Becciu, caixas dois e as reformas de Bergoglio, mas no Vaticano não haverá outra “tangentopoli”

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07 Julho 2021

 

"Aqueles que esperam uma tangentopoli (famoso caso italiano de corrupção sistêmica, NT) naquele pequeno estado ficarão desapontados porque a justiça de Deus vem antes daquela dos homens. Ou, pelo menos, deveria", escreve Gianluigi Nuzzi, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 06-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Afinal, se você pensar bem, é tudo uma questão de sorrisos. E de dinheiro. O sorriso de Bergoglio não está tão distante do sorriso brilhante e desarmante do Papa Albino Luciani. Aliás, justamente seus sorrisos se destacam nos corredores dos sagrados palácios, irradiam luz no escuro, contagiam com força e coragem aqueles que querem expulsar os mercadores do templo. Se não tivesse existido o primeiro, nunca teríamos tido o segundo: juntos quebraram o feitiço negro de uma cúria imutável, sobrepujando o próprio pontificado com os bens temporais reduzidos à destruição de uma confiança traída.

Só que João Paulo I sorria esmagado por uma solidão mortal, amado por todos, sim, mas apenas fora dos muros leoninos, ali deixado para enfrentar Paul Casimir Marcinkus, sua arrogância, sua teia venenosa, armado apenas com a Fé. "Não se administra a Igreja com Ave-Marias", esbravejava o arcebispo à frente do IOR dos Gelli, dos Calvi e dos Sindona. E precisamente naqueles anos acabava de nascer um fundo oculto na secretaria de Estado, que hoje representa, num sensacional momento de justiça poética, a articulação simbólica entre os dois pontificados.

De fato, justamente esse fundo ainda mais reservado e discreto do IOR, foi criado para proteger o pontífice do cataclismo de Marcinkus, para proteger as reservas do estado e os fundos reservados do papa da horda daqueles anos de falências, assassinos vestidos de suicidas e narcodólares que infestavam os cofres do Vaticano. Justamente dali, por exemplo, tinham saído os 406 milhões de dólares destinados para os pequenos poupadores do Ambrosiano para que se pudesse encerrar aquele pesadelo. Foi Monsenhor Gianfranco Piovano, um diplomata, que geriu a invisível estrutura, fazendo-a crescer ano após ano.

E assim, quando Bertone o substituiu em 2009 por Monsenhor Alberto Perlasca, a essa altura aquela criatura financeira tinha uma carteira e uma autonomia impressionantes, capaz de arrecadar e coordenar parte das contabilidades paralelas, dos balanços extrapatrimoniais. A missão da seção de finanças havia saído do controle. O papa não tinha mais conhecimento do que se passava naqueles escritórios, iminente reinado do sardo de Pattada, o habilidosíssimo Angelo Becciu, que se tornou substituto - terceiro cargo no estado - em 2011.

E se é verdade que o papa Francisco desde os primeiros dias do seu pontificado tentou desestruturar a cúria, como bom jesuíta compreendeu imediatamente que aquela entidade devia ser enfrentada por último. Para não fracassar, perder como infelizmente aconteceu com o Papa Luciani, que morreu prematuramente.

De fato, a Bergoglio não escapou a gélida resposta que o próprio Perlasca havia enviado aos inspetores do pontífice quando, em dezembro de 2013, eles pediram as contas da estrutura e a prestação de contas do Óbolo de São Pedro, doações arrecadadas em nome do santo padre: “Veremos se e como responder”. Em preto e branco, não era uma frase indicativa de arrogância, mas da certeza de que aquela casamata jamais seria expugnada. E assim Bergoglio reformou e recuperou todas as outras estruturas e depois voltou ao assalto na primavera de 2018 com uma série de manobras implacáveis: primeiro a transferência de Becciu, alto cardeal, para a congregação dos santos e beatos, depois o bisturi do controle das contas.

Os escritórios, no entanto, estavam lotados de seus partidários - os mesmos que encontramos hoje indiciados pelo escândalo de Londres - para resistir, encontrando apoio em vários cardeais idosos da Cúria. E em 17 de julho de 2018, o cardeal Agostino Vallini tentava resistir à onda da transparência, de quem queria os balanços, lembrando em uma reunião reservada que, em suma, determinados cofres era melhor não abri-los, inclusive aludindo às disponibilidades do pontífice : “Não vou vos esconder, irmãos cardeais - exortou o cardeal - algumas reservas importantes ... (...) ... não devem nos escapar todas as possíveis implicações que poderiam surgir, em particular as relacionadas com a proteção do sigilo daqueles fundos que o Santo Padre tem o direito de usar a seu próprio critério”.

Mas, neste ponto, a ofensiva de Bergoglio já era imparável. Para citar apenas algumas: o Apsa, o banco central do estado, havia caído, as contabilidades gerais haviam mudado, o governorato havia sido revisado, os museus do Vaticano haviam sido revistos. E o principal teste pode agora ser lido nos documentos deste novo clamoroso processo que terá início no final do mês contra Becciu e seus supostos associados: quem contribui para as páginas da acusação, fornecendo chaves e formidáveis detalhes é justamente Monsenhor Perlasca, sim, aquele escolhido por Bertone e hoje super testemunha da investigação que certamente marca a fase de julgamento mais intensa da justiça vaticana nos últimos séculos. Mas aqueles que esperam uma tangentopoli (famoso caso italiano de corrupção sistêmica, NT) naquele pequeno estado ficarão desapontados porque a justiça de Deus vem antes daquela dos homens. Ou, pelo menos, deveria.

 

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