Conjuntura da Semana. Palocci. Uma "herança maldita"?

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22 Maio 2011

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das "Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU.  A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Sumário:

Palocci. Uma "herança maldita"?
- A primeira crise política do governo
- Crise vira "moeda de troca"
- Explicações inconsistentes
- De trotskista à avalista do mercado financeiro
- Trajetória de denúncias
- Ministro indispensável ou "herança maldita"?
Conjuntura da Semana em frases

Eis a análise.

A primeira crise política do governo

As denúncias de rápido enriquecimento do ministro Antonio Palocci – acusado de multiplicar o próprio patrimônio por 20 num período de quatro anos – interromperam a calmaria do governo Dilma Rousseff.

Até então, a maior tensão que vinha sendo administrada no primeiro escalão envolvia a ministra da Cultura Ana de Hollanda. A propósito, faz poucos dias, antes do estouro da crise envolvendo Palocci, comentava a jornalista  Cláudia Laitano: "O fato de estar se desenrolando na Cultura a maior crise ministerial de seu governo deve ser motivo de secreta satisfação para a presidente Dilma Rousseff. Se é para dar rolo, melhor que seja ali, onde as decisões, acertadas ou não, não costumam custar muitos votos e nem atraem a atenção internacional".

Agora, as coisas mudaram. As denúncias colocam em primeira cena um ministro que ocupa um posto estratégico no governo, responsável por importantes negociações e decisões. Ainda mais, Palocci joga papel chave nas nomeações políticas e é destacado interlocutor junto ao Congresso.  Antes da crise, Palocci era apontado no PT como um possível pré-candidato à Presidência em 2018.

O mais importante, entretanto, é o prestígio de que goza Palocci no mercado. Prestígio esse que interessa ao governo, assim como interessa ao mercado ter um nome de sua confiança no governo.  "Para o mercado, Palocci é o integrante do governo de bom senso, com uma cabeça organizada, que pode evitar maluquices na economia", diz o economista de uma instituição financeira com passagem pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Segundo ele, a saída de Palocci seria mal recebida por "tirar uma âncora de uma certa racionalidade dentro do governo".

O caso Palocci já é considerado como a primeira grande crise política do governo Dilma Rousseff. Experiente no enfrentamento de crises, o ex-presidente Lula entrou em campo para ajudar a defender o ministro da Casa Civil. "Vocês não podem baixar a guarda", disse Lula nesse final de semana para o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho. O ex-presidente tem aconselhado Dilma a deixar o gabinete, "conversar com o povo" e buscar o apoio dos movimentos sociais, como ele fez em 2005.

Lula e o PT avaliam que o tiroteio contra Palocci partiu do PSDB e, mais especificamente, de pessoas ligadas ao ex-governador José Serra na Prefeitura de São Paulo. Por essa avaliação, o objetivo de Serra seria derrubar Palocci para atingir Dilma e criar problemas para o governo logo em seu primeiro ano.

A estratégia até o momento do Palácio do Planalto tem sindo a de blindar Palocci, impedindo a convocação do ministro para prestar depoimento sobre o caso na Câmara. Estratégia que tem o seu preço político: concessões e nomeações.

Crise vira "moeda de troca"

A estratégia de blindagem adotada pelo governo para proteger o ministro Palocci está exigindo concessões. As notícias da imprensa e de Ong’s que acompanham a crise dão conta de que o governo aceitou votar o Código Florestal para evitar a convocação de Palocci no Congresso.

A crise que envolve o ministro virou "moeda de troca" na mão dos ruralistas, que como poucos sabem utilizar crises que envolvem o governo em benefício próprio. Segundo Raul Silva Telles do Valle, do Instituto Socioambiental, "em negociação com líderes da oposição, Governo Federal se compromete a votar, sem modificações, projeto que causou polêmica por haver sido alterado pelo relator minutos antes da votação.  Acordo inclui, ainda, apreciação de emenda do deputado Paulo Piau (PMDB/MG) que, na prática, acaba com a proteção a áreas frágeis no país".

A fragilização de Palocci foi ótima para os ruralistas que travam uma batalha pela flexibilização do código florestal.  Acuado pelas denúncias, Palocci, que vinha nos bastidores sendo o principal negociador do governo junto às forças políticas, recua e cede aos ruralistasPalocci sabe que a hora é de não puxar a corda, pois é a sua cabeça que está em jogo.

De repente Palocci transformou-se num estorvo, mas considerando as funções que desempenha, as suas relações com o mundo da política, da economia e os serviços prestados, fizeram com o governo procurasse blindar o seu ministro-chefe da Casa Civil.

Um dos principais ministros de Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho, definiu Palocci como "peça fundamental" no governo e saiu em sua defesa: "Do ponto de vista do governo, não há reparo a fazer. Agora, ele tem vida pessoal. Antes, era deputado federal, desenvolvia outras funções e não cabe a nós discutir isso", comentou. "A presidente Dilma convidou Palocci para ser seu ministro e o que interessa é o comportamento dele nesse período, se ele vai ou não auferir bens de maneira legítima dentro do governo. É isso que interessa. Não cabe ao governo fazer investigação sobre o passado, salvo, naturalmente, a postura ética que cada um dos ministros teve ao longo da vida".

Os parlamentares do PT também saíram em defesa de Palocci, porém, com menos convicção do que o Palácio do Planalto. Episódio recente, atribuído a Palocci teria causado mal estar na bancada do PT. Foi a não indicação de um senador do partido a líder do governo no Congresso. Disputaram Walter Pinheiro (BA) e Wellington Dias (PI). Numa estratégia atribuída à Casa Civil, a função foi oferecida a José Pimentel (PT-CE). No fim, nem Pimentel levou. Um deputado do PMDB - Mendes Ribeiro (RS) - é citado como o escolhido, sem aviso à bancada. "Para uma bancada que tanto defende o governo, é um desprestígio. O Planalto nem ao menos ligou para nos informar. Soubemos da notícia pelos jornais", disse Lindbergh Farias, senador do PT-RJ, sobre a escolha do deputado Mendes Ribeiro.

Explicações inconsistentes

Não estão claras as motivações das denúncias. A imprensa não é imparcial como quer se fazer acreditar.- a tese do PT é de que José Serra está por detrás, como citado anteriormente. O fato, entretanto, é que as mesmas causaram estragos na frágil imagem ética do ministro – Palocci acumula histórico de acusações desde quando era prefeito em Ribeirão Preto (SP).

Apesar do esforço do governo e do PT em afirmar que nada mais tem a dizer sobre o tema e que tudo está suficientemente esclarecido, as dúvidas só aumentam. A afirmação do presidente nacional do PT Rui Falcão de que "Palocci é um ministro acima de qualquer suspeita. Não há fator de preocupação no governo. Ele já deu as explicações necessárias", soam como palavras ao vento.

O ministro a cada dia tem que se explicar mais. A frágil explicação de Palocci de que os recursos para a compra dos imóveis foram arrecadados com prestação de consultoria jogam ainda mais lenha na fogueira. O jornalista Jânio de Freitas, lança ao ar uma suspeita que ronda esse tipo de justicativa. Diz ele: "Consultorias são preferidas e eficazes para quem precisa lavar dinheiro ilícito no exercício de função pública".

Nesses dias, em documento enviado à Procuradoria-Geral da República (PGR) Palocci informa que trabalhou para pelo menos 20 empresas, incluindo bancos, montadoras e indústrias, e que boa parte dos pagamentos foi concentrada entre novembro e dezembro do ano passado quando anunciou aos clientes que não mais atuaria no ramo de consultoria. Na ocasião, segundo a justificativa do ministro, pelo menos 70% dos serviços de consultoria e análises de mercado já estavam concluídos, o que explicaria o pagamento nesse período.

Esse período – novembro a dezembro – coincide com a compra do milionário apartamento de R$ 6,6 milhões num bairro nobre de São Paulo, mas também coincide com o período do fim das eleições presidenciais que culminou na eleição da presidente Dilma Rousseff. Palocci esteve à frente da coordenação da campanha e foi importante interlocutor na arrecadação de fundos.

A coisa toda se complicou ainda mais na medida em que Palocci se nega a divulgar o nome de seus antigos clientes, sob a alegação de que respeita cláusulas de confidencialidade. Argumento considerado inconsistente por colegas de partido, como o senador Paulo Paim:  "Não há nenhuma forma de proteção. Palocci deve simplesmente explicar se ele foi consultor. (...) O Lula, por exemplo, ganha em torno de R$ 200 mil por palestra. Ele vai ter que declarar isso no Imposto de Renda. Acho que é o mesmo caso. Ele (Palocci) dava consultoria, acredito que ele terá que explicar. Ele deve apresentar a justificativa da evolução do seu patrimonio, conforme os recibos das empresas com que ele trabalhou nesse período. Eu espero que isso ocorra de forma transparente, tranquila, para voltarmos a discutir o país", disse o senador.

Na tentativa de se defender e justificar as consultorias como algo natural para pessoas que ocuparam postos chaves no governo federal, Palocci se complicou ainda mais ao envolver outros ex-ministros. Em uma nota aos Senadores, com o intuito de se explicar, em um dos trechos afirma o ministro: "No mercado de capitais e em outros setores, a passagem por Ministério da Fazenda, BNDES ou Banco Central proporciona uma experiência única que dá enorme valor a estes profissionais no mercado. Não por outra razão, muitos se tornaram em poucos anos, banqueiros como os ex-presidentes do BC e BNDES Pérsio Arida e André Lara Rezende, diretores de instituições financeiras como o ex-ministro Pedro Malan ou consultores de prestígio como ex-ministro Mailson da Nóbrega".

O ex-presidente do BNDES, o economista Carlos Lessa diz que ficou "muito irritado" ao tomar conhecimento do argumento de Antonio Palocci de que a passagem pelo Ministério da Fazenda, o BNDES ou o Banco Central "proporciona uma experiência única que dá enorme valor a estes profissionais no mercado". Embora não tenha sido citado pelo ministro, Lessa diz que não aceita ser jogado "na vala comum".

Lessa reconhece, porém, que informação privilegiada é preciosa para o mercado. Segundo ele, "é evidente que todo homem que teve função importante na máquina pública tem enormes contatos. Ele tem a possibilidade da inside information, que é a coisa mais preciosa que existe no mundo de negócios. Se você fizer uma lista dos milionários que surgiram a partir dessas presidências e diretorias (de bancos estatais e ministérios), é impressionante".

A nota, de caráter interno, vazou para a imprensa. Palocci afirmou que o texto era um relatório reservado escrito pelo jornalista Thomas Traumann, assessor especial do ministro, para subsidiar a articulação política e a defesa no Congresso. A nota fez com que Palocci telefonasse para os ex-ministros e se desculpasse pelo episódio. Tanto Malan como Armínio, Arida e Rezende trabalharam no governo Fernando Henrique. Palocci, disse não ter tido a intenção de causar qualquer constrangimento, mas apenas de esclarecer que profissionais que passam pelo governo são valorizados.

O estrago, porém já estava feito e pegou mal. Virou até motivo de gozação: "Antonio Palocci explicou tudo direitinho: ex-ministro que não enriquece não é, necessariamente, honesto. Pode ser só incompetente! O chefe da Casa Civil, modéstia à parte, inclui-se fora dessa categoria, com Pedro Malan, Maílson da Nóbrega e toda aquela rapaziada bacana do Plano Real. Nenhum deles teve como escapar da avalanche de dinheiro que os alcançou na saída do governo. Ficar rico, nesses casos, é, mais que compreensível, inevitável!", disse o humorista Tutty Vasques.

As denúncias contra Palocci já respingam no governo de Dilma.  Segundo Jânio de Freitas, "Palocci compromete o governo de Dilma Rousseff. Já transfere para a própria presidente a expectativa da opinião pública e suas consequências onerosas. Apesar do seu admirável patrimônio, Antonio Palocci é um grande devedor", diz o jornalista.

Na opinião de Vinícius Torres Freire, a sorte do governo é que a oposição é fraca. Segundo ele, "apenas uma oposição catatônica, narcoléptica, zumbi ou com muita culpa no cartório não se daria ao trabalho de pelo menos cobrar explicações rápidas, organizadas e críveis para o faturamento expressivo da empresa do deputado federal, coordenador de campanha da presidente da República e seu premiê".

Outro fator que pesa na sustentação política do ministro são suas fortes relações com o mercado. A jornalista Maria Inês Nassif destaca que interessa ao mercado a permanência de Palocci.

De trotskista à avalista do mercado financeiro

Antonio Palocci fez carreira política meteórica – de militante da corrente trotskista Libelu, passando pela prefeitura de Ribeirão Preto, chegando a cargos chaves no governo federal. A ascensão meteórica de Palocci se cruza indiretamente com o assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel. Com a vitória de Lula em 2002, Celso Daniel foi nomeado como coordenador da equipe de transição. Com o seu assassinato inesperado, Palocci assume a função de coordenador da transição e vai ganhando destaque em meio aos meses de turbulência que antecederam a posse de Lula.

Foi principalmente de Palocci, com o apoio de José Dirceu e Luiz Gushiken, a ideia da Carta ao Povo brasileiro com o intuito de acalmar o mercado. A Carta também ficou conhecida como a Carta de Ribeirão Preto, em função do papel protagonista de Palocci. O documento escrito às pressas, mas calculadamente nas eleições de 2002, afirma o compromisso do governo Lula em honrar os pagamentos com os credores e sinaliza que o governo manteria a macroeconomia do governo anterior, tendo como pilares a disciplina fiscal e monetária.

A "Carta" foi levada à risca por Meirelles nomeado por Lula como presidente do Banco Central, e por Palocci no Ministério da Fazenda no primeiro ano do governo Lula. Aumento na taxa de juros, aumento do superávit primário, cortes no orçamento que atingiram a área social, renovação do acordo com o FMI, entre outras, foram medidas introduzidas pela dupla Meirelles-Palocci que fizeram jus ao que se prometeu na Carta ao Povo brasileiro.

Começava aí a forte relação de Palocci com o mercado, sobretudo o financeiro. Relação essa que Palocci já cultivava em Ribeiro Preto à frente da prefeitura. Em Ribeirão, Palocci imprimiu um modelo de administração liberal com as parcerias públicas-privadas e a abertura do capital da Ceterp, a companhia telefônica municipal. Medidas essas consideradas pelo PT à época como neoliberais.

As medidas de austeridade, corte no orçamento, aumento de juros e do superávit primário no ínicio do governo Lula fizeram a alegria do mercado financeiro e tiveram em Palocci o seu principal avalista. Enquanto José Dirceu transitava com desenvoltura no mundo da política, Palocci fazia o mesmo junto ao mercado. Vem daí as tensões entre os dois e a arbitragem de Lula. Tensão que foi desfeita com a queda de José Dirceu na crise do mensalão. Palocci passou a reinar absoluto, principalmente na área econômica até a sua queda com o "caso do caseiro".

O fato inconteste é que o nome de Palocci no governo Lula, e isso vale para o governo de Dilma, passou a figurar como "fiador" do PT junto ao mercado. Como diz Maria Inês Nassif: "No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foi o fiador de um candidato eleito considerado pelo mercado como um incendiário; no governo Dilma, de uma presidente com um passado revolucionário que carregava a tiracolo um ministro da Fazenda, Guido Mantega, nada ortodoxo, e optou por tirar do Banco Central outro "fiador’ do mercado, Henrique Meirelles".

A idéia de "fiador do mercado", de quem faz pontes entre o "mercado" e o "aparelho estatal" é partilhada pelo sociólogo Rudá Ricci, para quem "Palocci sempre foi mais sutil. Um sorriso tímido e o silêncio. Mas foi um artífice importante da implantação do realismo político no interior do petismo".

Trajetória de denúncias

Várias denúncias envolvem a trajetória política de Antonio Palocci, desde os seus tempos de prefeito em Ribeirão Preto. Em 2005, Palocci viu seu nome envolvido no escândalo que ficou conhecido como "Máfia do Lixo". Na época, o advogado Rogério Buratti acusou Palocci de receber - entre 2001 e 2002 quando era prefeito de Ribeirão Preto - uma propina mensal de R$ 50 mil da empresa Leão Leão, responsável pela coleta de lixo na cidade. No mesmo ano, o nome de Palocci foi citado pelo ex-deputado Roberto Jefferson como um dos que tinham conhecimento do "esquema do mensalão".

O ex-todo poderoso ministro de Lula caiu em desgraça, entretanto, com o "escandalo do caseiro". Palocci comandava o ministério da Fazenda, quando a sua situação ficou insustentável a partir da quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa, testemunha de acusação contra Palocci no caso da casa do lobby, mansão alugada em Brasília pela chamada "República de Ribeirão Preto" para servir de sede para reuniões de lobistas e encontros com prostitutas, conforme apurou investigações da CPI dos Bingos.

Segundo a jornalista Maria Inês Nassif, na oportunidade "Palocci não caiu porque se viu envolvido em denúncias. Enquanto eram apenas elas, foi suficientemente poupado pelo mercado, pelos jornais e também pela oposição. Caiu devido a um excesso seu, depois de já ter retomado o controle sobre seu destino no Congresso. Depois de sair-se muito bem em uma ida ao Legislativo para prestar esclarecimentos, sua assessoria divulgou o sigilo bancário de um caseiro, a testemunha do caso. Se esse excesso não tivesse acontecido, é provável que tivesse continuado no governo, inclusive fortalecido, numa conjuntura em que o presidente estava frágil e o PT sob fogo cruzado. Seria, pelo menos naquele momento, um ministro forte sustentando um presidente fraco".

A queda nesse caso impossibilitou vôos ainda mais altos do ministro. Em 2005, com a forte crise do mensalão,  Palocci chegou a ser sondado como possível nome para substituir Lula.

Em 2006, Palocci elegeu-se deputado federal e caiu em ostracismo, porém retornou com força na campanha de Dilma Rousseff em 2010 como um  de seus principais coordenadores de campanha, particularmente na relação com o mundo empresarial.

Ministro indispensável ou "herança maldita"?

Palocci "não tem poder apenas porque isso foi conferido a ele pela presidente da República, Dilma Rousseff, mas pela capacidade de se investir do papel de fiador de governos petistas, principalmente junto ao mercado", comenta a jornalista Maria Inês Nassif.

Segundo ela, "até o momento, mesmo com todos os revezes de sua vida pública, a imagem de Antonio Palocci, titular da Casa Civil, que emerge das denúncias de que teria aumentado o seu patrimônio pessoal em 20 vezes de 2006 a 2010, está longe de ser a de um ministro enfraquecido. É o retrato de corpo inteiro de um político muito forte."

A força de Palocci vem dos tempos em que reinou absoluto na área econômica, conhecida como  a  "Era Palocci".

A "Era Palocci" que deu prestígio ao ministro junto ao mercado está relacionado à sua conhecida afinidade com as teses do "Consenso de Washington". Teses essas que do ponto de vista econômico apontam para a disciplina fiscal, ou seja, um Estado que privilegia a realização de superávits primários, a inflação sob rigoroso controle e o uso da taxas de juros como mecanismo central na política monetária.

Do ponto de vista político, o "Consenso" defende a retirada do Estado das atividades produtivas, deixando-as para o setor privado. Palocci nunca se declarou seguidor do Consenso de Washington, porém, sob a perspectiva econômica adotou as mesmas políticas de seus antecessores Pedro Malan e Armínio Fraga – ex-ministros de Fernando Henrique Cardoso.

A "Era Palocci" teve seu auge no primeiro mandato de Lula, já no segundo mandato o pêndulo oscilou para o lado dos "desenvolvimentistas" com a nomeação de Guido Mantega para o ministério da Fazenda e Luciano Coutinho para o BNDES. A representação do "monetarismo" continuou com Henrique Meirelles à frente do Banco Central, porém sem a força anterior.

A guinada do monetarismo ao desenvolvimentismo deu-se a partir de uma conjuntura economica internacional favorável e a necessidade do país retomar o crescimento econômico. É nesse contexto que o papel do Estado volta a exercer protagonismo com o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC e que Dilma Rousseff começa a ganhar força – substitui José Dirceu na Casa Civil e assume a coordenação do PAC.

A performance de Dilma à frente da Casa Civil associada a queda de José Dirceu e Antonio Palocci e a crise do PT com "mensalão", faz com que Lula a escolha para sua sucessão. Eleita, Dilma faz uma clara opção pela continuidade do modelo desenvolvimentista.

A opção pela não continuidade de Henrique Meirelles no Banco Central e sua substituição por um nome de menor peso político e mais técnico com Alexandre Tombini e a definição pela continuidade de Guido Mantega na Fazenda e de Luciano Coutinho no BNDES indicam que Dilma fez uma clara opção de exercer um controle maior da economia.

Antes das nomeações dos titulares da área econômica, falava-se que Dilma manteria o núcleo econômico "balanceado" de Lula, ou seja, a manutenção do pêndulo entre monetaristas, representado por Meirelles no BC versus os desenvolvimentistas, representado por Mantega na Fazenda. O pêndulo mexeu-se para o lado dos desenvolvimentistas.  A indicação do nome de Alexandre Tombini, para o Banco Central sinalizou nessa perspectiva. Tombini é tido como um nome técnico que "não tem corrente", conciliador e com bom trânsito entre "desenvolvimentistas" e "mercadistas". O mercado recebeu bem o nome de Tombini.

No contexto de reafirmação do modelo desenvolvimentista, Palocci perdeu força. O papel, entretanto, que desempenhou na coordenação de campanha, as boas relações com o mercado financeiro e o aval de Lula, o guindaram à Casa Civil. Note-se, porém que assumiu uma Casa Civil desitrada. O PAC que anteriormente estava sob coordenação da Casa Civil passou para a Presidência. Palocci assume o posto, portanto, e ao que tudo indica em função do seu passado - bom articulador com o mundo da política e principalmente com o mercado – e, acima de tudo, porque teria sido bancado por Lula.

Nesse momento, a questão é ser respondida é se Palocci continua sendo um ministro indispensável ou se transformou numa herança maldita a ser administrada.

Conjuntura da Semana em frases

Complô?

"Não tem nada de complô. Ele simplesmente não se emenda, não aprende. Imagine você numa situação dessas, faz todo tipo de estripulia e, na véspera de assumir uma posição central, ainda compra um apartamento de R$ 6,6 milhões. Palocci perdeu o pudor, acha que pode tudo. É um misto de arrogância com certo amadorismo" - Lucia Hippolito,  cientista política – Zero Hora, 22-05-2011.

Tráfico de influência

"Trata-se evidentemente de um caso clássico de tráfico de influência. Palocci pode até não tê-lo praticado, mas que as empresas queriam usar os contatos dele no governo para obter facilidades e/ou negócios, só o mais tolo dos tolos pode duvidar" – Clóvis Rossi, jornalista – Folha de S. Paulo, 22-05-2011.

Fofoca

"Se a empresa de Palocci faturou R$ 20 milhões e recolheu à prefeitura o ISSQN (Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza) e os impostos federais à União, nada há a comentar. Essa empresa passaria por qualquer auditoria interna ou externa e até por perícia contábil da Receita Federal. O resto é fofoca" - José C.F. dos Passos -  Campinas - SP - Painel do Leitor - Folha de S. Paulo, 22-05-2011.

Comparações

"Comentário de um remanescente da administração passada: uma crise com o principal ministro de Dilma não é igual a uma crise com o principal ministro de Lula. Primeiro, pela diferença de quilometragem entre os dois presidentes. Depois porque nenhum ministro - nem mesmo Antonio Palocci- teve, no reinado de Lula, a centralidade do atual chefe da Casa Civil na equipe de Dilma" - Renata Lo Prete, jornalista – Folha de S. Paulo, 22-05-2011.

Operação abafa

"A presidente Dilma convidou Palocci para ser seu ministro e o que interessa é o comportamento dele nesse período, se vai ou não auferir bens de maneira legítima. Não cabe ao governo fazer investigação sobre o passado" - Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência - O Estado de S. Paulo, 17-05-2011.

"Linha de fuga"

"Palocci não está adotando uma linha de defesa. É só uma linha de fuga e despistamento. Praticada pela mobilização urgente do PT e do PMDB, que não se cansam de proclamar "o assunto encerrado" - até que o senador Humberto Costa, o deputado Cândido Vaccarezza e outros sem-cerimônia precisem correr para novas defesas fugitivas de Palocci e deles mesmos" – Jânio de Freitas, jornalista – Folha de S. Paulo, 19-05-2011.

Efeitos tóxicos

"A atitude atual de Antonio Palocci já expele efeitos tóxicos. A ética de um governo não está só nas suas decisões. Depende também da conduta e do conceito de seus integrantes" - Jânio de Freitas, jornalista – Folha de S. Paulo, 19-05-2011.

Palocci e Yeda

"Palocci comete o mesmo erro que Yeda (Crusius, ex-governadora do RS - PSDB) cometeu: resiste em dar explicações, alegando que tudo foi feito dentro da lei. Quando Yeda apresentou a engenharia financeira que fez para comprar a casa, o estrago já estava feito" - Rosane de Oliveira, jornalista - Zero Hora, 20-05-2011.

Palocci

"Ninguém em Brasília enxerga um único colaborador de Dilma com o poder para sequer tentar se emparelhar a Palocci" – Fernando Rodrigues, jornalista – Folha de S. Paulo, 18-05-2011.

Deixa quieto

"Melhor não encrencar com esse negócio de evolução patrimonial do Palocci. Imagine qual será a do Lula daqui a um ano" - um grão-petista - Folha de S.Paulo, 18-05-2011.

Meritocracia

"Antonio Palocci cogitou ontem deixar o governo Dilma. Parece que abriu uma vaga boa no FMI. Se a Europa está atrás de alguém capaz de fazer o dinheiro se multiplicar..." - Tutty Vasques, humorista - O Estado de S. Paulo, 20-05-2011.

Saci-Pererê

"Eu acredito sinceramente que foi por pura capacidade, inteligência e honestidade que Palocci multiplicou por 20 o patrimônio dele em quatro anos, assim como acredito em Papai Noel, mula sem cabeça e Saci-Pererê" - Flávio Cardoso, Guariba, SP - Painel do Leitor - Folha de S. Paulo, 18-05-2011.

Cinismo

"A declaração de Aldo Rebelo culpando o Ibama pelo salto brutal do desmatamento na Amazônia beira o cinismo" - Ivan Valente, deputado federal - PSOL-SP, respondendo ao relator do novo Código Florestal, segundo quem o instituto está mais preocupado em multar pequenos agricultores do que em fiscalizar o desmate ilegal - Folha de S. Paulo, 21-05-2011.

Arame farpado

"Foi tensa a reunião do MST com o governo, quinta. Apesar de elogios às ações de agricultura familiar, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) ouviu duras cobranças quanto à reforma agrária" - Renata Lo Prete, jornalista – Folha de S. Paulo, 21-05-201

DSK

"A desgraça de Dominique Strauss-Kahn, 62 anos e, então, o nº 1 do FMI, não é a primeira do gênero. Mas, sempre que acontece, eu me pergunto que pulsões secretas de um indivíduo não interferem no destino de milhões que não têm nada com elas. Ou o Strauss-Kahn sóbrio e competente, em quem um sistema inteiro apostava para voltar à prosperidade, seria um, e o trêfego Dominique, que não podia ver um rabo de saia, outro?" – Ruy Castro, escritor – Folha de S. Paulo, 18-05-2011.

"Nelson Rodrigues dizia que, se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém. Nossa sensibilidade ou hipocrisia pode rejeitar esse conceito, mas ele é difícil de derrubar" – Ruy Castro, escritor – Folha de S. Paulo, 18-05-2011.

DSK e Berlusconi

"Sabe qual a diferença entre o diretor do FMI e o Berlusconi? É que o Berlusconi paga! – José Simão, humorista – Folha de S. Paulo, 18-05-2011.

IMF

"FMI é especialista em sacanagem! E FMI em inglês é IMF: International Mother Fuckers!" - José Simão, humorista - Folha de S. Paulo, 17-05-2011.

Plano perfeito

"Está tudo correndo do jeitinho que o presidente Sarkozy planejou: a confirmação da gravidez da primeira-dama Carla Bruni saiu, não à toa, dias após a prisão por estupro de seu principal adversário nas eleições de 2012, na França" - Tutty Vasques, humorista - O Estado de S. Paulo, 18-05-2011.

Centro-direita

"Enquanto assinava a ata de fundação (do PSDB), estava claro para mim o risco que o novo partido corria. Se o PT, que naquela época se considerava um partido socialista revolucionário, chegasse ao poder, poderia acontecer aqui no país o que aconteceu com os partidos socialistas na Europa; o PT poderia se transformar em um partido social-democrático, e o PSDB seria empurrado para a centro-direita. Foi isso o que aconteceu, com um agravante: o partido também não se identificou com um nacionalismo econômico essencial para que o Brasil alcance os níveis de bem-estar dos países ricos" – Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista, ao se desligar do PSDB – Folha de S. Paulo, 18-05-2011.

Os livro estão emprestado

"Você pode estar se perguntando: "Mas eu posso falar os livro?". Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico" - ONG Ação Educativa, autora do livro "Por uma Vida Melhor", defendendo a frase "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado", usada na página 15 - Folha de S.Paulo, 14-05-2011.

"A escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma "certa" de falar, a que parece com a escrita; e o de que a escrita é o espelho da fala" - MEC ao afirmar que o livro "Por uma Vida Melhor" está em acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) - normas a serem seguidas por todas as escolas e livros didáticos - Folha de S. Paulo, 14-05-2011.

Erudito

"Não tem que se fazer livros com erros. O professor pode falar na aula que temos outra linguagem, a popular, não erudita, como se fosse um dialeto. Os livros servem para os alunos aprenderem o conhecimento erudito" - Mírian Paura,  professora do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), criticando a decisão de distribuir o livro com erros de português, tomada pelos responsáveis pelo Programa Nacional do Livro Didático - Zero Hora, 17-05-2011.

Nota 10

"Tiririca vai pedir revisão de prova àquele promotor que duvidava de seus conhecimentos da língua portuguesa. Está certo de que, pelas novas normas gramaticais adotadas pelo MEC, dificilmente o Ministério Público encontrará erros em seu texto" - Tutty Vasques, humorista - O Estado de S. Paulo, 22-05-2011.

Novas ideias

"As grandes empresas, em geral, dão pouco espaço às novas ideias. São burocráticas e repetitivas. Uma pessoa que trabalha 12 horas por dia não tem espaço para ser criativa" - Domenico Di Masi, sociólogo italiano – Zero Hora, 19-05-2011.

Gay

"Na verdade, ele nunca me alou: "Pai, eu sou gay". Mas claro que não sou idiota, ele tem aparência total. E vi a mãe dele falando na TV. Mas não muda nada. Resfpeito e admiro igualmente. Tenho muitos amigos gays. Mas é claro que quando é com o outro é mais fácil, mais legal. Quando é na nossa família fica mais difícil. Por mais que não seja preconceituoso, ninguém quer ter um filho homossexual, até pelo preconceito que ele vai sofrer. Respeito a opção, mas quero que ele tenha um comportamento íntegro na sociedade. Não que ser gay não seja íntegro, mas pô, comportamento nos lugares, né, porque não acho legal o cara afeminado com roupas extravagantes. Opção sexual é uma coisa, vestuário é outra" – Edmundo, ex-jogador de futebol – O Estado de S. Paulo, 16-05-2011.

"Ele pode ser gay, mas que tenha uma postura. Já viu quando você está numa festa e chega uma bicha querendo aparecer? Exagero não é legal. Mas é chato, né? Tem meus amigos homens que comentam" – Edmundo, ex-jogador de futebol – O Estado de S. Paulo, 16-05-2011.

Inflação

"Se a TV Record ofereceu salário de R$ 1,4 milhão para ter o Datena de volta, francamente, R$ 200 mil por palestra do Lula tá barato pra caramba!" - Tutty Vasques, humorista - O Estado de S. Paulo, 15-05-2011.

Horóscopo

"Para se ter uma noção da popularidade do zodíaco, a Folha.com. registra 8 milhões de page views (cliques) todo mês no horóscopo, que é bem mais completo do que o impresso. (...) É o sexto canal de maior audiência" – Suzana Singer, ombusdman – Folha de S. Paulo, 15-05-2011.

"O horóscopo pode não ter validação científica, mas é um fato cultural inconteste da nossa sociedade", diz a Redação"  – Suzana Singer, ombusdman – Folha de S. Paulo, 15-05-2011.

"Um jornal que preza a racionalidade e a ciência deveria abrir mão da astrologia"  – Suzana Singer, ombusdman – Folha de S. Paulo, 15-05-2011.

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