Avanço da ultradireita estraga vitória de Angela Merkel

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25 Setembro 2017

A chanceler alemã conquista o quarto mandato, marcado também pela entrada no Parlamento do partido da ultradireita Alternativa pela Alemanha.

A reportagem é de Ana Carbajosa e publicada por El País, 24-09-2017.

Mais quatro anos de Angela Merkel. O partido da chanceler alemã venceu as eleições pela quarta vez consecutiva e por uma folgada maioria, segundo as primeiras pesquisas após o fechamento das urnas. A União Cristã-Democrata (CDU) teria obtido 32,9% dos votos, segundo os dados preliminares publicados pela rede de televisão pública ARD, seguido pelo partido social democrata (SPD), que teria conseguido 20,8% dos votos, uma derrocada histórica com pior resultado desde 1949.

"Esperávamos um resultado melhor", reconheceu Merkel, que lembrou a todos que seu partido ainda é o mais forte e que não pode haver coalizão de Governo sem eles. Mas não é segredo que a CDU que terá dificuldade em buscar um sócio para formar uma coalizão com maioria suficiente para poder governar.

Os resultados extra-oficiais confirmam, também, uma notícia que já era temida: um partido de extrema-direita entrará no Parlamento pela primeira vez com uma representação muito acima dos 5% necessários para chegar ao parlamento alemão, o Bundestag. Com um discurso xenófobo e contrário ao Euro, o Alternativa para a Alemanha (Afd) teria conquistado 13,1% dos votos.

O nervosismo diante da perspectiva do desembarque do Afd em Bundestag é patente entre a classe política alemã. "Seu voto conta. Quem não vota deixa que os outros decidam por eles o futuro do país. Talvez nunca tenha sido tão claro como agora estas eleições também tratam do futuro da democracia", pedia nesta manhã o presidente alemão Frank Walter Steinmeier, na edição oficial do diário Bild.

Radicalismos à parte, os alemães votaram pelo continuísmo e pela estabilidade representados na visão de muitos pela chanceler, Angela Merkel, que já acumula 12 anos à frente do Governo do país. Para grande parte da população, ela significa a estabilidade, em um mundo convulsionado ocupado por Trump, Erdogan e Kim Jong-un. Também representa a assertividade e a firmeza necessárias para fazer frente às ameaças internacionais. Além disso, Merkel é, para seus eleitores, a artífice de um período econômico que, apesar da enorme desigualdade existente no país e dos prejuízos causados no exterior por sua política comercial, promoveu níveis elevados de bem-estar para milhões de cidadãos alemães.

Na manhã deste domingo, Volker Kraftczyk, um engenheiro aeronáutico de 47 anos, resumia bem esse sentimento depois de votar em um bairro do norte de Berlim. “É uma mulher forte que nos representa bem diante do restante do mundo, e aqui dentro. A Alemanha é um dos países mais ricos do mundo. Não podemos nos queixar, não é?”. O discurso do candidato do SPD, Martin Schulz, focado na justiça social, não para de se esvaziar. Os números iniciais indicam uma grande derrota socialdemocrata. O SPD teria obtido o seu pior resultado da história da Alemanha moderna, com cerca de 20%. Houve momentos, no início do ano, em que Schulz apareceu como uma esperança clara da socialdemocracia alemã, mas ficou claro, hoje, que não se trata disso.

Die Linke, o partido da extrema esquerda, teria conquistado cerca de 9%, os Verdes, 9,5% e os liberais, 10,5%. Essas forças voltarão a ter lugar no Parlamento depois de anos de ostracismo. Sua ascensão foi mais uma das novidades trazidas por estas eleições. Elas voltam com força renovada pelas mãos de Christian Lindner, um candidato jovem e dinâmico que poderá dar muitas dores de cabeça para Merkel. O FDP não vê com bons olhos os planos da chanceler para reformar a zona do euro e criar um orçamento para ela, além de nomear um ministro das finanças para a moeda única.

Até hoje, quatro partidos – cinco se for contado o CSU, a ala bávara do partido de Merkel, que concorre nas eleições fazendo bloco com a CDU— tinham cadeiras no Parlamento. A partir de agora, esse total sobe para seis. A previsão é de que essa fragmentação tornará mais complicada a formação do novo Governo. À luz dos resultados preliminares, as duas opções mais viáveis para formar uma coalizão seriam a reedição da chamada Grande Coalizão – CDU/CSU e socialdemocracia—e a chamada coalizão Jamaica, assim chamada por causa das cores da bandeira da ilha caribenha – CDU, liberais e Verdes.

Mas os eleitores mostram pouco interesse em repetir a grande coalizão, como indicam os dados preliminares sobre a queda dos dois grandes partidos. Os especialistas concordam que o Governo conjunto contribuiu para o ressurgimento da AfD, um partido que explora o discurso de que todos os políticos são iguais e que seus membros são os únicos que se atrevem a dizer os que as forças do establishment não dizem.

Nas ruas, muitos eleitores mostravam um certo cansaço após quatro anos da nova grande coalizão. “Vim aqui votar, mas não sei para quê, pois afinal é tudo a mesma coisa na grande coalizão”, dizia uma eleitora, que se declarou ecologista de esquerda após depositar seu voto em Berlim. A coalizão Jamaica seria uma novidade, pois nunca foi testada no âmbito estatal. Além da imprevisibilidade, existem também as contradições e as linhas vermelhas de três partidos muito diferentes, que estariam condenados a se entender sob um mesmo arcabouço político. Refugiados, mudança climática e, sobretudo, a reforma da zona do euro que Merkel prometeu realizar em conjunto com Paris são alguns dos assuntos que complicariam a formação de uma coalizão Jamaica.

A aritmética indica que a extrema-direita do AfD terá, segundo as cifras preliminares, mais de meia centena de cadeiras no Parlamento. Também sugerem que, caso seja formada a grande coalizão, esse partido lideraria a oposição com um potencial inédito para marcar a agenda política e o debate nacional. É certo que o populismo de extrema-direita cresceu nos últimos anos em quase todos os países europeus, com porcentagens de voto bastante mais altas que as do AfD. França, Holanda e Áustria talvez sejam os exemplos mais significativos. Mas também é verdade que a Alemanha é um caso único, por evidentes razões históricas. Devido ao seu passado nazista, a possibilidade de que fosse concebido um partido de extrema-direita era muito remota. Até agora.

A Alemanha é também um caso extraordinário porque a ascensão da extrema-direita ocorre num contexto de bonança com poucos precedentes históricos. No caso do AfD, o protesto nasce principalmente da rejeição identitária a uma sociedade que se tornou culturalmente menos homogênea. Seus eleitores repetem que não querem que a Alemanha deixe de ser o que era, com suas tradições e sua cultura.

A chegada de 1,3 milhão de refugiados nos últimos dois anos foi o grande cavalo de batalha do AfD nesta campanha. O partido se orgulhou de vincular a criminalidade com a imigração e o asilo, exacerbando o sentimento de identidade nacional. A decisão de abrir as portas aos refugiados corresponde unicamente a Merkel, em quem a maioria dos alemães, contudo, voltou a depositar sua confiança depois do endurecimento de suas políticas e retórica migratórias nos últimos meses.

A partir desta noite, começa o complexo baile de alianças que pode se prolongar durante semanas, ou até meses, e que deve levar à formação de uma coalizão para governar a primeira economia da Europa.

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