Termina o “longo reinado” de Rouco Varela, cardeal de Madri

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Por: André | 24 Junho 2013

Termina um ciclo. E termina em falso para o até agora máximo líder da Igreja espanhola, o cardeal de Madri, Antonio María Rouco Varela, que tem que sair antes do previsto e sem poder comandar sua sucessão. Apostou grande e tem que se conformar com o pequeno: deixar a capital da Espanha antes do previsto, renunciar à presidência do episcopado e suportar a chegada de um sucessor não quisto ou, ao menos, não preconizado por ele.

A reportagem é de José María Vidal e Jesús Bastante e publicada no sítio espanhol Religión Digital, 20-06-2013. A tradução é do Cepat.

Ele deveria ter apresentado sua renúncia em 2011, em plena glória, depois da “consagração” que foi a Jornada Mundial da Juventude. Mas eram outros tempos. Tempos de glória. Tempos que nem um profundo conhecedor das engrenagens da Cúria Romana como o cardeal de Madri, poderia prever que terminariam. A renúncia “revolucionária” de Bento XVI pegou a ele, assim como a quase todos os eclesiásticos de alto nível, no contrapé.

Até então, tinha linha direta com o Papa Ratzinger, com quem falava em alemão, e com seu secretário, o então todo-poderoso Georg Gänswein. Era o homem de Roma na Espanha. Era uma espécie de “vice-papa” espanhol desde que aterrissou em Madri, em 1994, para suceder o seu amigo e padrinho, o cardeal Suquía.

Adeus ao “modelo Meissner”

Como tal, fez e desfez na Igreja espanhola como bem quis. Com sua pessoal “auctoritas”, que o fazia brilhar acima de seus pares, dizem seus amigos. Por meio do medo e do controle, dizem seus inimigos. Mas o caso é que o cardeal manteve “atada e bem atada” a Igreja espanhola durante quase duas décadas. Nada se fazia, nada se movia sem o seu “placet”.

Homem de poder, excelente governante, Rouco só tropeçou no final do seu pontificado: e por um fator externo: por culpa da renúncia do Papa Ratzinger. Até então, o cardeal de Madri estava certo de que renunciaria quando quisesse. Certo de que se aplicaria a ele “o modelo Meissner”, o cardeal alemão de Colônia, que continua ativo apesar de ter completado os 80 anos.

E, se ainda havia alguma dúvida a este respeito, o prelado madrilense concorreu à presidência da Conferência Episcopal, mesmo tendo completado os 75 anos. E foi eleito, com o que acreditava garantir ao menos mais três anos na sede de Añastro e, por conseguinte, na Arquidiocese madrilense.

Mas em Roma soou, forte e contundente, uma mudança de ciclo. No fundo e nas formas. O Papa Francisco não quer, por exemplo, que seus bispos, arcebispos e cardeais se perpetuem nos cargos. E colocou em marcha, imediatamente, o processo de substituição em Madri. Seguindo a pauta do cardeal de Lisboa Policarpo (que, cumpridos os 75 anos, também se fez reeleger presidente do episcopado luso) ou do cardeal boliviano Terrazas, cujas renúncias o Papa acaba de aceitar e para os quais já nomeou sucessores.

Rouco não comanda sua sucessão

E agora chega a vez de Madri. A sucessão não cai nada bem para Rouco Varela, que perdeu o controle dos mecanismos curiais. Há um tempo, o cardeal pôde comandar sua sucessão e continuar exercendo sua “auctoritas” nos bastidores. Só teria que ter pedido ao Papa Ratzinger que nomeasse o seu fiel Fidel Herráez, arcebispo coadjutor com direito à sucessão. Mas, com esse pedido, corria o risco de que sua renúncia fosse aceita imprevistamente. E optou pela estratégia mais prudente: esperar e ver.

Com a chegada da “primavera” de Francisco ao Vaticano, Rouco foi perdendo apoios rapidamente. Já não comanda a sua sucessão, conduzida pessoalmente por Bergoglio. E tudo parece indicar que está se inclinando pelo cardeal Cañizares para suceder o seu “inimigo íntimo” em Madri.

Rouco e Cañizares: inimigos íntimos

Rouco e Cañizares foram excelentes amigos até que o “caso Losantos” e a cadeia de rádio Cope os separaram. O cardeal de Madri era partidário de manter o locutor apesar dos obstáculos, ao passo que o então cardeal de Toledo – na ocasião vice-presidente do Episcopado – empenhou-se em fazê-lo sair da rádio dos bispos pela má imagem que projetava sobre a Igreja espanhola. E torceu o pulso de Rouco. Há quem sustente que, para “se vingar” dele e para tirá-lo de Toledo, a partir de onde lhe fazia sombra, fê-lo nomear prefeito da Congregação da Liturgia.

Descartados, pois, os “candidatos” de Rouco (que apostava, sobretudo, em Asenjo, o arcebispo de Sevilha, ou em Sanz Montes, de Oviedo), os dois cenários mais prováveis são os que trariam Cañizares ou Carlos Osoro a Madri.

Em princípio Cañizares parece contar com maiores probabilidades. Por um cúmulo de circunstâncias. Primeiro, porque seu ciclo “litúrgico” (como presidente da Congregação para a Liturgia e a Disciplina dos Sacramentos) terminou. Também nesse âmbito, os ares romanos mudaram, e muito. Segundo, porque dom Antonio nunca ocultou seu desejo de retornar à Espanha. E, caso retornar, um curial de sua altura só pode fazê-lo a uma diocese da relevância de Madri.

Terceiro, porque segue mantendo excelentes relações com a Casa Real (que, embora esteja em horas baixas, conserva sua influência em Roma) e com os partidos políticos. Tanto com o PSOE (é amigo de Zapatero, José Bono ou Fernández de la Vega), como com o PP de Rajoy, com quem mantém excelentes relações. E quarto, porque conhece perfeitamente a diocese de Madri, da qual foi sacerdote nos primeiros anos de ordenação.

A “opção Osoro”

Além da substituição de Rouco Varela – unida provavelmente à do cardeal Sistach, de Barcelona –, o nome do novo arcebispo de Madri significará novas eleições na Conferência Episcopal da Espanha. Pelo estatuto, nenhum cargo na Casa da Igreja pode ser exercido uma vez que o Papa tenha aceitado a renúncia apresentada. Não pode, pois, haver um arcebispo emérito como presidente do Episcopado.

Sendo assim, o futuro de Madri poderia estar ligado ao de Añastro e, com ele, ao de um “novo estilo” no Episcopado espanhol. Fontes próximas à Nunciatura confirmaram a Religión Digital que já tem “indicações” em vista de futuras nomeações. Francisco busca um perfil de bispo com experiência pastoral. Com cheiro de ovelha. Já se comprovou na primeira nomeação para a Espanha – Juan Antonio Méndez como auxiliar de Oviedo –, e seguramente também se verá no futuro.

Tendo estes dois aspectos em conta, junto com a opção de Cañizares para Madri – que é a que conta com mais possibilidades – abre-se um outro cenário factível, que implicaria um ou outro movimento na diocese. Nesta conjuntura, o principal candidato à sede de Madri passaria a ser o arcebispo de Valência, Carlos Osoro, com um perfil muito semelhante ao do próprio Francisco.

Valência, a segunda maior diocese da Espanha é, hoje, a mais dinâmica, pastoralmente falando. Osoro é um bispo próximo, com idade suficiente para capitanear uma mudança tanto em Madri como na Conferência Episcopal, e com bons contatos em Roma. Um candidato perfeitamente possível.

A única dúvida que surge é onde “colocar” Cañizares caso, como parece, não continue à frente da Congregação para o Culto Divino? A jogada, que poderia estar sendo tramada na Nunciatura, com a aquiescência de Roma, poderia levar Osoro a Madri e Cañizares a Valência. A sede valenciana seria um bom destino para o cardeal, sem esquecer que se trata de sede cardinalícia – o falecido García Gasco foi nomeado cardeal por Bento XVI, e espera-se que Osoro possa sê-lo em breve.

A diocese – que ficou sem auxiliares e que este ano conclui seu plano pastoral – veria com bons olhos a chegada de dom Antonio, nascido em Utiel e que conhece perfeitamente a terra. Sua nomeação para Valência, mesmo não sendo Madri, não representaria um rebaixamento para o cardeal.

Blázquez, presidente?

Significaria isto que Osoro seria também presidente do Episcopado? Não necessariamente. Há um caso recente que confirma essa política, mas o certo é que assumir numa tacada uma diocese da importância de Madri e uma responsabilidade como presidente dos bispos espanhóis não parece o mais inteligente. Osoro poderia ser eleito presidente da Conferência Episcopal, caso Cañizares fosse designado sucessor de Rouco, mas não se ele for escolhido por Francisco para presidir a diocese da capital da Espanha.

Nesta conjuntura, surge com força a figura do arcebispo de Valladolid e atual vice-presidente do Episcopado, Ricardo Blázquez, que já foi presidente durante o triênio 2005-2008 (fazendo dupla com Cañizares, o que representou a grande derrota de Rouco Varela), que goza de um grande prestígio entre os bispos espanhóis e que têm a sensação de que “devem uma” ao prelado de Ávila.

Blázquez – que também merece um reconhecimento maior por parte de Roma depois de seu esplêndido papel no caso dos Legionários de Cristo e do Regnum Christi – seria um bom presidente da Conferência Episcopal, dentro do conceito que muitos bispos querem: descentralizar a Conferência Episcopal, fazer do governo da Igreja espanhola um reflexo do que Francisco quer para sua Cúria: uma maior horizontalidade, e uma tomada de decisões compartilhada.

Sendo assim, a segunda opção que se maneja é que Carlos Osoro se converta no futuro arcebispo de Madri, Antonio Cañizares dignifique a diocese de Valência com a púrpura, e que Ricardo Blázquez seja recompensado com a presidência da CEE, que seguramente contribuiria para pacificar, pois conhece a casa por dentro.

Mudança iminente ou dentro de meses

Na Arquidiocese de Madri trabalha-se, neste momento, com duas hipóteses sobre o timing da aceitação da renúncia do cardeal Rouco por parte de Roma. A primeira é que poderia ser iminente: no final de junho ou depois do verão. A segunda é que a substituição em Madri seja retardada até depois do Natal. Ou é isso, ao menos, o que o cardeal estaria planejando.

Para tentar obter isso, se dá quase como certo que a Assembléia Ordinária episcopal de março seja adiantada para fevereiro. E o cardeal ganharia alguns meses a mais. Entrará a nova Roma de Francisco neste “jogo”? Tudo indica que não. E que Rouco teria que sair ou antes do verão ou, no mais tardar, antes do Natal. Não comeria a ceia natalina em São Justo.

E se Rouco não comandou sua própria sucessão, também não parece que possa dirigir a sucessão de seu amigo Camino em Añastro. Muitos bispos perderam o medo dele: já não controla as mudanças. Outros vão querer passar a fatura pelas humilhações sofridas. E até mesmo alguns do seu campo parecem já dispostos a morder a mão daquele que lhes deu de comer.

Secretário e porta-voz, dois cargos

Nesta nova etapa que se inicia, os moderados (da linha de Blázquez, Osoro ou Barrio) têm todas as chances de ganhar. E parece que, entre eles, ganha força a ideia de separar o cargo de secretário-geral do de porta-voz. Acusam Camino de fazer funcionar a Conferência Episcopal como uma superdiocese. E querem acabar com essa dinâmica.

Querem voltar aos tempos de Elías Yanes, de uma conferência episcopal colegial e onde os bispos se sintam à vontade. Onde o secretário-geral não tome decisões nem atribuições que vão além das estipuladas nos estatutos do episcopado.

No caso de que venha a se impor a ideia de separar os cargos de secretário-geral e de porta-voz, para este último posto (voz e rosto da Igreja) estariam pensando em algum sacerdote. Os mais cogitados, por ora, são: Juan Rubio, diretor da revista Vida Nueva; Jesús de las Heras, diretor da revista Ecclesia; e José María Gil, sacerdote de Badajoz, ajudante de Federico Lombardi no último conclave.

E, para secretário-geral (assumindo ou não as funções de porta-voz), estão cotados os nomes de Ginés García Beltrán, bispo de Guadix; Carlos Manuel Escribano, bispo de Teruel; ou Eusebio Hernández, bispo de Tarazona. Em qualquer caso, o candidato de Rouco, José Rico Pavés, bispo auxiliar de Getafe, parece ter se “chamuscado” em poucos meses.

O futuro dos auxiliares

Outra questão pendente para Roma e para a Igreja espanhola, após a saída de Rouco, é onde colocar os seus três bispos auxiliares. Fidel Herráez, a eterna mão direita do cardeal, poderia continuar com Cañizares. Ambos se conhecem, se querem e se respeitam. E, Dom Antonio, viria a calhar como um homem para ajudá-lo na transição. Ao menos, em um primeiro momento.

Espera-se que César Franco, desde sempre simpatizante da Comunhão e Libertação, encontre acomodação em alguma pequena diocese. A situação mais difícil é a de Juan Antonio Martínez Camino, ao qual restam apenas duas saídas: ou Roma ou uma diocese de menor importância, dado que as grandes estão cobertas. Mas, em Roma, asseguram que terminou o tempo em que a Cúria se convertia em refúgio de bispos não benquistos ou com problemas em seus respectivos países. Sic transit...

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