"Lutero amava a Deus. Nós não"

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25 Setembro 2011

O historiador Alberto Melloni conta que, quando Joseph A. Komonchak, padre da arquidiocese de Nova York, professor da Catholic University of America, de Washington, e grande estudioso do Concílio, escreveu em um panfleto que os teólogos tomistas são sempre ou reformistas ou conservadores, enquanto os agostinianos nascem reformadores mas morrem conservadores, Joseph Ratzinger sorriu feliz por estar de acordo com o seu colega norte-americano. Porque ele também, como estudioso agostiniano, "considera que as reformas continuam sendo pleonásticas, supérfluas, com relação ao coração da vida de fé, da interrogação sobre Deus, essa mesma interrogação que ontem, na Alemanha, o papa lembrou que também é o centro da vida e do pensamento de Martinho Lutero".

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal Il Foglio, 24-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cerne da divisão dos cristãos é, por sua própria natureza, o centro da viagem do papa alemão às terras alemãs, aquele papa que, em Bari, na sua primeira viagem depois da eleição, definiu de "compromisso fundamental" do seu pontificado a busca da unidade entre cristãos. Não foi uma etapa de rotina, em suma, aquela de ontem, que viu Bento XVI, tendo ao seu lado o presidente da Igreja Evangélica Alemã, Nikolaus Schneider, e a presidente da Igreja Evangélica da Turíngia, Katrin Göring-Eckart, participar de uma celebração ecumênica em Erfurt, a cidade onde o monge agostiniano Lutero viveu de 1505 a 1511.

Parece estar distante a redescoberta do Lutero mais profundo e íntimo, de fato, que, para Ratzinger, pode desfazer o nó da grande e perturbadora divisão que foi aberta na cristandade depois que o próprio Lutero publicou em 1517 as 95 teses em que criticava duramente a simonia das autoridades eclesiásticas, afirmando que a essência do cristianismo não reside na complicada organização que desemboca no papa, mas sim na comunicação direta entre o indivíduo e Deus.

O ecumenismo, nesse sentido, ou é um retorno ao essencial, "àquilo que une", disse o papa ontem, isto é, "à questão sobre Deus", que também foi central na vida de Lutero, a pergunta sobre quem é Deus e quem o homem diante dele, uma pergunta hoje mais grave por causa da "pressão da secularização"; ou é uma atividade estéril. Porque, "no fundo", como diz Melloni, "o agostiniano Ratzinger vive diante de Deus o mesmo drama que Lutero viveu. E aqui católicos e luteranos podem voltar a se encontrar".

Ratzinger, sobretudo enquanto cardeal prefeito, trabalhou por muito tempo pela recomposição das divisões. O seu gesto mais decisivo foi o impulso à assinatura da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, no dia 31 de outubro de 1999, na qual a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial concordaram sobre um ponto fundamental: o ser humano depende inteiramente, para a sua salvação, da graça salvífica de Deus. Uma declaração que limou, de modo decisivo, as diferenças e que, justamente por isso, foi muito criticada tanto pela "direita", por aqueles que, como o mundo lefebvriano, a consideraram muito conciliadora com os luteranos, quanto pela "esquerda", para exemplo, por Hans Küng, que acusou Ratzinger de ter tratado uma espécie de rendição apenas com aquela parte do luteranismo mais conservador.

Mas, críticas à parte, um dado existe. Ratzinger, buscando voltar ao essencial na relação com os luteranos, nada mais fez do que ajudar aqueles que, na própria catolicidade, consideram que, apesar das divisões do século XVI, a raiz continuou sendo comum. É o conceito que expressou o cardeal Johannes Willebrands, ex-presidente da Unidade dos Cristãos, em 1980, por ocasião da celebração da Confissão de Augsburg.

E não importa se, porém, como lembrou o próprio Ratzinger em uma entrevista para a Communio logo depois, "o cardeal Hermann Volk fez, ao mesmo tempo humorística e seriamente, esta pergunta: "Gostaria de saber se, no exemplo do qual Willebrands fala, se trata de uma batata ou de uma macieira. Em outras palavras, o que surgiu da raiz são apenas folhas ou é justamente o mais importante, isto é, a árvore?".

Fulvio Ferrario é teólogo evangélico, professor da Faculdade Teológica Valdense de Roma. Ele diz: "É inegável que o agostinianismo liga Ratzinger e Lutero de algum modo. Lutero fez a pergunta sobre Deus, a questão da relação entre ser humano e Deus de um modo tão poderoso quanto, eu diria, indiscreto. Foi Nietzsche, não por acaso, que definiu Lutero de "monge funesto", porque em Roma, em vez de compreender "o grande prodígio" da superação do cristianismo na sua própria sede, ele trovejou contra o Renascimento e voltou a colocar no centro, novamente, a pergunta sobre Deus. E o fato de levar Deus a sério une o Papa a Lutero. Ambos, no fundo, parecem ser anacrônicos com relação ao que lhes circunda. Mas o que fica eludido, na minha opinião, é o protestantismo, isto é, aquilo que veio depois de Lutero. É sobre o depois que me parece que, também em Erfurt, o papa permaneceu em silêncio. Ele voltou a Lutero, mas o depois é como se não existisse".

 

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