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17 Janeiro 2012

Quatro traços que podem resumir a contribuição teológica de Gustavo Gutiérrez. O problema das relações entre a libertação histórica e a salvação ultra-histórica. A crítica de um cristianismo desfigurado que reduziu a fé a uma esperança no além, em que o aquém da nossa história só servia para merecer ou comprar o bilhete desse além.

A análise é o teólogo espanhol José Ignacio González Faus, em seu blog, Miradas Cristianas, 15-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Sem muitos preâmbulos, gostaria, nesta homenagem, de assinalar quatro traços que podem resumir a contribuição teológica de Gustavo Gutiérrez.

1. Não há salvação sem trabalho pela libertação

A primeira característica é ter proposto, desde o começo, o problema das relações entre libertação histórica e salvação ultra-histórica.

Um cristianismo desfigurado havia reduzido a fé a uma esperança no além, em que o aquém da nossa história só servia para merecer ou comprar o bilhete desse além. Tal cristianismo se chocava com a pergunta central de Gustavo: "Como falar de um Deus Pai a quem nem sequer é homem?", tornando quase impossível a evangelização dos pobres que é distintiva da missão de Jesus (Mt 11, 5; Lc 4, 18). E, além disso, desfigurava e desvalorizava a Ressurreição de Jesus, cujo ensinamento é que a salvação escatológica deve ir sendo gerada e antecipada já nesta história.

Desse tema que Gustavo propôs já em sua Teologia da Libertação, brotou, depois, o lema tão difundido em uma América Latina assolada pela injustiça "Sem insurreição, não há ressurreição".

2. Da "força histórica dos pobres" aos "pobres de Jesus Cristo"

A primeira expressão é título de outra das primeiras obras de Gustavo. A constatação de uma força histórica dos pobres podia ser um fato da situação daquelas horas. Mas é evidente que essa força histórica desapareceu pouco depois por causa da reação do império do deus dinheiro. Gustavo, então, passou a falar dos "pobres de Jesus Cristo" no título de sua esplêndida obra (talvez a melhor) sobre Bartolomeu de Las Casas. A força teológica dos pobres compensou a sua perda de força histórica.

Com isso, se deu destaque a outra das teses mais decisivas da teologia da libertação: que o problema da pobreza e a eliminação da pobreza não é meramente um problema ético: é primariamente uma questão cristológica e, portanto, também um assunto teologal em que está em jogo a verdade de Deus ou a idolatria. Por isso, quando, mais tarde, aproveitando a queda do Leste, lançou a pergunta capciosa sobre o que restava da teologia da libertação, o bispo Casaldáliga pôde responder simplesmente: restam os pobres e resta o Deus dos pobres. Ou seja: resta tudo.

Nesse ponto, talvez, algum dia, se estude a influência da Guamán Poma em algumas formulações de Gustavo. Eu suspeito que o estudo valeria a pena. Eu me limito a sugerir uma comparação entre duas canções "de igreja": a) o hino final da missa salvadorenha canta: "quando o pobre acreditar no pobre (...) construiremos a fraternidade" e poderemos cantar a liberdade etc.; b) em contrapartida, outra conhecida canção da época (Pequeñas aclaraciones) parte de um pressuposto similar (quando o pobre nada tem e ainda reparte, quando um homem passa sede e nos dá água...), mas não deduz daí nenhum prognóstico histórico, mas sim um juízo teológico: não se diz que, então, construiremos alguma coisa, mas sim que "Deus mesmo vai em nosso caminhar". Com isso, outra vez, a teologia e a práxis da libertação se convertem experiência espiritual.

Essa é a força teológica dos pobres. E, já que citamos Las Casas, completemos dizendo que o grande dominicano não só é exemplo pela sua defesa profética dos direitos dos oprimidos (ainda mais se são oprimidos em nome de Deus), mas também pela sua concepção da evangelização (essa sim, verdadeiramente "nova"): porque "Cristo concedeu aos apóstolos somente a licença e a autoridade para pregar o evangelho aos que queiram ouvi-lo, mas não a de forçar ou de inferir algum incômodo ou desagrado aos que não queiram ouvi-lo". E, por sua vez, "a Igreja não tem mais poder na terra do que Cristo teve".

3. "Falar de Deus a partir do sofrimento do inocente"

Essa força teológica dos pobres se desdobra no título da obra mais conhecida, talvez , de Gustavo. Trata-se de um breve comentário sobre o Livro de Jó, que evoca o esplêndido verso de César Vallejo ("Deus meu, estou chorando o ser que vivo"), grande poeta peruano muito citado nessa obra. Gustavo destaca como toda teologia que pretenda falar e especular sobre Deus à margem da dor deste mundo (sobretudo da dor injusta) se converte em uma linguagem comparável à dos amigos de Jó, "consoladores inoportunos" e irrepreensíveis "ortodoxos" de um deus falso, ao qual acreditam poder defender à custa do sofrimento do seu amigo.

Mas com isso não fazem mais do que ofender a Deus, falar falsamente dele e converter a sua suposta ortodoxia em uma blasfêmia, até se verem desautorizados pelo próprio Deus no fim do livro. Em contrapartida, Jó, protestando contra a injustiça que se comete contra ele, é um testemunho mais verdadeiro de Deus do que todos os que "se acostumaram" a essa injustiça. Essa injustiça vai lhe ajudar a sair de si mesmo e da sua dor diante do drama do sofrimento injusto do mundo, para compreender que não há nada que justifique a dor injusta de um ser humano.

Com delicadeza e boas palavras, acredito que poucas vezes se deu um aviso tão sério a toda essa teologia meramente acadêmica que está querendo revitalizar entre nós a raiz da involução eclesial e que, sob capa de ortodoxia, está elaborando uma idolatria ou uma reflexão sobre um deus falso. E deixa proposto a toda a Igreja o mais decisivo de todos os seus problemas: o da identidade de Deus, tantas vezes deformada pelos fiéis e causa (segundo o Vaticano II) de boa parte do ateísmo moderno.

Conhecer Jesus é seguir Jesus, disseram com frequência os teólogos latino-americanos. E falar de Deus envolve um "praticar Deus", segundo a expressão de Gustavo. Jó é levado a uma experiência de gratuidade que lhe deixa desconcertado perante sua própria dor, mas lhe move profeticamente a trabalhar contra toda a dor do mundo. Teologia e santidade (assim como justiça e paz) se beijam para Gustavo.

4. Fidelidade eclesial

Infelizmente, como não podia deixar de ser, Gustavo se viu ultrajado e perseguido por uma Cúria Romana cada vez mais cega e que pretende articular em todo o episcopado mundial uma confirmação da sua cegueira. Ele não foi o único em nosso hoje nem em nosso ontem: mantendo-se no âmbito de fala hispânica, será preciso evocar que santos e doutores da Igreja como João de Ávila, Teresa de Jesus, Luís de Granada ou o arcebispo Carranza viram postos no Índex de livros proibidos algumas de suas obras e suportaram dificuldades com a Inquisição?

Mas o que aqui merece ser destacado é a fidelidade e a exemplaridade da reação de Gustavo, em meio às dores absurdas que só ele conhece. Evoquei outras vezes como, em Madri, em um congresso de teologia, diante de perguntas capciosas que pretendiam propôr-lhe uma opção entre a Igreja e os pobres, Gustavo se negou a aceitar o dilema e confessou que ele amava essa Igreja pecadora "com um amor de antes da guerra".

Bom ponto de referência para muitos que hoje compartilharam o seu mesmo destino crucificado. E boa lição histórica sobre a fecundidade do seguimento crucificado de Jesus de Nazaré, que confirma o que aconteceu com Lagrange, Rahner, Congar, De Lubac... e outros mártires da teologia do pré-Concílio Vaticano II, reivindicados depois no concílio.

As peripécias e as reviravoltas dessa fidelidade (que precisou também da astúcia das serpentes sem perder a simplicidade das pombas) não devem ser evocadas aqui e são suficientemente conhecidas. Só uma palavra de gratidão para os filhos de Santo Domingo que salvaram para a Igreja essa pequena joia e permitiram que Gustavo se convertesse em irmão de seu querido Bartolomeu de Las Casas.

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