Manifestações nas ruas. Um cansaço e uma nova forma de expressão

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Por: Jonas | 29 Junho 2013

“Torna-se difícil decifrar totalmente esse desconforto e raiva que as ruas presenciaram, mas é de se esperar, talvez tenha sido agora, um momento em que as pessoas já não suportem tanta quinquilharia ao custo de dívidas e mais dívidas. É insuportável fingir que está tudo bem porque se tem um trabalho que mal dá para cumprir com as obrigações do mês, infelizmente, uma dura realidade para a grande maioria da população”, opina Jonas Jorge da Silva, pesquisador do Cepat/CJ-Cias, em artigo publicado no blog da Revista Espaço Acadêmico, da Universidade Estadual de Maringá - UEM, 28-06-2013.

 
Fonte: http://goo.gl/lyuy6  

Eis o artigo.

Gostaria de apresentar algumas reflexões a respeito dos últimos acontecimentos nas ruas das principais cidades do Brasil, mas já adianto que não pretendo cair na cilada dos que olham para essas grandes manifestações com os olhos da suspeição. Não que não consiga perceber a possibilidade de conspirações, disputas de interesses entre segmentos e grupos e instrumentalização de anseios populares, etc. É que cansa um pouco ler tantas e tantas interpretações que, em alguns momentos, deixam escapar o fato relevante: as pessoas nas ruas. Mesmo que não tenha sido da forma como muitos arautos de movimentos sociais e partidos políticos costumam apregoar, as pessoas tomaram conta das ruas. Colocaram o mês de junho de 2013 em evidência na história do país.

Particularmente, considero empobrecedor tentar, a partir de um modelo ideal, encaixar os diversos desdobramentos e bandeiras levantadas nestas manifestações em esquemas e concepções sobre o cidadão ou revolucionário ideal, para os mais radicais, apontando, assim, seus aspectos contraditórios. Tenho lido e ouvido algumas interpretações muito mesquinhas em relação à disposição e postura dessas pessoas que tomaram as ruas. Ora, apontar contradições num movimento massivo como este é a coisa mais fácil que existe. Se o movimento nas ruas, com suas mais diversas facetas, bandeiras e concepções sobre a política e o momento atual do país possui suas contradições, quem estaria em condições de atirar a primeira pedra? Não é exatamente a gritante contradição presente na representação política, com os velhos esquemas de coalizões e conchavos, entre os partidos políticos, um dos estopins dessa insatisfação popular? Por acaso, nossos movimentos populares organizados e grupos sindicais caminham tão bem assim, para que alguns se dêem o direito de deslegitimar a iniciativa dessas pessoas? Que elemento social está isento de contradição?

É verdade que não se trata de manifestações como as já conhecidas, que ultimamente amargam a presença mínima de um punhado de militantes à moda anos 1970. São pessoas novas, gerações novas, experiências novas, logo, um tipo de manifestação nova. Tenho a impressão que de agora para frente ficará mais difícil manter os discursos conservadores que ainda restam a respeito do potencial das redes sociais no país. De repente, pessoas que sempre foram acusadas de militância de “face” (Facebook) aparecem nas ruas, tornando suas reivindicações, “curtições” e “compartilhamentos” visíveis para os que ainda não aderiram por decisão pessoal ou ainda não puderam entrar no mundo das relações e comunicações virtuais. Além disso, manifestações de tamanha magnitude, majoritariamente convocadas pelas redes, só aumenta o drama dos meios tradicionais de comunicação, além de ser um triste incômodo para os que ainda pensam que mantém a hegemonia das pautas e interesses sociais dos diferentes coletivos.

O país assistiu manifestações horizontais, sem um comando único, descentralizadas, com pautas diversas, mesmo que inicialmente cadenciada pelo custo do transporte público. Se isso é bom ou ruim, aqui, não estou interessado. Apenas percebo que estas características inscrevem essas manifestações no rol de muitas outras, como Occupy Wall Street, nos Estados Unidos; Democracia Real Já, na Espanha; Yo Soy 132, no México; a Revolução dos Pinguins, no Chile, etc. Assim como estas, o junho brasileiro evidencia o protagonismo e as novas formas de manifestação pública neste início do século XXI.

Com o povo escancarando suas demandas nas ruas, volto a salientar que, aqui, não é o caso de analisar a profundidade ou pertinência das mesmas, em uma semana, o país que como uma princesa procurava aparecer em público com as roupas e a maquiagem de festa, teve que demonstrar como é o seu rosto no cotidiano, quando desperta em cada manhã. A chamada década includente, da qual o governo petista tanto se orgulha, não conseguiu diminuir os velhos e persistentes problemas estruturais na vida dos cidadãos, seja no transporte, saúde, educação, moradia, saneamento básico, etc., além de praticamente deixar intocável a gritante desigualdade entre ricos e pobres.

Torna-se difícil decifrar totalmente esse desconforto e raiva que as ruas presenciaram, mas é de se esperar, talvez tenha sido agora, um momento em que as pessoas já não suportem tanta quinquilharia ao custo de dívidas e mais dívidas. É insuportável fingir que está tudo bem porque se tem um trabalho que mal dá para cumprir com as obrigações do mês, infelizmente, uma dura realidade para a grande maioria da população. E mesmo para os que já taxaram as manifestações como coisa de classe média, com o que não concordo totalmente, esta também já se cansou de ruas abarrotadas de carros, com pouquíssimos investimentos em mobilidade urbana.

Para o Partido dos Trabalhadores, porque está no governo federal, o momento deve ser de avaliação e de humildade. Avaliação de seu projeto para a nação, do foco principal de suas ações, dos principais beneficiados de suas políticas, da submissão aos interesses privatistas e antipopulares. Humildade em reconhecer que cometeu erros, que se acovardou para conseguir a manutenção do poder e a governabilidade. É o preço que se paga.

Contudo, também é preciso deixar um recado para os velhos militantes dos movimentos sociais que ainda restam no país. Não tenham medo do futuro, dialoguem com as novas correntes de pensamento, com aqueles que não cabem em suas caixinhas. Não se prendam ao passado, nem se considerem guardiões do caminho para a revolução, pois a história repete algumas coisas, mas sempre traz novos elementos, que precisam ser capturados com a liberdade daqueles que não tem compromisso a não ser com o desejo de dias melhores. Não percam a dimensão da utopia!

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