Imperfeições mexicanas. Entrevista com Jorge Castañeda

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10 Julho 2012

Não é túnel do tempo. Após 12 anos de hibernação política, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que dominou o México de 1929 a 2000, voltou ao poder com Enrique Peña Nieto, presidente eleito no domingo passado, 1º de julho. Desbancou Josefina Vázquez Mota, do Partido Ação Nacional (PAN), de Felipe Calderón, e Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD), que por 0,56% não conquistou o Palácio Nacional em 2006 - desta vez, ficou na casa dos 6,5% de diferença do adversário.

A reportagem e a entrevista são de Juliana Sayuri, publicada no jornal O Estado de S.Paulo, 08-07-2012.

¿Por que o PRI? Tal qual as pontuações hispânicas, questionamentos sobre a vitória de Peña Nieto merecem um ponto de interrogação antes e um depois. Antes, devido às implicações de um legado político jurássico, manchado por corrupção e eleições forjadas; depois, devido ao futuro incerto diante do resultado do pleito presidencial, refutado por López Obrador e por movimentos como o universitário #YoSoy132 com cartazes, flâmulas e punhos em riste - um contraste com o decisivo dedazo de outros tempos. Entre outros alvos, jovens e estudantes criticam o favoritismo midiático gozado pelo galã priista recém-eleito. Casado com a atriz Angélica Rivera, estrela de novelas mexicanas que diversas vezes subiu ao palanque por el bombón, Peña Nieto foi o queridinho da Televisa durante a campanha.

Uma democracia imperfeita, talvez. No entanto, segundo Jorge Castañeda, não há retorno à chamada "ditadura perfeita", expressão cunhada pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa sobre o México.

Intelectual formado por Princeton e Sorbonne, Jorge Germán Castañeda Gutman se divide entre a Cidade do México e Nova York. Atualmente, o escritor e filósofo de 59 anos leciona no Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade de Nova York. Na arena acadêmica, já publicou obras como Utopia Desarmada: Intrigas, Dilemas e Promessas da Esquerda Latino-Americana e Che Guevara, a Vida em Vermelho (ambas editadas pela Companhia das Letras no Brasil).

Na cena política, foi chanceler do governo de Vicente Fox, que rompeu a hegemonia de sete décadas do PRI, e viu naufragar o sonho de disputar a presidência mexicana - em setembro de 2009, em entrevista ao Aliás, disse que só se lançaria candidato se um dos partidos o aceitasse, pois era tarde demais para formar um novo partido a tempo de concorrer em 2012.

Arguto analista da política latino-americana, dispara críticas em publicações como El País, La Jornada, Le Monde e The New York Times. Da Cidade do México, Jorge Castañeda conversou com a reportagem na quinta-feira. No dia seguinte viu suas apostas políticas confirmadas: após a recontagem dos votos, o PRI voltou mesmo ao poder.

Eis a entrevista.

Que heranças do PRI traz Peña Nieto? Há risco de um retorno à 'ditadura perfeita'?

Não acredito nisso. Não porque o PRI tenha mudado - não sei se mudou ou não. Entretanto, sei que o México mudou. Assim, Peña Nieto, eleito, é muito diferente dos outros presidentes do PRI. A começar, justamente, porque foi eleito - os outros presidentes foram simplesmente "nomeados". Portanto, independentemente de suas convicções políticas, de suas crenças e de seus compromissos - que, quero acreditar, sejam democráticos -, é importante frisar que se trata de um presidente eleito. Porém, ainda não podemos saber que implicações terão as heranças do partido na política atual, pois não sabemos com quem governará, com quem se aliará. O que podemos saber é o que foi o PRI antes. Talvez o PRI até continue o mesmo, mas o contexto é radicalmente diferente. Muita coisa mudou nos últimos 10, 15 anos no México. Foram mudanças econômicas, sociais e políticas, em termos de transparência e em outros aspectos. Mudou menos do que se esperava, menos do que é necessário e menos do que é possível. Mas as mudanças são muito positivas. Temos pela primeira vez na história mexicana uma democracia representativa que funciona. Isso é novo e sinaliza que há perspectivas boas. Esse resultado eleitoral, porém, me faz pensar que avançar não será tão fácil assim.

O resultado das eleições foi alvo de muitas críticas e protestos, tanto que López Obrador se recusou a reconhecer a vitória e pediu a recontagem dos votos.

A recontagem está seguindo o procedimento previsto pela legislação eleitoral, que é muito complicada. É um processo legal, mas inútil, pois não mudará o resultado. López Obrador está lançando ilusões, fazendo acreditar que ao recontar os votos o resultado será diferente. Não será. E isso supondo que votos foram comprados pelo PRI. Se eles compraram, compraram antes. O que há nas urnas é o que há. Pode-se contar quantas vezes quiser, que o resultado será o mesmo. Não mudará nada. López Obrador agora está argumentando que se tratou de uma eleição fraudulenta, mas foi uma eleição feita com uma lei que seu partido fez em 2007. É a lei que eles fizeram.

Em artigo para The Washington Post, traduzido e publicado no Estado, o sr. diz que as eleições tiveram um resultado contraditório.

A principal contradição é que as pessoas votaram pelo PRI para a disputa presidencial, mas não lhe deram maioria em nenhuma das casas do Congresso. Eles votaram contra o PAN em todo o país, mas a favor do PAN em Estados governados pelo PRI e onde há violência. E votaram pelo PRD em alguns lugares e com uma porcentagem muito alta - e, no entanto, o mapa do PRD está ficando cada vez menor. Então, as eleições mostraram votos contraditórios, que apontam para direções diferentes. Da população 60% votou pelo PRD no distrito federal, mas fora isso restam menos de 25% dos que votaram no PRD no restante do país. Por outro lado, o PRI é muito forte no resto do México, apesar de ser incrivelmente débil no distrito federal. As propostas de Peña Nieto são muito ambiciosas, e sem o apoio do PAN será impossível alcançá-las. Agora, o novo presidente deverá ver como se complementam as duas agendas: a agenda política do PAN (com a qual Peña Nieto não está de acordo) e a agenda econômica do PRI (com a qual o PAN está de acordo, mas que não vai aprovar se o PRI não lhe der parte da agenda política).

Que país entregará Felipe Calderón ao novo presidente?

Em muitos aspectos, Felipe Calderón fez um bom governo, exceto por um aspecto catastrófico: a guerra contra o narcotráfico, que custou 60 mil mortos e US$ 60 bilhões a seu governo. O confronto não deu nenhum resultado, a não ser pelos custos enormes para o país. Assim, é muito difícil colocar esse "detalhe" entre parênteses. Certamente, o resto foi bem. Mas só bem, não extraordinário, sob nenhum ponto de vista. Tampouco foi um governo péssimo, apesar dessa exceção. Mas a exceção é tão grande e tão grave que é muito difícil deixá-la de lado.

Mas o governo de Peña Nieto se inicia com a promessa de 'nem trégua nem pacto com narcotráfico'. O que se pode esperar?

Não sei, mas não se pode dizer se haverá trégua ou se haverá pacto, pois há uma pergunta muito complicada aí: se ele não pretende repetir o que fez Felipe Calderón, o que fará de diferente? E, se repetir o que fez o antecessor, por que dessa vez os custos seriam menores? Afinal, esta é uma guerra que não se pode ganhar. Nunca se pôde ganhar, nunca se poderá ganhar. É um conflito com custos elevadíssimos e nenhum resultado. O papel dos EUA nessa guerra? Eles não a iniciaram. Foi uma guerra iniciada por Calderón por razões políticas, desencadeando uma violência inédita. No entanto, uma vez iniciada a guerra, os EUA se meteram muito. Agora pressionam para que Peña Nieto dê continuidade a ela. E querem isso por quê? Porque, afinal, os mortos não são deles. Os mortos estão aqui. Assim, a única alternativa é concentrar os esforços não em combater o narcotráfico, mas em combater a violência que afeta as pessoas: o sequestro, a extorsão, os homicídios. Essa é uma decisão muito difícil. Não sei que direção tomará Peña Nieto.

Em entrevista ao Aliás em 2006, o sr. disse que López Obrador era uma espécie de 'PRI honesto'. Ainda pensa assim?

Sim, mas quis dizer "honesto" como "não corrupto" - e não no sentido "intelectualmente honesto". López Obrador diz mentiras, e sabe disso. Por exemplo, ao dizer que financiará as propostas de seus programas sociais reduzindo os salários dos altos funcionários. Os altos funcionários mexicanos não chegam a mil. E os custos de seus programas sociais chegariam a centenas de milhões. A pior parte é que isso apela ao senso comum da população. As pessoas veem que os altos funcionários mexicanos ganham muito e, sim, talvez deveriam ganhar menos. Mas isso é uma questão ética, não é uma questão macroeconômica. Isto é: sim, acredito que ele não seja corrupto, mas é intelectualmente desonesto. O verdadeiro PRI velho é López Obrador, um velho populismo latino-americano clássico e, sim, especialmente mexicano. Peña Nieto, por outro lado, não mentiu nas propostas. Mas alguns aspectos tampouco estão claros, pois lançou propostas que custam muito dinheiro. Boas, mas custam muito. E, na verdade, não há financiamento previsto para esses custos. Há aí um elemento de ausência, mas não uma invenção de milagres.

Como definir o movimento #YoSoy132?

Está alinhado a López Obrador, denunciando fraudes, não reconhecendo nem as autoridades nem a vitória de Peña Nieto. Eles querem levar o protesto às ruas. Enquanto López Obrador mantém os protestos dentro das instituições, o movimento pretende levá-los às ruas. Tenho a impressão de que há muitos estudantes que de boa fé pensaram que esse era um movimento pela democracia, mas acabaram se tornando simplesmente seguidores de López Obrador e de uma luta perdida. Sim, é um movimento legítimo. Mas não se apresenta como o que realmente é. A princípio se mostrava apartidário e lutando por certas demandas democráticas. Agora se mostra claramente como um movimento muito alinhado a um partido. É perfeitamente legítimo. Mas talvez seria melhor não esconder isso e se apresentar abertamente. São simpatizantes de López Obrador, ponto.

Como analisa a atual esquerda no México?

O melhor exemplo para compreender o que é a esquerda latino-americana é o que aconteceu no Chile nos últimos dez anos. Ali há claramente duas esquerdas: a esquerda dentro da Concertación, com variações distintas, alguns mais radicais, outros menos, mas fundamentalmente uma esquerda democrática e globalizada, como Ricardo Lagos e Michele Bachelet; e a outra, do Partido Comunista, uma esquerda totalmente tradicional, pró-cubana, antiamericana e às vezes antidemocrática. No México, toda a esquerda é como o Partido Comunista chileno, que deve ter 8% ou 9% dos votos. Assim, nunca chegará à presidência. Podem ganhar em alguns Estados, podem ter parlamentares, mas ninguém conseguirá levá-los à presidência. Estão demasiadamente arraigados à ideia de que são uma esquerda radical. Mas dizer que a esquerda mexicana é parte da esquerda latino-americana, não. Pode ver o PT, que está no governo desde 2002 no Brasil. O PT foi mudando e por isso continua ganhando. Eles não se mantiveram nas velhas posições. Preferiram se globalizar e se modernizar. Às vezes podem manter um pouco da retórica tradicional, mas suas práticas são completamente diferentes. No México, não querem enfrentar os temas teóricos e programáticos importantes para o país. Discutem posições conjunturais, mas não os temas fundamentais com os quais a esquerda deveria se preocupar: reforma ou revolução? Globalização ou autarquia? Democracia ou via insurrecional? Aceitação da democracia representativa ou regime autoritário à la cubana? Nada disso discutem. Por enquanto, é impossível esperar por uma esquerda renovada no México. Talvez com o tempo, com uma nova geração.

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