O círculo Ratzinger

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26 Agosto 2011

Já se converteu numa citação obrigatória da agenda anual ratzingeriana. Entre fins de agosto e inícios de setembro, Bento XVI interrompe, pelo menos durante alguns dias, o ritmo cerrado e metódico de seus compromissos ordinários e extraordinários para reencontrar-se com os membros mais ou menos entrados em anos de seu Schülerkreis, o cenáculo de ex-alunos que nos anos sessenta e setenta realizaram, sob a guia do professor Joseph Ratzinger, seus trabalhos para o Doutorado em Teologia ou para a habilitação ao ensino universitário.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 26-08-2011. A tradução é de Benno Dischinger.

Neste ano, o encontro está fixado para o próximo fim de semana. Os estudantes ratzingerianos se reencontrarão em Castel Gandolfo para discutir sobre a possível contribuição da teologia para a Nova Evangelização, tema central do próximo Sínodo dos Bispos. Os pontos para dar início à reflexão comum provirão dos informes confiados a dois especialistas "externos": a teóloga Hanna-Barbara Gerl-Falkowitz e o austríaco Otto Neubauer, membro creditado da Comunidade de Emmanuel.

Ainda há quem se pergunte por que Bento XVI continua, mesmo como Papa, com o desejo de promover o retiro anual com seus ex-alunos, e interpreta esta eleição como um hábito de ex-professor, ou como forma de fidelidade permeada de nostalgia pela própria história. E, sem embargo, precisamente a radiografia do Schülerkreis ratzingeriano, de sua evolução, de sua composição e de seu mecanismo, codificados no tempo, ajuda a compreender aspectos não secundários da sensibilidade humana e intelectual do atual sucessor de Pedro e de seu modo de servir a Igreja.

O círculo de "doutorandos" de Ratzinger começou a formar-se já em seus anos de magistério em Münster (1963-1966), e, nos anos de Tubinga (1966-1970), já havia inaugurado suas regras organizativas. Porém viveu sua época dourada na primeira metade dos anos setenta, em Ratisbona. Ratzinger interpretou ao seu modo a codificada tradição acadêmica alemã do cenáculo de alunos reunidos ao redor de seu Doktorvater, o "professor-padre". Com o passar dos anos, foi se ampliando cada vez mais – dando lugar a não poucos zelos acadêmicos – o grupo de alunos provenientes de toda a Alemanha e de todo o mundo, os quais pediam para realizar suas teses sob a guia ratzingeriana.

Nesses anos, Ratzinger, por falta de tempo e para abordar as solicitudes em aumento, experimenta o seu método. Não acompanha individualmente os seus doutorandos, senão que os reúne todos juntos em encontros geralmente fixados para o sábado pela manhã, a cada duas semanas. Durante o meio dia de convivência, por turnos, cada um dos estudantes submete os resultados de suas investigações ao juízo crítico dos demais.

O amplo espectro dos temas abordados pelas teses atribuídas aos participantes – de Nietzsche a santo Agostinho, de Camus ao Concílio de Trento, dos grandes teólogos medievais aos filósofos personalistas – basta para confirmar que não se trata de uma simples reunião teológica finalizada em seus próprios rituais exotéricos. Como explicou Stephan Otto Horn, assistente de Ratzinger nos últimos anos de ensino em Regensburgo e diligente coordenador das reuniões do Schülerkreis [do círculo de alunos], "se Joseph Ratzinger quis e pôde transmitir aos seus estudantes de doutorado uma estampa específica, creio que esta se deve aplicar, sobretudo, ao esforço de abrir o olhar ao amplo espectro da fé e a toda a plenitude das perspectivas religiosas". Precisamente para promover esta abertura crítica, Ratzinger não impõe a ninguém as suas idéias. Guia as discussões do Doktoranden-Colloquium atendo-se a um método maiêutico-socrático, e reduzindo ao mesmo suas intervenções com uma atitude super partes, inclusive frente às controvérsias que se acendem, estimuladas pela atmosfera democrático-colegial e pelas diferentes sensibilidades teológicas que convivem no grupo.

O brain trust ratzingeriano não é uma forja de clones feitos à medida do mestre. Formam parte do grupo monsenhores que passaram pela Cúria romana, como Helmut Moll (curador do martirológio alemão de século XX) e ecumenistas não arrependidos, como Vinzenz Pfnur, colaborador desde os primeiros tempos; párocos alemães, como Martin Trimpe; e religiosos como o passionista Martín Bialas e o franciscano Cornélio Del Zotto (único italiano do grupo, iniciador da comunidade sui generis em Tanzânia). Na lista-diretório de mais de cinqüenta nomes encontram-se também o redentorista Real Tremblay – docente de teologia moral na Pontifícia Academia Alfonsiana -, o outro teólogo moralista, Vincent Twomey – que recentemente se mostrou com sua proposta de colocação em zero dos setores do episcopado irlandês geracionalmente envolvidos nos escândalos de abusos sexuais do clero -, e a coreana Jung-Hi Victoria Kim, que nos anos de estudo em Regensburgo realizou sob a guia de Ratzinger a tese mais que original sobre a comparação entre a caritas de santo Tomás de Aquino e o jen, conceito central do confucionismo. Muitos desses jovens teólogos se mostraram mais tarde como defensores de teses teológicas pouco alinhadas com os cânones das pontifícias academias romanas. Alguns deles, como Hansjürgen Verweyen e Wolfgang Beinert, assumiram inclusive posições distantes das de seu antigo mestre sobre questões controversas, como o sacerdócio feminino e a escolha de formular um Catecismo único para toda a Igreja católica.

O grupo dos convocados a Castel Gandolfo não se parece em nada a um bando de escaladores de Cúria ou de academia eclesiástica. Nenhum deles parece ter conseguido privilégios em virtude de sua pertença ao cenáculo ratzingeriano. O mais notável entre eles é o arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, teólogo dominicano nomeado cardeal por João Paulo II. Nos anos do pontificado ratzingeriano, somente o sacerdote de Benin, Barthélemy Adoukonou, foi envolvido na Cúria romana na qualidade de secretário do Pontifício Conselho para a Cultura. Porém seu currículo – estudos para delinear uma hermenêutica cristã do vudú, um longo período como secretário geral da Conferência Episcopal Regional da África Ocidental francófona (CERAO) e a fundação do movimento eclesial Le Sillon Noir – dá a entender que tal designação tem pouco a ver com que tenha freqüentado o Schülerkreis do ex-professor bávaro.

Desde a época de Tubinga, e por sugestão do assistente de então Peter Kuhn, o círculo havia inaugurado o costume de organizar em cada fim de semestre encontros sobre temas específicos, confrontando-se com professores e teólogos famosos fora da faculdade. Todos os grandes da teologia católica e protestante – desde Karl Barth até Yves Congar; desde Karl Rahner até Walter Kasper e Wolfhart Pannenberg – foram "examinados" pela vivaz equipe dos alunos ratzingerianos ou se confrontaram com ele. Quando a equipe viajou à Basiléia para reunir-se com Hans Urs von Balthasar, um entre eles fez perguntas não combinadas sobre a tese teológica balthasariana sobre o inferno vazio, o que suscitou a ira do grande teólogo suíço.

O modelo de encontros-confrontações periódicos com especialistas e estudiosos externos inspirou a modalidade de autoperpetuação do Schülerkreis ratzingeriano, quando o ex-Doktorvater passou a ser arcebispo de Munique, cardeal de Cúria e, por último, bispo de Roma. Somente nos meses de transição entre 2005 e 2006, a continuidade dos seminários a portas fechadas entre o Papa e seus ex-alunos viveu um momento crítico. Sucedeu, quando o veemente jesuíta estadunidense Joseph Fessio, depois de ter sido participante do primeiro encontro em Castel Gandolfo, contou numa entrevista que naquele brain storming dedicado à confrontação entre revelação cristã e Islã, Bento XVI sustentara a inadaptabilidade da cultura islâmica à modernidade e a impossibilidade de conciliação entre o Corão e a democracia. Ilações que foram em seguida instrumentalizadas pelos setores neoconservadores dos Estados Unidos e desmentidas tanto pelos relatores como pelos demais participantes do encontro. O assunto, que ameaçava complicar-se, foi resolvido com uma retratação pública do padre Fessio: o jesuíta, editor dos livros de Ratzinger nos Estados Unidos, numa carta publicada em The Washington Post, reconheceu humildemente "ter narrado mal o que o Santo Padre havia dito efetivamente", tendo sido vítima de sua escassa familiaridade com o idioma alemão.

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