Balanço latino-americano feito por Jorge Castañeda

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05 Janeiro 2011

“A América Latina encerra um bom ano, um dos menos ruins há muito tempo. Prêmio Nobel de Literatura; eleições equitativas; mineiros resgatados; recuperação econômica; e nenhum grande contratempo político maior. Para uma região acostumada ao desastre, natural e humano, não está mal.”

A análise é de Jorge Castañeda, chanceler mexicano e professor da Universidade de Nova York e da Universidade Nacional Autônoma do México, em artigo para o jornal El País, 04-01-2011. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

A América Latina encerra um bom ano, um dos menos ruins há muito tempo. Tocou-nos um Prêmio Nobel de Literatura; eleições equitativas, detalhes mais, detalhes menos em vários países; mineiros resgatados; uma recuperação econômica mais vigorosa que a esperada, e nenhum grande contratempo político maior. Para uma região acostumada ao desastre, natural e humano, não está mal.

Claro: o terremoto do Haiti se transformou numa das piores tragédias da história moderna da região. Países como Guatemala, Honduras e Nicarágua se acercam perigosamente ao umbral do narco-Estado falido, e a guerra optativa de Felipe Calderón contra o crime organizado no México cobrou mais de 10.000 mortes adicionais. São, no entanto, exceções que não devem distrair a atenção das tendências mais profundas que as boas notícias de hoje permitem discernir com maior clareza.

A primeira tendência, que obviamente vinha na retaguarda, mas que em 2010 se perfilou com maior nitidez, consiste na divisão cada vez mais marcante e duradoura da América Latina em duas regiões diferentes, separadas por duas formas bem distintas de integração à economia global. Com a possível exclusão da Colômbia, que se encontra a cavalo sobre ambas as esferas, a América do Sul empreendeu um caminho econômico internacional radicalmente distinto daquele do México, da América Central e do Caribe. Suas elevadas taxas de crescimento em 2010 e sua rápida recuperação provêm essencialmente do mesmo boom de comodities que deu lugar à expansão de 2003-2008, a mais prolongada e intensa desde a década dos setenta.

Graças à insaciável demanda chinesa e indiana de matérias primas, alimentos e outros bens semi-processados, os países da área abençoados por uma dotação extraordinária de recursos naturais em relação à sua população, crescem com taxas desconhecidas desde há 40 anos. Chile e Peru com cobre e ferro, Argentina e Uruguai com soja, Colômbia com carvão e café, vários outros com petróleo e o Brasil com quase tudo, voltam hoje à época de ouro de precisamente antes e depois da Primeira Guerra Mundial. Enquanto a demanda asiática se mantiver e, portanto, os preços das matérias primas também, estas economias seguirão expandindo-se. Vale a pena sublinhar um dado: inclusive o Brasil, o exportador de manufaturas mais importante da América do Sul, hoje padece a proporção de produtos básicos sobre exportações totais mais alta desde 1978, apesar dos aviões Embraer e os automóveis flex.

Estes países crescem, gozam de um comércio exterior e inversão estrangeira a diversificados, e sua inserção na economia global é mais simples e plural do que a do restante da região. O principal sócio comercial do Brasil e do Chile é a China, enquanto os Estados Unidos, da mesma forma que desde os anos trinta, não rebaixa um terço das vendas externas brasileiras e, em algumas ocasiões, até menos de 20%. O mesmo sucede com a Argentina, o Peru e a Venezuela que tem visto diminuir, por razões meio incompreensíveis, suas vendas de petróleo às refinarias do golfo do México. Por outro lado, todas estas nações, umas mais do que outras, recebem inversões do mundo inteiro, porém com a exceção do Uruguai e do Equador, o turismo e as remessas procedentes de países ricos não pesam.

Em síntese, a América do Sul desfruta agora das delícias do commodity-boom gerado pela China e pela Índia e depende menos do que antes da economia norte-americana, possuindo uma agenda limitada com Washington: o acordo de livre comércio da Colômbia, a renegociação da dívida argentina, algo do narcotráfico no Peru, na Bolívia e, novamente, na Colômbia.

A situação no México, na América Central e no Caribe é outra. Para começar, não se trata de exportadores de produtos básicos: o México tem petróleo, mas este representa uma porcentagem mínima de suas vendas externas; os países centro-americanos são pequenos produtores de açúcar, café, algodão e banana, porém os ingressos geados por ditos produtos empalidecem comparados com outros. São – México, mais que outros, - exportadores ou maquiladores de confecção, têxteis, automóveis e, em geral, produtos manufaturados ou semiprocessados, destinados em grande medida aos Estados Unidos. Mas, também são receptores de turismo norte-americano (México, República Dominicana, Costa Rica), de remessas enviadas dos Estados Unidos por seus migrantes (México, El Salvador, Honduras, Guatemala e República Dominicana) e vendas ou trânsito de drogas para os Estados Unidos (México, América Central e República Dominicana).

Estes países, além de possuírem uma intensa e enorme agenda com os Estados Unidos, a solução de muitos de seus desafios e o desempenho de suas economias se vêem estreitamente vinculados à evolução da economia e da política norte-americanas. Para o bem ou para o mal, pertencem a um espaço econômico e social (entre 10 a 25% de sua população residem nos Estados Unidos) distinto daquele da América do Sul, cada vez mais integrado na América do Norte. Quando aos Estados Unidos as coisas vão bem, a eles igualmente; quando não, tampouco a eles. Esta divisão não parece reversível: a Bacia do Caribe é uma; a América do Sul, outra. 

A segunda grande tendência reside na expansão contínua e, aparentemente, também irreversível da classe média latino-americana. Por distintas razões, em diversos países e em maior ou menor escala, com uma precariedade superior ou delimitada, algumas sociedades da região já são majoritariamente de classe média, e outras vão rapidamente a esse status. Os casos mais notórios são Chile, Brasil, Uruguai e México, onde, apesar de leves retrocessos devido à recessão de 2009, mais da metade da população pode e deve ser considerada de classe média, tanto por sua renda como por sua forma de vida e seus níveis de consumo.

Acesso ao crédito hipotecário em particular, capacidade de compra de automóveis, televisores de plasma, telefones móveis, férias, seguros médicos privados, educação superior privada para os filhos; graus de educação básica e informação por um lado lamentáveis, porém pelo outro imensamente superiores aos de 15 anos atrás; exigências de segurança e ordem anteriormente inalcançáveis: eis aqui as características da nova classe média baixa latino-americana, produto de três lustros de crescimento econômico acelerado (Chile) ou medíocre sustentado (México, Brasil).

De acordo com cifras da OCDE, em 2008, 53% da população mexicana se situou dentro da classe média; o índice médio da América Latina foi de 46%. As cifras do Uruguai são melhores, segundo o clube dos países ricos; as do Chile e do Brasil ligeiramente inferiores, embora, segundo instituições como a Fundação Getúlio Vargas, a classe média brasileira já alcança mais de 55% da população. Embora em vários casos a deterioração econômica de 2009 pode ter implicado um retrocesso, somente uma débâcle prolongada interromperia esta tendência: é produto de mais de 15 anos de estabilidade econômica e financeira, de inflação controlada e de taxas de interesse e preços de bens e serviços cada vez menores.

Desta tendência deriva a terceira, igualmente transcendente. Esta nova classe média baixa, embora em certas ocasiões ainda seja presa da informalidade e da ausência de proteção social, ainda com acesso a uma educação deficiente para si e seus filhos, se converteu na tão demorada e anelada base social da democracia na América Latina. Tem muito a perder com aventuras populistas e desequilíbrios financeiros, com golpes de governo abruptos e pleitos internacionais, com uma retórica desmedida e uma corrupção ascendente. Vota por governos de centro-esquerda, quando governam bem, ou por regimes de centro-direita quando se fartam ou se espantam, porém obrigam a quem esteja no poder a manter-se numa ação governamental democrática, no centro ideológico, na ortodoxia macro-econômica, na moderação internacional e na sensibilidade social para continuar expandindo a classe média e seguir reduzindo a pobreza.

Não há garantias nesta matéria: nunca se sabe quando um novo descalabro econômico, interno ou exógeno, leve estas classes médias ao desespero. No momento tem se transformado no melhor baluarte da democracia e a sensatez na América Latina, dois traços que sempre haviam brilhado por sua ausência na região, e que hoje surpreendem por seu vigor e onipresença. São como a pesado muralha, ou a quilha profunda da grande embarcação latino-americana que, por fim, parece ter encontrado seu rumo.

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