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Entrevistas

''Mãe da psicologia''? Subjetividade, liberdade e autonomia em Teresa de Jesus. Entrevista especial com Lúcia Pedrosa-Pádua

“Uma escritora moderna e humanista” que “não teme a liberdade e a autonomia”, mas, ao contrário, reconhece que “estas estão intrinsecamente relacionadas ao amor”: é assim que Lúcia Pedrosa-Pádua, professora de Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, relata a pessoa de Teresa de Jesus (1515-1582), santa religiosa e escritora espanhola proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Paulo VI.

Para Lúcia, a subjetividade construída por Teresa é “integral e relacional”, manifestando-se já a partir do seu Livro da Vida, escrito em primeira pessoa. “Na conclusão do Castelo Interior aconselhará suas irmãs, nem mais nem menos, a entrar e passear em seus castelos interiores em qualquer hora, pois para isso não é necessária a licença das superioras! Teresa não teme a liberdade e a autonomia, ao contrário, estas estão intrinsecamente relacionadas ao amor”, explica.

Por isso, devido à “filigrana de suas narrativas interiores”, alguns a definem como a “mãe da psicologia”. “Teresa nos lembra como é importante manter a integralidade e a relacionalidade da subjetividade. Trata-se de uma subjetividade amorosa, audaz e livre”, comenta Lúcia.

Lúcia Pedrosa-Pádua é professora de Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. Graduou-se em Teologia pela FAJE – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, e doutorou-se pela PUC-Rio. É bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Estudou no Centro Internacional de Estudos Teresianos e São Joanistas de Ávila (Espanha) e fez estudos de pós-doutorado na Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma, Itália. É organizadora, com Mônica Baptista Campos, do livro Santa Teresa: mística para o nosso tempo (PUC-Rio/Reflexão, 2011). Dentre suas outras obras, destacamos: O humano e o fenômeno religioso (Ed. PUC-Rio, 2010), Juventude, Religião e Ética: reflexões teológico-práticas sobre a pesquisa “Perfil da Juventude na PUC-Rio” – org. (Ed. PUC-Rio, 2010). É professora responsável pelo Grupo Moradas de Estudos Místicos (PUC-Rio) e membro do Círculo do Rio e da Comissão Assessora Permanente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB. Dedica-se também ao trabalho pastoral e à formação teológica de leigos e leigas através do Centro de Espiritualidade Teresiana Ataendi, da Instituição Teresiana (www.ataendi.com.br).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que fatos pessoais ou sociais fizeram aflorar ou despertar a experiência mística de Teresa de Ávila?

Lúcia Pedrosa-Pádua – Teresa de Ávila
é, sem dúvida, uma mulher questionada e estimulada por seu tempo. Viveu no “século de ouro” espanhol, um período de florescimento econômico, político, literário, filosófico e também espiritual. Um tempo complexo, marcado pela conquista das “Índias” e toda a sua ambiguidade. Para Teresa, como mulher, mística e escritora, é também um tempo "recio", duro – guerras, perseguições e ações inquisitoriais marcam especialmente a segunda metade do século.

De maneira especial, eu destacaria as influências do contexto espiritual do século XVI no caminho místico teresiano. Uma particular efervescência religiosa acontece naquele momento, envolvendo ordens religiosas, mas não apenas elas. Atinge também a nova geração de “cristãos novos”, o povo simples, os leigos e, de forma especial, as mulheres. Há uma busca de Deus, um cansaço com relação às formas exteriores da religião, uma valorização da interioridade e da oração pessoal, e um forte impulso às altas esferas da vida mística. Lembremos que é o século de movimentos como o de Santo Inácio de Loyola; fora da Espanha, lembremos igualmente a Lutero e Erasmo de Roterdã. No ambiente espanhol, representantes de ordens religiosas e também padres seculares apresentam caminhos concretos de oração e de autenticidade de vida cristã, recolhendo criativamente a tradição bíblica, patrística e medieval. Motivam à experiência espiritual como um chamado universal, não de poucos privilegiados. A incidência de seus testemunhos e pensamento é ampliada através do trabalho das gráficas. Para termos uma ideia, só na região de Castela (a de Santa Teresa), em 30 anos são editados mais de 198 títulos de livros de espiritualidade. Autores como Francisco de Osuna, Bernabé de Palma, São João de Ávila e Luiz de Granada atingem alta popularidade. Todos eles estão interessados em chegar a Deus por experiência. Na segunda metade do século, o Index (índice dos livros proibidos) de Valdés (1559), e o fortalecimento da ação da Inquisição puseram um freio às publicações e encheram de suspeita as buscas espirituais, mas, ainda assim, a mística seguiu o seu curso.

Teresa bebeu com sofreguidão das leituras sobre oração. Com alguns expoentes da espiritualidade ainda entrou em contato pessoalmente (São Pedro de Alcântara, São Francisco de Borja) ou através de cartas (Luiz de Granada, São João de Ávila). É impossível desvincular a mística de Teresa desta corrente de reformadores, escritores, buscadores de Deus e santos. Ela, junto com São João da Cruz, culminam este movimento, dando uma contribuição pessoal. Tudo isso mostra como a mística não deve ser separada de seu húmus histórico, cultural e socioeclesial, nem sempre valorizado.

Fatores de ordem pessoal também influirão na mística teresiana. Destaco o seu contexto familiar, suas vorazes leituras, seu segredo da descendência de judeu-conversos (por parte do avô paterno), sua formação na adolescência. Tudo isso se aliará a seu particular desejo de se relacionar e comunicar com os demais, inclusive com Deus, sua fina observação da vida, sua indignação contra situações de injustiça, sua habilidade como escritora. Buscas e crises pessoais aumentarão o seu desejo de Deus.

Além desses, podemos incluir outro fator transcendente: Deus mesmo age. O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Dei Verbum (n. 8), reconheceu o valor do testemunho místico no aprofundamento da compreensão da fé. Trata-se de um carisma. Devemos afirmar o núcleo teologal da experiência mística em geral, e da teresiana em particular. Teresa testemunha que o próprio Deus, transcendente, a convoca a partir de dentro dela e esta misteriosa presença será expressa em seus escritos. Portanto, através dos condicionamentos e anseios históricos, psíquicos e culturais de Teresa, é possível chegar ao núcleo de uma experiência teologal. Por esse motivo, nossa personagem sempre interpretou sua existência como uma história viva de amor e de salvação em que Deus mesmo é o protagonista. Podemos dizer que é uma história pessoal de salvação. Ser testemunha do mistério de Deus (nas palavras de Teresa no início do livro Moradas, “o que Deus faz a uma alma”) é uma das maiores contribuições de Teresa para os tempos de hoje. A teologia e a espiritualidade não devem a-historizar nem imanentizar a experiência mística.

IHU On-Line – Que novidades a mulher Teresa traz para a interface mística/feminino? Como se expressa a sua feminilidade em suas obras?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
O vocábulo “mística” implica três âmbitos: o sujeito da experiência (o místico), a experiência mesma (experiência mística) e os escritos místicos (a mística). Ao meu ver, a feminilidade de Teresa se expressa em todos esses aspectos.

Com relação ao primeiro aspecto, a experiência mística, penso que a feminilidade de Teresa se expressa no caráter fortemente relacional dessa experiência. Teresa percebe-se como aquela que é e está em relação. Quanto mais perto de Deus, mais ela se descobre perto da verdade de si mesma. Quanto mais em comunhão com os mistérios da natureza (“mesmo que seja uma formiguinha”), mais perto de Deus. E quanto mais perto de si e de Deus, mais perto dos demais. As relações tornam-se cada vez mais fortes em amor e desejo, ao mesmo tempo, mais livres e gratuitas, mais críticas e discernidas. Penso que esse é um traço marcante da experiência mística de Teresa como mulher.

Como sujeito da experiência, o segundo aspecto da mística, podemos dizer que Teresa foi refeita como mulher. Adquiriu apuradíssima autoconsciência de seu ser mulher. Rejeitou os estreitos papéis pré-estabelecidos e ultrapassou vários limites impostos culturalmente às mulheres. O fato de ser fundadora de uma ordem religiosa feminina e masculina bem o demonstra. Foi até chamada de “homem, e dos muito barbados”, por um catedrático de Salamanca, que observou sua capacidade de gestão. Foi escritora e exerceu conscientemente um papel magisterial através de seus livros. Seus escritos são críticos ao sofrimento das mulheres nos casamentos, na Igreja e na sociedade em geral.

Com relação a esse aspecto, lembro sua famosa oração, verdadeiramente feminista, encontrada na primeira redação do Caminho de Perfeição (cap. 4,1). Nela, denuncia um “encurralamento” das mulheres na Igreja: os varões são juízes de mulheres e suspeitam de toda “virtude de mulher”; estas, por sua vez, não podem “falar algumas verdades” que “choram em segredo”, são desprezadas e desqualificadas. Evidentemente, esta página foi censurada e não passou à segunda redação do mesmo livro. Sim, Teresa foi muito além do que se esperava de uma mulher do seu tempo. Ao mesmo tempo, suas histórias de amizade com alguns varões de seu tempo são bem conhecidas através de seu grandioso epistolário.

Finalmente, no terceiro aspecto, a linguagem, lemos com prazer suas obras cheias de sinceridade e verdade, beleza e concretude cotidiana, humor e criatividade. Como mulher, sua linguagem é pluridimensional. Isenta da impessoalidade e rigores escolásticos, a cujos conteúdos e métodos Teresa teve pouco acesso. Segundo o objetivo de cada obra, vemos como ela se adapta e se esforça por dar-se a entender, com habilidade e inteligência. Ora direta e grave; ora narrativa e simbólica, cheia de emoção e de assombro. Sua linguagem é plástica e adaptada a melhor expressar-se, assim como o são seu corpo e sua disponibilidade interior. Os símbolos teresianos sofrem metamorfoses em suas obras. Adelia Prado, a poeta mineira contemporânea, escreveu em uma poesia que a mulher é “desdobrável”. Talvez Teresa compartilhe dessa experiência de sua companheira, embora tão longe no tempo.

IHU On-Line – Que linguagem ou simbologia se destacam nas principais obras deixadas por Teresa de Ávila? Como ela “narra” o Mistério?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
A linguagem teresiana é repleta de símbolos e comparações. Isso a faz particularmente expressiva, saborosa e dotada de soluções inesperadas. Teresa é muito livre em suas comparações e os símbolos são metamorfoseados segundo o objetivo pedagógico ou o sentir da autora.

O símbolo maior é certamente o do “castelo interior”, presente de forma especial na sua obra de maturidade, o Castelo Interior ou Moradas. O símbolo é explorado de forma a servir os propósitos de expressão da autora: explicar quem é a pessoa diante de Deus, narrar a aventura da busca/encontro com Deus e, neste encontro, renovação da relação com tudo e com todos. A beleza do símbolo já demonstra o aspecto positivo e luminoso da pessoa diante de Deus: o castelo é de diamante ou de um cristal muito transparente, habitado em seu centro mais profundo pelo sol, Deus, que tudo ilumina e atrai, a partir de dentro de castelo. A aventura é chegar ao centro, a sétima morada. Ela adquire contornos dramáticos à medida que surgem os demais habitantes do castelo (as realidades da pessoa, em seus sentidos, afetos, sentimentos, inteligência...) ou do seu entorno (os animais que “rondam” o castelo), todos com suas forças de atração. É efetivamente um símbolo capaz de articular magistralmente uma teologia e uma espiritualidade. O caráter trinitário e cristológico da aventura do castelo é surpreendente.

Destaco mais dois símbolos que articulam partes menores (mas não menos importantes) da narrativa teresiana.

O primeiro, as quatro formas de regar o jardim, através das quais Teresa narra os quatro graus de oração, no Livro da Vida (cap. 11 a 22), seguindo sua própria experiência. A primeira forma de regar o jardim é buscando água no poço – trata-se de iniciar a oração de recolhimento, mesmo com as dificuldades e poucos resultados alcançados. A segunda forma é utilizando nora e alcatruzes movidos por um torno – aqui não é necessário tanto esforço na oração e há mais prazer na quietude. Entrando nas formas de oração mais misteriosas – místicas –, vem a terceira forma de regar o jardim, trazendo a água de algum rio ou arroio – aqui há maior união com Deus, alegria interna e experimenta-se um maior descentramento dos próprios egoísmos. Finalmente, a chuva, quarta forma de regar o jardim, união com Deus com todos os seus efeitos éticos e também psicossomáticos.

Por fim, destaco a parábola do bicho-da-seda, no Castelo Interior (Quinta Morada, cap. 2,2ss), utilizada pela explicar a transformação operada pela oração. Sugiro que o próprio leitor a leia e interprete. Verá a delicadeza da linguagem, a profundidade da doutrina e a surpreendente experiência.

IHU On-Line – Michel de Certeau aborda o traço novidadeiro da mística teresiana no campo da afirmação da subjetividade, um pioneirismo que, afirma o autor, antecipa Descartes. Como a senhora analisa a inovação da mística teresiana no campo da subjetividade e da consciência?

Lúcia Pedrosa-Pádua – Teresa
é, de fato, uma escritora moderna e humanista. A começar pelo Livro da Vida, escrito em primeira pessoa e quase cem anos antes do Discurso do Método, de Descartes. Na conclusão do Castelo Interior aconselhará suas irmãs, nem mais nem menos, a entrar e passear em seus castelos interiores em qualquer hora, pois para isso não é necessária a licença das superioras! Teresa não teme a liberdade e a autonomia; pelo contrário, estão intrinsecamente relacionadas ao amor.

Diria que a subjetividade construída por Teresa é integral e relacional.

É uma subjetividade integral por integrar corpo, mente e espírito. Aparentemente, sua linguagem traz o dualismo entre corpo e alma, devedor da doutrina comum de seu tempo, neoplatônica, que considera o corpo como “cárcere da alma”. Esta imagem é reforçada pelas recorrentes experiências de amor e desejo de morte para estar com Deus, para além do corpo e da história. Ímpeto tão bem retratado na poesia cujo refrão diz: “morro porque não morro”. Porém, uma leitura mais aprofundada de sua experiência mística, com suas consequências pessoais e éticas, revela uma valorização progressiva do corpo e, com ele, da história e da criação. Em sua última etapa mística, o chamado “matrimônio espiritual”, ou união com Cristo, é superado o ímpeto de morrer e o “querer viver” é revalorizado. O cuidado de Teresa para com a saúde, tanto física como psíquica, revelado nas cartas, bem mostra a busca da harmonia integral.

Junto ao respeito ao corpo e seus ritmos, impressiona como Teresa adquire a consciência dos próprios sentimentos, intuições, percepções, movimentos da vontade e desejos. Distingue e valoriza a vontade, a memória, o entendimento, a fantasia, a imaginação, os sentimentos. Alguns a colocam como mãe da psicologia, tal a filigrana de suas narrativas interiores.

Ao mesmo tempo, esta humanidade é cheia de sentido, porque a dimensão espiritual, experienciada por Teresa como “centro” ou “abismo da alma”, é habitada, não é “oca”. Teresa, em sua simbologia geográfica, muito inspirada na tradição agostiniana, pretende esvaziar o castelo para que Deus possa reinar. Porém, esse esvaziamento é cheio de sentido e transformações interiores. Ele não é fruto de ser “oco”. O ser humano é saboroso e recheado, como o palmito, outro símbolo teresiano. E o sabor máximo é dado pelo próprio Deus, que busca o espírito humano, comunicando-se e se fazendo sentir.

Além de integral, essa subjetividade é relacional, aberta. Teresa não se compreende sozinha, mas em relação. A aventura do castelo interior é, ao mesmo tempo, um caminho de autoconhecimento e de conhecimento de Deus, que vai se fazendo concreto no Cristo. A pessoa se conhece na relação, que é amor e amizade. Nesse caminhar vão acontecendo os processos de purificação e crescimento na liberdade para conviver, arriscar-se nos trabalhos, superar apegos, sentimentos negativos e medos. Por isso a mística é um acontecimento tão radical e transformador.

A subjetividade foi, na modernidade, muito reduzida à dimensão racional. Depois, à dimensão afetiva. Hoje, tendendo quase a definir a subjetividade em termos neurológicos e biológicos, nos vemos em termos da ação da serotonina, dopamina, adrenalina etc. em nossos cérebros. Teresa nos lembra como é importante manter a integralidade e a relacionalidade da subjetividade. Trata-se de uma subjetividade amorosa, audaz e livre.

IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre a relação entre mística e erotismo em Teresa, especialmente a partir de seus “êxtases”, famosamente retratados na Transverberação de Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
Considero a escultura de Bernini maravilhosa. Tive a oportunidade de visitar a Igreja de Santa Maria da Vitória, em Roma, onde ela está situada, e fiquei impressionada observando os seus detalhes, com o anjo, o dardo e Teresa “tombada de amor ferida” (nos dizeres dos versos litúrgicos que certamente influenciaram Bernini).

A mística teresiana, e não apenas ela, está estreitamente vinculada à paixão e ao desejo de Deus, e nesse sentido há uma estreita relação entre a mística e a erótica. O ser humano pode ser visto como ser desejante, em tensão constante em direção a Deus. Há envolvimento e sentimento que atinge todo o ser, corpo e alma. E isso porque Deus mesmo é também um Deus “desejoso” – Teresa utiliza o vocábulo "ganoso" (de "ganas") – em relação à pessoa humana, embora misteriosamente respeitoso da resposta humana. Deus espera o ser humano, mas em tensão, desejo de uma resposta positiva; ele se envolve com o ser humano, é o Deus Trindade. Na expressão de São João da Cruz, ele é o “cervo vulnerado”. Portanto, não se trata do Deus sem paixão da teologia abstrata. Neste sentido, o amor de Deus é também eros.

A imagem de Bernini retrata este envolvimento de amor na experiência da transverberação do coração, narrada no capítulo 29 do Livro da Vida. Ressalto que Teresa não utiliza o termo transverberação, que é de origem litúrgica. Ao narrar esta experiência, situa-a dentro das graças místicas extáticas, arrebatadoras, especificamente no contexto das “feridas” místicas, que acontecem à medida que cresce o sentimento de amor. O grande teresianista Tomás Alvarez estudou com detalhes o fenômeno nos relatos teresianos. Não é um fato isolado na vida de Teresa, mas uma experiência repetida várias vezes, em graus distintos, embora a presença do anjo esteja presente apenas nessa página teresiana. Trata-se de um acontecimento de amor. Teresa falará deste amor forte que “fere” e é, ao mesmo tempo, saboroso, em outros escritos. Em uma bela poesia/oração, dirige-se a Deus de maneira paradoxal, como beleza que “sem ferir, dor fazeis” e também “sem dor, desfazeis”. As sextas moradas, particularmente através do símbolo do fogo, também narram, de forma magnífica, as modalidades das feridas místicas, comparadas a joias presenteadas à noiva, que preparam as sétimas moradas. São estas, as sétimas moradas, o cume da mística teresiana, comparada ao matrimônio místico.

Sim, Teresa vive uma longa etapa em sua vida mística, narrada nas sextas moradas, em que é vulnerada pelo sentimento fortíssimo de amor, que atinge seu espírito e também, de forma misteriosa, o corpo, e que, como ferida prazerosa, não é saciado. A ferida só faz aumentar o desejo de amor; há alternância entre o sentimento da presença de Deus e a dor da ausência. A ação divina só faz aumentar o desejo até o limite do desejo de morte para estar com o amado. É a seguinte morada, sétima, que traz o dom da paz, o sentimento da presença de Deus-Trindade, o matrimônio espiritual e a reconciliação com a vida e com a humanidade. Assim sendo, os dons do grau místico mais elevado da experiência teresiana não são os sentimentos arrebatadores de presença e a dor pungente da ausência de Deus, mas sim a paz e as “obras” (nos dizeres de Teresa, aqui a esposa recebe o beijo desejado e a corça é saciada pela água). Isso Bernini não retratou.

O que deve ser evitado, diante das evidências e abundância dos testemunhos teresianos, são interpretações grosseiras que esfumaçam a misteriosidade e a inefabilidade da graça mística teresiana, reduzindo-a a experiências sensuais cotidianas. Como ela mesma escreve: “suplico à sua Bondade o dê a provar a quem pensar que eu minto”.

IHU On-Line – Teresa foi declarada Doutora da Igreja por Paulo VI, em 1970. Quais foram as principais contribuições de Teresa ao magistério da Igreja?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
Quando Teresa foi declarada Doutora de Igreja, Paulo VI, em sua homilia, destacou três razões fundamentais deste doutorado. A primeira, a atualidade da mensagem teresiana sobre a oração, realizada a partir de seu testemunho místico e de seus ensinamentos sobre a oração. A segunda razão foi o desejo de destacar a dignidade da mulher e seu lugar na Igreja, especialmente sua participação na transmissão e aprofundamento da mensagem do Evangelho e da doutrina teológica e espiritual da Igreja. A terceira razão foi o sentido de Igreja, a eclesialidade de Santa Teresa.

Hoje, passados mais de 40 anos dessa declaração, e tendo-se desenvolvido o estudo da vida e das obras de Santa Teresa, vemos que o alcance deste doutorado é bem maior e com projeção de futuro.

Num balanço do doutorado teresiano, em 1996, o saudoso teresianista Jesús Castellano Cervera elencou mais de uma dezena de temas contidos nas obras teresianas, que significam ricas contribuições teológicas que vem sendo estudadas. Não há tratado teológico ao qual Santa Teresa não possa dar uma contribuição. Seu magistério não se resume à oração, embora nesse aspecto Santa Teresa apresente uma contribuição insubstituível. Suas obras são verdadeiros tratados teológicos indutivos: antropologia, Trindade, pneumatologia, cristologia, escatologia, eclesiologia, sacramentos... A vida e doutrina de Santa Teresa podem trazer contribuições também para a pedagogia da fé e para a pastoral. A mística vem sendo timidamente incorporada aos estudos teológicos universitários, mas o caminho vai sendo aberto porque a realidade mística hoje vai se impondo. É um sinal dos tempos. Na espiritualidade, o doutorado impulsionou as edições e a leitura das obras teresianas.

Na atualidade, vejo que não é apenas o doutorado teresiano, mas o próprio contexto espiritual da pós-modernidade, de busca do sagrado e ao mesmo tempo crescimento do ateísmo, que vem estimulando a leitura de Santa Teresa como companheira e mestre de nosso próprio caminho espiritual. Como teresianista, vejo um interesse crescente pela vida e pelas obras dessa grande mulher.

IHU On-Line – Teresa é reconhecida por seu papel como reformadora e fundadora de conventos. Como esse “novo estilo de vida” dos mosteiros se relaciona com a mística e a espiritualidade de Teresa?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
A reforma da ordem carmelitana e fundação do ramo do Carmelo Descalço são uma consequência da vida mística teresiana, ao mesmo tempo em que conformam muitos dos conteúdos de suas experiências. Ou seja, mística e obra fundadora não se separam, ao contrário, se influenciam mutuamente. Ela mesma reconhece que é impossível realizar grandes coisas àquele que não se sabe favorecido por Deus. Na espiritualidade teresiana, mística e profecia não se separam. Oração e ação andam juntas. “Marta e Maria devem andar juntas”, afirma Teresa, da atalaia das Sétimas Moradas.

A mística leva, em seu interior, uma dimensão ética e comunitária. Essas dimensões fazem parte da formação de uma subjetividade integrada e relacional, que já mencionei em pergunta anterior. Muitos pensam que a mística teresiana se resume à grande ferida de amor, ao êxtase imortalizado por Bernini, mas tal é um grande engano, porque ignora a dimensão cotidiana, concreta e ativa da mesma experiência. O místico é sempre um profeta porque adquire uma sabedoria especial para viver o tempo que lhes compete viver. Mística não combina com alienação ou com introspecção fechada. Mística combina com lucidez, audácia, amor e liberdade.

Teresa soube abrir um caminho novo numa Igreja em crise. Instaurou comunidades de mulheres pobres, orantes e iguais, numa sociedade hierarquizada e preconceituosa. Deu voz criativa àquelas que foram encurraladas e desqualificadas. Construiu redes de amizade e colaboração. Era alegre e bem humorada. Com tudo isso testemunhou o mistério do Deus que experienciou ao longo de toda a sua vida. Um Deus amigo e solidário, que se abaixa para se comunicar a quem se entrega.

IHU On-Line – Olhando para a situação da sociedade contemporânea, qual é o papel da mística e da espiritualidade? O que é necessário para que as pessoas do nosso tempo deem atenção ao lado místico da existência?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
A crise das grandes narrativas faz calar para ouvir os anseios mais sutis, como o amor, a liberdade, a autenticidade, a justiça, a amizade, a natureza, a transcendência que dá sentido real a tudo, Deus. Como no século XVI, penso que o cansaço com relação às instituições provoca uma busca de interioridade, de oração e de experiências verdadeiras compartilhadas.

A atual oferta quase ilimitada de entretenimento e de tecnologia dá uma resposta excessivamente exteriorizante aos nossos reais anseios. O excesso de informação pode nos anestesiar diante dos problemas reais, da injustiça real, da pobreza real. Da mesma forma, são superficiais as soluções farmacológicas às nossas depressões, falta de energia e alegria, ou excesso de tensão e agressividade. A mística convida a mais, convida a entrar no “castelo interior”, convida a dar atenção à “terra” da nossa interioridade, que deve ser molhada para florescer. Isso exige disposição, abertura, atenção, tempo, conversão, nova forma de estar no mundo. Esse convite é feito pelo próprio Deus, “ganoso” de que o conheçamos como Deus, envolvido em nossos destinos a partir do tecido de nossas existências, de nossa história e do nosso maravilhoso universo.

A mística exige ao menos a intuição de que “algo não vai bem”, nas palavras de Santa Teresa, para iniciar uma entrada no castelo interior. Exige coragem e humildade para dispor-se a um autoconhecimento diante de Deus, do Cristo que os Evangelhos nos narram. Teresa mostra a necessidade de nos colocarmos em movimento para dar espaço à aventura do encontro transformante com Deus e com tudo o mais, sobre bases mais humildes e mais harmônicas. Bases mais integradas e mais relacionais.

Nesse sentido, a mística, como experiência do mistério de Deus, não é apenas um anseio atual, é uma necessidade que brota do coração de nossa cultura e nossas igrejas. E mais, uma necessidade que brota do coração de Deus. Ela deve estar na estrutura dos projetos de renovação das comunidades, pois dela brotará a verdadeira profecia e a verdadeira espiritualidade cristã, que é místico-profética. E atenção: todos são chamados a ser místicos, afinal, já lembrou o teólogo Schillebeeckx que a fé só se realiza como fé na experiência.

IHU On-Line – Às vésperas de se comemorar 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Ávila (1515-2015), a senhora organizou, juntamente com Mônica Baptista Campos, o livro Santa Teresa: mística para o nosso tempo. A partir da proposta do título, qual a atualidade de Teresa hoje?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
O livro Santa Teresa: mística para o nosso tempo traz estudos do Grupo Moradas de Estudos Místicos, grupo ecumênico da PUC-Rio. Atualiza aspectos da mística teresiana para o homem e a mulher de hoje. O interesse pela mística e por Santa Teresa na academia, por um grupo ecumênico, já é um sinal eloquente da atualidade de Teresa.

Vejo o interesse por Santa Teresa em muitos aspectos, mas destacaria três.

O primeiro, humano-espiritual. A espiritualidade se nutre do contato com uma mulher forte e corajosa, amiga do amor e da amizade, da liberdade e da pobreza, da humildade e da verdade, da beleza e da poesia. Uma mulher que testemunhou que adentrar o mistério humano é vislumbrar algo do transcender que o habita, que a oração é a porta deste dinamismo tão fundamental e que a vida é transformada por essa misteriosa experiência.

A segunda atualidade é teológico-pastoral. Também a teologia é fortalecida na integração com a mística e a espiritualidade. A teologia sem a mística torna-se abstrata; a mística sem a teologia pode seguir o caminho de experiências ocultistas e desencarnadas.

A terceira atualidade é o interesse interdisciplinar e inter-religioso que a mística oferece. Esse talvez seja um dos grandes caminhos abertos pela mística teresiana atualmente.

Enfim, espero que o livro Santa Teresa: mística para o nosso tempo seja bem recebido como uma contribuição à teologia e à espiritualidade.

IHU On-Line – Em sua opinião, quais as características mais marcantes da experiência mística feminina? Além de Teresa de Ávila, que outras mulheres foram mestras na arte de “narrar o Mistério”?

Lúcia Pedrosa-Pádua –
A relacionalidade que não teme o amor, a verdade existencial que não teme se expor, a linguagem que se faz compreender, a profundidade que sabe quando calar, a beleza que escorre por caminhos multidimensionais e multissensoriais, a profecia que confunde os poderosos.

São muitas. Foram mestras místicas medievais como Hadewijch de Antuérpia, Hildegard de Bingen, Marguerite Porete e Angela de Foligno. A elas acrescentaria Santa Clara de Assis e a Doutora da Igreja Santa Catarina de Sena. Já no tempo moderno, além de Santa Teresa, as carmelitas Santa Teresinha do Menino Jesus, Isabel da Trindade e Edith Stein. Considero a poesia da mineira contemporânea Adélia Prado um exemplo de poesia mística.

(Por Moisés Sbardelotto)

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