“A Igreja preferiu a imagem à condenação dos padres pedófilos”

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08 Março 2016

Após a audiência do cardeal Pell sobre os abusos cometidos por padres na Austrália, entrevistamos o padre Fortunato Di Noto, presidente da Associação Meter, há anos empenhado no combate à pedofilia: “Não se soube “gerir” a dor das vítimas”.

A entrevista é de Salvatore Lazzara, publicada por Vatican Insider, 05-03-2016. A tradução é de Benno Dischinger

À margem das quatro audições noturnas em videoconferência do cardeal australiano Pell, coligado do hotel Quirinal de Roma, entrevistamos dom Fortunato di Noto, presidente da Associação Meter, há tantíssimos anos empenhado na contraposição à pedofilia. Lutar contra a pedofilia é uma das prioridades da Igreja católica que, nestes anos, concretizou um grande caminho de purificação e de renovação. Embora às vezes comporte tanta fadiga, entrar nestas “periferias silenciosas da dor”, a comunidade eclesial, à luz do Evangelho, deve proteger as crianças que são o futuro da humanidade. Porque, como recita um antigo adágio “quem salva uma criança, salva o mundo”.

Eis a entrevista.

Padre Fortunato, nestes dias o Cardeal Pell tem sido escutado pela comissão governativa australiana (Royal Commission Institutional Respons to Child Sexual Abuse [Comissão Real de Resposta Institucional ao Abuso Sexual de Crianças]). Em o que “faliu” a Igreja está na tutela dos menores?

Faliu no passado, não soube “gerir” a dor das vítimas – embora seja mestra em humanidade e misericórdia – e preferiu tutelar a imagem da instituição em vez de traduzir em operosa ação a condenação dos sacerdotes que desfiguraram a vida da inocência de tantos pequenos, dos amados do Senhor. Um grande escândalo, do qual ainda pagamos as consequências.

Também empreendeu, embora com fadiga, um percurso de purificação, de assunção de responsabilidades, de empenhos formais a fim de que não devam nunca mais acontecer.

Pedir perdão pelos fatos do passado, por aqueles presentes e por aqueles que ainda vivem no silêncio e no esquecimento da resignação. Desde os escândalos tem sido dados passos importantes, documentos, intervenções, tomadas de posição, comitês, comissões, condenações e ressarcimento às vítimas.

Mas, a pedofilia e os abusos não devem ser somente relegados à Igreja, é um fenômeno global, enorme, pavoroso, que necessita alianças e estratégias comuns para debelar esta forma desumana que golpeia os pequenos e o futuro social e eclesial e acrescentarei que também das outras religiões e confissões. Das cinzas está ressurgindo, lentamente, com fadiga, a bela fisionomia da Igreja, sempre mais. Mas, ainda há muito a ser feito.

O Papa Bento primeiro e depois o Papa Francisco encontraram por diversas vezes as vítimas da pedofilia. Após estes encontros, concretamente, qual pode ser o acompanhamento dos abusados e de suas famílias?

As feridas, após um abuso, são permanentes. Não se esquecem facilmente. Condicionam para sempre toda a vida e é penoso curar e renascer. O abuso mata uma parte de si. Lacera-a tão profundamente que depois toda a vida é condicionada. Escuta, acolhida, proteção, cura e vida reconciliada e autêntica são alguns dos momentos em que a Igreja, que cura as feridas do homem, dos seus filhos, deve sempre continuar a atuar. Não é somente um episódio ocasional. A pessoa, a família, a comunidade é lacerada e ferida. O abuso tem consequências, repito, devastadoras. Com maior razão se praticado por um “padre”, por um tutor, por um ponto de referência. Atuar, entre a pastoral ordinária, também aquela de proximidade para prevenir tais condutas desumanas e inumanas. De onde quer que provenham.

Como por mais vezes repetiu, a Igreja e a sociedade civil, na maioria dos casos “sub-valoram” este terrível e inumano fenômeno...

Sub-valoram porque ainda se pensa em casos isolados, praticados por alguém que é “doente”. Mas, não é assim. Não, não é assim diante de milhões e milhões de crianças abusadas sexualmente por pedófilos. Se pense que os pedófilos preferem crianças pré-púberes (de zero a 12 anos de idade no máximo). Dezenas de milhões de fotopedos e vídeos com uma quantidade de crianças envolvidas que impressionam a tal ponto que se custa acreditar. Mas Meter, a associação empenhada há 25 anos contra a pedofilia, o atesta e o denuncia desde sempre. O medo é a incredulidade e a sub-valoração, ou, pior ainda, o problema não nos diz respeito porque é repulsivo. Se a gente não se alia, não se criam alianças operacionais, estaremos daqui a alguns anos combatendo ou respondendo ao fato de que a pedofilia é somente uma orientação sexual e que as crianças livremente, por amor, respondem à sua necessidade e à do adulto. E não são palavras ditas à toa, mas posso documentá-las.

O Papa Francisco instituiu, como coroação do longo caminho de purificação iniciado por Bento XVI, a Comissão para a Tutela dos Menores, presidida pelo cardeal O’Malley. É o caminho certo a seguir?

Não tenho autoridade para falar da Comissão. Não faço parte dela e só posso avaliar aquilo de que publicamente dão conhecimento. Na minha longa e veterana experiência participei por décadas de comissões institucionais (em âmbito laico), de grupos interministeriais, de mesas de trabalho. Rios de encontros que frequentemente tocavam com a mesma fragmentaridade iniciativas já em campo há dezenas de anos.

Tenho preocupação pela fragmentação, mas confio na validez do projeto, não obstante as defecções já ocorridas e os “protestos” de um dos membros que hoje não está mais naquela Comissão. Seria desejável potenciar as já virtuosas iniciativas. Seja como for, é uma entre as outras respostas ao problema. Vamos em frente.

Concretamente, quais são as indicações à luz dos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, a dar às paróquias e também a todos os centros nos quais orbitam os menores, para prevenir a pedofilia?

Devemos agir para que haja a consciência de que estas problemáticas são periferias existenciais (reais e acrescentarei digitais/tecnológicas) que cada pastor deve colocar na agenda pastoral num caminho permanente da própria diocese. Há muitos anos, e não certamente de maneira provocatória, lancei a proposta aos bispos de instituírem um “vigário episcopal para a infância”, com uma tarefa ad hoc que, em concordância com as outras tarefas pastorais elabore uma série de iniciativas e um ponto de referência ante novos e impelidores problemas ligados a menores.

Na programação pastoral se insiram projetos de formação de pastoral de proximidade contra os abusos, dirigidos às famílias, aos atuadores e aos sacerdotes e religiosos/as. Meter há anos já atuou a quem lhe requereu. Se insista que é vontade de Deus estar do lado dos pequenos; é uma chamada evangélica e não uma moda passageira. Esta, se me permitem dizê-lo, está na minha chamada sacerdotal e de pároco.

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