“As vítimas são a prioridade. Os abusos não serão tolerados”, dizem Legionários de Cristo

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Por: André | 17 Fevereiro 2014

“As vítimas são a prioridade. Os abusos não serão tolerados”. O porta-voz dos Legionários de Cristo, Benjamin Clariond (foto), e o novo conselheiro-geral (um dos dois, junto com o padre Juan María Sabadell, nomeados diretamente por Francisco), Juan José Arrieta, falam nesta entrevista ao Religión Digital do processo de renovação dos Legionários de Cristo, em que se faz necessário “uma mudança de mentalidade”, um “reconhecimento explícito dos comportamentos gravíssimos e objetivamente imorais do padre Maciel” e um compromisso que, talvez, chegue tarde, com as vítimas. “O pedido de perdão nunca será suficiente e não pode apagar o mal sofrido”, afirmam.

 
Fonte: http://bit.ly/1jCj96Q  

A entrevista é de Jesús Bastante e publicada no sítio Religión Digital, 13-02-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como avaliam os passos dados até agora e os avanços no Capítulo Geral? O que foi feito e o que está pendente?

Pe. Benjamin Clariond: O Capítulo está sendo a experiência de uma responsabilidade diante da história: fazer um exame de consciência institucional e pessoal para confiar o mal à misericórdia de Deus e para poder olhar para o futuro com esperança e realizar o plano de Deus.

Estávamos conscientes de que para dar mais passos no caminho da renovação autêntica e profunda que a Igreja nos pediu, este Capítulo não podia terminar em falso. Os fatos destes anos, que marcarão a nossa identidade, tínhamos que “acolhê-los, enfrentá-los e transformá-los em elo para uma nova etapa da nossa história”, como diz o comunicado do Capítulo.

Portanto, um passo que damos é esse voltar a tomar consciência e tornar muito presente o nosso passado, a nossa necessidade, a nossa vulnerabilidade, a nosso pecado, os nossos erros, as nossas limitações e pequenez... Também consciência de que a Igreja vem em nosso socorro, nos coloca diante da nossa realidade, nos salva e nos ajuda a redescobrir, esclarecer e definir com mais precisão o dom que Deus nos deu, e que a Igreja reconhece.

De alguma maneira experimentamos o que o Papa Francisco disse em sua mensagem para a Quaresma deste ano: “O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: em cada ambiente o cristão é chamado a levar o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, que Deus é maior do que o nosso pecado e nos ama gratuitamente, sempre, e que somos feitos para a comunhão e para a vida eterna. O Senhor nos convida a anunciar com gozo esta mensagem de misericórdia e de esperança”.

Compartilhamos esse exame de consciência publicamente através da mensagem na qual nos pronunciamos de modo conclusivo sobre o fundador, com um pedido de perdão profundo e sincero a todas as vítimas, a todas aquelas pessoas afetadas pelos fatos destes anos e por nossas deficiências. Naturalmente, sabemos que o pedido de perdão nunca será suficiente e não pode apagar o mal sofrido, mas queremos tratar de aliviá-lo e pedir também ao Senhor para que Ele faça o que nós não podemos conseguir.

Estamos tentando melhorar, queremos fazer bem as coisas, e temos dado passos. Por isso também fizemos um balanço dos avanços concretos e objetivos no caminho de renovação. Colocamos o foco especialmente nos problemas detectados pelos visitadores e que a Santa Sé nos pediu abordar: o exercício da autoridade e suas estruturas, o discernimento e o processo de formação de nossos religiosos, e o carisma. Recapitulamos os principais avanços feitos nestes três âmbitos, sabendo que o Capítulo continuará seu aprofundamento. Digamos que esta é a segunda coisa que fizemos, e que também fica refletida na mensagem comunicada pelo Capítulo.

Tudo isso é anterior aos dois objetivos principais marcados pelo Papa Bento XVI e depois por Francisco: elaborar novas Constituições e eleger um novo Governo Geral. No rascunho das novas Constituições que chegou ao Capítulo todos os legionários tiveram uma participação nos últimos três anos. Ele foi revisado e debatido ponto por ponto tanto. No dia 05 de fevereiro, os padres capitulares concluíram a revisão do texto. Agora estão sendo feitos alguns detalhes estilísticos e a revisão da coerência interna do texto (alguns números foram trocados de lugar, outros foram suprimidos, outros acrescentados) e será apresentado em breve para aprovação do Capítulo para depois ser enviado ao Papa.

Também configuramos um novo governo, com a participação direta do Santo Padre na formação do mesmo. Desde dezembro o Papa indicou ao Delegado Pontifício que o Capítulo elegerá o diretor-geral e o segundo e terceiro conselheiros, e que os cargos serão confirmados pela Santa Sé. Também indicou que a Santa Sé nomeará o vigário-geral (que é o primeiro conselheiro) e o quarto conselheiro. O Capítulo trabalhou com essas indicações.

Esta intervenção do Papa é um sinal que deveria dissipar as dúvidas de quem não confia em que os Legionários de Cristo sejam capazes de eleger um governo que continua as reformas já empreendidas. O fato de que tenha confirmado todas as escolhas realizadas pelo Capítulo é também eloquente.

Dedicaremos os demais dias ao debate de temas importantes para depois indicar ao Governo as prioridades que há de atender nos próximos seis anos. É o que está pendente para as próximas semanas.

Algo que se possa avançar em relação às linhas chaves para o futuro?

Pe. Benjamin Clariond: Na atitude, humildade para continuar o processo de renovação, que ainda não terminou. A renovação é algo que só é possível se cada um e todos como instituição descobrirmos e reconhecermos o que temos que melhorar, e nos deixarmos ajudar também a reconhecer e apreciar os dons aos quais temos que responder. Exige uma mudança de mentalidade que já começou, mas que não se concluiu, porque a conversão é um processo que dura a vida toda.

Não relaxar no processo de reconciliação, da formação e do discernimento dos legionários, e da simplificação das nossas estruturas administrativas são três linhas prioritárias que já se pediu ao Governo para que aborde nos próximos seis anos. Explicitamos isso na mensagem que publicamos.

Outra prioridade será a unidade na missão e a coordenação com todas as demais vocações do Regnum Christi e também dentro dos Legionários de Cristo, para que todos trabalhemos para construir a unidade na diversidade, para que sejamos verdadeiramente uma família na Igreja na qual possamos experimentar Deus e onde quem se acerque possa encontrar-se com o amor de Deus e que desse encontro Cristo as transforme em apóstolos e missionários.

É evidente que um campo prioritário é também continuar com o nosso compromisso para criar ambientes seguros para crianças e jovens e a prevenção de qualquer tipo de abuso, assim como a atenção a quem apresentar alguma denúncia contra um membro da nossa congregação. Isto inclui, naturalmente, a plena cooperação com as autoridades civis e eclesiásticas. A carta do Pe. Sylvester Heereman de 05 de dezembro de 2013 é um ponto de referência também para o nosso governo.

Como transcorreram as eleições?

Pe. Benjamin Clariond: Eu não estive presente nas eleições, das quais participaram apenas os eleitores, o Delegado Pontifício e seus conselheiros pessoais. Mas se percebia nos padres o sentido de responsabilidade pelo momento histórico e, também, a importância de que houvesse uma clara determinação de continuar o processo de renovação iniciado. Também se viveu um clima de oração para pedir luz ao Espírito Santo. A intervenção do Papa Francisco também deu muita confiança para o futuro.

Do meu ponto de vista, como porta-voz da congregação, confesso que vivi este momento com certo nervosismo e expectativa pela impossibilidade de compartilhar com nossos irmãos e com quem acompanhou a nossa história os resultados da eleição enquanto não chegasse a confirmação da Santa Sé. Depois havia rumores, especulações. Mas, apesar de tudo, com grande paz e serenidade.

Como avaliam a intervenção do Papa Francisco? Que experiência tiveram da sua proximidade?

Pe. Benjamin Clariond: É como um “continuem trabalhando, Pedro está com vocês, vamos em frente”. Já mencionei isso de alguma maneira. Vemos isso como uma garantia, um apoio ao processo para voltar à normalidade, e uma expressão de confiança para que todos possam confiar. O porta-voz da Santa Sé, o Pe. Federico Lombardi, explicou dessa maneira a uma jornalista que lhe perguntou a respeito, há alguns dias. Disse-lhe que a Santa Sé tinha previsto que desde o princípio nomearia dois dos conselheiros “para consolidar a confiança no novo governo, inclusive para aqueles que pudessem ter dúvidas sobre os resultados de eleições completamente autônomas” e que, portanto, o gesto “deve ser lido num sentido positivo, e não como uma correção nos resultados de eleições autônomas”.

Como vai se concretizar o compromisso com as vítimas?

Pe. Benjamin Clariond: A comissão de aproximação constituída pelo Delegado Pontifício apresentou ao Capítulo seu relatório. Atendeu cada um dos 12 casos que se apresentaram, nenhum ficou em aberto, e a escuta e a ajuda material para cada caso contribuiu, no humanamente possível, para aliviar as feridas e fomentar a reconciliação. Há também outras pessoas que não quiseram aproximar-se da comissão de aproximação, e que se aproximaram de legionários individuais e foram ajudados de outra maneira. Também há pessoas que não quiseram ter nenhum tipo de trato conosco, e respeitamos também esta decisão.

Continua em pé o que o Pe. Heereman dizia em sua carta de 5 de dezembro: “Aproveito a ocasião para reiterar mais uma vez o convite a quem tivesse sofrido um abuso por parte de um membro da nossa congregação, que considere a possibilidade de aproximar-se e contar sua experiência. Queremos conhecer os fatos, ouvir sua história, compreender sua dor, pedir-lhe perdão pelo sofrimento causado e acompanhá-lo em um caminho de cura”. Os contatos dos diferentes países estão em nosso sítio da internet.

Estamos conscientes de que as palavras serão sustentadas com fatos e secundadas com fatos continuadamente. E uma parte do compromisso com as vítimas é colocar todos os meios para a prevenção e levar às últimas consequências qualquer denúncia que se apresente.

Definimos uma política estrita de atuação para prevenir os abusos e para atender as vítimas que se aproximarem. Tornamo-la pública no começo de dezembro e está no nosso sítio, como dizia, para quem quiser conhecê-la e saber quem é a pessoa de referência em cada território. É uma política amadurecida à luz da experiência da Igreja, da congregação e da sociedade civil. E o nosso compromisso é cumprir com essa política e queremos chegar a ser, com toda a Igreja, exemplares neste campo. As vítimas são a prioridade. Os abusos não serão tolerados e, caso uma denúncia for apresentada, se investigará e se levará às últimas consequências em colaboração com as autoridades civis e eclesiásticas.

O Pe. Eduardo Robles Gil, o novo diretor-geral, fez parte da comissão de aproximação às vítimas do Pe. Maciel. Dizia em uma entrevista que para ele, como membro da comissão, foi muito doloroso e triste constatar as consequências dos abusos, e que quase sempre deixam feridas para o resto da vida. Durante o Capítulo os padres capitulares rezaram pelas vítimas, porque sabemos que há feridas que só Deus pode curar. Em sua mensagem, o Capítulo pediu expressamente ao novo Governo para que mantenha o compromisso de continuar buscando a reconciliação.

Queremos fazê-lo bem, estamos conscientes de que sempre se pode melhorar, mas a segurança das crianças e adolescentes é um princípio inegociável.

Que implicações e consequências têm para os Legionários de Cristo este “posicionamento conclusivo” sobre o Pe. Maciel?

Pe. Benjamin Clariond: Este posicionamento é um reconhecimento explícito dos comportamentos gravíssimos e objetivamente imorais do Pe. Maciel, que implica que não podemos propor-lo como modelo, nem seus escritos pessoais como guia de vida espiritual. Confirmamos e reiteramos desse modo o que afirmamos em 2010.

Por outro lado, como dissemos no comunicado, a ajuda da Santa Sé foi imprescindível para descobrir como a personalidade e o modo de agir do Pe. Maciel estavam afetando a nossa congregação. Isto significou um processo de purificação de alguns aspectos da nossa mentalidade e estrutura. Uma das principais tarefas na revisão das constituições, e em nossa vida prática, foi a de distinguir e separar o que realmente é patrimônio carismático da congregação daquilo que não é, do que é acidental, e revisar o exercício da autoridade e dos processos de formação e discernimento para que estejam de acordo com o que indica a Igreja, como nos pediu a Santa Sé.

Outra consequência é que teremos que explicar muitas vezes que há um patrimônio carismático bom apesar disto, pois uma congregação religiosa e suas características não têm origem na pessoa do fundador, embora ele tenha sido instrumento para iniciar esta obra; são um dom de Deus que a Igreja acolhe e aprova e que depois vive no instituto e em seus membros. Há muito de mistério nisto e temos que discernir o que Deus quer nos dizer através de fundações recentes e antigas em que há um fundador que não esteve à altura do dom que Deus transmitiu à Igreja por seu intermédio.

Padre Arrieta, o que significa para você o fato de ser conselheiro nomeado pela Santa Sé?

 
Fonte: http://bit.ly/1jCj96Q  

Pe. Juan José Arrieta (foto): A nomeação me pegou de surpresa. Aceito-a porque vem do Santo Padre e porque vejo nela um gesto de confiança do Papa nos Legionários de Cristo. Viemos de uma situação em que necessitávamos de ajuda externa, mas agora a Igreja confia em que nós podemos seguir em frente com as reformas que nos indicou, e nomeou dois legionários para serem conselheiros. Poderia ter nomeado alguém externo, mas confiou em nós. É também uma transição para a normalidade, porque voltaremos a depender, como qualquer outro instituto religioso, da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, que nos ajudará a viver e desenvolver o nosso carisma para servir a Igreja e todos os homens e mulheres.

É uma responsabilidade muito grande e necessito de orações. Mas quero vivê-la com o desejo sincero de apoiar o Pe. Eduardo para que continuemos percorrendo o caminho que empreendemos por indicação do Papa e que fizemos próprio. Um caminho de renovação e de reconciliação, um caminho de serviço à evangelização.

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