“Camilo Torres foi a figura paralela a Che Guevara”. Entrevista com Enrique Dussel

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Por: Jonas | 16 Fevereiro 2016

No dia 15 de fevereiro de 1966, Camilo Torres, padre colombiano, foi morto. Fazendo memória, traduzimos e publicamos a entrevista com Enrique Dussel.

Também publicamos “Morre para viver”. Camilo Torres, 50 anos depois" com o hino de Victor Jara.

No dia 3 de fevereiro, completaram-se 85 anos do nascimento do sacerdote, sociólogo e político revolucionário Camilo Torres Restrepo. Por ocasião desta data, Colombia Informa publica esta entrevista inédita com o filósofo e historiador Enrique Dussel (foto), que ao longo de sua obra abordou os vínculos entre marxismo e cristianismo. Aqui, refere-se à figura legendária do padre guerrilheiro, valoriza suas contribuições acadêmicas e o compara com Che, San Martín e Bolívar.

 
Fonte: http://goo.gl/J3Vbde  

Enrique Dussel recebeu o título de doutor Honoris Causa por parte das autoridades da Universidade de Buenos Aires, em fins de 2012. Desta maneira, reconheceram sua trajetória e homenagearam o seu esforço acadêmico. Neste contexto, Dussel fez duas conferências na capital argentina: uma na Universidade e outra na sede de um sindicato. Nas duas, referiu-se extensamente a suas “20 teses de política” e continuou tecendo a filigrana de encontro entre marxismo e cristianismo.

Os pesquisadores Lorena López e Nicolás Herrera, membros do Coletivo Frente Unida – Pesquisadores Independentes, aproveitaram a oportunidade para, em Buenos Aires, conversar com o professor a respeito do pensamento e ação de Camilo Torres. Como resultado desse encontro, surgiu uma longa entrevista que até hoje permanece inédita.

Por ocasião dos 85 anos de Camilo Torres e graças à colaboração dos autores da entrevista, Colombia Informa publica, com exclusividade, algumas partes daquela conversa.

A entrevista é de Lorena López e Nicolás Herrera, publicada por Colombia Informa, 02-02-2014. A tradução é do Cepat.

Em a entrevista.

Professor Dussel, o motivo de estarmos neste lugar é para que conversemos sobre Camilo Torres Restrepo...

Bom, para mim, a morte de Camilo ocorre muito rápida. No entanto, depois pude ler mais sobre ele através das publicações que o CIDOC [Centro de Pesquisa e Documentação] realizou no México, materiais que, muitas vezes, utilizei em minhas notas ou indiretamente como um caso típico de compromisso cristão ao ponto de entregar a vida, assim como fez Che sem ser cristão.

Acredita que há um paralelo entre Camilo Torres e Ernesto Che Guevara?

Camilo era muito importante, era a figura paralela a Che Guevara, da mesma época e com mortes muito parecidas. Eu diria que os dois, para me antecipar, foram figuras simbólicas que de um ponto de vista político anteciparam uma época. Contudo, assim como os grandes heróis, não analisaram bem a conjuntura, ou seja, cometeram certos erros: o Che se meteu em um país que não conhecia, contra um exército que não conhecia e, bom, isso foi um fracasso. No entanto, Che é a figura mundial, porque nele o que interessou foi o seu compromisso. Eu diria que com Camilo ocorreu algo parecido. Se Camilo tivesse vivido, teria tido um grande papel na história colombiana. Camilo, para sua época, tomou a decisão limite dentro de uma teoria foquista, o que o faz ser uma figura para sempre.

O que mais lhe impactou de Camilo?

O fato de que era um sociólogo (!), porque embora existisse Orlando Fals Borda, nessa mesma época, e suas obras me influenciaram para o tema da libertação, eu li Fals Borda em 1968, muito depois de Camilo.

Por outro lado, Camilo, por exemplo, inspirou-nos para o que vou chamar de Filosofia da Libertação. Camilo estava por trás, e estava por trás de todo um movimento argentino, os que depois serão chamados Padres do Terceiro Mundo, que também terão seus mártires. Haverá mortos entre esses padres, e Camilo era como a imagem do compromisso político até o limite. Além disso, irá surgir a Teologia da Libertação com a JEC [Juventude de Estudantes Cristãos ou Católicos], junto a Gustavo Gutiérrez, no Peru, depois, Hugo Assmann, na Alemanha, e no Brasil, e principalmente Juan Luis Segundo. Eles terão que pensar esse compromisso cristão nas guerrilhas que colocava o caminho de pernas para o ar.

Então, foi necessário fazer uma Teologia para justificar esses compromissos como o de Camilo, ou seja: “Camilo não contradiz sua tradição, nem sua fé”, mas, ao contrário, tem critérios cristãos para poder fazer essa opção, e isso foi fundamental nos anos 1965, 1966, 1967, e em 1968 vai surgindo o que se começará a chamar de Teologia da Libertação.

Camilo ainda não era dessa expressão, era um sociólogo que começava a descobrir coisas e, claro, ainda nem sequer existia a Teoria da Dependência. Camilo estava em uma etapa teórica anterior, mas na qual se inventou o caminho de uma sociologia latino-americana.

Poder-se-ia pensar, então, que Camilo era uma referência obrigatória?

Claro! Foi a referência obrigatória. Por quê? Porque Camilo se mete na guerrilha e dá a vida, eu diria muito rápido e um tanto ingenuamente, porque no primeiro ataque aparece e sem muitas precauções se expõe a que o matem.

Militarmente falando, não estava tão errado, mas para ele não interessava o militar, interessava o compromisso, e por isso passa a ser um critério, um limite, uma referência obrigatória.

Quando você faz A História da Teologia da Libertação, o que encontra de significativo em Camilo?

Bom, primeiro, entra no processo do foquismo, morre e se transforma em um símbolo e em uma referência. Com Che Guevara será algo parecido. Então, daí em diante, já se pode dizer, “olha, há um padre que morreu guerrilheiro” e é um fato, você o justifica ou o critica, e nós todos o justificamos.

Como teórico da Ética e da Política da Libertação e como um estudioso da Teologia, quais elementos considera que são as contribuições mais importantes de Camilo Torres Restrepo, seja a partir de sua produção intelectual, ou de sua prática para essas teorias?

Existe uma objeção imediata, entre 1968 e 1969 – e ainda hoje a repetem -, frente ao “caso Camilo Torres”, depois seguido por outros e outras: é que não é possível um cristão usar a violência. Em meus trabalhos sobre a ética, no ano 1970, respondo a essa pergunta. Primeiro, é preciso entender que violência é violar o direito do outro, então, é uma força que se exerce contra o direito do outro e, em oposição a isso, temos a coação legítima do que se defende, e a isto eu não chamo de violência, chamo de coação legítima. Alguns podem acreditar que é questão de palavras, mas não é isso, porque se está defendendo os interesses de um povo, sua vida, etc. E o outro está te atacando. No tema da guerra justa, há dois exércitos, um que agride e outro que defende. O que agride é injusto, o que defende é justo, mas as pessoas se escandalizam e dizem: “Não, mas é a violência”. Bom, se tomo José de San Martín ou Bolívar, por exemplo, o que fizeram? Organizaram um exército para defender a Pátria. Portanto, usaram uma coação legítima.

Neste sentido, o tema da violência não contradizia o pensamento cristão esboçado adequadamente, pois não era a violência, mas, ao contrário, a defesa lícita do inocente. Algo contraditório ao cristianismo são as más interpretações, por exemplo, quando Jesus Cristo disse: quando te baterem em uma face, oferece a outra. Uma coisa é fundar uma comunidade messiânica, religiosa, e outra é fundar um Estado. O político não é que ofereça a outra face, mas, ao contrário, quando derem uma bofetada na face de um inocente, defenda-o e ao defendê-lo você precisa organizar a política, que é outra coisa totalmente diferente do messianismo religioso. Aí, surge todo o tema da política, por isso o tema fé e política foi o primeiro na Teologia da Libertação e, então, era preciso inventar, recriar um pensamento teórico que permitisse essas ações. Isso surgiu primeiro em grupos estudantis que se tornavam guerrilheiros, com muitas pessoas de todos os países.

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