As mulheres e a política. Entrevista especial com Gleisi Hoffmann

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03 Janeiro 2008

A efetiva participação das mulheres na política poderia contribuir para o surgimento de uma outra cultura política, a cultura do cuidado, da tolerância, do equilíbrio, da transparência. A opinião é de Gleisi Hoffmann, a primeira mulher a assumir uma diretoria da Itaipu e presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) no Estado do Paraná. A entrevista foi realizada pessoalmente pelos colegas do CEPAT.

Gleisi Hoffmann foi secretária extraordinária de Reestruturação e Ajuste do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul, secretária municipal de Gestão Pública de Londrina e integrou a Equipe de Transição do governo Lula. Para ela, “como as mulheres ficaram encerradas no mundo doméstico por muito tempo, os valores da solidariedade, da sensibilidade, da tolerância, que são essenciais até para criar um filho, ficaram no mundo doméstico e o mundo público foi dominado pelos valores masculinos, da agressividade”. Agora, diz ela, está passado o momento das mulheres cuidarem das “coisas da vida”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como você avalia a participação das mulheres no mundo econômico e político?

Gleisi Hoffmann - Eu creio que há uma diferença de participação entre o econômico e o político. No campo da economia, as mulheres estão mais avançadas do que no da política. Nós temos já quase metade do mercado de trabalho formal composto por mulheres. As mulheres foram à luta, conquistaram espaços. Elas são muito importantes do ponto de vista econômico e mesmo nas empresas já têm mais espaço do que na política, ainda que não em cargos mais elevados, onde ainda é menor a presença delas.

Nesse sentido, claro que falta muito ainda em termos de participação. Por exemplo, se você observar as mulheres de baixa renda, você vê grandes dificuldades, porque são majoritariamente mulheres que não tiveram acesso à educação e a oportunidades. Essas mulheres ainda são como donas de casa e muitas vezes, depois que criam seus filhos, ficam sem ter o que fazer, com dificuldades de geração de renda e, às vezes, sem respeitabilidade da sociedade.

Por outro lado, se você observa a área política, aí nós temos dificuldade em todos os campos. As mulheres estão muito pouco representadas nos espaços do legislativo e menos ainda nos espaços do executivo. Se olharmos movimentos sociais, como o movimento sindical e alguns setores dos movimentos populares, nós vamos ver ainda que as lideranças são homens, a não ser naqueles movimentos mais específicos que dizem respeito às mulheres. Nós precisamos de um incentivo muito maior na participação das mulheres na política. Infelizmente as quotas, como foram pensadas, não conseguem reverter o pouco tempo de participação das mulheres na política. Nós começamos a votar na década de 1930. Para sermos mais votadas, efetivamente vai um bom tempo.

IHU On-Line - E quais são as principais conquistas e desafios para as mulheres contemporâneas?

Gleisi Hoffmann - É o de ter uma maior participação em todas as esferas da vida, sem perder os valores femininos. O fato de irmos para o mercado de trabalho, assumirmos posições de frente na área econômica, sermos dirigentes empresariais, políticas, estando à frente de sindicatos e associações, não significa utilizar os mesmos métodos masculinos. A verdadeira diferença para o mundo com a entrada das mulheres na vida pública é justamente os valores e a forma como as mulheres agem. Seja proveniente dos fatores biológicos, do ser mãe, do gerar a vida, ou seja, proveniente da história cultural, em que a mulher é muito mais dada às questões de convívio, de relacionamentos mais tranqüilos, de tentar resolver as coisas através do consenso e não da disputa. Esse é o maior desafio: as mulheres conquistarem os seus espaços - e estão conquistando -, mas sem perder a referência dos seus valores.

IHU On-Line - Mas esses valores não resultam de uma construção cultural, social que confinou as mulheres a este tipo de papel, ligado ao privado, ao cuidado?

Gleisi Hoffmann - Não necessariamente. É claro que tem muito do cultural. Mas o fato de as mulheres serem geradoras da vida já desenvolve nelas essa relação de cuidado, de cuidar do outro. Elas sabem o que é gerar a vida e sabem o valor que isso tem. Nas sociedades mais primitivas, onde a mulher ocupava uma posição de liderança, ela nunca usou um poder autocrático, o poder da força. Sempre era o poder da persuasão, poder de consenso, o poder de aglutinação. A forma de exercer o poder da mulher é diferente e não só por uma questão cultural, mas por uma questão biológica. Quando eu falo isso, não quero dizer que os valores masculinos sejam ruins, porque a determinação, a força, são valores importantes para a vida. Eles apenas precisam ser equilibrados e mediados, pois tudo o que vai só para um lado é ruim. Nós precisamos buscar o equilíbrio.

IHU On-Line - Quais são os valores femininos que podem contribuir para o resgate de uma responsabilidade solidária com a humanidade e com o planeta?

Gleisi Hoffmann - Eu acredito que seja a sensibilidade, o respeito, o cuidado, a tolerância. É você saber que faz parte de uma teia da vida, que não está sozinho, que o que se faz ao outro reverbera em você. Quer dizer, ninguém consegue viver isolado, porque nós estamos todos juntos nesse processo. São valores muito importantes e que nós temos que cultivar, e isos independe de ser homem ou mulher. Talvez as mulheres tenham isso mais desenvolvido até pelas questões culturais e pelas questões biológicas. Eu acredito que nós temos que tentar fazer com que esses valores sejam vividos na esfera pública. Como as mulheres ficaram encerradas no mundo doméstico por muito tempo, esses valores de solidariedade, de sensibilidade, de tolerância, que são essenciais até para criar um filho, ficaram no mundo doméstico, e o mundo público foi dominado pelos valores masculinos, da agressividade da determinação. Nós estamos precisando reequilibrar e colocar os valores femininos no mundo público. Que os homens os assumam também seus valores, colocando-os também no mundo doméstico. Não com relação à agressividade, mas à determinação, à responsabilidade conjunta das relações de família. As mulheres podem dar uma contribuição muito grande para com o Planeta e para com a humanidade.

IHU On-Line - Você foi a primeira mulher a assumir a diretoria financeira da Itaipu. Como você avalia essa experiência do ponto de vista das relações de gênero?

Gleisi Hoffmann - Primeiramente, assumir a diretoria da Itaipu foi um desafio, não só como mulher, mas também profissionalmente. A área de engenharia elétrica, que não era a de minha atuação, exigiu que eu me interasse do mundo da geração de energia. Foi muito importante do ponto de vista da formação profissional. Do ponto de vista de gênero, foi um desafio e tanto, porque é uma empresa majoritariamente masculina, tanto que a engenharia está agora sendo cursada por mulheres.

Você entra lá e tem muito mais homens. Os cargos de comando quase todos são masculinos, embora você tenha mulheres eficientes, engenheiras, técnicas, capacitadas. No entanto, elas acabam sempre ficando ou ficavam na posição de assessoras. Sempre são boas assessoras, excelentes auxiliares, mas não passam muito disso, porque parece que há um acordo que não é explícito, mas um em que os cargos de comando devem ser masculinos. Quando eu entrei lá, eu tratei de levar adiante essas discussões. Num primeiro momento, houve uma abertura grande, as mulheres participaram, mas depois eu senti que houve um refluxo muito grande, até porque o que acontecia nas discussões nos locais de trabalho é que os homens diziam para as mulheres: “Escuta, vocês querem mais o quê? Vocês já estão na Itaipu que é uma grande empresa, vocês já têm licença maternidade, já têm um monte de direitos, e querem mais direitos? Vão acabar com a carreira de vocês, porque não vai mais ter empregos para as mulheres daqui a pouco!”.

E muitas mulheres começaram a temer isso e disseram: “Bom se a gente exigir muito, nós podemos perder o que já temos”. Era esse o conceito que estava se disseminando. E, então, nos tivemos que fazer uma reestruturação no programa, para mostrar que não era nada disso. Que, na realidade, quando nós trabalhávamos o empoderamento das mulheres na empresa, o reconhecimento de direitos pelas diferenças e até responsabilidades que elas tinham, nós estávamos também fazendo um bem à empresa. O rendimento era outro, a integração com o trabalho era outro, tudo melhorava. Se as pessoas estão felizes e elas podem exercer o seu direito, tudo fica melhor. Então, nós passamos a fazer um trabalho com as mulheres e com os homens e estender alguns direitos que nós demos às mulheres aos homens. E isso foi um ensinamento para mim. Eu achei muito legal, porque os homens reivindicaram. Se estamos querendo o equilíbrio, não se pode querer um direito só para a mulher; é preciso pensar em algo que possa beneficiar os dois e trazer a responsabilidade para os dois para aquilo que se está se querendo chamar a atenção.

Exemplo: a questão de dar o direito das mães levarem os filhos ao médico, sem ter que passar pelo chefe, ser estatutário, desde que comprovada a necessidade. Os homens requereram isso também, e eu avaliei que foi muito importante porque se nós deixássemos só para as mulheres, nós estaríamos consolidando uma visão de que a responsabilidade pelo cuidado dos filhos é apenas feminina. E isso não foi discutido lá. Nós não conseguimos avançar nessa discussão, mas é importante discutir o direito de acesso à creche para os homens, por exemplo. Temos que introduzir elementos novos que tragam a responsabilidade partilhada. Nós decidimos, na Itaipu, que as mulheres seriam liberadas para as festividades do dia das mães, nas escolas das crianças. Os homens também reivindicaram. Nós vamos vendo nessas medidas formas de trazer o equilíbrio, e eu avalio que foi muito bom. Tivemos também processos de seleção igualitários para os homens e mulheres, e começamos a fazer incentivos para que as mulheres assumissem cargos de chefia. Isso mexeu com o ambiente e foi muito bom para a empresa.

IHU On-Line - Existe na Itaipu uma diferenciação salarial grande entre homens e mulheres?

Gleisi Hoffmann - No mercado em geral. Quase cerca de 30% das mulheres ganham menos e na Itaipu também. Não é uma coisa tão grande como no mercado, mas acontece até porque as mulheres não são alçadas aos cargos de chefia que são os cargos bem remunerados. Quando se observa a tabela, é possível ver que as mulheres ganham em geral menos que os homens.

IHU On-Line - E por que as mulheres participam tão pouco e são tão críticas com relação ao mundo da política?

Gleisi Hoffmann - Porque o mundo da política demorou em aceitar as mulheres. Nós éramos incapazes de pensar até a década de 1930, e isso não faz cem anos. Nós não existíamos para esse mundo, ou seja, não éramos ninguém. Esse mundo não falava conosco, nem não se dedicava a nós, nem tinha mensagens para as mulheres. Então, as mulheres resolveram cuidar de outras coisas que lhes interessava e lhes dava respeito e valor. E, para fazer com que o mundo da mulher e o da política convirjam, será um processo histórico. Não se acaba com um processo milenar de uma hora para outra, porque nós conquistamos o direito de cidadania há menos de 100 anos.

É difícil acabar com um processo de exclusão em pouco tempo. Por conta disso é que as mulheres são refratárias ao mundo da política e esse é refratário às mulheres. Quando falamos em quotas de gênero, que os partidos têm que investir e ajudar as mulheres, isso não acontece. Às vezes, os partidos criam as "candidaturas laranja" e colocam as mulheres para disputar sem necessariamente ter as condições para cumprir uma legislação eleitoral. E, as mulheres também ficam olhando para a política e pensando: será que eu quero isso? Nunca me quiseram? Será que eu quero intervir? E depois é um mundo duro, bélico, é o mundo da disputa, da desconstrução do outro. Não é uma coisa do universo feminino. Eu acredito que as mulheres estão sentindo a necessidade de mudar e participar: mudar a política, mudar essa lógica e participar desse processo. Mas é uma coisa que está sendo feita aos poucos, com as condições mínimas que temos e com as mudanças que estão sendo feita na cultura da política brasileira, mundial.

IHU On-Line - Lançando um olhar de mulher no governo federal, estadual e municipal, que tipo de avaliação você faria do ponto de vista das fragilidades, desafios e conquistas?

Gleisi Hoffmann - Sem dúvida nenhuma, das três esferas, e não é porque eu sou do PT, o governo federal é quem tem o maior compromisso com a questão de gênero e com a questão das mulheres, tanto que criou uma secretaria nacional de política para as mulheres, com status de ministério. Existe uma preocupação de que todas as políticas tenham transversalidade na questão de gênero. O governo já realizou duas conferências nacionais sobre a questão da mulher e estimula a participação. Tem políticas dirigidas, orçamento, e isso é importante. Na sociedade em que nós vivemos, a sociedade capitalista, a importância está onde você coloca o dinheiro e não os discursos. Há dinheiro e eu acredito que poderia ter mais, mas há dinheiro. O governo federal é o que tem melhor visão, mas precisa avançar, sem dúvida! Ainda há métodos e atitudes machistas, tanto de gestão como de relacionamento de governo.

Em relação aos governos estadual e municipal, nós estamos muito atrasados. Não existe uma política pública voltada para a questão da mulher. Nós não temos secretaria da mulher, os conselhos da mulher têm dificuldade de funcionar, não por causa da vontade das companheiras, pois as mulheres tentam fazer, mas não têm estrutura. Para conseguir alguns avanços, seja de implantação de delegacias de mulheres, seja de casas de abrigos, seja de políticas de incentivo, existem grandes dificuldades. Não há um debate sobre a importância da mulher na gestão pública. É necessário ainda avançar muito nessas duas esferas.

IHU On-Line - Cristina Kirchner na Argentina, Michelle Bachellet no Chile. Não está na hora de uma mulher presidente do Brasil?

Gleisi Hoffmann - Com certeza, está na hora. Nós devemos ter uma mulher presidente dos Estados Unidos. Está na hora e nós temos condições para isso. O eleitorado brasileiro está preparado para votar em uma mulher. Aliás, em minha campanha para o Senado, eu senti muito isso, porque muita gente chegava para falar comigo e dizia que ia votar em mim porque eu era mulher. No inconsciente coletivo, talvez até porque nunca fomos testadas em massa nos cargos públicos, a mulher é vista como mais séria, mais compenetrada, mais dedicada. Eu penso que no fundo acontece isso mesmo. Se você pegar uma relação dos países onde você tem mais mulheres em cargos de poder, como são os países escandinavos, há os menores índices de corrupção, os melhores índices de desenvolvimento social. Quer dizer, há uma diferença de prioridade de olhar: as mulheres cuidam das coisas do cotidiano das relações com a vida e com as relações de vida! Enquanto isso, os homens cuidam mais das relações da economia, da estrutura, das coisas maiores. Está passado o momento de cuidarmos das coisas da vida, porque de nada adianta nós termos tanto desenvolvimento tecnológico, como nós temos hoje, e grande parte da humanidade ser infeliz. Eu não estou nem dizendo da infelicidade por falta de acesso às questões materiais, mas também da infelicidade de quem tem acesso às questões materiais, mas que perdeu a referência de vida. Então, eu creio que já está na hora de colocarmos outra pauta política, nos governos, na política e na sociedade.

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