Testamento-testemunho de Dom Antônio Fragoso, ex-bispo de Crateús, CE

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27 Agosto 2013

"Eu não tinha dúvida de que estava diante de um profeta, um homem do Deus dos pobres e dos pobres de Deus. E não sei bem porque, dom Antônio Fragoso me entregou uma cópia de um “Testamento-testemunho espiritual dele”, que eu guardei com muito carinho, depois digitei e o conservo no computador e, principalmente na minha memória e no meu coração como um bússola que me inspira," escreve Frei Gilvander Moreira, padre da Ordem dos carmelitas, professor de Teologia Bíblica e assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI, do Serviço de Animação Bíblica - SAB e da Via Campesina em Minas Gerais, 21-08-2013.

Eis o artigo.

Em setembro de 1998, enquanto eu fazia o mestrado em Exegese Bíblica, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália, tive a alegria de encontrar no Colégio Internacional dos Carmelitas, em Roma, dom Antônio Fragoso, que no alto dos seus 78 anos contava sobre sua atuação missionária com um entusiasmo contagiante. Dizia se referindo a várias pessoas: “Esse tem uma cabeça arrumada.” Eu não tinha dúvida de que estava diante de um profeta, um homem do Deus dos pobres e dos pobres de Deus. E não sei bem porque, dom Antônio Fragoso me entregou uma cópia de um “Testamento-testemunho espiritual dele”, que eu guardei com muito carinho, depois digitei e o conservo no computador e, principalmente na minha memória e no meu coração como um bússola que me inspira. Eu já o partilhei com algumas pessoas, mas, agora, estimulado por Manoel Soares Martins, que me pediu cópia do “Testamento de dom Antônio Fragoso” se apresentando como “juiz de direito aposentado e filho de Crateús, Estado do Ceará, onde o nosso eterno e saudoso dom Antônio Batista Fragoso foi o Primeiro Bispo de nossa querida Diocese.”

Pelo pedido de Manoel, Deus conosco, e também por ter ficado emocionado ao reler o “testamento-testemunho de Dom Antônio Fragoso”, eu estou disponibilizando-o na certeza de que vai fazer um bem enorme a muitas pessoas que o lerão e meditarão sobre o sentido da vida.

Obrigado, dom Antônio Fragoso, que já partilha vida em plenitude, envolvido no infinito mistério de Amor que é nosso Deus, o Deus da vida e dos pobres. Abraço terno. Frei Gilvander Luís Moreira.

Eis o Testamento-testemunho de Dom Antônio Fragoso.

Testamento-testemunho de Dom Antônio Fragoso, bispo de Crateús, mundo dos pobres.

1. DADOS PESSOAIS

Antônio Batista Fragoso

Nascido em 10/12/1920, dia dos Direitos Humanos, em Teixeira, Estado da Paraíba, Brasil. Ordenado sacerdote, em 2 de julho de 1944, no Seminário da Paraíba.

De 1947 a 1957, Assistente da Juventude Operário Católica (JOC), para os Estados do Nordeste Brasileiro.

Ordenado bispo, em 30 de maio de 1957.

Bispo auxiliar, na Arquidiocese de São Luís do Maranhão, de 1957 a 1964.

Bispo Diocesano de Crateús, Estado do Ceará de 1964 a 1998.

Padre conciliar, no Vaticano II, em 1962, 1963, 1964 e 1965.

Bispo Emérito de Crateús, desde de 17 de fevereiro de 1998.

2. BISPO

A JOC me abriu os olhos para a realidade do mundo dos pobres (que, depois, chamados de Empobrecidos e, posteriormente , Excluídos).

A Teologia dos tempos de Seminário eu a levei a sério com a "paixão" dos tempos de juventude.

Mas não consegui ILUMINAR minhas práticas e os "sinais dos tempos", pois ela era mais "doutrinária", dedutiva.

A metodologia Jocista - do VER, JULGAR e AGIR - vem testada nas experiências dos Militantes e Assistentes da JOC, me ajudou a partir da "Realidade", perceber o seu "sentido e a presença do Reino sob sinais  e a me confrontar com uma Prática Transformadora.

A notícia da minha escolha para o Episcopado me apanhou de surpresa, convencido que a JOC era o meu futuro. Apelei para o Papa. A nomeação, enviada para mim, no iníci o de dezembro de 1956, só foi publicada em março de 1957.

É voz corrente (quem sabe desses segredos, com segurança?) que Dom Helder Câmara "sugeriu" à Nunciatura apostólica diversas idas e vindas da Ação Católica Especializada.

Lembro-me de que, no Vaticano II, quando Monsenhor Joseph Cardajn foi escolhido Cardeal, nós , os Assistentes da JOC lhe oferecemos um almoço afetuoso. Éramos 18.

Bispo Auxiliar do Arcebispo Dom José de Madeiras Delgado, tentei fazer UNIDADE com ele, mesmo se éramos diferentes, na nacionalidade e na visão da Igreja e do Mundo.

Ele me confiou o acompanhamento da Ação Católica Especializada (JOC, JEC, JAC, ACO) e da Pastoral Catequética com as bênçãos e o apoio aberto dele, foi possível promover, em 1958, 1959 e 1960, uma SEMANA CATEQUÉTICA mobilizadora, em cada uma das 60 paróquias da Arquidiocese.

É bom ter em vista que a, então, Arquidiocese de São Luís cobria as Paróquias  das posteriormente criadas Dioceses da  Viana, Bacobal, coroatã e Brejo.
    
3 - O VATICANO II   

Facto convocadas. Dependiam da anuência do Bispo Diocesano. Eu tive a graça de ser plenamente autorizado por Dom José de Medeiros Delgado para participar do Concílio em 1962, 1963 , em 1964 e em 1965 eu já era Bispo Diocesano de Crateús.

O Vaticano II  marcou fundo a minha vida.  O horizonte eclesial se alargou às dimensões dos 4 continentes.

Foi nos oferecida a oportunidade da renovação teológica, por meio de mais de 70 conferências-Debates de Expertos do 1o time teológico do mundo;

Deu-se a queda das imagens tradicionais de Igreja - Igreja Pirâmide  e Igreja centro e periferia - que foi proclamada como a comunidade dos Discípulos de Jesus, todos fundamentalmente iguais, onde a "autoridade" se torna diaconia;

Aprofundou-se o diálogo da Igreja com as "Realidades Terrestres";

O Vaticano II teve dificuldades de acolher o pedido  de João XXIII: apresentar ao mundo  um ROSTO NOVO DE IGREJA, sobretudo da IGREJA DOS POBRES;

Nos bastidores do Concílio, um grupo de Bispos se reunia no Colégio Belga e tematizava a identidade entre Jesus e os Pobres, ensaiando a compreensão das conseqüências sociais, políticas, culturais e místicas dessa identidade;

Ficou-nos a certeza de que o Vaticano II não era o ponto de chegada, mas o ponto de partida de um processo exigente de conversão pessoal e eclesial.

O Antônio Fragoso, que saiu do Concílio, não era mais o mesmo que nele entrou, em outubro de 1962.

Nunca direi demais a Deus toda a minha gratidão por ter sido e continuar sendo PADRE CONCILIAR.

4. EM CRATEÚS

O Vaticano II me interpelou e se esvazia, se os cristãos e sobretudo o Episcopado não o puserem em prática.

As tentações chegam, previstas ou inesperadas. A "saudade das panelas do Egito", a recuperação do pré-concílio, a "restauração" de uma modernizada neo-cristandade podem gerar o "desencanto" até nos mais ardentes, sepultar a memória do acontecimento, levar a proposta de "hermenêuticas" ideologizadas (talvez, bem intencionadas).

O desafio é este: como assumir o processo conciliar, articulando a Comunhão Evangélica de Igreja e a Ousadia profética?

A Igreja de Crateús, situada no sertão árido nordestino (os Sertões de Crateús e dos Inhamuns), também se sentiu desafiada e extremamente frágil para o sopro inspirador do Vaticano II (não dando?) referencial para ninguém, mas, expressamos o desejo de dizer "sim" ao Apelo do Concílio.

Buscou assumir um "rosto rural", priorizando o anúncio da Boa Nova aos Pobres, por vezes, dando pretexto às queixas das "classes Médias tradicionais ”.

O Bispo com mais boa vontade do que “Know-how" não quis revestir a "figura histórica e popular de BISPO", mas ir se tornando companheiro e irmão.

Todas as decisões pastorais eram discutidas longamente com os leigos, as Religiosas e os Padres. O Bispo não quis prevalecer-se de seus "poderes canônicos" para destacar seu voto ou sua decisão, mas habitualmente aceitou que o voto de qualquer dos Leigos e Presbíteros fosse igual ao seu.

Desejando ser uma comunidade de discípulos, SEM PODER como Jesus, a Diocese recusou Ter OBRAS (Colégios, Escolas, Rádio, Hospitais). As obras, se necessárias forem, devem ser iniciativas da "comunidade" e não do Bispo, do Padre, da "Diocese", da "Paróquia".

A Diocese de Crateús, muito pobre, depois de experimentar, durante 10 anos, pedir DINHEIRO/AJUDA às "Agências doadoras" católicas e/ou não governamentais decidiu, sem muita unanimidade (!) não mais fazer projetos para o Exterior ou para o governo do País. A ideia inspiradora era esta: "uma mulher, um homem, crescem quando DÃO DE SI, não quando estendem a mão para receber".

A Diocese decidiu não fazer um "Seminário menor". Até mesmo chegou a pensar que "o coração da Diocese não é o seminário, mas a formação/educação da fé da comunidade, com seus Ministérios. Das Igrejas vivas na base nascerão, quando o Espírito soprar, VOCAÇÕES ORDENADAS E CONSAGRADAS suficientes.

Muitos Cristãos pediam "Espiritualidade", "Mística", "Nutrição da Fé", calor do coração na Liturgia", mas não aceitavam que a Fé movesse os Cristãos para o combate pela Justiça, para uma Prática transformadora e radical.

A Diocese assumiu a responsabilidade de lutar para que os Cristãos tivessem duas pernas sãs e articuladas: a perna da Experiência de Deus e a perna do combate pela Justiça. Esta opção trouxe tensões e afastamentos dolorosos.

Nos seus 34 anos, a Igreja de Crateús reconhece que está só NOS PRIMEIROS PASSOS de vivência da Inspiração do Vaticano II.

5. VIOLÊNCIA E NÃO-VIOLÊNCIA

A Igreja de Crateús não é uma ILHA, cujas pontes para "invasão" de idéias e propostas culturais estivessem cortadas.

A consciência da MISÉRIA (= Pobreza, Empobrecimento, Exclusão) leva facilmente, à INDIGNAÇÃO ÉTICA.

A indignação ética é o primeiro passo necessário para o combate pela Justiça e pode-se abrir para a SOLIDARIEDADE ATIVA ou para VENCER A VIOLÊNCIA do Sistema com a violência popular.

As últimas cinco décadas "empurraram" mais no sentido de combater a violência com a violência.

Ultimamente, emergem Apelos para a Solidariedade (= "novo nome da Paz?").

Em Crateús, fortemente marcada pela injustiça e a opressão, a tendência dos intelectuais"  e dos "Ativistas" era a "Revolução armada". Não havia estratégias  com armas, havia mais "idealismos"  e discursos.

Eu fui muito motivado por homens como Gandhi, pelo "movimento Internacional de Reconciliação" (Jean Goas e Hildegard Gon Mayer), pela  "irmandade do servo sofredor" (Bispo do Padre Alfredinho Kunz), pela "pressão Libertadora" (Dom Helder Câmara) pela "Firmeza Permanente" (Dr. Mário Carvalho de Jesus).

Não consegui convencer a maioria da Diocese de que o combate pela Justiça, NÃO VIOLENTO, inspirado na Força Libertadora do Amor, era a Esperança. Ninguém queria a Revolução Armada, mas tinha medo de que a "Não Violência "fosse negativa, acomodada, "inocente".

Chego a pensar que a maioria da população da Diocese tem práticas não-violentas, mas é carente de EDUCAÇÃO para a ATITUDE solidária, que recusa usar as armas dos opressores.

6 – MONSENHOR BETTAZZI E PAZ CHRISTI

Não é meu propósito falar do meu colega do Vaticano II, Luigi Bettazzi, Bispo de Ivrea, e Nem da "Fraternidade dos Pequenos Bispos", que cerca de 20 Padres conciliares organizamos, durante o Concílio, como um pequeno grupo de Amizade e mútuo apoio, inspirado no Irmão Carlos de Foucauld e sua Espiritualidade, dos 20, 9 já se foram para a casa do Pai.

Eram do Vietnam, da Coréia do Sul, da África, da Alemanha, da França, os outros, ainda sobreviventes, DAMOS GRAÇAS a Deus por este grupo.

Quero falar do testemunho de Monsenhor Bettazzi em favor da PAZ (= Pax Christi).

Monsenhor Bettazzi foi sempre um bispo da Solidariedade ativa não violenta e da Profecia audaciosa. Nem sempre encontrou compreensão a que tinha direito.

Lembro-me das suas posições pela autodeterminação do Vietnã na Mídia ocidental.

Lembro-me de suas abertas e corajosas mensagens, nos congressos da Pax Christi italiana e da Pax Christi internacional.

Lembro-me de seus livros deliciosos de ler, interpelantes para os que querem sair do "status quo" ou de atitudes sectárias, especialmente o denso e profético "La Sinistra di Dio".

Lembro-me da Visita Pesquisa à América Central e da publicação contraditada do relatório.

Sinto-me gratificado por ter Monsenhor Bettazzi como Amigo e Irmão e como um militante não violento da PAZ.

7 - ESPERANÇAS PARA O FUTURO

Um homem com quase 78 anos ainda pode ter esperanças "concretas"?

Sou filho de um sertanejo paraibano muito pobre, que foi sempre um sonhador incorrigível, "jovem aos 90 anos carregando utopias mobilizadoras”.

São estas algumas das minhas esperanças:

Uma Igreja com ROSTO DE POBRE, comunidade de servidores de Jesus, sem poder, vivendo a mística do serviço de "lavar os pés" da humanidade, principalmente dos pobres, conheço muitos testemunhos. Por isto, sei que é possível.

O ministério dos Cristãos que, na Igreja Católica, unem a comunhão eclesial evangélica e a profecia explícita. Quem não se lembra do Padre Haering, do Arcebispo John Quinn, do Padre Tissa Balasuriya, de Monsenhor Oscar Romero, de Monsenhor Ivan Girardi, da multidão dos catequistas e celebradores da palavra nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), dos milhões de mártires "anônimos" no combate pela justiça?

As CEBs - pequenas Igrejas Vivas na Base - de tipo rural e, no futuro, de tipo urbano em que unem, no cotidiano "anônimo" a maior fidelidade ao Evangelho e a teimosia profética.

O pluralismo de rastos da Igreja vinda de  Teologias, de Liturgias, de formas de ser PADRE ensaiando, já na História presente, a UNIDADE NA DIVERSIDADE.

A invenção  de realizações históricas da UTOPIA SOCIALISTA, que os assim chamados "SOCIALISMOS REAIS" experimentaram e traíram e a "globalização" se gloria de havê-lo sepultado definitivamente.

A resistência multissecular dos Indígenas, dos Negros, das Mulheres, dos Sem poder e que não é resgatada pela opinião pública de hoje, mas faz tremer o sistema global que o "ignora" e o "escanteia".

Estas ESPERANÇAS "CONCRETAS" estão fazendo o seu caminho e NINGUÉM vai impedi-los  de florescerem e frutificarem, no tempo que o Espírito programa.

Antônio Fragoso,
Bispo Emérito de Crateús. João Pessoa, Paraíba, Brasil, 15 de setembro de 1998.

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