Será que o Papa Francisco tem uma lista de inimigos?

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06 Novembro 2014

Nos últimos dias do governo Nixon, a descoberta de que a Casa Branca mantinha uma lista de inimigos foi, para muitos americanos, a gota d’água. O fato pareceu revelar um uma administração que usava o poder não para fazer o país avançar ou defender os seus cidadãos, mas para acertar alguns problemas políticos com certas pessoas.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 04-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ainda que toda comparação entre Nixon e o Papa Francisco seja, obviamente, um exercício tão somente, muitos católicos conservadores e tradicionalistas, no entanto, estão se perguntando se o pontífice mantém uma lista de inimigos consigo.

Recentemente, surgiu a notícia de que o Vaticano estaria pensando em dar – ou já deu – início a investigações sobre três bispos em diferentes partes do mundo:

Rogelio Ricardo Livieres Plano, que foi removido da diocese paraguaia de Ciudad del Este.

Robert Finn, da Arquidiocese do Kansas City-St. Joseph, no estado de Missouri, quem atualmente espera pelas conclusões de uma visitação apostólica já em curso.

Mario Oliveri, da Diocese de Albenga, no norte da Itália, aonde um porta-voz do Vaticano disse, nesta semana, que um investigador pode chegar em breve.

Em cada caso, há motivos específicos a serem investigados.

Livieres foi acusado de má gestão assim como por dividir a Conferência dos Bispos no Paraguai, publicamente acusando, por exemplo, o arcebispo de Asunción de ser gay.

Finn é o único bispo americano a ser condenado criminalmente por não relatar uma acusação de abuso infantil e é considerado por muitos analistas como um símbolo dos escândalos de abusos sexuais cometido pelo clero.

Oliveri é o último se juntar a este grupo. Ele é acusado de tolerar todos os tipos de comportamento impróprio entre o seu clero, incluindo padres que colocavam fotos nuas no Facebook, padres que trabalharam como barman à noite e, num destes casos, um padre que atualmente se encontra preso por molestar uma coroinha de 11 anos de idade. (O religioso continua afirmando sua inocência.)

Apesar de haver diferenças, pede-se notar que todos os três prelados têm algo em comum: eles estão entre os membros mais conservadores de suas respectivas conferências episcopais.

Livieres e Finn são membros da Opus Dei, enquanto que Oliveri é conhecido como um tradicionalista profundamente ligado à antiga Missa Latina.

Nos círculos católicos conservadores, as investigações destes três bispos são, muitas vezes, contextualizadas junto de outros movimentos disciplinares feitos pelo Papa Francisco, tal como a sua repreensão contra os Frades Franciscanos da Imaculada. A suspeita é a de que o que realmente esteja acontecendo não seja bem uma operação de limpeza geral, mas sim uma limpeza ideológica.

Fundada em 1970, os Frades da Imaculada apelam aos jovens crentes de pensamento tradicional. Em 2013, o departamento vaticano que supervisiona as ordens religiosas publicou um decreto, com a autorização do papa, dissolvendo a liderança do grupo, nomeando um comissário papal e exigindo dos frades desejosos de celebrar a Missa Latina que tenham uma permissão especial.

Nesse meio tempo, um instituto teológico desta mesma ordem foi fechado. Aproximadamente 40 membros saíram em protesto, a maioria deles indo para comunidades tradicionais.

Em junho de 2014, o experimente analista italiano católico Marco Tosatti descreveu esta perseguição como a principal de uma “caçada às bruxas” mais ampla direcionada aos conservadores, dizendo se tratar de uma “guerra interna (...) sendo travada em nome do papa”.

Outros movimentos frequentemente feitos em nome do papa contra inimigos percebidos incluem a destituição do cardeal Mauro Piacenza (da Congregação para o Clero), e a perda do cargo de presidente da Congregação para os Bispos por parte do cardeal americano Raymond Burke. Espera-se que Burke seja, em breve, retirado de sua posição como presidente do Supremo Tribunal do Vaticano, assumindo um papel mais cerimonial.

Nesta semana falei com um católico tradicionalista. Perguntei-lhe se ele acha que Francisco, com estas ações em seu papado, está deixando claro de que lado do campo ideológico ele se encontra.

“Não se trata apenas de mostrar de que lado ele está”, disse. “Isto tudo mostra que ele irá passar por cima de você se não se mover e pôr-se ao lado dele”.

Os conservadores dizem que, até o momento, não houve um caso importante sob a liderança do Papa Francisco de um bispo ser censurado por alguma infração doutrinária – tolerar violações das regras litúrgicas tais como uso rotineiro de confissão grupal, por exemplo, ou sinalizar apoio à ordenação de mulheres. (No último mês de setembro, um padre australiano foi excomungado por razões semelhantes, mas este era um padre e não um bispo.)

É verdade também, não houve algum bispo progressista que tenha sido acusado de má-conduta pessoal e que tenha ganho um sinal verde.

No mês passado, por exemplo, o Papa Francisco aceitou o pedido de renúncia de Dom Kieran Conry, da Diocese de Arundel e Brighton, na Inglaterra, após este haver admitido que manteve um caso amoroso de longa data com uma mulher em sua diocese. Apoiador das uniões civis para pessoas do mesmo sexo e não muito entusiasta da Missa Latina, Conry não pode ser dito como sendo um conservador.

No entanto, muitos da direita católica suspeitam que a recente preponderância de conservadores que se encontraram ameaçados não seja acidental. Alguns veem uma situação na qual manter a tradição católica é, no momento, percebida como um delito maior do que rejeitá-la.

Como explicar estes atos disciplinares?

Uma explicação é que Francisco realmente quer diminuir o eleitorado tradicionalista e está usando todas as oportunidades para realizar o seu intento. Se for esta a resposta, então Francisco não deve explicações a ninguém, pois os seus movimentos estariam tendo precisamente o efeito desejado.

Uma outra resposta, no entanto, é que os motivos do pontífice não são ideológicos. Em vez disso, ele sabe ter sido eleito para um mandato de reformas a fim de promover uma boa governança na Igreja, e está respondendo aos desarranjos na medida em que eles ocorrem sem, realmente, prestar atenção às opiniões políticas das pessoas envolvidas.

O discurso que Francisco proferiu no fim do Sínodo dos Bispos deste ano pareceu ir nesta segunda direção, na medida em que buscou sinalizar uma compreensão amiga tanto aos tradicionalistas quanto aos progressistas. Francisco é também um profundo admirador do Papa João XXIII, o “Papa Bom” do Concílio Vaticano II, quem disse: “Tenho que ser papa tanto para aqueles que têm um pé no acelerador quanto para aqueles que têm um pé no freio”.

Se for este o caso, Francisco pode precisar encontrar uma ocasião para explicar, por suas próprias palavras, por que razão está indo atrás de pessoas e grupos que se encontram em sua mira. Caso contrário, uma boa parcela da Igreja pode concluir que, se o papa enxerga-as como inimigas, não há motivo algum para que elas não o vejam assim também.

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