A ultradireita europeia e Bolsonaro

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13 Junho 2019

Vendo como se comportam as autoridades das principais potências da União Europeia sobre a ultradireita, e o modo em que se posicionam os meios de comunicação europeus frente a Bolsonaro, parece incoerente que a grande imprensa da Argentina pregue a abertura ao mundo e o respeito aos valores democráticos, enquanto evita referir-se aos aspectos mais autoritários e retrógrados de Bolsonaro.

O artigo é de Agustín Fontenla, publicado por Página/12, 12-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Vivem-se dias decisivos na Espanha. Nas negociações que ocorrem entre as partes para formar acordos de governos em municípios, comunidades autônomas e no Estado, há um debate político e cultural sobre o lugar que a sociedade espanhola e a liderança do país está disposta a conceder à ultradireita local, representada pelo partido Vox.

A força liderada por Santiago Abascal rejeita a legislação contra a violência machista, ataca a comunidade LGTBI e procura acabar com a organização territorial existente com base na autonomia das várias regiões do país, restituindo o poder inteiramente ao Estado. O melhor exemplo deste último é o seu requisito de aplicar o artigo 155 da Constituição Nacional da Catalunha, para se intervir no governo catalão de forma indefinida.

Ainda que suas propostas atentem contra a democracia espanhola, o Partido Popular (PP) e Ciudadanos (Cs), estão dispostos a chegar em acordos com o Vox para alcançar as maiorias necessárias para governar nas Comunidades estratégicas, como Madrid. Embora ainda não esteja claro se formarão governos tripartidos, ou somente será um pacto de programas, essa decisão supõe normalizar a ultradireita e incluí-la no sistema democrático, apesar de que Vox quisesse dinamitá-lo.

Esse debate que se produz na Espanha torna-se inconcebível nas principais potências europeias. Um bom exemplo disso é a postura que tomou Manuel Valls, dirigente do Cs, e ex primeiro-ministro da França. O dirigente catalão publicou dias atrás um tuíte em que dizia: “Pactos anunciados entre o PP e Vox em muitas cidades... reuniões de líderes de partidos constitucionalistas com Vox... normalidade democrática ou normalização de um partido de extrema-direita? Não é o mesmo, e não posso esconder outra vez minha grande preocupação”.

A inquietude de Valls é entendível. Na França, o presidente Emmanuel Macron nunca faria pacto com o partido de Marine Le Pen, a quem considera de ultradireita. Na Alemanha, nem Angela Merkel, nem o partido Verde, nem o Social-Democrata, pactuariam com os radicais de Uma Alternativa para a Alemanha (AfD). No Reino Unido, seria surreal um acordo de governo entre o trabalhista Jeremy Corbyn e o chefe do partido do Brexit, Nigel Farage. Na Itália, o novo líder do Partido Democrata, Nicola Zingaretti, disse que a ultradireita do vice-presidente italiano, Matteo Salvini, busca destruir a União Europeia.

Nesse contexto, é preocupante que os principais meios de comunicação da Argentina, com pouca exceções, tenham coberto a visita do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ao país, sem mencionar sua condição de extrema-direita (como fizeram meios de comunicação dos Estados Unidos quando Bolsonaro visitou Donald Trump), nem contextualizar o encontro com algumas das últimas barbaridades que cometeu o mandatário brasileiro, a quem os principais meios europeus localizam, sem ambiguidades, na ultradireita.

Somente nos últimos dois meses, os meios de comunicação da União Europeia se referiram a Bolsonaro como um ultradireitista (The Guardian, do Reino Unido, em 2 de maio; El Mundo, da Espanha, em 5 de junho) que ataca “a universidade pública, a ciência e o pensamento crítico” (El País, da Espanha, 13 de maio), que tentou “relativizar” a ditadura no Brasil (El Español, em 4 de abril), e “está convertendo o Brasil no ‘exterminador do futuro’” pela sua política na Amazônia (La Vanguardia, da Catalunha, em 10 de maio), entre outras coisas. O influente Financial Times, citado frequentemente pelo establishment argentino, abandonou o patrocínio de uma festa em honra a Bolsonaro durante a visita do mandatário brasileiro a Nova Iorque, em oposição ao enfrentamento do presidente do Brasil com a comunidade LGBTI.

Vendo como se comportam as autoridades das principais potências da UE sobre a ultradireita, e o modo em que se posicionam os meios de comunicação europeus frente a Bolsonaro, parece incoerente que a grande imprensa da Argentina pregue a abertura ao mundo e o respeito aos valores democráticos, enquanto evita referir-se aos aspectos mais autoritários e retrógrados de Bolsonaro, e destaca alegremente a sintonia ideológica que existe entre o mandatário do Brasil e o presidente Maurício Macri. Parece que, como acontece na Espanha, há alguns líderes e alguns meios de comunicação indiferentes sobre os riscos envolvidos na normalização da extrema direita no sistema democrático.

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