Entrevista do Dia

Fora da Misericórdia não há salvação. Entrevista especial com Faustino Teixeira


Fora da Misericórdia não há salvação. Entrevista especial com Faustino Teixeira


 "A misericórdia é um dom de Deus e centro nevrálgico do evangelho. Assumir (...)

Leia mais

Notícias do Dia

O Brexit e o fim da identidade dos trabalhadores
A xenofobia é, sim, um fator, mas o centro da questão é a destruição do bem-estar social da classe trabalhadora, escreve Rosana Pinheiro-Machado, cientista social e antropóloga e professora do departamento de Desenvolvimento (...)

“O Brexit demonstra um descontentamento mais radical e profundo na União Europeia”. Artigo de José Ignacio Faus
“Desde o princípio, a Grã-Bretanha declarou que entrava na União Europeia não para compartilhar um projeto comum, mas por interesses econômicos. A partir de então, foi colocando obstáculos ao melhor da União Europeia: conseguiu (...)

Banner
Banner
25 Jun

Na Armênia, Papa Francisco arrisca rompimento com a Turquia por chamar assassinatos históricos de "genocídio"

O Papa Francisco arriscou um novo rompimento entre o Vaticano e a Turquia na primeira de suas visitas durante uma viagem de três dias para cá por incisivamente denominar como "genocídio" os assassinatos de cerca de 1,5 milhão de armênios durante a Primeira Guerra Mundial, termo que os líderes turcos têm firmemente rejeitado.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 24-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O pontífice usou este termo em uma reunião com o presidente armênio, Serzh Sargsyan, na sexta-feira à noite, em meio a observações previamente preparadas que tinham cuidadosamente evitado seu uso.

Como indicou o texto, o Papa primeiramente se referiu aos assassinatos pela descrição usada pelos armênios: Metz Yeghérn, ou o "Grande Mal".

Ele então continuou: "Infelizmente, esta tragédia, este genocídio, marcou o início da série deplorável de catástrofes do século passado, causada por objetivos distorcidos raciais, ideológicos ou religiosos que cegaram a mente dos algozes a ponto de povos inteiros serem aniquilados".

Muito do foco da viagem do Papa à Armênia tem sido a discussão sobre se o pontífice usaria a palavragenocídio para descrever as mortes ocorridas sob o domínio do Império Otomano a partir de 1915 ou não.

A Turquia, país sucessor do império, afirma que a palavra "genocídio" não descreve com precisão o que aconteceu. O Papa causou um tumulto diplomático com líderes turcos em 2015, quando ele usou este termo pela primeira vez para se referir às matanças, em uma missa realizada no Vaticano para marcar os cem anos do ocorrido.

A Turquia retirou seu embaixador do Vaticano durante dez meses após o evento.

Além do Papa Francisco, ambos Sargsyan e o líder da Igreja Apostólica Armênia - comunidade Ortodoxa Oriental que representa cerca de 93 por cento da população de três milhões do país - referiram-se às mortes como genocídio de maneira enfática em suas declarações ao receber o Papa nesta sexta-feira.

Sargsyan e o Católico Karekin II também agradeceram ao Papa por ter usado tal termo em 2015.
Karekin disse que o povo armênio "lembra com gratidão" dessa declaração e considera histórico o sermão de Francisco naquela ocasião.

Sargsyan disse prontamente: "A mensagem de justiça está sendo transmitida do coração do mundo católico para a humanidade ao anunciar que a primeira das atrocidades em massa a afetar a humanidade, o genocídio armênio, é um fato histórico e uma realidade inegável".

"Isso ficou evidente pela nova onda de reconhecimento do genocídio armênio que se seguiu à missa celebrada pelo Papa Francisco", afirmou o presidente.

O debate sobre o termo apropriado para designar as matanças históricas evidencia a difícil situação política que o Papa enfrenta em sua viagem, a décima quarta fora da Itália durante o seu pontificado.

A Armênia, uma ex-república soviética na região do Cáucaso, localiza-se entre os mares Negro e Cáspio e faz fronteira com a Turquia a oeste e com o Azerbaijão a leste.

A relação política complexa com a Turquia é um ponto nevrálgico desta visita papal à Armênia. Os dois países, ambos ex-membros do Império Otomano, não têm relações diplomáticas formais entre si e a fronteira que têm em comum é fechada com cercas de arame farpado.

Karekin se dirigiu ao Papa Francisco durante o primeiro evento da viagem papal à Armênia, na sexta-feira, quando o Papa visitou a catedral da Igreja Apostólica. Sargsyan se pronunciou também em uma segunda reunião, com os líderes políticos do país no palácio presidencial.

Neste evento, o Papa mencionou a missa de 2015 e disse que as mortes de 1915  incluíam "uma multidão de pessoas".

"Tendo visto os efeitos destrutivos do ódio, do preconceito e do desejo desenfreado por poder no século passado, tenho uma grande esperança de que a humanidade aprenderá,  com essas experiências trágicas, a agir com responsabilidade e sabedoria para evitar o risco de retornar a tais horrores", continuou ele.

O Papa também disse que era "extremamente importante" que todos os crentes "unissem forças para isolar os que usam a religião para promover a guerra, a opressão e a perseguição violenta e para explorar e manipular o santo nome de Deus".

Ele convocou os armênios, especialmente, a utilizarem a sua experiência para tonarem-se empáticos com os cristãos que sofrem violência e perseguição hoje.

"O povo armênio já viveu estas situações; eles conheceram o sofrimento e a dor; conheceram a perseguição; conservaram não somente a memória do passado dolorido, mas também o espírito que fez com que eles sempre recomeçassem tudo de novo", disse o Papa.

"Meu incentivo é para que vocês não deixem de fazer a sua própria contribuição preciosa à comunidade internacional", continuou ele.

Na reunião anterior com a comunidade ortodoxa, o pontífice disse que o mundo foi "marcado por divisões e conflitos" e que espera que os cristãos de diferentes igrejas demonstrem "estima mútua e cooperação fraterna capaz de revelar a cada consciência o poder e a verdade da ressurreição de Cristo".

"O espírito do ecumenismo assume um valor exemplar também fora dos limites visíveis da comunidade eclesial", disse o Papa. "Ele representa a todos um forte apelo para resolver divergências com diálogo e apreço por tudo aquilo que nos une".

"Nós oferecemos ao mundo - que precisa disso tão urgentemente - um testemunho convincente de que Cristo está vivo e atuante, e é capaz de abrir novos caminhos de reconciliação entre as nações, civilizações e religiões", continuou ele. "Oferecemos um testemunho crível de que Deus é amor e misericórdia".

O Papa Francisco desembarcou em Yerevan, capital da Armênia, na sexta-feira, perante pequenos grupos de alunos que cumprimentavam-no com cartazes e cantos. As crianças vestiam branco e seguravam pequenas bandeiras do Vaticano e cartazes de boas-vindas ao Papa escritos em espanhol.

As ruas que levam ao centro da cidade estavam cobertas de faixas e cartazes com o brasão do Vaticano e o da Igreja Apostólica Armênia. Ao longo do caminho também havia vários monumentos às mortes de 1915, incluindo um cartaz com as chamadas "ferramentas de massacre": uma corda, um machado e outros instrumentos utilizados nos assassinatos.

O Papa Francisco visitará o museu memorial dos assassinatos em Yerevan na manhã de domingo, antes de viajar à segunda maior cidade da Armênia, Guiumri, a 150  km dali. Lá, ele celebrará uma missa e visitará as catedrais armênias apostólicas e católicas da cidade, antes de retornar a Yerevan.

No domingo, o pontífice participará de uma liturgia ortodoxa ministrada por Karekin e visitará o monastério ortodoxo de Khor Virap e, à noite, retornará a Roma.

E-mail
Imprimir
PDF
25 Jun

Papa Francisco profere a palavra mágica "genocídio" em seu primeiro dia na Armênia

Em um comentário paralelo ao seu discurso preparado na sexta-feira, o Papa Francisco usou a palavra mágica "genocídio" para descrever o sofrimento e a perda de vidas de armênios nas mãos do desfalecido Império Otomano, no início do século 20. Invocar esse termo geralmente traz protestos políticos e diplomáticos da Turquia.

A reportagem é de John L. Allen Jr., jornalista, em artigo publicada por Crux, 24-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Suponha que você é um papa em uma viagem ao exterior, e você sabe muito bem que há uma palavra que quase todo mundo está esperando para ouvir você dizer. Também suponha que você não quer especificamente dizer esta palavra toda vez que você abrir a boca - seja porque você não gosta de ter suas escolhas linguísticas ditadas, seja por causa de problemas políticos e diplomáticos, seja porque você prefere outro vocabulário, ou por alguma outra razão.

O que você faz?

Uma opção é permitir que os seus anfitriões utilizem a palavra, repetidamente, e depois, assegurar que os  seus canais de comunicação oficiais garantam que todos saibam que a palavra foi dita. Outra opção é esperar o momento certo, seguindo adiante até que você mesmo a pronuncie.

Na sexta-feira, 23-06-2016, na Armênia, o Papa Francisco fez as duas coisas.

Em sua visita dos dias 24 à 26 de junho, os armênios se esforçaram para ouvir o Papa Francisco utilizar a palavra "genocídio", em relação a suas espantosas perdas no início do século XX, sob o antigo Império Otomano. Muitos estavam preocupados que ele pudesse não citar a palavra, após um comentário recente sobre a situação atual que os cristãos enfrentam no Iraque e na Síria, no qual Francisco disse preferir a palavra "martírio" a "genocídio".

O uso do termo "genocídio", é claro, geralmente conduz a Turquia a ciclos de oposição e de protesto, afirmando que o ocorrido foi parte de uma guerra maior, em vez de uma campanha de extermínio genocida consciente. Quando o Papa Francisco usou o termo no contexto de uma cerimônia de aniversário no ano passado, a Turquia retirou seu embaixador do Vaticano.

Nos dois principais compromissos da sexta-feira, um na Catedral Apostólica de Erevan e outro no Palácio Presidencial do país, Francisco reconheceu clara e repetidamente a magnitude do sofrimento que os armênios sofreram.

Ele ouviu seus anfitriões, Karekin II, Católico de Todos os Armênios, chefe da comunidade ortodoxa local, que é basicamente a igreja nacional daqui, e o presidente armênio, Serzh Sargysan, que descreveu a carnificina diversas vezes como um "genocídio".

Karekin usou o termo "genocídio" quatro vezes no decorrer de um breve discurso de boas-vindas, enquanto Sargysan a utilizou três vezes, acrescentando: "Nós simplesmente queremos que as coisas sejam chamadas pelos seus nomes."

Ambos os discursos foram fornecidos previamente pelos assessores de imprensa do Vaticano, em formato traduzido e, ao mesmo tempo, foram distribuídas as falas do papa - o que não chega a torná-las palavreado oficial do Vaticano, mas sugere que o Vaticano queria que as pessoas soubessem que Francisco também não estava fugindo das referências ao "genocídio".

Em um discurso para a comunidade política e diplomática, em Erevan, na sexta-feira à noite, Francisco lembrou que no ano passado foi o centenário do genocídio armênio - o "Metz Yeghérn, " como Francisco chamou, que significa literalmente "grande mal" ou "grande calamidade", um termo que para os armênios tem um sentido muito parecido ao que Shoah tem para judeus em relação ao Holocausto.

Em um pequeno, mas significativo comentário paralelo de seu discurso preparado, Francisco citou o evento como "o genocídio", utilizando, assim, a palavra-chave que o seu público estava esperando.
"Infelizmente, essa tragédia foi a primeira da série deplorável de catástrofes do século passado, tornada possível por distorções raciais, ideológicas ou objetivos religiosos que obscurecem a mente dos algozes até mesmo ao ponto de planejar o extermínio de povos inteiros", disse Francisco.

O pontífice também acrescentou: "É tão triste, que neste, assim como nos outros dois [genocídios], as grandes potências internacionais fizeram vistas grossas".

No início da semana, o porta-voz do papa, padre Federico Lombardi, deu uma entrevista aos repórteres cuidadosamente evitando usar a palavra "genocídio", insistindo que Metz Yeghérn é "realmente mais forte."

"Eu sou livre para usar a palavra, o termo que meus irmãos armênios usam, [e] eu acho que todo mundo sabe muito bem o que isso significa", disse Lombardi, destacando que Francisco vai visitar o memorial oficial do Genocídio Armênio na colina de Tsitsernakaberd, no sábado, precisamente para recordar a perda de vidas.

Enquanto estiver lá, Francisco irá depositar flores e também conhecerá um pequeno grupo de descendentes de armênios que fugiram da carnificina em 1915 e foram abrigados pelo Papa Bento XV, no Castel Gandolfo, a residência papal de verão nas colinas aos arredores de Roma.

Na sexta-feira à noite, Lombardi disse que não poderia prever qual poderia ser a reação da Turquia ao último uso do papa do termo "genocídio", mas sublinhou que "o papa sempre fala na perspectiva da paz, da reconciliação e do diálogo entre diferentes povos, nações e culturas".

"Há muitos armênios que têm boas relações com os turcos, e muitos turcos têm boas relações com a Armênia, pessoas que desejam paz e de diálogo", disse ele.

O papa estava especialmente preparado acerca dos impactos do sofrimento, causados pelo que o Santo João Paulo II e o ex-Patriarca armênio descreveram em 2001 como "o primeiro genocídio do século XX".

"Tendo visto os efeitos destrutivos nos quais o ódio, o preconceito e o desejo desenfreado por poder causaram no século passado, expresso minha grande esperança de que a humanidade aprenderá, a partir dessas experiências trágicas, a agir com responsabilidade e sabedoria para evitar o risco de retornar a tais horrores", continuou ele.

"Que todos possam se juntar na luta para assegurar que, sempre que os conflitos surgirem entre nações, o diálogo, a busca permanente e autêntica pela paz, a cooperação entre estados e o compromisso constante de organizações internacionais, sempre prevalecerão, com o objectivo de criar um clima de confiança favorável para a realização de acordos duradouros ", disse ele.

Indiretamente, o pontífice reconheceu também que o principal motivo para a violência desencadeada pelos otomanos contra uma minoria armênia, há um século atrás, era que os otomanos eram de origem muçulmana e os armênios sempre foram extremamente orgulhosos de seu legado como o primeiro país oficialmente cristão do mundo.

"É extremamente importante que todos aqueles que declaram sua fé em Deus reúnam forças para isolar aqueles que usam a religião para promover a guerra, opressão e perseguições violentas, explorando e manipulando o santo nome de Deus", disse Francisco, com efeito, elucidando que os armênios conhecem aquela realidade melhor do que a maioria dos outros povos.

Francisco reconheceu que essa perseguição anti-cristã não é um conto acabado.

"Hoje, em particular os cristãos, talvez ainda mais do que na época dos primeiros mártires, sofrem discriminação e perseguição em diversos lugares, pelo simples fato de professar a sua fé", disse ele.

"O povo armênio também já viveu estas situações em primeira mão; eles conheceram o sofrimento e a dor; conheceram a perseguição; conservaram não apenas a memória do passado dolorido, mas também o espírito que os permitiu sempre recomeçar tudo do zero", disse o Papa a seus anfitriões.

Em uma frase de efeito no discurso, Francisco elogiou "a coragem dos mártires", uma referência que cada armênio imediatamente reconheceria como, em parte, uma alusão aos seus antepassados, há um século atrás.

Em outras palavras, no final do primeiro dia na Armênia, ninguém poderia acusar o Papa Francisco de ter vindo aqui e ter evitado ou minimizado a magnitude do sofrimento do país, que faz parte da consciência nacional, e ele o fez, uma vez que usou a palavra que os armênios acreditam ser o símbolo-chave da sensibilidade para as suas perdas.

No entanto, o papa também não saiu do seu caminho para invocar a palavra a cada chance que ele tivesse, desta maneira, também sinalizando sensibilidade às atitudes turcas.

Esse tipo de atitude pode ser vista como suficiente para impedir outro impasse diplomático e político junto a uma das potências muçulmanas mais importantes do mundo. Mas, pelo menos uma coisa é certa: Francisco não pode usar a palavra "genocídio" toda vez que ele falar sobre a Armênia, por mais que ele também não a tenha colocado em um baú.

E-mail
Imprimir
PDF
25 Jun

Papa Francisco profere a palavra mágica "genocídio" em seu primeiro dia na Armênia

Em um comentário paralelo ao seu discurso preparado na sexta-feira, o Papa Francisco usou a palavra mágica "genocídio" para descrever o sofrimento e a perda de vidas de armênios nas mãos do desfalecido Império Otomano, no início do século 20. Invocar esse termo geralmente traz protestos políticos e diplomáticos da Turquia.

A reportagem é de John L. Allen Jr., jornalista, em artigo publicada por Crux, 24-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Suponha que você é um papa em uma viagem ao exterior, e você sabe muito bem que há uma palavra que quase todo mundo está esperando para ouvir você dizer. Também suponha que você não quer especificamente dizer esta palavra toda vez que você abrir a boca - seja porque você não gosta de ter suas escolhas linguísticas ditadas, seja por causa de problemas políticos e diplomáticos, seja porque você prefere outro vocabulário, ou por alguma outra razão.

O que você faz?

Uma opção é permitir que os seus anfitriões utilizem a palavra, repetidamente, e depois, assegurar que os  seus canais de comunicação oficiais garantam que todos saibam que a palavra foi dita. Outra opção é esperar o momento certo, seguindo adiante até que você mesmo a pronuncie.

Na sexta-feira, 23-06-2016, na Armênia, o Papa Francisco fez as duas coisas.

Em sua visita dos dias 24 à 26 de junho, os armênios se esforçaram para ouvir o Papa Francisco utilizar a palavra "genocídio", em relação a suas espantosas perdas no início do século XX, sob o antigo Império Otomano. Muitos estavam preocupados que ele pudesse não citar a palavra, após um comentário recente sobre a situação atual que os cristãos enfrentam no Iraque e na Síria, no qual Francisco disse preferir a palavra "martírio" a "genocídio".

O uso do termo "genocídio", é claro, geralmente conduz a Turquia a ciclos de oposição e de protesto, afirmando que o ocorrido foi parte de uma guerra maior, em vez de uma campanha de extermínio genocida consciente. Quando o Papa Francisco usou o termo no contexto de uma cerimônia de aniversário no ano passado, a Turquia retirou seu embaixador do Vaticano.

Nos dois principais compromissos da sexta-feira, um na Catedral Apostólica de Erevan e outro no Palácio Presidencial do país, Francisco reconheceu clara e repetidamente a magnitude do sofrimento que os armênios sofreram.

Ele ouviu seus anfitriões, Karekin II, Católico de Todos os Armênios, chefe da comunidade ortodoxa local, que é basicamente a igreja nacional daqui, e o presidente armênio, Serzh Sargysan, que descreveu a carnificina diversas vezes como um "genocídio".

Karekin usou o termo "genocídio" quatro vezes no decorrer de um breve discurso de boas-vindas, enquanto Sargysan a utilizou três vezes, acrescentando: "Nós simplesmente queremos que as coisas sejam chamadas pelos seus nomes."

Ambos os discursos foram fornecidos previamente pelos assessores de imprensa do Vaticano, em formato traduzido e, ao mesmo tempo, foram distribuídas as falas do papa - o que não chega a torná-las palavreado oficial do Vaticano, mas sugere que o Vaticano queria que as pessoas soubessem que Francisco também não estava fugindo das referências ao "genocídio".

Em um discurso para a comunidade política e diplomática, em Erevan, na sexta-feira à noite, Francisco lembrou que no ano passado foi o centenário do genocídio armênio - o "Metz Yeghérn, " como Francisco chamou, que significa literalmente "grande mal" ou "grande calamidade", um termo que para os armênios tem um sentido muito parecido ao que Shoah tem para judeus em relação ao Holocausto.

Em um pequeno, mas significativo comentário paralelo de seu discurso preparado, Francisco citou o evento como "o genocídio", utilizando, assim, a palavra-chave que o seu público estava esperando.
"Infelizmente, essa tragédia foi a primeira da série deplorável de catástrofes do século passado, tornada possível por distorções raciais, ideológicas ou objetivos religiosos que obscurecem a mente dos algozes até mesmo ao ponto de planejar o extermínio de povos inteiros", disse Francisco.

O pontífice também acrescentou: "É tão triste, que neste, assim como nos outros dois [genocídios], as grandes potências internacionais fizeram vistas grossas".

No início da semana, o porta-voz do papa, padre Federico Lombardi, deu uma entrevista aos repórteres cuidadosamente evitando usar a palavra "genocídio", insistindo que Metz Yeghérn é "realmente mais forte."

"Eu sou livre para usar a palavra, o termo que meus irmãos armênios usam, [e] eu acho que todo mundo sabe muito bem o que isso significa", disse Lombardi, destacando que Francisco vai visitar o memorial oficial do Genocídio Armênio na colina de Tsitsernakaberd, no sábado, precisamente para recordar a perda de vidas.

Enquanto estiver lá, Francisco irá depositar flores e também conhecerá um pequeno grupo de descendentes de armênios que fugiram da carnificina em 1915 e foram abrigados pelo Papa Bento XV, no Castel Gandolfo, a residência papal de verão nas colinas aos arredores de Roma.

Na sexta-feira à noite, Lombardi disse que não poderia prever qual poderia ser a reação da Turquia ao último uso do papa do termo "genocídio", mas sublinhou que "o papa sempre fala na perspectiva da paz, da reconciliação e do diálogo entre diferentes povos, nações e culturas".

"Há muitos armênios que têm boas relações com os turcos, e muitos turcos têm boas relações com a Armênia, pessoas que desejam paz e de diálogo", disse ele.

O papa estava especialmente preparado acerca dos impactos do sofrimento, causados pelo que o Santo João Paulo II e o ex-Patriarca armênio descreveram em 2001 como "o primeiro genocídio do século XX".

"Tendo visto os efeitos destrutivos nos quais o ódio, o preconceito e o desejo desenfreado por poder causaram no século passado, expresso minha grande esperança de que a humanidade aprenderá, a partir dessas experiências trágicas, a agir com responsabilidade e sabedoria para evitar o risco de retornar a tais horrores", continuou ele.

"Que todos possam se juntar na luta para assegurar que, sempre que os conflitos surgirem entre nações, o diálogo, a busca permanente e autêntica pela paz, a cooperação entre estados e o compromisso constante de organizações internacionais, sempre prevalecerão, com o objectivo de criar um clima de confiança favorável para a realização de acordos duradouros ", disse ele.

Indiretamente, o pontífice reconheceu também que o principal motivo para a violência desencadeada pelos otomanos contra uma minoria armênia, há um século atrás, era que os otomanos eram de origem muçulmana e os armênios sempre foram extremamente orgulhosos de seu legado como o primeiro país oficialmente cristão do mundo.

"É extremamente importante que todos aqueles que declaram sua fé em Deus reúnam forças para isolar aqueles que usam a religião para promover a guerra, opressão e perseguições violentas, explorando e manipulando o santo nome de Deus", disse Francisco, com efeito, elucidando que os armênios conhecem aquela realidade melhor do que a maioria dos outros povos.

Francisco reconheceu que essa perseguição anti-cristã não é um conto acabado.

"Hoje, em particular os cristãos, talvez ainda mais do que na época dos primeiros mártires, sofrem discriminação e perseguição em diversos lugares, pelo simples fato de professar a sua fé", disse ele.

"O povo armênio também já viveu estas situações em primeira mão; eles conheceram o sofrimento e a dor; conheceram a perseguição; conservaram não apenas a memória do passado dolorido, mas também o espírito que os permitiu sempre recomeçar tudo do zero", disse o Papa a seus anfitriões.

Em uma frase de efeito no discurso, Francisco elogiou "a coragem dos mártires", uma referência que cada armênio imediatamente reconheceria como, em parte, uma alusão aos seus antepassados, há um século atrás.

Em outras palavras, no final do primeiro dia na Armênia, ninguém poderia acusar o Papa Francisco de ter vindo aqui e ter evitado ou minimizado a magnitude do sofrimento do país, que faz parte da consciência nacional, e ele o fez, uma vez que usou a palavra que os armênios acreditam ser o símbolo-chave da sensibilidade para as suas perdas.

No entanto, o papa também não saiu do seu caminho para invocar a palavra a cada chance que ele tivesse, desta maneira, também sinalizando sensibilidade às atitudes turcas.

Esse tipo de atitude pode ser vista como suficiente para impedir outro impasse diplomático e político junto a uma das potências muçulmanas mais importantes do mundo. Mas, pelo menos uma coisa é certa: Francisco não pode usar a palavra "genocídio" toda vez que ele falar sobre a Armênia, por mais que ele também não a tenha colocado em um baú.

E-mail
Imprimir
PDF
25 Jun

Papa Francisco profere a palavra mágica "genocídio" em seu primeiro dia na Armênia

Em um comentário paralelo ao seu discurso preparado na sexta-feira, o Papa Francisco usou a palavra mágica "genocídio" para descrever o sofrimento e a perda de vidas de armênios nas mãos do desfalecido Império Otomano, no início do século 20. Invocar esse termo geralmente traz protestos políticos e diplomáticos da Turquia.

A reportagem é de John L. Allen Jr., jornalista, em artigo publicada por Crux, 24-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Suponha que você é um papa em uma viagem ao exterior, e você sabe muito bem que há uma palavra que quase todo mundo está esperando para ouvir você dizer. Também suponha que você não quer especificamente dizer esta palavra toda vez que você abrir a boca - seja porque você não gosta de ter suas escolhas linguísticas ditadas, seja por causa de problemas políticos e diplomáticos, seja porque você prefere outro vocabulário, ou por alguma outra razão.

O que você faz?

Uma opção é permitir que os seus anfitriões utilizem a palavra, repetidamente, e depois, assegurar que os  seus canais de comunicação oficiais garantam que todos saibam que a palavra foi dita. Outra opção é esperar o momento certo, seguindo adiante até que você mesmo a pronuncie.

Na sexta-feira, 23-06-2016, na Armênia, o Papa Francisco fez as duas coisas.

Em sua visita dos dias 24 à 26 de junho, os armênios se esforçaram para ouvir o Papa Francisco utilizar a palavra "genocídio", em relação a suas espantosas perdas no início do século XX, sob o antigo Império Otomano. Muitos estavam preocupados que ele pudesse não citar a palavra, após um comentário recente sobre a situação atual que os cristãos enfrentam no Iraque e na Síria, no qual Francisco disse preferir a palavra "martírio" a "genocídio".

O uso do termo "genocídio", é claro, geralmente conduz a Turquia a ciclos de oposição e de protesto, afirmando que o ocorrido foi parte de uma guerra maior, em vez de uma campanha de extermínio genocida consciente. Quando o Papa Francisco usou o termo no contexto de uma cerimônia de aniversário no ano passado, a Turquia retirou seu embaixador do Vaticano.

Nos dois principais compromissos da sexta-feira, um na Catedral Apostólica de Erevan e outro no Palácio Presidencial do país, Francisco reconheceu clara e repetidamente a magnitude do sofrimento que os armênios sofreram.

Ele ouviu seus anfitriões, Karekin II, Católico de Todos os Armênios, chefe da comunidade ortodoxa local, que é basicamente a igreja nacional daqui, e o presidente armênio, Serzh Sargysan, que descreveu a carnificina diversas vezes como um "genocídio".

Karekin usou o termo "genocídio" quatro vezes no decorrer de um breve discurso de boas-vindas, enquanto Sargysan a utilizou três vezes, acrescentando: "Nós simplesmente queremos que as coisas sejam chamadas pelos seus nomes."

Ambos os discursos foram fornecidos previamente pelos assessores de imprensa do Vaticano, em formato traduzido e, ao mesmo tempo, foram distribuídas as falas do papa - o que não chega a torná-las palavreado oficial do Vaticano, mas sugere que o Vaticano queria que as pessoas soubessem que Francisco também não estava fugindo das referências ao "genocídio".

Em um discurso para a comunidade política e diplomática, em Erevan, na sexta-feira à noite, Francisco lembrou que no ano passado foi o centenário do genocídio armênio - o "Metz Yeghérn, " como Francisco chamou, que significa literalmente "grande mal" ou "grande calamidade", um termo que para os armênios tem um sentido muito parecido ao que Shoah tem para judeus em relação ao Holocausto.

Em um pequeno, mas significativo comentário paralelo de seu discurso preparado, Francisco citou o evento como "o genocídio", utilizando, assim, a palavra-chave que o seu público estava esperando.
"Infelizmente, essa tragédia foi a primeira da série deplorável de catástrofes do século passado, tornada possível por distorções raciais, ideológicas ou objetivos religiosos que obscurecem a mente dos algozes até mesmo ao ponto de planejar o extermínio de povos inteiros", disse Francisco.

O pontífice também acrescentou: "É tão triste, que neste, assim como nos outros dois [genocídios], as grandes potências internacionais fizeram vistas grossas".

No início da semana, o porta-voz do papa, padre Federico Lombardi, deu uma entrevista aos repórteres cuidadosamente evitando usar a palavra "genocídio", insistindo que Metz Yeghérn é "realmente mais forte."

"Eu sou livre para usar a palavra, o termo que meus irmãos armênios usam, [e] eu acho que todo mundo sabe muito bem o que isso significa", disse Lombardi, destacando que Francisco vai visitar o memorial oficial do Genocídio Armênio na colina de Tsitsernakaberd, no sábado, precisamente para recordar a perda de vidas.

Enquanto estiver lá, Francisco irá depositar flores e também conhecerá um pequeno grupo de descendentes de armênios que fugiram da carnificina em 1915 e foram abrigados pelo Papa Bento XV, no Castel Gandolfo, a residência papal de verão nas colinas aos arredores de Roma.

Na sexta-feira à noite, Lombardi disse que não poderia prever qual poderia ser a reação da Turquia ao último uso do papa do termo "genocídio", mas sublinhou que "o papa sempre fala na perspectiva da paz, da reconciliação e do diálogo entre diferentes povos, nações e culturas".

"Há muitos armênios que têm boas relações com os turcos, e muitos turcos têm boas relações com a Armênia, pessoas que desejam paz e de diálogo", disse ele.

O papa estava especialmente preparado acerca dos impactos do sofrimento, causados pelo que o Santo João Paulo II e o ex-Patriarca armênio descreveram em 2001 como "o primeiro genocídio do século XX".

"Tendo visto os efeitos destrutivos nos quais o ódio, o preconceito e o desejo desenfreado por poder causaram no século passado, expresso minha grande esperança de que a humanidade aprenderá, a partir dessas experiências trágicas, a agir com responsabilidade e sabedoria para evitar o risco de retornar a tais horrores", continuou ele.

"Que todos possam se juntar na luta para assegurar que, sempre que os conflitos surgirem entre nações, o diálogo, a busca permanente e autêntica pela paz, a cooperação entre estados e o compromisso constante de organizações internacionais, sempre prevalecerão, com o objectivo de criar um clima de confiança favorável para a realização de acordos duradouros ", disse ele.

Indiretamente, o pontífice reconheceu também que o principal motivo para a violência desencadeada pelos otomanos contra uma minoria armênia, há um século atrás, era que os otomanos eram de origem muçulmana e os armênios sempre foram extremamente orgulhosos de seu legado como o primeiro país oficialmente cristão do mundo.

"É extremamente importante que todos aqueles que declaram sua fé em Deus reúnam forças para isolar aqueles que usam a religião para promover a guerra, opressão e perseguições violentas, explorando e manipulando o santo nome de Deus", disse Francisco, com efeito, elucidando que os armênios conhecem aquela realidade melhor do que a maioria dos outros povos.

Francisco reconheceu que essa perseguição anti-cristã não é um conto acabado.

"Hoje, em particular os cristãos, talvez ainda mais do que na época dos primeiros mártires, sofrem discriminação e perseguição em diversos lugares, pelo simples fato de professar a sua fé", disse ele.

"O povo armênio também já viveu estas situações em primeira mão; eles conheceram o sofrimento e a dor; conheceram a perseguição; conservaram não apenas a memória do passado dolorido, mas também o espírito que os permitiu sempre recomeçar tudo do zero", disse o Papa a seus anfitriões.

Em uma frase de efeito no discurso, Francisco elogiou "a coragem dos mártires", uma referência que cada armênio imediatamente reconheceria como, em parte, uma alusão aos seus antepassados, há um século atrás.

Em outras palavras, no final do primeiro dia na Armênia, ninguém poderia acusar o Papa Francisco de ter vindo aqui e ter evitado ou minimizado a magnitude do sofrimento do país, que faz parte da consciência nacional, e ele o fez, uma vez que usou a palavra que os armênios acreditam ser o símbolo-chave da sensibilidade para as suas perdas.

No entanto, o papa também não saiu do seu caminho para invocar a palavra a cada chance que ele tivesse, desta maneira, também sinalizando sensibilidade às atitudes turcas.

Esse tipo de atitude pode ser vista como suficiente para impedir outro impasse diplomático e político junto a uma das potências muçulmanas mais importantes do mundo. Mas, pelo menos uma coisa é certa: Francisco não pode usar a palavra "genocídio" toda vez que ele falar sobre a Armênia, por mais que ele também não a tenha colocado em um baú.

E-mail
Imprimir
PDF
25 Jun

Brexit: Mais do que nunca, uma ilha

Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo, depois da saída do Reino Unido da União Europeia. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande, escreve Marcelo Manzano, economista, Pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho e Professor de Economia da Faculdades de Campinas - Facamp em artigo publicado por Brasil Debate, 24-06-2016.

Eis o artigo.

Quem poderia imaginar que justamente da terra de Adam Smith e David Ricardo, berço do liberalismo econômico, viria o mais potente petardo contra o projeto de integração europeu? Mais do que isso, que os argumentos racionais e até certo ponto generosos dos clássicos da economia seriam suplantados pela retórica medíocre e oportunista de dois populistas de direita, duas figuras caricatas que parecem ter brotado entre os cogumelos nos jardins da rainha.

Ao que tudo indica – e as bolsas assim já precificam – a decisão tomada pelo povo britânico no dia 23, a favor do Brexit, ameaça desordenar o tabuleiro mundial e principalmente europeu com grande letalidade.

De cara, o mapa do resultado eleitoral da ilha revela um futuro sombrio e de inevitável desmantelamento do reino bretão. A começar pela impressionante unanimidade entre os eleitores da Escócia, onde nada menos que 100% dos distritos registraram maioria contrária ao rompimento com o bloco europeu.

Em contrapartida, no País de Gales e nas infinitas e bucólicas cidades do interior, o voto a favor da saída foi massivo, revelando que o eleitorado de mais idade, de renda média, com menor escolaridade e mais tradicionalmente “British” aposta no rompimento com a Europa como atalho para retomar a glória da Inglaterra vitoriana (silly boys!).

Já nas grandes e antigas cidades do cinturão operário do Norte (Liverpool, Manchester e Leeds), que pariram a Revolução Industrial e deram origem aos movimentos operários, prevaleceu o voto contrário ao Brexit, embora nas também importantes e ex-industriais Sheffield e Birmingham o mesmo não tenha ocorrido – o que é uma vergonha.

Londres, claro, cosmopolita e financista como nenhum outro rincão do planeta, votou majoritariamente pela continuidade da aliança com o continente – pesou também nessa tendência dos londrinos o grande número de jovens, universitários e imigrantes que se concentram na cidade e que enxergam na integração um horizonte mais vasto para seus projetos de vida.

Noves fora, o quadro de discórdia explicitado pelo referendo deverá ser sucedido por processos de cisões internas e externas de toda ordem. Não só os escoceses já anunciaram que querem um novo referendo para decidir o rompimento com o Reino (e aposto todas as fichas que sairão), como também os galeses, irlandeses do norte e até mesmo os ingleses do North (vermelho) deverão dar corda a movimentos separatistas que encontrarão cada vez mais motivos para romper os nexos com a asfixiante da City londrina.

É um vexame! Parece que os ilustrados da velha ilha meteram o sorvete no nariz e agora será difícil evitar o esfacelamento do que restava de vigor trabalhista e mesmo de uma direita conservadora mais responsável. Perdidos em infindáveis debates principistas sobre qual seria o melhor esteio da democracia (a tecnocracia do parlamento europeu ou a tradição secular do britânico) e reféns do oportunismo de curto prazo de Mr. Cameron (moleque que prometeu o referendo para vencer a eleição com o apoio dos xenófobos) as tradicionais forças políticas britânicas foram atropeladas por uma cambada de “homens médios”.

Sob a liderança do quase patológico Nigel Farage (líder do Ukip e inventor do Brexit) e do idiossincrático Boris Johnson (ex-prefeito de Londres, do Partido Conservador, que faz um tipo “família Adams”, mas que é esperto como um Eduardo Cunha sem contas na Suíça), os britânicos deverão assistir em breve o cenário político degenerar ainda mais.

Sem os votos progressistas dos escoceses e com o Labour Party em profunda crise de identidade, restará aos britânicos referendar a aliança entre o tinhoso e provável próximo Primeiro Ministro, Mr. Boris Johnson, e o infame Farage – a dupla terá que lidar com um dos momentos políticos mais turbulentos da vida britânica nas últimas décadas e certamente fará história.

Obviamente, essa maré de água azeda deverá cruzar o Canal da Mancha e disseminar as razões dos eurocéticos pelas terras do continente. Holanda, Dinamarca e República Tcheca já estão preparando seus plebiscitos – com o agravante de que nestes casos o rompimento deverá ser também com a moeda comum, o que coloca sérias dúvidas quanto à sobrevivência do Euro.

Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande. Lamentavelmente, mais do que nunca, a frase do conservador Ortega y Gasset, escrita para o contexto europeu de 1927, parece fazer irritante sentido ainda em nosso tempo e lugar: “a característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe a toda parte”.

E-mail
Imprimir
PDF

Blog

Publicações

Mais Lidos

Enquete

Médico pode se recusar a atender paciente por divergência política?

 
 
 
 
 

 

Cadastre-se

Quero receber:


Refresh Captcha Repita o código acima:
 

Novos Comentários

"Se é verdade que houve um erro em expor-se um animal selvagem no episódio aqui relatado, também ..." Em resposta a: 'Erramos', diz Rio 2016 após morte de onça presente em tour da Tocha
"Estou de acordo com os professores.Quem tem direito as terras são os índios, não que sejam dono d..." Em resposta a: Acadêmicos do MS exigem punição para assassinos de Guarani Kaiowá
"Gostei, pois é assim que Igreja católica com seu espírito de supremacia gosta de se referir as Ig..." Em resposta a: A Igreja Católica Romana não é Igreja, afirma sínodo da Igreja ortodoxa

Conecte-se com o IHU no Facebook

Siga-nos no Twitter

Escreva para o IHU

Adicione o IHU ao seus Favoritos e volte mais vezes

Conheça a página do ObservaSinos

Acompanhe o IHU no Medium