Sem a possibilidade de se sublimar através do trabalho, é muito difícil conservar a saúde mental. Entrevista com Christophe Dejours

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04 Junho 2019

O histórico teatro IFT da cidade de Buenos Aires ficou lotado. Não havia um recital, nem uma peça de teatro, mas a conferência “Trabalho, precarização e subjetividade”, brindada pelo prestigioso psicanalista francês Christophe Dejours, que chegou ao país convidado pela Associación Gremial Docente da Universidad de Buenos Aires — AGD-UBA e a editora Topía. O público diverso que foi escutá-lo estava composto por personagens do ambiente psi (profissionais, professores, intelectuais e estudantes), porém também por vários integrantes de sindicatos, interessados nas ideias de Dejours sobre o trabalho e sua relação com a saúde e com a enfermidade.

Considerado o pai da Psicodinâmica do Trabalho, esse especialista se baseia com algo não tido muito em conta pela psicanálise: que o trabalho é base da identidade, uma fonte fundamental de sentido para a vida e um mediador insubstituível para a autorrealização no social. “O capitalismo atual vem tentando impor sentidos para naturalizar sua degradação, a fim de baratear custos e aumentar lucros”, adverte em conversa com o Página/12. “Da forma em que nos apropriamos do trabalho e do produzido, das estratégias de defesa coletiva construída por trabalhadoras e trabalhadores, dependerá que o trabalho possa ou não se constituir em um meio de experimentação de solidariedade e como antídoto à alienação que impõe o neoliberalismo”.

Christophe Dejours, especialista em medicina do trabalho, psiquiatria e psicossomática. É psicanalista, mas se baseia em algo não levado muito em conta na psicanálise: o trabalho como identidade, fonte fundamental para a vida e mediador para a autorrealização social.

A entrevista é de Verónica Engler, publicada por Página/12, 03-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

Para a concepção clássica da psicanálise a explicação das condutas humanas se fundamenta a partir da centralidade da sexualidade. Porém, a partir da sua perspectiva, o trabalho também ocupa um lugar central tanto como fonte de sofrimento como de prazer. De que maneira o trabalho deixa de ter um lugar marginal na constituição da subjetividade?

Sendo esquemático pode-se dizer que há dois eixos na realização de si mesmo. A realização pessoal no campo erótico passa pelo amor, que é o campo habitual da psicanálise. O segundo campo é a realização no campo social, e isso passa pelo trabalho. Nesses dois campos se delimitam dois tipos de destinos para a pulsão, uma sexual e outra sublimatória. Quando alguém se refere à concepção freudiana, a sublimação foi considerada exclusiva de seres excepcionais, os grandes homens, como Michelângelo ou Leonardo Da Vinci. Porém a clínica do trabalho mostra que a questão da sublimação se encontra presente em todos os que trabalham. Em cada oficio, a questão de sublimação está presente.

A clínica mostra que quando se pode aproveitar ou ter a sorte de contar com uma boa organização do trabalho, que permite seu desenvolvimento, a sublimação se beneficia, funciona. Essa é a forma principal da transformação do sofrimento no trabalho em prazer no trabalho. Porém, não é somente gerador de prazer, a vitória sobre o sofrimento é uma vitória também do ponto de vista da saúde. Quando alguém está forçado a trabalhar mal, porque as condições são ruins, porque tem pressão de produtividade quantitativa contra a qualitativa, as condições de sublimação se rompem e muita gente adoece.

Onde não há possibilidade de se sublimar pelo trabalho, se torna muito difícil conservar a saúde mental, e muitas vezes tem que desenvolver estratégias muito complicadas para se proteger contra os ambientes deletérios no trabalho.

O que acontece quando não se tem a possibilidade de trabalho, quando se está desempregado?

Quando se é privado da possibilidade de trabalho, se perde a possibilidade ou o direito de trazer sua contribuição pelo trabalho para a construção da sociedade, e consequentemente, se alguém perde essa possibilidade, tampouco poderá se beneficiar da retribuição, e geralmente a retribuição no sentido comum é o salário.

Porém, na clínica do trabalho, como eu a entendo, pode se dar conta que há outra forma de retribuição, que passa pela sublimação. Se não podemos fazer um aporte de uma contribuição à sociedade ou à empresa ou aos colegas, ou eventualmente aos subordinados, perdemos o direito de nos beneficiar com o reconhecimento, que é uma forma de retribuição extremamente importante desde o ponto de vista psíquico e que, desde o ponto de vista da saúde, é mais importante que a retribuição material através do salário. Quando não se pode aportar uma contribuição pelo trabalho, se perde o benefício possível dessa retribuição simbólica através do reconhecimento, e nessa questão o porvir, do ponto de vista da saúde mental, se torna muito mais precário.

As pessoas que estão desempregadas, de maneira crônica, tem uma incidência de perturbações psíquicas muito mais elevadas que aqueles que estão empregados, que estão trabalhando. Creio que é igual em todas as partes do mundo, não é algo novo.

Que patologias e que possibilidades de encontrar prazer no trabalho percebes nas condições atuais do neoliberalismo?

Pequeno problema (risos)... O trabalho pode ser gerador do pior, por isso hoje em dia chega a provocar suicídios nos lugares de trabalho; porém também pode gerar o melhor, de maneira tal que graças ao trabalho, a saúde mental melhora. E o problema, então, consiste em compreender porque, por um lado, passamos à desolação, à desesperança, e por que em alguns casos se volta à felicidade. E há uma razão que é muito precisa, que é o perfil decisivo na organização do trabalho. Há algumas organizações do trabalho que são particularmente deletérias para a saúde mental e vemos como progressivamente cada vez há mais patologias mentais do trabalho, sobretudo desde o começo do século XXI, com o surgimento de novas patologias que antes não existiam.

Na organização do trabalho, há uma mudança maior que corresponde ao que chamamos o “giro de gestão”, que é a maneira na qual dentro do mundo do trabalho se concretiza a ascensão massiva do neoliberalismo. Se introduzem novos métodos, novos dispositivos, que mudam completamente a organização do trabalho: a avaliação pessoal dos desempenhos; a noção de qualidade total; a normalização ou padronização do trabalho, o tema das normas com as ISO; a precarização; e também a manipulação comunicativa produzida pelas mesmas empresas.

Essa manipulação é muito importante, não somente a respeito do externo, da empresa para fora, fazendo publicidade, por exemplo mostrando resultados da empresa na bolsa; mas sim que também é uma comunicação que está destinada ao interior, porque se torna um sistema de prescrições, ao qual os mesmo trabalhadores assalariados devem estar muito atentos, para poder utilizar as boas formas da linguagem, as maneiras nas quais há que se implicar nas relações hierárquicas, o que alguém pode ou não dizer, tudo isso está ditado pela comunicação interna.

Esse sistema de pressão e controle ideológico está vigente tanto nas empresas privadascomo nos organismos públicos, verdade?

Sim, claro. E esses novos métodos têm impactos muito poderosos, muito fortes, não somente sobre a maneira de trabalhar de maneira individual, mas também sobre a maneira de trabalhar junto com os demais, sobretudo dos coletivos de trabalho.

Esse giro da gestão, dos números, se traduz por uma vontade de romper tudo que seja coletivo, e romper as cooperações para poder ter unicamente indivíduos que no jargão da gestão chamam “os indivíduos responsáveis”. E os métodos em questão são muito fortes, muito poderosos, conseguiram desestruturar essas cooperações. Ao fazer isso, ao desestruturar essa cooperação, se destroem certo tipo de vinculações entre as pessoas, sobretudo as relações de convivência, que tem que ver com estar atento ao que necessita o outro, a ajuda, o saber viver juntos e a solidariedade. Tudo está destruído por esses novos dispositivos. Agora cada um está somente em um mundo que é hostil, e onde cada pessoa está em competição com o seu vizinho, e inclusive em um modo de competição desleal. E isso se vê tanto no nível inferior da escala, porque a competência é extremamente dura em respeito à questão do emprego, porém também é muito dura em cima da hierarquia, onde os quadros superiores passam seu tempo se vigiando uns aos outros, por exemplo.

Essa questão do coletivo e a solidariedade, essa questão de viver juntos, é uma questão social e política, claro, mas é também uma questão que tem a ver com a saúde.

Por quê?

Porque a melhor maneira de prevenir contra riscos psicossociais, contra as patologias mentais do trabalho, é justamente essa convivência, o viver juntos, a solidariedade.

Há duas grandes fontes na saúde no trabalho, a primeira é o vínculo individual com a tarefa, que está relacionado com a sublimação, porém também está o fato de poder entrar em um vínculo, em uma relação de pertencimento a uma equipe, pertencimento a um ofício, uma profissão, porque todos esses pertencimentos nos remetem sempre a sistemas de valores. Cada profissão está estruturada por certas regras, essas regras de trabalho não são nunca unicamente normas para tratar a questão da eficácia; essas normas de trabalho organizam também os vínculos e os laços entre os membros de uma equipe. Ao desestruturar esses coletivos, se faz perder o benefício da ajuda mútua aos trabalhadores, que não é somente em favor da eficácia, mas sim que também é uma ajuda mútua a respeito do sofrimento.

Por que em relação às patologias no trabalho você prefere não falar de estresse?

Porque na concepção de estresse, o trabalho é apresentado como um ambiente, isto é, algo que está ao redor e que contém um certo número de prescrições, regras, restrições, inconveniências.

Desta forma, o trabalho é uma questão externa que atua sobre um indivíduo considerado como um ser isolado. Mas o que a clínica do trabalho está nos mostrando é que o trabalho não é apenas fora do indivíduo, para que eu possa fazer um trabalho de qualidade, o trabalho tem que se tornar interno, é preciso subjetivar o trabalho, tenho que aceitar me sentir invadido por trabalho, muito além do tempo concreto do trabalho, fora do trabalho também, mesmo quando volto para minha casa por exemplo. Isso também faz parte do trabalho, são todos os distúrbios que o trabalho provoca, fora dele. Assim, o trabalho está dentro, não fora, não é um ambiente, mas a teoria do estresse considera o trabalho como um ambiente praticamente material e considera o indivíduo como um indivíduo praticamente biológico.

A teoria do estresse é uma teoria que se destina a não fazer psicologia ou, na melhor das hipóteses, é a psicologia animal, o modelo é comportamental, extremamente simplista. Para entender a sutileza dos vínculos entre trabalho e subjetividade, é necessária uma estrutura conceitual extremamente sofisticada em pelo menos três disciplinas.

Primeiro, é necessário ter uma teoria do sujeito que não seja simplista, isso é feito pela psicanálise; mas uma teoria do trabalho também é necessária. Existem disciplinas de trabalho que explicam a complexidade do trabalho vivo que nada tem a ver com o que é dito sobre o estresse.

Um terceiro tipo de conhecimento sobre a teoria social e a teoria da dominação também é necessário; não apenas dominação entre classes, mas também dominação de gênero. De acordo com a teoria do estresse, homens e mulheres são os mesmos, mas o trabalho clínico mostra que para homens e mulheres, o trabalho não implica o mesmo, o sofrimento no trabalho para homens e mulheres não é o mesmo, e as estratégias de defesa que homens e mulheres constroem são diferentes.

Alguns teóricos, tão diversos como André Gorz ou Jeremy Rifkin, tinham previsto uma redução do tempo de trabalho social e uma expansão de tempo livre, mas o que aconteceu a partir da década de 90 é exatamente o oposto: para aqueles que estão desempregados, o horário de trabalho se tornou praticamente ilimitado.

Eu acho que as declarações de Jeremy Rifkin são parte de uma manipulação da opinião pública para instigar o medo, mas suas análises são completamente falsas. Um ano após a publicação de seu livro (The End of Work, 1995), o pleno emprego nos Estados Unidos foi anunciado. Mas o trabalho de André Gorz e Dominique Méda, na França, é mais sério, são dois intelectuais reconhecidos. Rifkin é apenas um consultor de sucesso que está a serviço da ideologia neoliberal.

Na virada do século, o filósofo italiano Franco Berardi postulou que a sociedade industrial construiu máquinas de repressão da corporeidade e desejo, enquanto a sua sociedade pós-industrial dinâmica fundada sobre a mobilização constante de desejo, de modo em que a distinção entre o tempo de trabalho e o tempo de lazer foi progressivamente cancelado. Você concorda com essas ideias? Quais seriam as consequências de colocar a libido para trabalhar pelo capital e pela identificação total com a empresa?

Não estou convencido das postulações de Berardi. O problema não está no desejo mais ou menos bem dominado pela sociedade pós-industrial. Especialmente desde que a sociedade de hoje não é pós-industrial, ainda é muito industrial. A indústria só mudou de Norte para Sul, mas a massa de trabalhadores industriais cresceu em todo o mundo.

O problema está na virada neoliberal do final do século XX. No mundo do trabalho, este ponto de viragem assumiu a forma de um "turn in management", com novos métodos e organização do trabalho. Esses métodos, extremamente eficazes, resultam em um maior poder de dominação. O que me interessa investigar é o poderoso controle dos pensamentos e dos comportamentos dos indivíduos, que não podem construir forças significativas para combater essas novas formas de dominação.

O resultado é que os trabalhadores são forçados a trabalhar mais e mais e mais. Do ponto de vista da saúde, isso se traduz em uma explosão de doenças: o burnout, Karoshi (morte súbita por acidente vascular cerebral), Karôjisatsu (suicídio por excesso de trabalho) e abuso de substâncias, entre outros.

Eu acho que a deterioração dramática da saúde mental no trabalho não age pela mobilização, do desejo ou da libido, pelo contrário, significa o agravamento da servidão, aumento do sofrimento, a saturação das estratégias individuais e coletivas de defesa contra o sofrimento no trabalho e a incapacidade de se defender contra os efeitos nocivos de novas formas de gestão.

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