Teólogo jesuíta escreve carta de despedida para Zapatero

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29 Outubro 2011

"Nunca acreditei que você fosse uma reencarnação do Satanás, mas sim um homem de boa vontade". O comentário é de José Ignacio González Faus sobre José Luis Zapatero, presidente da Espanha, em artigo publicado no sítio Religión Digital, 28-10-2011. A tradução é do Cepat.


Eis o artigo.

Não vou comentar a infinidade de rumores que se ouve sobre você desde o mundo da política e da igreja. Prefiro não considerar essas desautorizações globais, sobretudo, as que vêm do episcopado espanhol. Nunca acreditei que você fosse uma reencarnação do Satanás, mas sim um homem de boa vontade. Apenas quero comentar duas experiências pessoais dos seus dois governos.

Agradecendo a rápida saída do Iraque, devo falar da grande esperança frustrada em sua gestão da coisa pública, ao fato de que poderes externos a este país impuseram medidas econômicas contrárias aos seus critérios aos seus valores e você não teve a coragem de se afastar e convocar novas eleições. Traiu seus princípios e nos enganou dizendo que aquilo era "ser socialista" no momento.

Adolfo Suarez, demitiu-se em circunstâncias não tão duras quanto a sua. Ouvindo-o não pude deixar de lembrar de Groucho Marx: "Estes são meus princípios, se não gostam, tenho outros". Eu nunca entendi o seu comportamento desde então, mesmo admitindo que você decidiu imolar e sacrificar o seu futuro para salvar a Espanha. Receio que foi um sacrifício irracional e inútil. Muitos economistas, na linha de P. Krugman, dizem que a política seguida pela UE e pelo BCE para sair da crise é equivocada e contraproducente. Sem entrar em discussões técnicas, o fato é que esperávamos muito mais de você.

Apenas consigo explicar essa contradição a partir de uma outra característica que nunca compreendi em você e que qualifico como "fundamentalismo do progresso": uma convicção inexorável de que tudo o que vem pela frente traz o progresso, de que a história marcha inevitavelmente para a frente, e, neste sentido, vale aumentar as pensões como cortá-las... Esta convicção se vê em muitos atos de seu governo, e levou-o a fazer promessas ingenuas que não pode cumprir. Tal ingenuidade sobre o progresso, eu não concordo, exatamente porque tento ser progressista. Eu lhe peço que  leia o que dizem sobre o nosso progresso eminentes figuras da esquerda como Walter Benjamin e Simone Weil.

Mas, embora possa não parecer, o objetivo destas linhas não é de criticá-lo publicamente, mas agradecer por um grande mérito que quase ninguém parece reconhecer: Durante esses oito anos tivemos uma rádio e uma televisão pública independente, plural, neutra e onde se teve espaço para todas as sensibilidades do nosso mapa político. Desde a RNE eu ouvi críticas duras ao seu governo e debates que abriram espaços aos mais hostis ao PSOE.

Temo que isso iremos perder nos próximos anos, quando voltaremos para aqueles jornais do PP que eram verdadeira catequese, e aqueles debates de vozes monocórdicas onde todos cantam a mesma música, sem uma fresta para a dissidência. Eu parei de ouvir a rádio nacional durante o primeiro governo de Aznar e acho que terei que fazer isso de novo, para não ouvir os mesmos slogans de sempre: "é tão ruim essa oposição" ou "A Espanha vai bem" (quando já se estava incubando a bolha que estouraria mais tarde). Isso eu quero lhe agradecer publicamente, quem sabe os outros aprendam.

Prefiro também que o seu partido vá para a oposição, não caia na armadilha pepera [relativo ao PP – partido de direita espanhola] de bajulação grosseira de sentimentos patrióticos como forma de ser tornar simpático. Dizer, com Rajoy, que "este é um grande país", acho estúpido. Países não são melhores ou piores, pela sua natureza, são todos iguais, têm as mesmas possibilidades humanas e passam por épocas melhores ou piores segundo a gestão dos seus homens. Hoje em dia eu não acho que se deva esperar muito de nós mesmos.

Não dá para esperar muito de um país onde os seus dirigentes bancários atribuem a si ganhos e aposentadorias superiores a um milhão de euros, onde não foi possível conseguir um pacto pela educação, onde a liberdade de expressão é confundida com falta de respeito, onde a sonegação fiscal é umas das maiores da Europa (apesar de nossa carga tributária ser uma das menores) e não apenas comemorar vitórias desportivas que podem ser agradáveis, mas secundárias. Um país grande é outra coisa, e não acredito que nesse momento, estamos na direção que leva a isso. Talvez essa bajulação barata, que faz com que se consiga votos no curto prazo, seja uma das causas que colocaram a classe política  no centro das preocupações das pessoas.

Mas tudo isso é outra conversa. O importante aqui é lhe agradecer porque tivémos meios de comunicação suportáveis durante estes dois governos. E terminar com a tópica despedida, que ao menos agora "não vamos te encher o saco".

 

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