Conjuntura da Semana. Indicações Pós-Palocci apontam para mudanças no governo?

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12 Junho 2011

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das "Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU.   A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Sumário:

Pós-Palocci
- A queda de Palocci
- O último neoliberal no governo
Mulheres no centro das decisões
- Quem é Gleisi Hoffmann. Trajetória militante e política
- Campo majoritário e bernardismo
- Força política e econômica
- Ideli Salvatti. Outra nomeação que surpreendeu
- Um tiro no pé?
Redesenho no governo?
Conjuntura da Semana em frases

Eis a análise.

A grande surpresa política da semana não foi a queda de Palocci, mas a indicação de Gleisi Hoffmann para ocupar a pasta mais importante do Planalto, a Casa Civil. Ato contínuo, e no desenlace da crise, Dilma Rousseff chamou Ideli Salvatti para substituir Luiz Sérgio no Ministério das Relações Institucionais. As escolhas apontam para uma inflexão no governo de Dilma Rousseff? A indicação de Gleisi é uma decisão orientada pela vontade de imprimir uma dinâmica mais técnico-administrativo ao seu governo? Ao mesmo tempo, quem é a substituta de Palocci? Qual é a sua trajetória, as suas convicções e as relações políticas que construiu ao longo de sua vida política? No caso de Ideli Salvatti, porque a opção da presidente por um nome que está longe de ser uma unanimidade no PT e no PMDB e é conhecida pelo estilo mão pesada nas negociações políticas?  Essas são algumas das questões abordadas pela conjuntura na semana pós-Palocci.

A queda de Palocci

Antonio Palocci resistiu durante vinte e três dias. Aproveitando-se da brecha da decisão do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que anunciou o arquivamento das denúncias que pesavam sobre ele, encontrou uma "saída honrosa", como se diz na política, para pedir a sua demissão. Se foi Palocci quem pediu a demissão, ou se foi Dilma quem decidiu, é o de menos. O fato incontestável é de que o ex-ministro já não reunia condições políticas de continuar num cargo tão importante.

Palocci chegou apadrinhado por Lula. O ex-ministro não era a primeira opção de Dilma Rousseff para a Casa Civil, mas a presidenta cedeu à sugestão do ex-presidente. Apesar da vulnerabilidade do ministro que já havia caído uma vez, sua força política vinha do mercado. Palocci sempre gozou de imenso prestígio junto ao mercado e sempre foi considerado um "fiador" e interlocutor do PT junto ao capital produtivo e, sobretudo, financeiro.

A sangria diária de Palocci aumentava proporcionalmente à inconsistência de suas explicações para o vertiginoso enriquecimento – multiplicação do patrimônio por 20 vezes num período de quatro anos. Até mesmo no PT, o enriquecimento do minitro causava mal estar. Segundo o  secretário-geral do partido Elói Pietá, "o que causou espanto e levou os petistas a não apoiarem sua permanência no governo foi a origem de seus ganhos privados, a magnitude dos resultados, e o alto padrão de vida que ele se concedeu".

A gota d´água para o governo teria sido sua entrevista à Rede Globo. Palocci evitou uma cara a cara no Congresso, emitiu nota evasiva para o PT e optou por se defender em entrevista exclusiva à Globo. A entrevista foi um desastre na opinião do experiente jornalista Ricardo Kotscho. Segundo o jornalista, a "entrevista não convenceu ninguém da sua inocência, nada explicou, só fugiu das perguntas".

Kotscho destaca que "pegou muito mal o ministro não ter mostrado nenhuma indignação diante das graves denúncias" e sentenciou um dia antes da queda de Palocci: "Dilma tem mais é que se livrar, o mais rápido possível, de todas as amarras que a impedem de dar início ao seu próprio governo com a equipe que ela mesma escolher. A crise, afinal, pode ser boa conselheira".

A falta de explicações consistentes, a reclusão e fuga do embate  acrescido à péssima repercussão da entrevista, apenas consolidou o desfecho da queda do ministro. A permanência de Palocci no governo enfraqueceria a presidente Dilma. "Ele foi útil e poderia ser muito útil à Dilma, ao governo e ao país. Mas a Pasta que ele ocupava não é o Ministério da Saúde e isso altera a cena. Palocci atuava em questões intangíveis que demandam confiança irrestrita e fragilidade zero. Predicados que ele já não possuía há semanas", afirma fonte consultada pela jornalista Angela Bittencourt.

Segundo essa fonte, "quem serve de anteparo para a presidente Dilma Rousseff não pode ter fragilidades. E por um motivo simples: os demandantes de negociações ou articulações vão tentar, mais cedo ou mais tarde, operar as fragilidades do ministro até por uma questão operacional. É possível tirar mais de quem está mais vulnerável".

O último neoliberal no governo

O mercado não reagiu à queda de Palocci. "A crise é lá fora. Quem poderá agir contra o real com um estoque de reservas de US$ 330 bilhões e investimentos externos diretos de US$ 60 bilhões?", diz fonte citada por Angela Bittencourt. Na realidade o ministro já não tinha o poder que exerceu no governo Lula. A defesa de uma macroeconomica orientada por uma política fiscal ortodoxa – rigor no regime de metas para inflação, elevado superávit primário, aumento constantes na taxa de juros – faz algum tempo perdeu força.

O ministro teria ainda tentado influenciar a política econômica, porém, sem êxito. A primeira derrota de Palocci, que fora um dos três coordenadores do comitê de campanha de Dilma em 2010, foi a manutenção de Guido Mantega na Fazenda. Ao mesmo tempo, Mantega reforçara na Pasta a presença de economistas de linha mais heterodoxa, como Nelson Barbosa, na secretaria-executiva, e Márcio Holland, na Secretaria de Política Econômica. A política fiscal dura, em combinação com uma política monetária ultraortodoxa, ficou ainda mais distante com a nomeação de Alexandre Tombini para o Banco Central, tido como um nome técnico que "não tem corrente" e com bom trânsito entre os "desenvolvimentistas".

As ideias liberais de Palocci em grande afinidade com o mercado financeiro encontraram na economista Dilma, já nos seus primeiros meses na Casa Civil nomeada por Lula, uma forte oposição. Segundo reportagem da imprensa, no fim de 2005, uma proposta de Palocci foi bombardeada em público pela própria Dilma. Era novembro daquele ano quando o então ministro da Fazenda levou a uma reunião da equipe econômica a proposta de fazer um ajuste fiscal de longo prazo, pela qual as despesas correntes (como pessoal, aposentadorias e custeio da máquina) cresceriam a um ritmo mais lento que o do PIB. Dilma, que havia poucos meses comandava a Casa Civil, classificou a proposta de "rudimentar".

Dilma na Casa Civil sempre se afinou com os desenvolvimentistas e defendeu uma política fiscal menos ortodoxa, com espaço maior para os investimentos, uma estratégia que seria implementada a partir de janeiro de 2007 com o lançamento do  Programa de Aceleração do Crescimento –  PAC.

Com a queda de Antonio Palocci, sai o último liberal do governo. Desde 1993, quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o comando da equipe que formulou o Plano Real, é a primeira vez que o governo não tem, no primeiro escalão, um representante do liberalismo econômico. O predomínio, agora, é de economistas da escola desenvolvimentista, que defende maior presença do Estado na economia, destaca o jornalista Cristiano Romero.

Na opinião do jornalista César Felicio, em seus cinco meses no cargo, Palocci foi um dos ministros da Casa Civil mais fracos de toda a história da Esplanada. Segundo o jornalista, em muitos casos aconteceu o oposto do que se esperava antes do início do governo Dilma: em vez de Palocci influir na seara de outros ministros, sobretudo na economia, foram os demais ministros que bloquearam uma das atividades da Casa Civil, a de coordenar nomeações.

Quanto ao futuro de Palocci, fonte citada pela jornalista Angela Bittencourt do Valor, opina que o ex-ministro deverá enfrentará crises pessoais. "Ele destruiu o ícone que já foi, ficou enfraquecido e possivelmente `empobrecido`. Não há dúvida de que terá menos demandas daqui para frente porque dificilmente terá, no futuro, clientes de primeira linha que viram o ministro como eminência parda no governo Lula, após sua saída em março de 2005. Palocci convencia porque tem uma lógica econômica invejável. Tornou-se uma fonte muito boa de informação sobre o governo e soube se fazer importante", comenta a fonte da jornalista.

Mulheres no centro das decisões

Quem é Gleisi Hoffmann. Trajetória militante e política

A ascensão de Gleisi Hoffmann à principal pasta do governo federal foi uma surpresa. "A indicação de Gleisi para a Casa Civil foi tão surpreendente quanto à de Dilma, em 2005", destaca a jornalista Rosane de Oliveira.

A indicação da senadora paranaense pegou todos de surpresa, os políticos, a imprensa, o mercado e o proprio PT. Consta-se que a operação política de troca de Palocci e a indicação de Gleisi, teria sido feita em um círculo restrito:  "Além dela [Dima], apenas cinco pessoas, Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) e seu chefe de gabinete, Giles Azevedo, Paulo Bernardo, Helena Chagas (Secretaria de Comunicação e Lula) participaram da operação que levou à primeira troca no primeiro escalão, deixando aliados no escuro", diz o jornalista Valdo Cruz.

Aos poucos, entretanto, surgem notícias de que a indicação da senadora não foi um gesto inesperado de Dilma e de que a indicada tem lastro político para sustentar a indicação. Segundo o jornalista Raymundo Costa, na transição, Dilma já falara em Gleisi para a Casa Civil, numa composição que teria Palocci na Secretaria Geral da Presidência. Lula teria sugerido então a Dilma que o melhor seria contar com Palocci, seu ex-ministro e uma espécie de guardião das conquistas econômicas do governo do PT, enquanto Gleisi ganharia experiência no Senado.

Embora a nova ministra seja um nome desconhecido para a sociedade, no mundo político ela já tem algum tempo de rodagem e participa de importantes articulações nacionais.

Gleisi Hoffmann despertou para a política ainda nos tempos de estudante secundarista.  "Logo notamos que a Gleisi tinha liderança", afirma  Rudi Rabuske ex-vice diretor do colégio jesuíta de Curitiba, o Medianeira, no início dos anos 80. Segundo ele, "certo dia, decidiu reativar o grêmio estudantil. Organizou eleições, montou chapa e abriu votação para a escolha de um novo nome para o grupo. Agitou a escola. Tempos depois, foi a um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em São Paulo".  "Os pais não deixaram, mas ela disse que ia dormir na casa de uma amiga e pegou o ônibus. Sempre foi determinada", conta a mulher de Rudi, Sheila Rabuske, então orientadora educacional do colégio.

Posteriormente, participou do grêmio estudantil do Cefet da capital paranaense e integrou a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – Ubes. Gleisi filiou-se ao Partido dos Trabalhadores – PT apenas em 1989.  Formou-se em Direito e especializou-se em Gestão de Organizações Públicas e Finanças Públicas. Começou sua trajetória política no PT na assessoria do vereador Jorge Samek, hoje diretor-presidente da Itaipu Binacional. Como assessora do vereador acompanhava de perto a dotação e aplicação orçamentária de Curitiba. Função similar desempenhada com o orçamento da União na assessoria da bancada do PT federal e que lhe valeu a indicação para a equipe de transição de governo de Lula em 2002, oportunidade em que conheceu Dilma Rousseff que também integrava a equipe.  Com Lula no governo, Gleisi ocupará a diretoria financeira da Itaipu Binacional.

A competência técnica, a capacidade de negociação e a sensibilidade da nova ministra são destacadas em testemunho por Darli Sampaio que conviveu com Gleisi no PT. Segundo Darli, Gleisi é "uma figura  acessível, terna, firme, convicta, forte, envolvente, segura, no que fazer e como fazer, além de uma grande capacidade de trabalho". Darli destaca ainda a sensibilidade da ex-senadora para com o movimento social e para as questões de gênero e do meio ambiente. Ao mesmo tempo, a pesquisadora do Cepat, afirma que Gleisi nunca se afasta da defesa dos interesses do grupo a qual pertence.

Campo majoritário e bernardismo

Desde o início e até hoje, Gleisi alinhou-se ao grupo político hegemônico no PT. Integra a corrente política denominada Construindo um Novo BrasilCNB, corrente que nasceu em 1983 a partir do Manifesto dos 113 e que posteriormente passou a se denominar  Articulação-Unidade na Luta e, em 2007, assumiu o nome Construindo um Novo BrasilCNB. Gleisi transferiu-se para Brasília com seu ex-marido no início dos anos 90 e passou a assessorar a bancada do PT na Câmara Federal onde conheceu o seu atual marido e ministro das Comunicações Paulo Bernardo.

A trajetória de ascensão de assessora parlamentar à ministra da pasta mais importante do Planalto se dá a partir de uma série de conjugações. Reune sua experiência política e competência à ligação com o grupo hegemônico do PT tanto no Paraná como nacionalmente. No Paraná, Gleisi, ex-presidenta do PT do Estado, é ligada ao grupo político que controla o partido e as indicações para as candidaturas majoritárias.

A política paranaense nos últimos quarenta anos vem sendo hegemonizada por três grupos políticos. O chamado "requianismo" numa alusão a Roberto Requião (trez vezes governador do Estado, ex-prefeito de Curitiba e atualmente no Senado em segundo mandato); ao "diísmo" (numa referência aos irmãos Osmar Dias e Álvaro Dias – líder do PSDB no Senado);  e ao "lernismo", referência política ao urbanista e ex-prefeito e governador Jaime Lerner. O atual governador do Paraná, Beto Richa, integra essa última corrente.

Nos últimos anos, uma quarta força política se faz presente no Estado, o "petismo" que alguns denominam de "bernardismo" pela crescente hegemonia de Paulo Bernado no partido. Paulo Bernardo, ex-funcionário do Banco do Brasil, elegeu-se deputado federal em 1990 e ascendeu meteoricamente no Partido. Natural de Londrina, norte do Paraná, compôs politicamente com o grupo de Jorge Samek que passou a controlar o partido na capital a partir de meados dos anos 90 depois de derrotar os grupos da igreja do qual fez parte Gilberto Carvalho, outro ministro de Dilma Rousseff.

Giberto Carvalho, uma figura em ascensão e com vida política promissora no PT do Paraná, transferiu-se para São Paulo ainda no final dos anos 80 a convite do PT nacional e da CUT para assumir a coordenação do Cajamar – a escola de formação política das duas organizações. Posteriormente, integrou o secretariado da prefeitura de Santo André na administração de Celso Daniel e, a partir de meados dos anos 90, assume a secretaria geral do PT nacional. Dirigente do partido, assim como Paulo Bernardo,  integra o grupo de José Dirceu,  considerado peça chave na construção da estratégia que levou Lula à presidência em 2002.

Gilberto e Paulo Bernardo, entre outros, integram desde cedo o núcleo duro do governo Lula. Gilberto na qualidade de chefe do gabinete de Lula e Paulo Bernardo como ministro da Fazenda. Considerado um dos ministros da "tropa de choque" de Lula pela agressividade com que faz política e fidelidade canina ao ex-presidente, Paulo Bernardo vai ganhando importância no PT e no governo. No governo, particularmente se torna importante pela capacidade de articulação junto ao Congresso a partir de sua experiência parlamentar.  A nomeação de Paulo Bernardo para o Ministério das Comunicações – que coordena a reorganização da banda larga no país e envolve grandes interesses em jogo – e a permanente cogitação do seu nome para a Casa Civil é demonstração do seu prestígio político.

Paulo Bernardo é da "nova geração" de políticos do PT, aqueles que constituem o neo-petismo, como diz Rudá Ricci, "pragmáticos, agressivos no controle da máquina partidária e negociadores por excelência, onde a ideologia não é necessariamente o critério decisivo. Um estilo, em alta em todo o Brasil, que cada vez mais transforma o  PT em uma estrutura burocrática de tipo empresarial, mas do tipo empresarial tradicional, ao estilo taylorista/fordista em que a cúpula pensa e planeja e os filiados fazem e dão o sangue pela causa".

Força política e econômica

A força política de Paulo Bernardo no governo – ex-ministro da Fazenda e atual ministro das Comunicações – e a força política de Gleisi, e de ambos no PT, evidencia-se na capacidade arrecadatória na campanha de Gleisi ao Senado pelo Paraná. Na campanha para o Senado em 2010, Gleisi arrecadou sozinha mais do que todos os seus adversários somados ao Senado, de acordo com a prestação de contas entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Arrecadou quase R$ 8 milhões de receita, acima dos R$ 3 milhões conseguidos pelo ex-governador Roberto Requião (PMDB), também eleito, e dos R$ 2,1 milhões de Gustavo Fruet, terceiro colocado.

As doações à petista foram feitas, essencialmente, pelo setor de engenharia e construção, responsável por R$ 3,2 milhões, 40,5% do total arrecadado. O maior doador foi a Construtora Camargo Corrêa, com R$ 1 milhão. A OAS, outra gigante do ramo, também foi generosa com a nova ministra, deixando-lhe R$ 780 mil. Outras onze empresas do ramo destinaram valores a Gleisi.

O PT também destinou grandes somas à campanha da senadora: o Diretório Nacional do partido doou R$ 1,9 milhão. O Comitê Financeiro Único, que arrecadou R$ 2,6 milhões, encaminhou R$ 883 mil só para a campanha de Gleisi. Assim como a senadora, o comitê teve boa parte do seu caixa abastecido por doações de construtoras, responsáveis por R$ 1,95 milhão (75% do total arrecadado). Dos R$ 883 mil que o comitê doou a Gleisi, R$ 584 mil foram repassados em data posterior à eleição.

"São os desígnios de Deus que me trouxeram até aqui", afirmou a nova ministra a um colunista político do Paraná. Nada disso. É a partir do contexto anterior, simplificado, que deve se compreender a nomeação de Gleisi para a Casa Civil. A senadora do Paraná integra o grupo majoritário próximo ao ex-presidente Lula e próximo a Dilma. Gilberto, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, foi consultado sobre Gleisi e aprovou a indicação. Alia-se ainda à competência administrativa da ex-senadora e a força política do seu grupo, o fato de ser mulher, um dado relevante, uma vez que Dilma nunca escondeu que gostaria de ter mais mulheres ocupando cargos de primeiro escalão e já havia cogitado a propria Gleisi para o cargo quando da formação do seu ministério.

Em entrevista ao IHU, Gleisi Hoffmann uma reconhecida militante feminista defende uma maior participação das mulheres na política. Segundo ela, "como as mulheres ficaram encerradas no mundo doméstico por muito tempo, os valores da solidariedade, da sensibilidade, da tolerância, que são essenciais até para criar um filho, ficaram no mundo doméstico e o mundo público foi dominado pelos valores masculinos, da agressividade". Agora, diz ela, "está passado o momento das mulheres cuidarem das "coisas da vida’".

Com a nomeação de Gleisi Hofmann à Casa Civil, o Paraná ganha destaque na política nacional. "Nunca antes na história desse estado, o Paraná teve, ao mesmo tempo, três ministros ocupando pastas tão estratégicas quanto as que hoje", afirma o jornalista Celso Nascimento. Não é apenas a política nacional que poderá sofrer inflexões, a do Paraná também. Desde já Gleisi é uma forte candidata ao governo do Estado do Paraná em 2014.

Ideli Salvatti. Outra nomeação que surpreendeu

Um tiro no pé?

Não foi apenas a nomeação de Gleisi Hoffmann que surpreendeu os círculos que acompanham o mundo da política, a nomeação da ex-senadora e ministra da Pesca Ideli Salvatti no lugar de Luiz Sérgio no ministério das Relações Institucionais também surpreendeu. Para alguns, até mais do que a propria indicação da senadora paranaense.

Ideli Salvatti está longe de ser uma unanimidade na base aliada do governo e até mesmo no PT. Na opinião do jornalista Ricardo Kotscho, a indicação de Dilma foi um "tiro no pé". Segundo ele, "sempre é possível piorar o que já estava ruim. A escolha de Ideli Salvatti para a coordenação política do governo, por tudo que conheço dos personagens envolvidos nesta história, é pior do que um tiro no pé. É a onipotência no seu pior momento, um salto no escuro, sem rede de proteção", diz ele.

A ex-senadora por Santa Catarina,  derrotada nas últimas eleições para o governo do Estado de Santa Catarina ocupava o ministério da Pesca, tido como um ministério fraco e coringa nas negociações de nomeações políticas. Ideli teria ganhado o ministério em função de sua fidelidade ao governo Lula, pelas causas difícieis, ingratas e impopulares que defendeu por orientação do Planalto.  Ideli Salvatti desde a época da crise do mensalão era considerada membro destacado da tropa de choque do governo  Lula no Congresso. Segundo o jornalista Fernando de Barros e Silva
"Ideli é a musa das causas indefensáveis".

As "causas indefensáveis" a que se refere o jornalista são, entre outras, duas em particulares:  a defesa de Renan Calheiros e de José Sarney da degola política. No caso conhecido como Renangate (2007) – escândalo de corrupção envolvendo o senador alagoano Renan Calheiros (PMDB-AL), acusado de receber ajuda financeira de lobistas ligados a construtoras, que teriam pago despesas pessoais, como o aluguel de um apartamento e a pensão alimentícia de uma filha do senador com a jornalista Mônica VelosoIdeli foi decisiva na operação abafa do Planalto para salvar o senador alagoano.

Ideli foi também decisiva na defesa de José Sarney – acusado de facilitar negócios do seu neto na intermediação de empréstimos consignados entre instituições bancárias e servidores do Congresso  e no caso do escandâlo dos atos secretos do Senado presidido por Sarney.

Contra as resistências a sua indicação, o histórico de Ideli na defesa de lideranças do PMDB teria sido lembrado por Dilma. Segundo a jornalista  Renata Lo Prete, "nas conversas com a cúpula do PMDB, Dilma enfatizou o caráter "fiel’ de Ideli - em referência direta à postura da ex-senadora nas agruras que os peemdebistas Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP) passaram no Senado". Ainda segundo a jornalista, "a menção explícita aos casos de Renan e Sarney foi recebida com críticas por setores do partido. Internamente, eles dizem que ao tocar nesse assunto, Dilma constrangeu o PMDB a aceitar calado a escolha de Ideli".

O ministro Luiz Sérgio caiu pela incapacidade de cumprir acordos acertados, era conhecido no Congresso como "ministro garçom", anotava os pedidos, mas não conseguia entregrar.  As hipóteses da nomeação de Dilma são muitas. Uma delas é a aposta numa relação mais "harmoniosa" entre Ideli-Gleisi do que teve a dobradinha Luiz Sérgio-Antonio Palocci, seus antecessores. A outra é aposta na experiência de negociação de Ideli sem abrir mão da defesa dos interesses do Planalto. "Não sei se serei uma Idelizinha paz e amor, mas vou negociar muito", disse nesses dias  Ideli Salvatti.

Há quem considera ainda que a nomeação de "Ideli é também um reflexo da reação da presidente à intrigalhada interna do PT que inviabilizou a indicação de Cândido Vaccarezza. Sem Lula, os petistas da Câmara têm se comportado como crianças em grupo na ausência do bedel. A aposta política de Dilma é ao mesmo tempo concessiva e de alto risco. Ideli, a professorinha, terá muito trabalho para organizar essa pescaria", comenta o jornalista Fernando de Barros e Silva.

Redesenho no governo?

A queda de Palocci pode ser uma oportunidade para Dilma redesenhar o seu governo? A indicação do novo nome para a Casa Civil, Gleisi Hoffmann, associada à troca do ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio por Ideli Salvatti, têm sido interpretada como sinal de que esse pode ser o desejo da presidenta. A grande imprensa, e colunistas políticos, indicam esse cenário. Afirma-se agora, que com a indicação das novas ministras, Dilma estaria se emancipando de Lula e finalmente imprimindo o seu modelo gerencial de governo.

Na opinião do jornalista Fernando de Barros e Silva,  "trocando Palocci por Gleisi, parece [Dilma] deu um passo para se emancipar da tutela de Lula".  Para Fernando Rodrigues, "o convite à senadora Gleisi Hoffmann para substituir Antonio Palocci na Casa Civil marca uma inflexão relevante no governo de Dilma Rousseff. Sai um paulista e homem de inteira confiança de Lula. No lugar entra uma paranaense e representante de uma nova geração de petistas".

A jornalista Renata Lo Prete, diz que Dilma Rousseff, por oportunidade do convite à Gleisi, foi explícita quanto à determinação de mudar o perfil da Casa Civil. Usou inclusive a expressão "Dilma da Dilma" para descrever a expectativa de que a senadora se concentre na gerência do governo, assim como fez a hoje presidente quando assumiu esse cargo em 2005, depois da queda de José Dirceu. O líder do PT no Senado, Humberto Costa,  foi na mesma direção, "na prática ela vai ser a Dilma da Dilma", disse ele.

Essa tendência, do tecnicismo de que Dilma deseja no governo, foi também destacado pelo jornalista André Gonçalves, para quem ao tomar posse como ministra, a paranaense fez questão de citar que se inspira na chefe – assim como Dilma não escondeu o apreço por características semelhantes às suas que enxerga na subordinada. "A senadora Gleisi tem sólida formação técnica e é uma grande gestora pública. Provou isso em todas as funções que exerceu. A agora ministra-chefe da Casa Civil se notabilizou pela competência como administradora", afirmou a presidente. Pouco antes, a paranaense falou que pretende agir como Dilma, "porque ela age da maneira certa, com clareza, razão e sentido público".

O modus operandi de Dilma Rousseff é bastante distinto de Lula. A presidenta é mais discreta, não aparece tanto em público, dá menos entrevistas, e mostra-se preocupada em que a máquina pública funcione; daí sua preferência por gestores, por nomes mais técnicos que façam as decisões fluirem, principalmente na aplicação do orçamento. Foi assim que Dilma ganhou notoriedade e caiu nas graças de Lula. Enquanto Lula priveligiava as relações e articulações políticas, Dilma tocava a máquina pública, particularmente o PAC. Com a gestão do PAC, Dilma ganhou fama de durona, de cobradora de resultados e também elogios por sua capacidade de "desfazer" abacaxis; ao mesmo tempo ganhou também muitos desafetos, entre eles a ministra do meio ambiente Marina Silva.

Dilma nunca se mostrou à vontade com as articulações políticas. Esse universo lhe parece um tanto pesado, não é o que lhe apraz no exercício da presidência. Dilma mostra predileção pela administração. A indicação de Gleisi pode ser um indicativo de que de fato quer imprimir uma velocidade maior nas coisas da administração; por outro lado, a nomeação de Salvatti indica a tentativa de retomar com mais força  a relação com a base aliada que anda bastante deteriorada.

A tese de que a nova ministra da Casa Civil será uma espécie de "Dilma da Dilma" é um pouco forçada. Se fosse para ser assim a escolhida seria Miriam Belchior, ministra do Planejamento. Gleisi é reconhecida gestora, mas também política. Já Ideli está mais para esse perfil.

Outra tese um pouco forçada é a afirmação de que Gleisi é vista como representante da renovação há muito buscada pelo PT, uma espécie de retomada dos valores mais caros ao partido, antes da crise o mensalão: integridade moral, ética e eficiência administrativa. Na reunião da bancada dos senadores do PT com Lula, teria sido Gleisi que chamou a atenção de que o problema Palocci tratava-se era pessoal e não justificava o engajamento do partido em sua defesa. As convicções de Gleisi, como visto anteriormente, apontam para essa possibilidade; porém é ingenuidade descolá-la da dinâmica e da lógica política na qual está vinculada – leia-se o círculo político com quem convive.

Ainda é cedo para a afirmação de que as indicações das novas ministras da Casa Civil e das Relações Institucionais apontam para uma inflexão no governo, tampouco é cedo descartar essa possibilidade. O tempo dirá se, isso sim, prevalecerá a dinâmica técnico-administrativa pretendida por Dilma ou se a lógica e a dinâmica do mundo da política acabará dando o ritmo do governo.

Conjuntura da Semana em frases

Menor...

"O governo sai menor do episódio Antonio Palocci. Nem somadas, Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti têm o peso que tinha Palocci, do ponto de vista de proximidade da presidente, de respaldo nos meios de comunicação e no empresariado, de experiência nos meandros do governo" – Clóvis Rossi, jornalista – Folha de S. Paulo, 12-06-2011.

Mas melhor? Talvez

"O governo ter encolhido não quer dizer necessariamente que ficou pior. É só fazer um exercício comparativo com a queda anterior de Palocci, em 2006. Qualquer observador dotado de sentido comum também diria, naquela altura, que o governo ficara menor. Guido Mantega, o substituto, não tinha o peso de Palocci" - Clóvis Rossi, jornalista – Folha de S. Paulo, 12-06-2011.

Dois lados

"Os acertos daqui para a frente serão somente de Dilma. E os erros também" - um velho observador da política  – Folha de S. Paulo, 12-06-2011.

Falta de agenda

"A doutora Dilma deveria reunir os sábios do Planalto para discutir o rumo de um governo que passou as últimas semanas acorrentado à seguinte agenda: 1) A discussão do kit-homofobia; 2) O debate da norma culta do idioma; 3) A importância do ministro da articulação política" – Elio Gaspari, jornalista – Folha de S. Paulo, 12-06- 2011.

PMDB se diverte

"Até nos restaurantes do Congresso há rodinhas do PMDB fazendo enxurradas de críticas ao governo, dessas de deixar o PSDB com tom governista. Mas, na verdade, a cúpula peemedebista se diverte. Confirmado o triunvirato Dilma-Gleisi-Ideli, Dilma vai precisar muito de Michel Temer. E, quanto mais Dilma lhe der asas, mais corre o risco de ficar à sombra do próprio vice" – Eliane Cantanhêde, jornalista – Folha de S. Paulo, 10-06-2011.

Somos governo!

"O Michel Temer não foi nomeado. Ele foi eleito. Não somos aliados do governo. Somos governo" - Henrique Eduardo Alves  – PMDB – RN, líder do partido na Câmara – O Estado de S. Paulo, 06-06-2011.

Ganhos privados

"O que causou espanto e levou os petistas a não apoiarem sua permanência no governo foi a origem de seus ganhos privados, a magnitude dos resultados, e o alto padrão de vida que ele se concedeu" - Elói Pietá, secretário-geral do PT – Folha de S. Paulo, 10-06-2011.

Indícios

"Para abrir investigação, não precisa de provas, mas indícios. Um indício é a multiplicação do patrimônio (do ministro). Ninguém está dizendo que é crime. O membro do Ministério Público não pode esperar que as representações já venham acompanhadas de documentos comprobatórios. Fosse assim, para que serve o Ministério Público?" – um procurador de São Paulo – O Estado de S. Paulo, 07-06-2011.

Tarda...

"A Justiça de Deus trabalhou" -  Francenildo dos Santos Costa, ex-caseiro e hoje jardineiro ao se referir ao fato do ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci ter deixado pela segunda vez um cargo importante no governo por não conseguir se defender – Zero Hora, 09-06-2011.

Demonização

"Minha história e minha formação cristã não deixam dúvidas sobre minha posição em favor da vida. [Mas] também não aprovo a demonização das mulheres que praticam o aborto" - Gleisi Hoffmann, ministra Chefe da Casa Civil – Folha de S. Paulo, 09-06-2011.

Freira

"Eu queria mesmo é ser freira. Mas a sede do convento da congregação à qual meu colégio pertencia era em Novo Hamburgo e meu pai não deixou eu ir sozinha para o Rio Grande do Sul" – Gleisi Hoffmann, ministra Chefe da Casa Civil – Zero Hora, 08-06-2011.

Estética

"A escolha de Gleisi Hoffmann foi surpresa geral, e uma aposta interessante de Dilma Rousseff, desde logo vitoriosa ao menos do ponto de vista estético" – Jânio de Freitas, jornalista – Folha de S. Paulo, 09-06-2011.

Sonho de pai

"Esperava que um dia ela pudesse ocupar a cadeira do Sarney, na presidência do Senado. De ministra, nunca tinha pensado não. Agora, quem sabe um dia ela também pode virar presidente. Já falam até em governadora do Paraná" – Júlio Hoffmann, pai da nova ministra Chefe da Casa Civil – Zero Hora, 09-06-2011.

Ilegalidade

"A partir da aprovação do relatório do deputado Aldo Rebelo, não me perguntem como iremos agir. Todos estaremos na ilegalidade. Estaremos contra o Estado se quisermos preservar as nascentes, os topos dos morros, as margens do rio" – Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente – Folha de S. Paulo, 07-06-2011.

Coração

"Na primeira vez que eu ouvi a Dilma falar, ela roubou meu coração" – Hugo Chávez, presidente da Venezuela – Zero Hora, 07-06-2011.

No mais

"Lula foi visitar os camaradas Fidel Castro e Hugo Chávez, dirigentes de países onde a Odebrecht tem contratos, a bordo de um jatinho da empreiteira. É como diria um velho bolchevique de Frei Paulo: alguém está enganando alguém" – Ancelmo Góis, jornalista – O Globo, 06-06-2011.

Asas

"O mexicano Ricardo Salinas, dono da rede de eletrodomésticos Elektra e do Banco Azteca, enviou ao Brasil seu melhor avião para buscar o ex-presidente Lula para uma palestra que fez nas Bahamas aos executivos do grupo, na semana passada: um Gulfstream G-IV, prefixo XA-RBS, iniciais de Ricardo Benjamín Salinas. O jato é considerado um dos mais potentes e luxuosos do mundo" – Mônica Bergamo, jornalista – Folha de S. Paulo, 08-06-2011.

Asas 2

"Grupos que já chamaram Lula para palestras, por sinal, ficaram impressionados com o nível de detalhes e cláusulas incluídas nos contratos. O ex-presidente não costuma fazer exigências de hotel ou alimentação. Mas desce a minúcias em relação ao pagamento e, quando feito por estrangeiros, à forma de transferência do dinheiro para o Brasil" – Mônica Bergamo, jornalista – Folha de S. Paulo, 08-06-2011.

Fácil

"Aqui é mais fácil conseguir um pistoleiro que um táxi" -  José Batista Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra, referindo-se ao sul do Pará - O Estado de S. Paulo, 05-06-2011.

Radical?

"Não acho radical (não ter filhos), é totalmente lógico. Sei que meu coração é grande o suficiente para amar uma criança que não foi gerada em meu útero. O que é radical são as estatísticas sobre superpopulação e superconsumo. A ONU diz que em 2050 seremos 9 bilhões de pessoas" - Stefanie Iris Weiss, jornalista e escritora norte-americana, autor do livro "Eco-Sex: Go Green Between the Sheets and Make Your Love Life Sustainable" (algo como Eco-Sex: fique verde entre os lençóis e torne sua vida amorosa sustentável) – Folha de S. Paulo, 05-06-2011.

Direitos individuais

"Parada Gay de SP terá neste ano banheiros químicos separados para lésbicas, gays, bissexuais e travestis, identificados pelas iniciais LGBT" – Tuty Vasques, humorista – O Estado de S. Paulo, 10-06-2011.

O último socialista

"A se confirmar o convite para dirigir a seleção cubana de futebol, o "doutor" Sócrates já decidiu: quer ganhar salário de trabalhador cubano. A que ponto chegou a democracia corintiana, né não?’ – Tuty Vasques, humorista – O Estado de S. Paulo, 10-06-2011

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Conjuntura da Semana. Indicações Pós-Palocci apontam para mudanças no governo? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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