Vatileaks, diferente de Chaouqui: a chave de tudo é monsenhor Balda, "O broker de Deus"

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17 Dezembro 2015

"Se o papa quer reduzir o papel e a importância da 'corte' Pontifícia, este trabalho deverá estender-se inevitavelmente aos palácios nobiliários fora da Cidade do Vaticano", declara Francesco Peloso, jornalista, em artigo publicado por Linkiesta, 13-12-2015. A tradução é de Ramiro Mincato

Eis o artigo.

Não é uma história de fofocas esta do segundo, assim como não foi a do primeiro Vatileaks. Como as notícias das últimas semanas davam espaço principalmente às contínuas declarações de Francesca Immacolata Chaouqui ou às passagens de interceptação, melhor se repletas de concupiscentes luzes vermelhas, o outro réu do processo instruído no Vaticano – Mons. Lucio Anjo Vallejo Balda - acabou ficando um pouco na sombra. Assim, ao que parece no final, um personagem de suspense de uma telenovela em capítulos foi vítima de eventos superiores a ele mesmo: ambicioso, competente no seu campo, mas "um pouco ingênuo”. As coisas são realmente assim? Olhando de perto os personagens desta história, percebe-se um quadro complicado de poderes financeiros, políticos, eclesiais, e não só italianos. Uma cerrada rede de relações coloca "abutres" e outras personalidades próximas a eles, num cenário tanto mais amplo de quanto até agora já tinha emergido.

Da pequena Astorga às finanças do Vaticano

Comecemos do final, da cidade de Astorga, no norte da Espanha, província de León, com cerca de 12 mil habitantes, um passado medieval, com sua catedral e impressionante palácio episcopal. Astorga é sede episcopal. Aqui, precisamente, começou a emergir Vallejo Balda como um "padre broker", padre corretor, administrador capaz de fazer dinheiro, gerando receita das propriedades da Igreja, ganhando fama, primeiro em seu país e, em seguida, as portas do Vaticano se abriram. Ocupou o posto de secretário da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé, ajudado pelo Opus Dei. Este dicastério, antes da reforma do Papa Francisco, analisava e preparava os balanços do Vaticano. Entre seus patrocinadores e amigos aparece em primeiro lugar Mons. Camilo Lorenzo, bispo da cidade espanhola por vinte anos, de 1995 a 18 de novembro último, quando o Papa Francisco aceitou sua renúncia. Mons. Lorenzo completara, com vigor, 75 anos, a idade da renúncia, conforme a lei da Igreja. No entanto, como regra, o pontífice estende o mandato do bispo para além do prazo oficial, por um tempo mais ou menos longo, mas não neste caso, no entanto; a rapidez da substituição tinha a ver, segundo vários observadores, com o escândalo, cujo protagonista era Vallejo Balda, conhecido amigo do bispo.

Mons. Lorenzo, assim como seu pupilo Vallejo Balda, eram amigos e conselheiros da formidável ONG católica Ibérica, poderosa e rica organização filantrópica, bem conhecida na Espanha e espalhada em dezenas de países, os "Mensajeros de la paz". Na Itália, o presidente dos "Mensageiros da Paz" é a condessa Marisa Pinto Olori del Poggio, chamada em causa por Chaouqui como seu contato e guia no belo mundo, amiga de cardeais e bem relacionada no Vaticano; que era de casa no além Tibre, não há dúvida. No último 11 de novembro, por exemplo, participou da recepção anual da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, com nobres, poderosos e prelados diversos; entre outros, estavam presentes, no evento mundano, o Cardeal Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, e Mons. Fouad Twal, patriarca de Jerusalém.

Mensageiros da paz e do Partido Popular

Voltemos aos Mensageiros da Paz. A organização, dizíamos, nasceu na Espanha, fundada em 1962, por Angel Garcia Rodriguez, um padre empreendedor e multifacetado, que deu vida a uma espécie de holding da caridade, empenhada no sustento de famílias, crianças, idosos. Para construir seu pequeno império, no entanto, padre Angel desfrutou de excelentes relações com o poder político na Espanha, populares e socialistas sem distinção, embora claramente inclinado para os primeiros. Ana Botella, por exemplo, ex-prefeita do Partido Popular em Madri e esposa de José Maria Aznar, era a "Presidente de honra dos Mensageiros da Paz". Em anos anteriores padre Angel manteve boas relações com Generalíssimo Francisco Franco, e como diziam, também com Luis Carrero Blanco, Almirante e chefe de governo sob o franquismo, morto depois num atentado do ETA (a organização basca). No entanto, o eclético sacerdote admirava, como político, o socialista Felipe Gonzales. E, precisamente, com "os Mensajeros de la paz" (entre cujos membros se destaca Banco Santander, sempre próximo ao Opus Dei), tanto o bispo de Astorga, como seu ecônomo plenipotenciário, estavam em contato direto participavam ativamente das iniciativas e das obras da organização, e forneciam a ajuda necessária. Vallejo, além do mais, estava ligado ao Cardeal Antonio Maria Rouco Varela, até pouco tempo, Arcebispo de Madri.

Qual é o jogo do Opus Dei? As ligações de Vallejo Balda com "A Obra" são fato.

Ernst & Young, um pouco por toda parte

No dia 24 de maio de 2013 - Papa Francisco apenas eleito em 13 de março – a Fundação EY (Ernst & Young) e o Banco Sistema, ofereceram um concerto beneficente com o objetivo de recolher fundos para os Mensageiros da Paz italiano, presidido pela Condessa Pinto Olori del Poggio, na Embaixada de Espanha junto à Santa Sé. O embaixador de Madri no Vaticano, Eduardo Gutierrez Saez de Buruaga, tinha ótimas relações pessoais e familiares com o Opus Dei; imaginem que o casamento de seu irmão Angel foi celebrado pelo Vigário Geral da Prelazia na Espanha (Padre Tomas Gutierrez Calzada), com tanto de mensagem e bênção papal (o diplomata era o padrinho, em 1999).

"Nossa presença ao lado dos Mensageiros da Paz é parte de um percurso iniciado há muito tempo atrás e que nos vê ativos também por meio da Fundação EY, nascida para reforçar o compromisso social", declarava a respeito, Donato Iacovone, Administrador Delegado a Ernst & Young Itália. É preciso lembrar que Francesca Imaculada Chaouqui era a Relações Públicas da Ernst & Young; 18 de julho de 2013, Bergoglio instituía uma “Comissão Pontifícia para a organização da estrutura econômico-administrativa da Santa Sé", a famosa COSEA, da qual foram membros seja Vallejo Balda - no papel de secretário - que Chaouqui. Além disso, como foi dito claramente por Francisco, voltando da África, foi o sacerdote espanhol que indicou a jovem PR como uma pessoa capaz.
Mas atenção, a sequência de fatos interessantes não termina por aqui: em 18 de novembro de 2013, Ernst & Young recebia o encargo de avaliar as finanças da Governadoria do Estado do Vaticano (o coração da cidadela papal), encargo concordado - como afirmava o comunicado da época – da própria Governadoria com a COSEA (a Comissão deixou de existir no início de 2014). Uma série interminável de coincidências, dirão, o que obviamente é possível. No entanto, as estranhas coincidências não param aqui.

Condessa e "Diplomatia"

As entrecruzadas relações entre a Condessa Pinto Olori del Poggio e a empresa de consultoria internacional Ernst & Young, de fato, continuam. A condessa, vice-presidente sênior de "Diplomatia", poderosa associação (quase um super lobby), concentra a elite do mundo econômico e político, com ramificações internacionais. Entre os membros encontram-se ministérios, embaixadas, muitas das principais empresas públicas e privadas nacionais. No topo do clube exclusivo encontramos representantes da Finmeccanica, Fincantieri de Intesa San Paolo, JP Morgan, os embaixadores do Marrocos, do México e assim por diante. Destaca-se a presença de Allianz (entre as primeiras sociedades do mundo no campo dos seguros); en passant lembramos que Carlo Salvatori, presidente da Allianz Itália, é o membro italiano do Conselho de Superintendência do IOR. Mas, especialmente na chefia do Conselho Consultivo da organização encontramos Iacovone Donato, diretor da Ernst & Young Itália, de quem já falamos. Das iniciativas promovidas pela "Diplomatia" (Vaticano, 11 de julho de 2013) tomavam parte também o cardeal Jean Louis Tuaran, convidado ainda por Vallejo Balda, como elo entre a condessa e a Chaouqui.

Entre as empresas sócias da "Diplomatia" temos a KPMG e a PWC, ambas multinacionais especializadas na gestão financeira. Prestaram, nos últimos anos importantes auditorias no além Tibre: desde o alinhamento do Vaticano às normas internacionais de contabilidade até a análise (pela PWC) dos balanços consolidados da Santa Sé, decisão esta, tomada nos últimos dias (depois que se espalhou a notícia, nunca confirmada nem desmentida pela Santa Sé, da violação do computador do Auditor Geral do Vaticano). Resta ainda dizer que Stefano Fralleoni, contador responsável da Prefeitura nos Assuntos Econômicos da Santa Sé e estreito colaborador de Vallejo, tem seu passado profissional na EY.

Pontos a esclarecer segundo Gordon Gekko

Restam ainda algumas considerações e perguntas não-retóricas. A ação de limpeza do Papa avança rapidamente e um monte de coisas já mudaram em pouco tempo. Nestes dias, o terceiro "progress report" de Moneyval - Organismo internacional de avaliação das normativas antilavagem de dinheiro - que avaliou positivamente o caminho feito pela Santa Sé, confirma isso. Por outro lado, o trabalho continua, o Papa Francisco e seus colaboradores acabam de instituir um novo grupo de trabalho sobre o desempenho global das finanças do Vaticano.

O problema é saber se o Vaticano avaliou não só os prós (profissionalismo, rompimento com velhos padrões), mas também os riscos de confiar tão maciçamente numa multinacional das finanças (também Promontory Group e Deloitte figuram entre os consultores da Santa Sé) para o controle dos procedimentos e das contas, sabendo que, como explicava, trinta anos atrás, o personagem de Wall Street, Gordon Gekko (Michael Douglas) "informação é poder". Imaginemos então aquelas provenientes do Vaticano.

Além disso: é possível que nos primeiros 6-8 meses do pontificado, quando as novas estruturas ainda não se tinham estabilizado, tenha havido tentativas de infiltração no processo de reforma para retardá-la ou ao menos pilotá-la, das quais o vazamento de documentos é o epílogo? É uma pergunta real, neste momento, e seria ingênuo não fazê-la. Ainda: qual é o jogo da Opus Dei? As ligações de Vallejo Balda com a "Obra" são fato (além do que, o Monsenhor pertence à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, uma estrutura da Opus), como é fato também que até mesmo o Ministro da Economia do papa, o cardeal George Pell, é amigo da Opus, enquanto um membro da Prelazia, o chileno Mauricio Larrain (Grupo Santander), faz parte do Conselho de Administração da IOR. Haveria uma rachadura interna na Prelazia com relação ao pontificado de Francisco?

Finalmente, uma coisa parece evidente: se o papa quer reduzir o papel e a importância da “corte” Pontifícia, este trabalho deverá estender-se inevitavelmente aos palácios nobiliários fora da Cidade do Vaticano, na intrincada teia de antigas ordens, bombásticos títulos honoríficos, poderes económicos, financeiros e midiáticos (muitos dos quais italianos), naquelas noites de gala e beneficência em que o prelado de turno ostenta as vestes melhores. Não será tarefa fácil.

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