Desmatamento aumenta na região da usina de Belo Monte, diz instituto

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03 Novembro 2015

A hidrelétrica, que vai ajudar o país a enfrentar uma das maiores crises de energia da história, vai ser a quarta maior do mundo e a segunda do Brasil, atrás de Itaipu. Belo Monte fica no Rio Xingu, no Pará. É a maior obra do país. O valor, em 2010, era de R$ 25 bilhões.

A reportagem foi publicada por G1, 29-10-2015. 

O projeto original sofreu mudanças para reduzir os impactos ambientais e medidas de proteção também foram criadas. Durante duas semanas, os repórteres César Menezes e Marco Antônio Gonçalves acompanharam as mudanças que estão acontecendo na região.

Energia suficiente para abastecer 60 milhões de pessoas

No meio da Amazônia, a maior e mais polêmica obra em andamento do país. Belo Monte tem capacidade de gerar 11 mil megawatts, energia suficiente para abastecer 60 milhões de pessoas. Tudo é mega por lá.

A usina tem duas barragens e dois reservatórios. O primeiro é no leito do próprio rio, alargando as margens do Xingu. O segundo vai inundar uma área de fazendas e floresta. Para a água chegar até lá, o curso do rio vai ser desviado por um canal de dimensões impressionantes: 25 metros de profundidade, 300 de largura e 16 quilômetros de extensão.

É no Sítio Belo Monte que a maior parte da energia da usina vai ser gerada. E este é um bom lugar para se entender as dimensões desta obra gigantesca. Para chegar até as turbinas que ficam na parte debaixo, a água vai passar por 18 dutos. São 18 canos tão grandes que em cada um deles dá para passar toda a água do Rio Tietê do trecho que corta São Paulo.

Nenhuma terra indígena será inundada

A bacia do Rio Xingu é estudada desde os anos 70. O projeto inicial da usina era fazer um grande reservatório que deixaria debaixo d’água uma curva conhecida como volta grande do Xingu. Essa ideia sempre provocou protestos dos ambientalistas e das comunidades indígenas.

Com a pressão, o projeto mudou. Reduziu a área alagada em quase 58%. Agora nenhuma terra indígena será inundada. Nem a volta grande. Vai acontecer o contrário. Em vez de ser alagada, o desvio do rio pelo canal vai reduzir a vazão na curva do Rio Xingu. Mas tem que sobrar água para manter a vida, a pesca, e a navegação.

Em um ponto conhecido como Cachoeira do Limão, na época da cheia, a água sobe mais ou menos 10 metros e para quem navega é como se fosse uma grande avenida, sem qualquer obstáculo. Na seca, é exatamente o contrário, as pedras viram armadilhas. No momento da gravação da reportagem, estavam passando 1600 m³ de água por segundo. Quando chegar na vazão mínima, de 700 m³ por segundo, menos da metade, o ponto da volta grande não vai ser navegável.

Indígenas estão preocupados com futuro da pesca

Os jurunas empilham pedras na seca para fazer arapucas naturais. Na cheia, eles mergulham com uma habilidade única e encurralam os peixinhos coloridos. Mas o rio vai perder o sobe e desce da água e os indígenas estão preocupados que a obra diminua tanto o volume que eles não consigam mais pescar.

A pesca ornamental é fundamental para o sustento das aldeias. O Consórcio Norte Energia, responsável pela construção de Belo Monte, nega o impacto. “As terras indígenas não são impactadas diretamente, e como existe essa ligação direta dos indígenas com os rios, foi projetado uma vazão mínima que nós vamos monitorar durante um certo período esta vazão para verificar se não houve mudança no modo de vida, e ela pode ser modificada”, declara o diretor socioambiental da Norte Energia, José Anchieta.

As consequências da obra estavam previstas nos estudos de impacto socioambiental. Só que os tratores avançaram muito mais rápido do que as compensações. “Deveriam melhorar as políticas de saúde, de educação, de geração de renda, de proteção territorial, de organização comunitária. Como isso demorou muito tempo para sair do papel e os indígenas começaram a sistematicamente a ocupar os canteiros e exigir seus direitos”, afirma o coordenador de Instituto Socioambiental Marcelo Salazar.

Plano emergencial para prosseguir com a obra

Para conseguir tocar a obra, foi feito um plano emergencial. Na prática, a Norte Energia financiou listas de compra, que incluíam desde carros a quentinhas. “Tinha algumas aldeias que esqueceram sua cultura para comprar as coisas do branco”, diz o cacique Miratu Giliarde Juruna.

O Ministério Público Federal abriu uma investigação. “Ela causou muito mais impacto do que se poderia imaginar”, afirma a Procuradora da República, Thais Santi.

A Norte Energia e a Funai reconhecem falhas. “O erro foi conjunto. Tanto é que nós estamos corrigindo agora”, declara o diretor socioambiental da Norte Energia, José Anchieta.

Um novo plano de proteção aos indígenas foi aprovado. No mês passado, a Funai pediu o cumprimento de 14 medidas previstas. Um dos problemas é o desmatamento.

Estradas abertas no meio da floresta

O Bom Dia Brasil sobrevoou terras indígenas. Nenhuma árvore pode ser extraída. Nenhuma tora de madeira pode ser retirada pelas madeireiras. Mas o que se vê lá embaixo são centenas de quilômetros de estradas abertas no meio da floresta.

A equipe foi de carro até o limite da reserva indígena de Cachoeira Seca. Bem na beira da estrada, tinha oito toras de Maçaranduba, que é uma madeira nobre. E nenhuma delas tem a identificação obrigatória para o transporte. A falta deste selo é prova de que esta madeira foi cortada de forma ilegal.

O desmatamento já acontecia na região, mas o Imazon, um instituto de pesquisa sobre a Amazônia, diz que ele aumentou. “As pessoas vêm buscar oportunidade econômica, e tem terras que são públicas, que o governo deveria tomar conta destas áreas, se ele não toma conta dessas áreas, as pessoas ocupam para ganhar dinheiro extrair madeira, desmatando, fazendo agropecuária e tal”, afirma o pesquisador do Imazon, Paulo Barreto.

Venda de madeira ilegal

Em cinco anos, 1.793 km² de floresta foram derrubados. Este número é 40% maior do que o Imazon havia previsto sem a presença da usina na região. “A Norte Energia não se sente responsável por este tipo de atividade. Essa fiscalização do estado deveria acontecer independente da Norte Energia, independente da usina Belo Monte”, afirma José de Anchieta.

O posto do Ibama na região não tem estrutura para fiscalizar nada. Tem só dois barcos. Nenhum motor e nenhum piloto entre os poucos funcionários.

Bom Dia Brasil: Do ponto de vista ambiental, esta região está entregue à própria sorte?

Felipe Guimarães, chefe do Ibama em Altamira: Poderia dizer que sim, está entregue à própria sorte e que não é uma boa sorte.

A fiscalização é feita por agentes do Ibama de Brasília. No fim de setembro, nove pessoas foram presas. A madeira ilegal ia até para o exterior. Mas falta dinheiro e gente para ações como essa. “Temos uma capacidade de ação com o número de agentes e de estrutura que é relativamente limitada. E hoje estamos trabalhando justamente para aumentar esta nossa capacidade de ação”, diz a presidente do Ibama, Marilene Ramos.

E o resultado disso é que os madeireiros ilegais não temem nenhum tipo de punição.

Madeireiro ilegal: Eu caço comprador clandestino e dá um jeitinho.

Bom Dia Brasil: Você comprou clandestino, está transportando clandestino e está me dizendo que caça um comprador clandestino também? Isso não é crime ambiental?

Madeireiro ilegal: Se é, eu não conheço.

Sobre as cobranças feitas pela Funai, a Norte Energia disse que vai assinar um termo de compromisso. Na quarta-feira (28), o Bom Dia Brasil mostra uma reportagem sobre o impacto de Belo Monte para as cidades que ficam próximas à barragem.

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