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Após 30 anos, índios falam de genocídio na Guatemala
Os indígenas ixis tiveram que esperar mais de 30 anos para poder testemunhar sobre o capítulo mais doloroso de sua história diante de um tribunal de justiça na Guatemala. Mas o tempo não diminuiu o horror do que tinham para (...)

Conjuntura da Semana. Gigantesco retrocesso. Governo cede a ruralistas e “põe fim” à demarcação de terras indígenas
A análise da Conjuntura da Semana é uma (re) leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa (...)

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21 May

Após 30 anos, índios falam de genocídio na Guatemala

Os indígenas ixis tiveram que esperar mais de 30 anos para poder testemunhar sobre o capítulo mais doloroso de sua história diante de um tribunal de justiça na Guatemala. Mas o tempo não diminuiu o horror do que tinham para contar.

Durante dez dias, no julgamento que terminou há uma semana com a condenação por genocídio do ex-presidente Efraín Ríos Montt, uma centena de testemunhos -- principalmente de mulheres -- deu conta da violência exercida pelo Estado contra o povo maia entre março de 1982 e agosto de 1983.
 
A reportagem é da BBC Brasil, 19-05-2013.

Ríos Montt foi condenado a 80 anos de prisão, 50 por genocídio e 30 por crimes contra a humanidade, cometidos durante os 15 meses que governou a Guatemala.

Os juízes consideraram que Montt tinha conhecimento de que as Forças Armadas guatemaltecas "utilizaram a fome como arma militar" para destruir os ixis durante a guerra civil do país, que durou 36 anos. É a primeira condenação de um ex-chefe de Estado por violações de direitos humanos cometidas no período.

De acordo com o jornalista El Salvador Carlos Dada -- que escreveu sobre o julgamento para o portal e notícias da América central El Faro -- os relatos foram cheios de "meninas apunhaladas no pescoço, bebês assassinados por soldados que esmagaram suas cabeças ou atravessaram seus corpos com baionetas, famílias inteiras amarradas em casas às quais os soldados atearam fogo".

Os depoimentos são parte de uma história que a Guatemala e o mundo já conheciam, mas sobre a qual haviam deixado de falar.

Racismo
 
Relatórios como o projeto para a Recuperação da Memória História (REMHI) e a Comissão para o Esclarecimento Histórico das Nações Unidas (CEH) já haviam falado sobre a violência contra os ixis - um dos 22 povos maias que em seu conjunto conformam aproximadamente metade da população guatemalteca.

Ambos os relatórios, publicados pouco depois da assinatura dos acordos de paz, documentaram exaustivamente as atrocidades cometidas durante a guerra civil, entre 1960 e 1996.

Mas 1.771 ixis assassinados durante o governo de Montt foram apenas uma gota d'água no mar de violência na Guatemala, que deixou 200 mil mortos e 45 mil desaparecidos.

A maioria deles eram indígenas caracterizados pelos governos ditatoriais como colaboradores da guerrilha de esquerda que estaria tentando tomar o controle do país.

Nos primeiros anos da paz, tentar lançar luz sobre esse período da história da Guatemala poderia facilmente resultar em uma sentença de morte, como evidencia o assassinato do diretor do REMHI, monsenhor Juan José Gerardi, dois dias depois da publicação do relatório Guatemala: Nunca mais.

"Acho que o Estado e os meios de comunicação, que foram calados e intimidados, nunca deram cobertura real ao que aconteceu no nosso país", disse à BBC Mundo Rosalina Tuyuc, fundadora da Coordenadoria Nacional de Viúvas da Guatemala (CONAVIGUA)

"Então a verdade da maioria das comunidades que foram afetadas ficou somente em seus corações e cabeças. E foram muito poucos os que as acompanharam em sua busca por justiça."
Para Tuyuc, o fato de que a imensa maioria das vítimas "83%, segundo a ONU" eram indígenas também ajuda a compreender que a tragédia do povo maia nunca tenha sido objeto de um verdadeiro debate nacional.

"É parte do racismo estrutural, do racismo histórico e do racismo ideológico, que leva a minimizar o ocorrido, a querer desconhecer e ocultar e até a dizer: por que os índios não são exterminados, se só representam um fardo para o Estado?", disse Tuyuc, que pertence ao povo maia Kaqchikel.

O presidente da comissão contra a Discriminação e o Racismo contra os Povos Indígenas na Guatemala, Jacobo Bolvito, também acredita que o racismo está por trás do silêncio sobre o genocídio e também da situação dos nativos no país.

"Hoje em dia os efeitos do racismo podem ser vistos no fato de que os indicadores de desenvolvimento humano entre os povos indígenas são realmente lamentáveis."

Caminho a percorrer
 
De acordo com dados do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, enquanto aproximadamente sete de cada dez indígenas guatemaltecos vivem em situação de pobreza, a porcentagem de mestiços pobres é de apenas 36%.

A exclusão econômica também tem sua expressão política, já que no Parlamento da Guatemala há somente 21 deputados indígenas de um total de 158.

Os guatemaltecas concordam que a situação melhorou na medida em que acordos de paz foram implementados, mas reconhecem que há um longo caminho a percorrer.

"Todos os espaços que se abriram até agora são também herança ou resultado dos 200 mil mortos em nosso país. Por isso é preciso lutar para manter esses espaços e denunciar a todos os que não querem reconhecer a outra Guatemala. Não podemos nos calar", diz Rosalina Tuyuc.

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20 May

Tempo desfaz obra e promessa de emprego em obra do São Francisco

Maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento no Nordeste, a transposição do rio São Francisco tem hoje, seis anos após seu início, canais de concreto estourados, valas a céu aberto e raros canteiros em atividade. Além da seca que castigou a região nos últimos três anos, a paralisia mina ainda a esperança dos sertanejos sobre a geração de empregos.

A reportagem é de Eduardo Bresciani e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-05-2013.

Durante cinco dias o Estado percorreu quase a totalidade dos 477 km da obra nos dois eixos que pretendem levar água a áreas sem irrigação: o leste e o norte, que passam por Pernambuco, Ceará e Paraíba.

Visitar a obra, cuja execução está em 43% segundo o governo federal, passa a sensação de que o prazo para a conclusão, dezembro de 2015, deve ser novamente prorrogado.

O volume de investimentos registra queda expressiva no governo Dilma Rousseff. Nos dois primeiros anos de mandato, 2011 e 2012, o Ministério da Integração Nacional investiu 35% a menos na obra na comparação com o que foi pago em 2009 e 2010, segundo dados do sistema de execução orçamentário federal. Os valores estão corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor.

O volume de pagamentos relativos à obra nos quatro primeiros meses de 2013 registram ainda outra queda, de 35%, em relação ao ano passado. A obra de transposição teve o orçamento aumentado de R$ 4,8 bilhões para R$ 8,2 bilhões. Até agora, foram pagos R$ 3,6 bilhões.

O ritmo lento da obra tem reflexo na geração de emprego, uma das principais propagandas do governo em defesa da transposição. O empreendimento chegou a ter 9 mil funcionários, caiu para 3 mil em 2011 e agora são 4,9 mil. Entre essas idas e vindas de empresas ficou o histórico de demissões e insegurança entre os habitantes da região.

Morador do assentamento Serra Negra, em Floresta (PE), Luiz Henrique da Silva, de 47 anos, trabalhou na obra por quatro meses. Com a paralisação, voltou à roça diante da falta de oportunidades. "Não há segurança", diz.

Gilberlândio Bezerra Resende, de 25 anos, morador de Custódia (PE), trabalha pela terceira vez no mesmo trecho da obra, no lote 10. Na última paralisação foi para o Rio de Janeiro atrás de emprego, mas voltou há três meses. "A obra toda vez começa e para. Tomara que não pare mais daqui pra frente para ter mais emprego para nós", afirma.

Sem receber

Entre os vizinhos do canal há ainda relatos sobre o não pagamento por serviços prestados a empresas terceirizadas. Pedro dos Santos Landim Neto, de 22 anos, morador de Cabrobó (PE), conta ter atuado como vigia para uma dessas subcontratadas. Como era diarista, não teve a carteira assinada e afirma ter ainda dois meses de salário a receber.

Os questionamentos sobre o andamento da obra de transposição podem colocar em jogo o prestígio da presidente em uma região na qual teve votação expressiva em 2010. Em cinco cidades de Pernambuco pelas quais passa a obra, Dilma obteve porcentuais de votação entre 78% e 89% em 2010. A petista tentará reeleição no ano que vem.

O governo federal promete que o ritmo da transposição será acelerado. Segundo o Ministério da Integração, responsável pelo empreendimento, o prazo de entrega, previsto para 2015, será cumprido porque todos os contratos serão assinados até junho deste ano e terão duração máxima de 30 meses.

A paralisia afeta hoje a maior parte dos 16 lotes nos quais o empreendimento foi dividido. No eixo leste não há qualquer atividade no primeiro lote entregue à iniciativa privada, em Floresta (PE), o que levanta dúvidas se a água chegará até o fim do canal, em Monteiro (PB). No eixo norte, as obras estão em andamento no começo do canal, em Cabrobó (PE) e Salgueiro (PE), mas no Ceará a paralisia afeta desde a primeira cidade, Penaforte (CE). Apenas em túneis nas cidades de Jati (CE) e Mauriti (CE) há homens trabalhando. Nesse trecho, a intenção é levar água até Cajazeiras (PB).

Abandono

Em vários lugares da transposição houve o desmatamento, a explosão dos canais e algumas escavações, mas o trabalho parou e não há sinal de movimentação de máquinas. Grandes obras de engenharia como barragens e aquedutos estão longe de sua conclusão. A pasta da Integração diz que estão previstos 12 aquedutos, mas só quatro estão concluídos. Não há nenhuma estação de bombeamento pronta.

Há ainda trechos em que o trabalho realizado terá de ser feito novamente. Em Sertânia (PE), no lote 11, há um trecho de aproximadamente um km em que os canais de concreto estouraram, a vegetação retomou seu espaço em meio ao canal e mantas impermeabilizantes foram cortadas. Moradores afirmam que a obra está abandonada há três anos e lamentam a baixa qualidade do serviço feito. "Agora está tudo assim quebrado e vai ter que fazer tudo de novo", diz Damião Serafim dos Santos, 59 anos, morador do sítio Brado Novo, nas proximidades do canal.

Poucos

No trecho que esteve sob responsabilidade da empreiteira "inidônea" Delta, o lote 6, em Mauriti (CE), a situação se repete com trechos de canais estourados nos primeiros quilômetros da obra. O Estado já tinha constatado situação semelhante em Custódia (PE) em 2011, trecho que foi refeito no lote, que teve as obras retomadas, mas com poucos funcionários.

Moradores relatam ainda existirem pendências em fases que deveriam ser anteriores à obra, como o acordo para indenizações. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cabrobó (PE), Antônio de Nestor, afirma que uma mobilização de 2 mil agricultores estava preparada para ocorrer nos próximos dias com uma invasão do canteiro de obras do lote 1, que fica na cidade. Os pequenos produtores cobram indenizações e ressarcimentos por danos a residências, além dos assentados que desejam ter os mesmos benefícios dados aos proprietários. A manifestação foi suspensa porque a negociação foi retomada com o ministério. No assentamento Serra Negra, em Floresta (PE), até hoje não foi resolvida a questão de três casas e um posto de saúde que ficam na rota do canal, como o Estado revelou em 2011. As obras estão paralisadas na região.

Com o acúmulo de problemas, moradores das margens do canal culpam a presidente pela paralisação. "Tem que cutucar a Dilma, com ela tudo aqui parou, com o Lula estava andando", diz Adauto Joaquim de Araújo, 69 anos, morador de Roça Velha, Floresta (PE).

"Queria ter condição de falar com a presidente Dilma sobre os problemas que estamos passando. Não veio emprego, só prejuízo", resume Rosalina Maria dos Santos, 48 anos, moradora de Curralinho, em Cabrobó (PE). "Quando chegou o movimento pensei que a obra ia sair rápido, mas parece que desistiram", constata Antônio Alves Neto, 50 anos, de Mauriti (CE).

O secretário de Infraestrutura Hídrica do Ministério da Integração Nacional, Francisco Teixeira, afirma que a transposição do Rio São Francisco será acelerada nos próximos meses "sem os problemas do passado". "Não enxergo possibilidade de um novo adiamento porque vamos tocar a obra agora acelerando o ritmo e sem os problemas do passado. Esse cenário não irá se repetir", afirma o secretário da pasta responsável pela principal obra do Programa de Aceleração do Crescimento no Nordeste.

De acordo com Teixeira, a obra de transposição desacelerou nos últimos anos por diversos fatores. "Foram encontradas lacunas no projeto básico, não cabia todo o trabalho nos primeiros contratos e havia preços considerados irreais mesmo na época", diz.

O secretário de infraestrutura afirma ainda que os primeiros anos do governo Dilma Rousseff serviram para fazer essa renegociação com as empresas, organizar novas licitações sobre as partes em que não houve acordo e resolver problemas de desapropriações ainda pendentes do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

A baixa execução orçamentária em 2011 e 2012 seria uma consequência desse processo. Em 2013, a queda se deveria ao fato de alguns trechos já terem as obras perto do final e outros ainda em retomada, o que teria provocado um "hiato" nos pagamentos a ser superado nos próximos meses.

Para justificar a manutenção do prazo de entrega para 2015, o governo afirma que todos os contratos para a construção dos 477 km dessa primeira etapa da transposição serão assinados até 30 de junho e terão duração máxima de 30 meses. O projeto prevê ainda outras obras em trechos que irão para o interior do Ceará e do Rio Grande do Norte, mas ainda não há tais licitações. Com esses trechos a transposição ultrapassará os 600 quilômetros previstos, mas não há prazo para essa fase.

O Ministério da Integração reitera que as empresas serão responsáveis por ressarcir os prejuízos onde o trabalho feito começa a se perder; nos casos mencionados em que as empresas não atuam mais na obra, a União será ressarcida caso tenha de refazer os trechos. A pasta afirma que atualmente há 4,9 mil trabalhadores na obra e estima um aumento de 50% até julho de 2013. O Ministério ressalta também que há no projeto um programa para garantir acesso à água aos moradores que estão numa faixa de cinco quilômetros nas margens do canal.

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20 May

Por trás da moda, há um submundo de exploração

No mundo da moda, campanhas de publicidade apresentam jovens conscientes das dimensões sociais do mundo, do desafio ecológico e mesmo do respeito à diversidade. Mas suas cadeias de produção escondem um submundo corroído pela exploração da mão de obra barata e por condições deterioradas de fábricas. Agora, essa situação começa a ganhar contornos políticos - e até religiosos - que ameaçam governos.

A reportagem é de Jamil Chade e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-05-2013.

O colapso de um edifício em Bangladesh no final de abril, deixando mais de 1,2 mil mortos e mais de 2 mil feridos, abriu as feridas do setor têxtil e da moda, que nos últimos anos embarcou na busca por fornecedores de baixo custo para poder colocar no mercado camisas, calças e centenas de outros artigos a preços baixos.

Temendo prejuízos globais diante das tragédias, empresas de todo o mundo se apressaram na semana passada a assinar acordos com sindicatos se comprometendo em garantir a segurança de seus funcionários. Especialistas disseram ao Estado que a atitude tem muito mais a ver com salvar a imagem do setor que com os trabalhadores, que há anos alertam sobre as más condições nas fábricas.

Já outros alertam que a ação pode ter sido tardia. Em Bangladesh, protestos se proliferam e grupos islamistas já usam o acidente para mobilizar um movimento para depor o governo.

O país asiático transformou-se na última década no segundo maior fornecedor de produtos têxteis do mundo, com 3,5 mil empresas exportando, 4 milhões de trabalhadores e investimentos externos no valor de US$ 19 bilhões. Mas a chegada dos investimentos só ocorreu graças a um fator: 90% desses trabalhadores ganham apenas US$ 1,1 por dia, o que permite à indústria têxtil mundial a movimentar US$ 1 trilhão por ano e gerar lucros, mesmo em plena crise mundial.

As multinacionais da moda não escolheram Bangladesh por acaso. O país tem o menor salário mínimo do planeta: US$ 38 por mês. Para o sindicato internacional IndustriALL, bastaria um aumento de US$ 0,02 no preço de cada camisa vendida no Ocidente para garantir que a renda dos trabalhadores em Bangladesh dobrasse. Com US$ 0,10 a mais, todas as 3,5 mil fábricas poderiam ser renovadas e estar dentro dos padrões europeus.

Quando o edifício Rana Plaza desabou o impacto foi global. Algumas empresas rapidamente reconheceram seu envolvimento. Outras, negaram, mesmo depois que suas etiquetas foram encontradas ensanguentadas entre corpos - entre elas a italiana Benetton e a alemã Kik.

O Rana Plaza era o espelho da expansão descontrolada do setor no país. O prédio ganhou três andares suplementares para garantir uma maior produção. Mas, num país com falta de investimentos em energia, geradores muito pesados foram colocados no teto, vibrando 24 horas por dia. A capital, Daca, situa-se em uma zona de terremoto e, segundo a ONU, 72 mil edifícios não resistiriam a um desastre natural de magnitude 6.

Empresas como a inglesa Primark e a canadense Loblaw admitiram sua produção no prédio que desabou. Mas lançaram um desafio ao fato de que outras 28 empresas ocidentais estavam em silêncio sobre sua participação. Nos dias após o colapso, campanhas promovidas por ativistas reuniram mais de 1 milhão de assinaturas cobrando uma resposta das empresas têxteis ocidentais.

Depois de semanas de negociações, um acordo foi obtido na quarta-feira na Suíça, envolvendo gigantes como a H&M, Zara, Hennes & Mauritz AB, PVH, Tchibo, Tesco, Marks & Spencer, El Corte Inglés, Mango, Carrefour, Benetton, Esprit e C&A. O plano prevê que inspeções independentes sobre a segurança das fábricas serão realizadas e obras terão de ser feitas em locais que não cumpram padrões mínimos. As empresas Ocidentais ainda se comprometem legalmente a garantir a segurança dos trabalhadores e asseguram que o fornecedor que se recusar a seguir essa linha terá seu contrato suspenso.

Mas as empresas não deixam de atacar o governo de Bangladesh, apontando para inspetores que fazem visitas apenas para receber propinas e leis pouco transparentes sobre os direitos de trabalhadores.

A maior rede de varejo do mundo, o Walmart, rejeitou aderir ao acordo e disse que realizará de forma independente a vistoria sobre as 279 fábricas instaladas em Bangladesh. O problema é que essa não é a primeira vez que o Walmart faz tal promessa. Em novembro, uma outra fábrica foi destruída por um incêndio que matou 112 pessoas, levando o Walmart a anunciar que estava rompendo o acordo de fornecimento com a empresa.

Nas ruas de Daca, nem mesmo o acordo acalmou os trabalhadores. Ao menos mil fábricas estão paralisadas pelos protestos que, segundo observadores, ganham dimensões políticas. Cerca de 70 deputados nacionais são donos de empresas do setor têxtil.

Gilbert Houngbou, vice-diretor da Organização Internacional do Trabalho, admitiu ao Estado que um dos temores é que a crise seja usada justamente por grupos islâmicos radicais para atrair a população frustrada pelas mortes e mobilizar um apoio popular suficiente para depor o governo. "Esse aspecto político é real", declarou.

Os militantes logo perceberam que poderiam aproveitar o sentimento de indignação para ganhar força. Manifestantes saíram às ruas e pelo menos 22 pessoas morreram em choques com a polícia. O governo sabe que os radicais estão usando a crise e vem apelando à comunidade internacional a não promover um boicote sobre as exportações do país. Daca teme que o abandono das empresas Ocidentais amplie a miséria, que apenas garantiria o avanço dos islâmicos.

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20 May

Brasil amplia compras de produtos de Bangladesh

Não são apenas as empresas europeias e americanas que nos últimos anos transformaram Bangladesh em sua própria fábrica de produtos têxteis. Dados oficiais do governo brasileiro indicam que, nos últimos anos, a entrada de camisetas, suéteres, jeans e outros produtos têxteis de Bangladesh no mercado nacional aumentou drasticamente, fornecendo também para marcas locais.

A reportagem é de Jamil Chade e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-05-2013.

Segundo dados oficiais, o Brasil importava apenas US$ 7 milhões em 2005. Em 2012, esse volume foi 26 vezes superior, num total de US$ 185 milhões.

A balança comercial registrou 77% de crescimento entre 2010 e 2011 e outros 19% de aumento em 2012 na entrada de têxteis do país asiático ao Brasil. A expansão não para. Nos três primeiros meses de 2013, o crescimento nas importações foi de mais 20% em relação a 2012.

Para Tom Grinter, representante do sindicato internacional IndustriALL, empresas brasileiras terão de pensar em se unir ao acordo assinado pelas multinacionais da moda. "Apenas com uma ação global é que se poderá garantir os direitos dos trabalhadores locais", disse Grinter.

"Convidamos o Brasil a também considerar a ação e garantir que o que está comprando venha de fábricas que não representem uma ameaça às vidas dos trabalhadores", completou.

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20 May

'Objetivo deve ser promover a justiça, não só preservar memória'

A Comissão de Verdade deve ser um "mecanismo de Justiça" e não pode acabar apenas "em palavras". A avaliação é de Pablo de Greiff, relator da ONU para a promoção da Verdade e Justiça e encarregado dentro do sistema por acompanhar comissões da verdade estabelecidas em vários países.

A entrevista é de Roldão Arruda e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-05-2013.

Eis a entrevista.

Mais de 25 anos depois do fim da ditadura no Brasil, há quem diga que já seria tarde demais para lidar com o que ocorreu. Como o sr. avalia isso?

O tempo não apaga as violações de direitos humanos. Nem as vítimas nem setores da sociedade esquecem o que ocorreu. Essa situação precisa ser confrontada. Claro, o melhor seria que isso ocorresse logo depois do fim de um regime. Mas nunca é tarde demais.

Mas existem riscos em tratar do assunto após tantos anos?

Sim. Um perigo é de que possa haver interferências e que se avalie que a busca da verdade é um exercício apenas de memória histórica. As comissões da verdade são mecanismos para fortalecer os direitos das vítimas, e não para redimir processos políticos. Comissões são mecanismos de justiça. Quanto mais se atrasa o estabelecimento de uma comissão, mais se permite que haja a intromissão de fatos que não têm a ver com a justiça, como considerações políticas.

Um dos pontos da transição à democracia no Brasil foi o estabelecimento de uma lei de anistia, ainda durante o governo militar. Como o sr. considera esse elemento na lei?

Há um consenso no direito internacional proibindo anistias para certos crimes. É muito importante que comissões da verdade lidem justamente com a busca da verdade sobre o que ocorreu. Mas isso não é suficiente. Uma comissão não pode ser apenas um processo de aprendizagem do que ocorreu. Esse conhecimento precisa ser usado para fazer justiça.

Uma das decisões da Comissão no Brasil foi a de não investigar os crimes cometidos pelos dissidentes. Como foi a experiência de outras comissões pelo mundo sobre isso?

Cada contexto é diferente. Na Argentina, não se investigaram os crimes cometidos pelo Montoneros. No Chile, a decisão foi a de investigar a todos. Não há uma receita. É preciso olhar as assimetrias das violações cometidas pelos diferentes grupos. Se 98% delas vieram do Estado, não me parece que seja urgente investigar o outro lado. O segundo fato é que se precisa avaliar se a oposição já foi punida em sua época. De todas as formas, o Estado tem o dever de proteger seus cidadãos e violações cometidas por esse Estado devem ser a prioridade em uma investigação.

A Comissão da Verdade no Brasil se queixa de que há ainda forte resistência dos militares para cooperar com o processo.

Muitas comissões conseguiram resultados positivos, mesmo com a resistência de seus militares. Há casos ainda de militares que mudaram de comportamento durante o processo de busca da verdade. É o caso da Argentina. O Exército reconheceu seus erros e isso foi fundamental para o país e para a profissionalização dos próprios militares.

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