O que a América Latina espera com a nova política econômica argentina

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26 Novembro 2015

O que irá se concretizar do discurso de campanha de Mauricio Macri para o plano de governo dos próximos anos na Argentina ainda não está claro. Especialistas ouvidos pelo GGN não chegam a um consenso sobre se a eleição do oposicionista, após 12 anos de kirchnerismo, foi uma decisão acertada para a política econômica do país. Um resultado, contudo, é unanimidade: o país latinoamericano se prepara para um ajuste econômico que tem como uma das prioridades a desvalorização do câmbio, o que impactará diretamente o Brasil, decisivo parceiro comercial dos argentinos.

A reportagem é de Patricia Faermann, publicada por Jornal GGN, 24-11-2015.

“É uma grande alteração que se dá na maneira de governar na Argentina, com a saída do kirchnerismo, caracterizado pelo populismo autoritário, e agora a entrada de um candidato de coloração mais pró-mercado, uma visão mais empresarial e mais livre da relação entre o Estado e a sociedade”, analisou o doutor em Ciências pela USP, mestre em Relações Internacionais pela Fletcher School of Law and Diplomacy, Alberto Pfeifer.

O especialista, que foi membro de organizações como o Comitê das Rotas de Integração da América do Sul (Crias), o Fórum Empresarial Mercosul-União Européia (MEBF) e o Conselho Empresarial da América Latina (CEAL), acredita que com a entrada de Macri, a ingerência do Estado argentino na economia deve diminuir.

Mas reconhece que o primeiro impacto será em ajustes econômicos. “[O novo presidente] precisa recuperar a saúde externa argentina, recompor as reservas internacionais, restabelecer os vínculos com o mercado financeiro internacional, tratando da renegociação da dívida externa argentina, recompor os fluxos de comércio, e tudo isso vai exigir dele, em primeiro lugar, uma atitude contra a taxa de câmbio, que está sobrevalorizada hoje”, afirmou ao GGN.

Em políticas regionais, os efeitos serão maiores. Pfeifer ressaltou que, dentro do pacote de ajustes, Mauricio Macri terá que realinhar as tarifas públicas, reduzindo subsídios como os da eletricidade, o que terá impacto direto sobre a inflação e, consequentemente, sobre a popularidade do novo presidente argentino. Para não ferir o apoio popular, Macri deverá “dosar muito bem a governabilidade” no Executivo, defendeu o especialista.

Já o doutor em sociologia pela USP, professor da Pós-Graduação Interunidades em Integração da América Latina (Prolam/USP), Wagner Iglecias, aposta que, se seguir a cartilha de discursos prometidos, Macri não será bem sucedido em sua gestão. “Ele vai ter um programa de governo muito duro, de ajuste fiscal, vai impor muitas perdas aos trabalhadores, desvalorizar o câmbio para a Argentina voltar a ser competitiva nas exportações, o que vai ser ruim para o Brasil”, elencou. “Medidas de cortes de investimento em áreas sociais, de gasto público, aumento real do salário mínimo, tudo isso vai ser impactado”, completou.

Ainda que cedo para analisar quais decisões, efetivamente, serão tomadas pelo presidente oposicionista, Iglecias alertou que o pacote de ajustes provocará queda da atividade industrial, do nível de emprego, renda e consumo, mesmo que, em um primeiro momento, a expectativa da população seja positiva com a ideia de “mudança”, pavimentada pelo ideal de uma “nova política econômica”.

No que afeta o Brasil, o professor ressaltou que com a desvalorização da moeda argentina, os produtos do país que entram no Brasil ficam baratos e muito competitivos e, ao mesmo tempo, encarece os que nós exportamos para o país vizinho. “Em alguns setores, teremos déficit financeiro, a balança econômica vai tender a favorecer os argentinos. Nós somos o principal país que exporta para eles e um dos principais mercados de exportações deles”, explicou ao GGN.
Uma das polêmicas nas formas de governar de Macri é a quantidade e o prazo com que os ajustes econômicos serão aplicados.

“Ou ele faz os ajustes mais devagar como ele diz que deve fazer, ou vai faltar dinheiro. Se falta, uma das medidas é reduzir subsídios, mas não é fácil. Os subsídios, por exemplo, ao programa de energia levaram a Argentina a se tornar um importador de energia, e que está relacionado também com a restrição externa deles. Macri está dizendo que vai reduzir a inflação. Não é fácil, quando algumas das medidas, como a eliminação das retenciones [imposto de exportação de produtos agrícolas], afetam as contas do governo. Ele tem um cobertor curto para administrar”, analisou, ainda, em entrevista exclusiva ao GGN um membro de alto escalão do Itamaraty.

Interesses comerciais

Em sua primeira coletiva, na manhã desta segunda (23), Mauricio Macri afirmou que o Mercosul está “em uma situação de quase congelamento há muitos anos”. Com a aposta clara do novo presidente pelo livre comércio e por trazer dinâmica aos blocos econômicos da América Latina, Alberto Pfeifer enxerga a entrada do novo presidente como “um alento” para “recobrar a centralidade do Mercosul como um instrumento de desenvolvimento conjunto entre os países da região”. E não mais “contaminado por disputas particulares que tenham a ver só com os interesses individuais de cada país”, entende o pesquisador.

“Macri vai seguir uma agenda mais ambientada ao mercado, que se desvencilha desse uso ou menosprezo pelo Mercosul, como vinha acontecendo no regime de Cristina, que tinha uma ênfase maior no aspecto político ideológico e desmazelo com o aspecto político econômico”, defendeu.

Para Wagner Iglecias, o que deve se desenhar é o oposto. O especialista entende que, se Macri impor ao bloco cláusulas que modifiquem a necessidade de consentimento de todos os cinco países para a Argentina assinar tratados com os Estados Unidos ou União Europeia, por exemplo, seria “o fim do Mercosul”.

O doutor em sociologia também arrisca que todo o avanço já conquistado, durante o período kirchnerista, com a Unasul, que “vai muito além do comércio, mas com a integração física, militar e tecnológica”, pode ser perdido nessa linha de livre comércio. Daí a explicação, para ele, de ser o Brasil e o Chile as primeiras metas de negociações dos argentinos.

“O Brasil, porque é o principal parceiro comercial, e o Chile, porque é um país da aliança do Pacífico, já focado nos EUA, e não na América do Sul”, disse. “O que o Macri vai fazer é aproximar a Argentina dos países que são mais próximos dos Estados Unidos: Chile, Peru, Colômbia e México”, completou.

Ao GGN, o integrante do Itamaraty revelou que, da forma como estavam as relações comerciais com a atual presidente Cristina Kirchner, "não poderia ficar pior". "A gente chegou num grau de intervencionismo na Argentina que era muito grande". Diante disso, ele enxerga que toda tentativa de fortalecimento nas negociações com os países vizinhos, por parte do novo presidente, de aquecimento dos blocos econômicos, como o Mercosul, a Unasul, e a abertura do país – na contramão das restrições implementadas pelo kirchnerismo –, apesar do câmbio desvalorizado, será positivo para a nossa economia.

O Palácio do Planalto e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressamente depositaram apoio ao candidato sucessor de Cristina, Daniel Scioli. Por outro lado, era inegável na visão da equipe econômica de Dilma Rousseff, sobretudo para a ala pragmática do governo, que as licenças e declarações juradas impostas pelo país vizinho, que restringiam as importações, prejudicavam as relações comerciais.

“A Argentina nesses últimos anos esteve muito voltada para si mesma. A política comercial era talvez a mais fechada da região, com um grau de administração da economia e de interferência muito grande. Se agora eles se engajarem com acordos comerciais, com a União Europeia, é muito positivo. Sempre lembrando que não existe mágica. Se eles não tiverem dólar, podem eliminar todas as restrições, que não vão conseguir comprar nada”, disse o embaixador brasileiro.

“Eu tendo a achar que a Argentina vai passar, a curto prazo, por um momento difícil. Espero que isso dê certo no médio prazo. Se der, vai ser bom para nós”, concluiu.