Viver embalado pelo Espírito Santo, um dos traços da Teologia Lucana. Artigo de Gilvander Luís Moreira

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21 Março 2013

"Viver segundo o Espírito implica caminhar em um processo de humanização e fortalecimento. A ação do Espírito não é mágica como se ao invocá-lo ele descesse do céu sobre nós. Mas o Espírito de vida está presente em nós e no universo. Ele irrompe na comunidade a partir das entranhas dos fatos históricos.", escreve Frei Gilvander Moreira, padre da Ordem dos carmelitas, professor de Teologia Bíblica e ; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis o artigo

A coluna mestra da Teologia do evangelista Lucas aparece na ênfase que ele dá a temas tais como: viver de forma orante, fazer opção pelos pobres, ser compassivo-misericordioso, viver no embalo do Espírito Santo, ser ecumênico, praticar a inculturação, viver intensamente o aqui e agora, cultivar a
alegria, atender à urgência do reino foi às pressas” -, dentre outros.

Entre os sinóticos (Mt, Mc e Lc), o evangelho de Lucas é o que dá maior importância à figura do Espírito Santo, uma realidade que atravessa toda sua narração evangélica e se projeta ao longo dos Atos dos Apóstolos. A terminologia apresenta variações: “o Espírito”, “o Espírito Santo”, “o Espírito de Jesus”. Em Marcos, aparece a palavra Espírito mencionada seis vezes; em Mateus, doze vezes; no evangelho de Lucas, dezesseis vezes.

Nas dezesseis vezes em que o Espírito Santo é mencionado no evangelho de Lucas, observamos que algumas pessoas são movidas pelo Espírito, tais como João Batista, Maria, Isabel, Zacarias e Jesus (Lc 1,35.41.67). Jesus nasce em meio a pessoas repletas do Espírito Santo. Ao afirmar que o Espírito virá sobre uma mulher pobre de Nazaré (Lc 1,35), Lucas está querendo dizer que a gravidez dela, embora fora do casamento, não deve ser condenada, mas ser vista com outros olhos, os olhos de Deus. A “concepção virginal” de Jesus, sob a ação do Espírito de Deus, ajuda a acolher o que foi afirmado em Marcos (Lc 1,1): Jesus é o Cristo, Filho de Deus.

Viver segundo o Espírito implica caminhar em um processo de humanização e fortalecimento. A ação do Espírito não é mágica como se ao invocá-lo ele descesse do céu sobre nós. Mas o Espírito de vida está presente em nós e no universo. Ele irrompe na comunidade a partir das entranhas dos fatos
históricos.

O Espírito tem uma capacidade reveladora da presença de Deus na história (Lc 2,26). Uma pessoa ou comunidade que se sente em Deus vive no mistério de amor, está imersa em um oceano de amor. E desperta sensibilidade capaz de perceber Deus agindo no mais profundo dos fatos e da realidade.

A ação do Espírito, revelada em toda a Bíblia, manifesta-se com maior força na ação profética. A primeira reação de quem é envolvido pelo Espírito santo é profetizar. Um bom critério para constatar a autenticidade de uma experiência no Espírito é verificar se ela está tornando as pessoas mais
proféticas.

Em Jesus se dá um crescimento no Espírito (Lc 2,40). Começa com a promessa de que o Espírito “descerᔠsobre ele (Lc 3,22), depois, passo a passo, Jesus é plenificado no Espírito. É importante ressaltar que “descerᔠé uma expressão antropomórfica para fazer referência ao divino que se explicita no humano, mas não indica que venha de cima para baixo e nem de fora para
dentro. O divino habita em nós por participação.

O Espírito Santo é quem conduz a ação das comunidades cristãs nos Atos dos Apóstolos, guia missionários enviados e irradia a Palavra de Deus de Jerusalém a Roma”. Por 52 vezes o Espírito é mencionado como condutor da ação nos Atos dos Apóstolos. Se no evangelho de Lucas é Jesus quem lidera o processo da ação de Deus na história, nos Atos dos Apóstolos o Espírito é “o
grande personagem”. Essa ênfase no Espírito em Atos permite que muitos estudiosos da Bíblia entendam os Atos dos Apóstolos como “o evangelho do Espírito.

Desejar o Espírito é caminho para recebê-lo de Deus (Lc 11,13). Deus nos ama infinitamente, por isso deixa-nos livre para abrir-nos e perceber a ação dele em nós.

O apóstolo Barnabé tinha um terreno em Jerusalém. Sente-se movido a dispor dele em favor da comunidade; vende-o e coloca o dinheiro aos pés da comunidade cristã. Esse gesto revela a abertura de espírito de Barnabé. Pouco a pouco, ele vai sendo guiado pelo Espírito e sente necessidade de
colocar sua vida à disposição do projeto do Evangelho. Torna-se um dos principais missionários nas comunidades cristãs primitivas. O espírito verdadeiramente divino impele as pessoas a se libertarem das amarras do poder econômico. Quem é movido pelo espírito santo partilha seu poder econômico.

Fechar-se à ação do Espírito Santo é grave e perigoso, porque a pessoa fecha os olhos e o coração à evidência das obras do Espírito (cf. Lc 12,10). E negando-as, rejeita a oferta suprema que Deus lhe faz e se exclui da salvação (Hb 6,4-6; Mt 10,26-31). O comportamento de Judas Iscariotes parece
confirmar esse fechamento. Por dinheiro, trai o Mestre e com o dinheiro da traição compra um terreno (At 1,18), fazendo exatamente o contrário do que fez Barnabé. Acabou abraçando um projeto de morte que o levou à ruína. Quem vive agarrado ao capital e, por isso, deseja ardentemente sempre acumular poder econômico, não está movido por um espírito santo.

O Espírito Santo é mestre em situações de alto conflito: “Quando vos conduzirem às sinagogas, perante os magistrados e perante as autoridades, não vos preocupeis com os argumentos para vos defender, nem com o que dizer, pois o Espírito vos ensinará naquele momento o que deveis dizer” (Lc
12,11-12). O evangelho de Lucas narra por três vezes que, “impulsionado pelo Espírito, Jesus deve subir para Jerusalém e que será morto, mas ressuscitará”. O apóstolo Paulo também teve de discernir em meio a conflitos, pois por três vezes disseram a ele que não subisse a Jerusalém, pois lá seria preso e maltratado. Mas o apóstolo acabou discernindo que deveria seguir firmemente o caminho trilhado por Jesus e assim se tornou "outro Cristo".

Uma pessoa guiada pelo Espírito, mesmo no meio de conflitos, vive a alegria, a paz e a serenidade; saboreia a beleza da pequenez da vida nutrindo-se do divino que se tornou humano. Essa perspectiva aparece em inúmeras passagens do evangelho de Lucas, principalmente nas parábolas da misericórdia, nas quais o evangelista faz questão de enfatizar a alegria que contagia um pastor, uma mulher e um pai ao reencontrarem o que estava perdido (Lc 15,1-32) Enfim, Lucas quer ajudar-nos a crescer em uma dupla consciência: perceber o Espírito perpassando todas as coisas e captar nas partes uma
totalidade integradora.

Lucas intensifica a presença do Espírito no começo de determinadas seções da sua narração. Nos relatos da infância acumula sete menções do Espírito; e na preparação ao ministério público, refere-se à ação do Espírito cinco vezes.

À primeira vista, é estranho que a menção ao Espírito desapareça completamente nas outras seções da narração da viagem de Jesus para Jerusalém (Lc 13–19), no ministério de Jesus em Jerusalém (Lc 19,28–21,38), em todo o relato da paixão (Lc 22–23) e na ressurreição (Lc 24). A avassaladora presença do Espírito citada na primeira metade da narração (Lc 1–16) desaparece após Lc 12,12, onde se diz que o Espírito de Deus acompanhará os perseguidos no momento em que estiverem sendo interrogados pelas autoridades.

Este mesmo processo se verifica também nos Atos dos Apóstolos. Na primeira parte de Atos (At 1,1–15,35) o Espírito é mencionado 19 vezes , enquanto na segunda parte de Atos (At 15,36–28,31) aparecem somente 11 referências . Na segunda parte de Lucas e Atos a referência ao Espírito vai escasseando-se, talvez para sinalizar uma característica da teologia lucana: o divino em
Lucas tende a encarnar-se, como sal na comida, e vai aos poucos desaparecendo”. É como um andaime: anda-se nele enquanto se constrói, mas, terminada a construção, caminha-se pela própria construção. Imbuídos pelo Espírito, os personagens bíblicos o revelam pela sua ação, dispensando
referências explícitas.

Os rasgos fundamentais do Espírito em Lucas denotam a presença ativa, criadora e profética de Deus no coração da Criação, em geral e especificamente, no âmbito da comunidade. O Espírito manifesta toda sua atividade, como presença criadora que vem de Deus, desde a concepção de Jesus em Maria. Leonira, participante da Comunidade Eclesial de Base, da Vila Parolin, em Curitiba, PR, dizia: “O Espírito Santo é como sal na comida: só é percebido quando falta ou quando está colocado em demasia. Quando a comida está com um bom tempero, ninguém se lembra do sal. Assim é o Espírito Santo na obra de Lucas. Permeia tudo, disfarçadamente”.

Lucas coloca Jesus na companhia permanente do Espírito, este ilustre “personagem”, para reforçar que as comunidades devem estar em constante processo de revisão de critérios e certezas, deve converter-se permanentemente a novos valores, reconhecer a ação e presença de Deus na
vida e na história. Enfim, devem viver em discernimento constante. Não recair em fundamentalismos, nem em dogmatismos e muito menos em moralismos e dualismos. Para isso, é profundamente salutar ter como fonte de inspiração o Espírito de vida, que não se deixa encurralar e não aceita ser enquadrado em nossos esquemas humanos. Sopra onde quer, para onde quer, é livre, liberta e
conduz à liberdade. São Paulo reitera diversas vezes: “Não percam a liberdade cristã!” (2Cor 3,17); “Não entristeçam o Espírito Santo!” (Ef 4,30).

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