 91 para 86 por cento. Uma confirmação da persistente solidez do vínculo entre os italianos e a Igreja Católica é finalmente obtida a partir da leitura dos dados relativos ao destino dos 8 por mil do imposto de renda. Em 2000, eram um terço (exatamente 33,41 por cento) dos contribuintes que manifestavam seu desejo de destiná-lo à Igreja Católica; em 2018 foi uma percentagem ligeiramente inferior: 31,8 por cento.

La fede incerta.
Un'indagine quanti-qualitativa in Italia

 

Em última análise, o distanciamento dos italianos da Igreja Católica é muito menos consistente e rápido do que o que se afirma em muitas análises improvisadas e impactantes nas quais se narra sobre um êxodo em massa de nossos compatriotas da tradição que durante séculos caracterizou a paisagem religiosa da península. Devemos admitir que a fratura envolve mais determinadas esferas (por exemplo, o matrimônio) do que outras (por exemplo, a educação religiosa dos filhos: o catecismo e os sacramentos) e diz respeito mais, como nos dizem outras pesquisas, às gerações mais jovens, os menores de 40 anos, em relação com aquelas mais velhas, os homens em relação com as mulheres.

Além disso, implica muitos outros planos que não são visíveis em estatísticas como aquelas apresentadas no relatório e que dizem respeito também à e não apenas à prática, à dimensão íntima e de valor e não apenas à pública e dos comportamentos e, portanto, não apenas à missa aos domingos ou a oração, mas também o acreditar em Deus, a concepções sobre a vida após a morte, as imagens do pecado e do mal, etc. Sobre o tema, pode-se consultar o excelente volume de Roberto Cipriani, La fede incerta. Un'indagine quanti-qualitativa in Italia (A fé incerta. Um levantamento quantitativo e qualitativo na Itália). Sem falar na questão ainda mais complexa das causas, da identificação do que em última instância determina o avanço ou recuo do distanciamento.

 

A instituição

 

Por fim, é interessante olhar para a outra ponta da relação, para a instituição, para a Igreja Católica. O relatório contém muitos dados interessantes também nesta frente, em particular sobre o "pessoal" à disposição da organização. Também aqui não faltam alguns dados claramente positivos para a Igreja: por exemplo, aquele que diz respeito aos diáconos, praticamente duplicou em vinte anos. Em outros setores, por outro lado, assistimos a um declínio dramático: por exemplo, o número de "religiosas" em 20 anos diminuiu drasticamente, de 113.295 em 2000 para escassos 75.000 em 2018. Uma queda vertical, infinitamente superior àquela dos sacerdotes diocesanos (não relatado no relatório) que diminuíram, nos últimos vinte anos, em apenas três mil, de 35 mil para 32 mil. É verdade que a idade média do clero aumentou e que o número de ordenações está diminuindo (393 padres foram ordenados em 2008 contra 343 em 2018), mas mesmo aqui a situação está longe de ser catastrófica para a igreja italiana.

Por pelo menos três razões: primeiro porque o número total de sacerdotes ainda é muito alto se comparado ao de outros países do mundo (em nosso país quase 12 por cento do clero de todo o mundo vive e trabalha!): segundo porque, como já ocorre em muitos cantos do país, o recuo pode ser contrastado com a importação de clero do hemisfério sul e, finalmente, porque o efeito combinado do declínio demográfico e da secularização estão reduzindo significativamente a atividade geral do clero, adequando-o de fato à diminuída disponibilidade de pessoal. Cito o caso mais marcante: em 2000 cerca de 35 mil sacerdotes celebravam 214 mil matrimônios, os 32 mil presbíteros de 2018 celebraram menos de 97 mil. É difícil falar de aumento do volume de trabalho, o principal problema para a Igreja Católica continua a ser o dos espaços, das unidades territoriais, ou seja, da gestão de um número de paróquias e igrejas que agora são impossíveis de manter todas abertas com o pessoal a disposição.

Um paciente saudável. Em suma, as ladainhas sobre o fim do cristianismo que se ouvem de muitos círculos católicos e ateus devotos são amplamente exageradas e se assemelham às de muitos professores sobre a morte da cultura o embrutecimento da juventude. A secularização está em andamento, mas segue trilhas e caminhos tortuosos e inesperados. A igreja, também graças à enorme popularidade de seu líder supremo, desfruta de uma discreta saúde: a de um paciente cuja morte está longe de acontecer.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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