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22 Dezembro 2011

O "pai nobre" da Teologia da Libertação foi valorizado por ocasião de uma apresentação oficial do livro do Papa Ratzinger sobre Jesus. Exatamente enquanto o seu nome é utilizado instrumentalmente nas manobras em torno da nomeação do próximo prefeito do ex-Santo Ofício.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 20-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ao arcebispo de Oristano, Ignazio Sanna, estimado por muitos pela liberdade e pela clarividência do seu olhar pastoral sobre as coisas da Igreja e do mundo, também deve ser reconhecida uma dose de coragem incomum. Foi possível ver isso durante a última etapa do ciclo de apresentações universitárias do livro Jesus de Nazaré, de Joseph Ratzinger-Bento XVI, coordenado pela Livraria Editora Vaticana e pelo professor Pierluca Azzaro (Università Cattolica del Sacro Cuore), que concluiu na Universidade de Sassari no dia 9 de dezembro passado.

Nessa ocasião, no seu rico discurso dedicado à obra ratzingeriana, o bispo da Sardenha também falou em termos de admiração e de reconhecimento sobre o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, por ele definido como "o pai nobre da Teologia da Libertação".

Em uma passagem da sua fala – que não foi retomada pelas notícias do L'Osservatore Romano nem pela síntese do relatório publicado no site da diocese de Oristano –, Dom Sanna repropôs a conexão captada por Gutiérrez entre os relatos evangélicos da Última Ceia e o lava-pés. No Evangelho de João, Jesus pede aos seus que repitam esse gesto de acolhida e de humildade – do qual se faz memória em todas as paróquias durante a missa da Quinta Feira Santa – com palavras semelhantes às por ele usadas nos Evangelhos sinóticos com relação à instituição da Eucaristia. "Servir o pobre", acrescentou Sanna, concordando com a sugestão de Gutiérrez, é "um modo de fazer memória de Cristo".

Nestes tempos, até mesmo o simples consenso tributado às reflexões exegéticas de Gustavo Gutiérrez assume um caráter emblemático. Nas últimas semanas, o nome do teólogo peruano foi utilizado como arma contundente nas manobras em curso em torno da iminente nomeação do novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Entre os possíveis sucessores do cardeal norte-americano William Joseph Levada, atualmente à frente do ex-Santo Ofício, o jogo de previsões de nomeações tinha inserido também o bispo de Regensburg, Gerhard Ludwig Müller, curador da Opera Omnia de Joseph Ratzinger. Os não entusiastas dessa hipótese, na tentativa de sabotar a candidatura do bispo-teólogo alemão, estão usando como principal argumento impeditivo a sua amizade e a sua jamais escondida proximidade com Gustavo Gutiérrez, que também foi professor de Müller.

Em particular, como certificado de não idoneidade ao papel de guardião da doutrina católica, é lembrada a conferência pública proferida por Müller em Lima, em 2008, durante a cerimônia de entrega do doutorado honoris causa a ele concedida pela Pontifícia Universidade Católica do Peru. Nessa ocasião, o bispo de Regensburg havia definido como plenamente ortodoxa a teologia do seu mestre e amigo peruano.

A 40 anos da publicação do seu livro, Teología de la Liberación, que inaugurou a própria definição da conhecida corrente teológica latino-americana, o padre Gutiérrez – que entrou para a ordem dominicana em 1999 – poderia ser tentado por orgulho profissional a ver que ainda hoje a aproximação do seu nome é central para a seleção do novo guardião da ortodoxia católica. Na realidade, mais do que documentar a contínua influência do teólogo de 83 anos que foi aluno de gigantes do calibre de Henri de Lubac e Yves Congar, a "operação Gutiérrez" em curso nos palácios do outro lado do Tibre diz muito sobre os mecanismos que influenciam a cooptação de novos dirigentes nos dicastérios do Vaticano.

As obras de Gutiérrez foram avaliadas durante anos pelo exame rigoroso da Congregação para a Doutrina da Fé na sua longa fase ratzingeriana, sem jamais sofrer qualquer condenação. O longo discernimento visava sobretudo a obter do autor um distanciamento público de algumas interpretações errôneas da sua reflexão teológica – jamais posta em causa enquanto tal – e de alguns abusos pastorais que nela se diziam inspirar.

O longo discernimento, que durou de 1995 a 2004, também envolveu o episcopado peruano e se concretizou na escrita de um ensaio – intitulado La Koinonía eclesial –  longamente retocado pelo próprio Gutiérrez, em linha com as observações provenientes de Roma e publicado na sua versão final na revista Angelicum em 2004. O próprio Ratzinger, no dia 17 de dezembro daquele ano, escreveu uma carta ao dominicano argentino Carlos Alfonso Azpiroz Costa – naquele tempo Mestre Geral da Ordem dos Pregadores – em que dava "graças ao Todo-Poderoso pela satisfatória conclusão deste caminho de esclarecimento e de aprofundamento".

As garantias certificadas pessoalmente por Joseph Ratzinger sobre a ortodoxia católica de Gutiérrez deveriam ser suficientes para tranquilizar aqueles que se mostram mais ansiosos com o destino da reta doutrina. A própria trajetória do teólogo peruano, com a sua constante disposição de fidelidade com relação ao magistério eclesial, poderia fornecer um ponto de referência concreto para reconhecer as válidas intuições que estiveram na origem da Teologia da Libertação e favorecer uma reconciliação pacificadora da memória no interior do catolicismo latino-americano e de toda a Igreja universal, depois do tempo das guerrilhas teológicas e das campanhas de "normalização".

Mas talvez, para alguns amantes do xadrez dos organogramas vaticanos, é mais cômodo que o nome de Gutiérrez continue sendo um espantalho para ser agitado ao ritmo dos velhos clichês, quando convém.

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