Ratzinger e Daniélou, um “heróico” serviço eclesial

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05 Fevereiro 2015

Aos 12 e 13 de fevereiro haverá logo, junto à Pontifícia Universidade da Santa Cruz de Roma o encontro “Ratzinger e Daniélou diante do mistério da história”. Nesta entrevista Giulio Maspero, docente de Teologia Dogmática junto à Faculdade de Teologia da Santa Cruz, membro ordinário da Pontifícia Academia de Teologia e entre os organizadores da evento, ilustra o sentido da iniciativa, o pensamento dos dois grandes teólogos, as suas afinidades intelectuais, não deixando de lado os seus dotes de pastores: “Ambos, embora sendo grandes intelectuais e homens de universidade, souberam despender-se, em obediência ao Cristo, pela Igreja e pelos homens”.

A entrevista é de Luca Caruso, publicada pela Fundação Ratzinger, 03-02-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

Por que conectar Jean Daniélou e Joseph Ratzinger numa convenção

Em 2014 ocorriam os quarenta anos da morte de Jean Daniélou. Trata-se de um teólogo jesuíta cuja abertura de pensamento e cujo impulso para a missão como expressão de fidelidade à concreta verdade de Cristo recordam, em certa medida, o seu co-irmão Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco.

Há alguns anos, sempre com Jonah Lynch e a Fraternidade de São Carlos Borromeu, já havíamos dedicado uma jornada de estudo a este grande teólogo francês, cujo pensamento não nos parece suficientemente apreciado. Assim, pareceu-nos valer a pena recordar o aniversário com um verdadeiro e próprio congresso.

Mas, após a renúncia do Papa Bento, junto à associação Patres, nasceu também a idéia de propor à Fundação Ratzinger de aproximar estes dois grandes teólogos, cujas vidas cobrem o século vinte, que é um século riquíssimo do ponto de vista teológico. São muito diversos, não só porque um é francês e o outro alemão, um é patrologista e o outro dogmático, e assim por diante, mas também pelo temperamento e estilo.

No entanto, precisamente esta diversidade permite apreciar o núcleo comum que caracteriza o seu pensamento. Parece-nos que a validade da intuição tenha sido confirmada pelo apoio concedido à iniciativa pela Pontifícia Academia de Teologia, cujo presidente padre Réal Tremblay, discípulo de Ratzinger, fará o primeiro relatório da convenção, e de outras prestigiosas instituições acadêmicas e exteriores, da Biblioteca Pinacoteca Accdemia Ambrosiana de Milão na Alma Mater Studiorum de Bolonha, junto às universidades espanholas de San Damaso de Navarra, à universidade do Sagrado Coração de Milão, àquela de Chieti e á Universidade Lateranense.

Qual é o núcleo central do pensamento destes dois grandes teólogos?

Tanto Daniélou como Ratzinger têm uma extraordinária capacidade de fazer-se compreender e de tornar acessíveis as verdades mais profundas. Além dos livros muito técnicos, também escreveram livros extremamente legíveis e apreciados pelo grande público. Esta sua grande capacidade nasce, me parece, do seu ser teólogos que olham à história precisamente, que falam aos homens do seu tempo para pô-los em contato com a fonte. Esta é representada tanto pela Escritura como pela Tradição, os Padres em primeiro lugar, mas também pela liturgia.

Parece-me significativo que ambos teólogos tenham sido tratados, em alguns casos, com suficiência por alguns “peritos”, em âmbito patrístico, no que diz respeito a Daniélou, e naquele exegético, em relação a Ratzinger. Estes equívocos podem ser atribuídos, me parece, precisamente ao seu serem teólogos que desenvolvem uma teologia patrística, uma teologia bíblica, uma teologia litúrgica, e que, assim fazendo, escapam do reducionismo historicista. Esta tem sido talvez a razão mais profunda em confrontá-los: sua concepção propriamente teológica da história e do mistério pelo qual ela é habitada.

A história não é, de fato, um simples objeto que pode ser estudado como se faz com os minerais ou com os fósseis, mas tem uma profundidade, um “de dentro”, poderíamos dizer, que, enquanto trama de vidas nos interpela como sujeitos, falando às nossas vidas. O mistério da história implica que o seu estudo não possa dar-se a não ser em forma de diálogo, tendo presente que todo evento é resposta que pressupõe uma pergunta. Uma aproximação à história meramente filosófica ou historicista não está em condições de captar esta dimensão, que é essencialmente ligada à liberdade do homem, coração deste mistério.

Portanto, Ratzinger e Daniélou foram aproximados precisamente porque são autores que desenvolvem uma autêntica teologia da história, numa época na qual imperavam as filosofias da história, tanto de matriz idealista, quanto positivista, como ocorre com o historicismo.

Quais os pontos de contato, as afinidades intelectuais e de experiências entre estes dois protagonistas da Igreja do século vinte e um?

A lista poderia ser longa. Como primeiro aspecto, ambos tem sido extremamente atentos às fontes, tanto escriturísticas quanto litúrgicas, é o pensamento de ambos é impregnado de teologia patrística.

No caso de Joseph Ratzinger a fonte principal é latina com Agostinho, depois aprofundado na tradição medieval na qual se inspira, em particular precisamente para quanto se refere à teologia da história, isto é, em Boaventura.

Para Jean Daniélou a referência fundamental é grega com Gregório de Nissa, Padre capadócio do século IV, cuja fisionomia intelectual parece quase refletir-se nos traços mais caracterizantes do teólogo francês, em particular por quanto se refere à atenção à dimensão espiritual, à abertura pastoral e à filosofia.

Precisamente a atenção a esta última é um elemento que aproxima Ratzinger e Daniélou: ambos têm uma clara percepção da diferença entre teologia e filosofia, mas ao mesmo tempo isso os impele a aprofundar a relação entre as duas, como exigência intrínseca do Evangelho. De fato, a Boa Nova exige ser comunicada, mas para falar a quem não crê é necessário um profundo conhecimento da filosofia, isto é, daquela pesquisa do Verdadeiro que se dá na história do pensamento humano.

Utilizando uma terminologia cara a Ratzinger, mas que em sua origem patrística é ainda mais estruturante no pensamento de Daniélou, se poderia dizer que o dom do amor de Deus que se dá como ágape na história procura sempre a pergunta, o desejo, aquilo que em grego se chama Eros, do homem, os quais são um para o outro.

Tal atenção ao coração do homem se nota muito também na abertura ao estudo das religiões em ambos os autores, os quais superam todo reducionismo iluminista, precisamente graças a tal perspectiva dialógica, que une a pergunta e a resposta.

Enfim, na a lista poderia, como foi dito, ser bem mais longa, pode-se acrescentar como ponto de contato talvez mais profundo a dedicação pastoral e o serviço eclesial que marcou as suas vidas, em medida que se poderia definir heróica. De fato ambos, embora sendo grandes intelectuais e homens de universidade, souberam despender-se, em obediência ao Cristo, pela Igreja e pelos últimos.

As religiões, a missão, a liturgia, verdade e história no pensamento de Ratzinger e Daniélou são alguns dos temas que serão enfrentados no decurso da Convenção. Pode delinear-nos o itinerário que havereis de seguir?

Com base em quanto foi dito, o percurso básico do encontro segue precisamente o ritmo do diálogo entre Eros e ágape, partindo do estudo das religiões nos dois autores, como elemento fundamental da questão fundamental sobre Deus no homem, para passar depois à liturgia, principal lugar de encontro com a ágape de Deus. Analisaremos, portanto, de que modo o seu pensamento seja todo voltado para a missão, precisamente pela atenção ao mistério da história que o caracteriza, como já acontecia nos Padres e ao dar-se da Verdade buscada por todo homem na história. Deste modo poderemos aprofundar a própria estrutura de sua teologia e os fundamentos que a tornam tão atual e aberta às interrogações do homem de hoje.

A última parte, como foi acenado, tratará de modo mais específico a teologia da história e de como estes autores podem inspirar a teologia de hoje. Neste âmbito se aprofundará especialmente a relação com a filosofia, e a metafísica em particular. De fato, tanto Joseph Ratzinger como Jean Daniélou são considerados pontos de referência para os atuais estudos de ontologia trinitária, isto é, aquela pesquisa que procura ler na criação o reflexo de sua origem trinitária.

Pode antecipar-nos os conteúdos de sua intervenção?

Eu mesmo estou empenhado nesta pesquisa sobre como a dimensão trinitária está presente no homem e no mundo em todos os níveis. Pessoalmente estou fascinado sobre como os Padres têm, com profunda audácia, acolhido e modificado a metafísica clássica, desenvolvendo um pensamento que retenho contenha uma resposta para o homem contemporâneo, imerso na crise pós-moderna, que é de fato uma crise da metafísica. Esta última não é um relicto do passado ou um achado arqueológico que só interessa a alguns poucos, peritos estranhos, mas nós usamos a metafísica continuamente em todos os dias, para fazer negócios ou num restaurante. De fato, a resposta à pergunta “O que é isto? Que substância é?” nos serve banalmente para ordenar aquilo que queremos no restaurante e verificar o que nos tenha conduzido ao prato preferido.

O ponto é que a metafísica foi desenvolvida na Grécia em âmbito pagão, num contexto que ainda não conhecia o pleno valor da história e da pessoa humana. Somente a Revelação cristã nos permitiu atingir esta verdade que é, ao mesmo tempo, profundamente consoladora. Por isso, tanto Daniélou quanto Ratzinger começaram a perguntar-se o que sucede quando se leva a sério o fato de que Deus é comunhão de amor de três Pessoas eternas, que estão Elas mesmas na recíproca relação e, portanto, que este Deus se dá na história e se pode conhecer somente numa relação pessoal. Na teologia atual estamos procurando levar a sério tal questão, trabalhando juntos também com ilustres teólogos como Lubomir Zak, da Lateranense, e Piero Coda, do Instituto Sofia de Loppiano.

Por isso, as últimas duas contribuições do encontro serão dedicadas à relação entre ser e história e serão desenvolvidas por mim e por Robert Wozniak, de Cracóvia, um dos melhores teólogos dogmáticos polacos.

Por que convidar um teólogo anglicano como John Milbank?

Com efeito, Milbank não pode ser definido um perito do pensamento de Ratzinger ou Daniélou, mas o objetivo do nosso encontro não é somente analisar estes autores, mas também procurar como levar em frente, em nível teológico, aquilo que eles fizeram. Milbank, por isso, é um interlocutor validíssimo, enquanto com paixão promoveu há anos um movimento teológico que quer aprofundar a relação entre teologia e filosofia, levando a sério a história e seu mistério. Por isso lhe pedimos que falasse da teologia da história. Também ele é um daqueles teólogos que se move hoje à busca de uma ontologia trinitária e é, por isso, um magnífico companheiro nesta aventura.

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