O sofrimento no trabalho. Artigo de Christophe Dejours

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Por: André | 10 Maio 2013

“O sujeito pode transferir esse reconhecimento do trabalho para o registro da construção de sua identidade. E o trabalho se inscreve assim na dinâmica da autorrealização. A identidade constitui a armadura da saúde mental. Não há crise psicopatológica que não tenha em seu núcleo uma crise de identidade. E isto confere à relação com o trabalho sua dimensão propriamente dramática. Ao não contar com os benefícios do reconhecimento de seu trabalho nem poder aceder ao sentido da relação que vive com esse trabalho, o sujeito se confronta com seu sofrimento e só a ele. Sofrimento absurdo que só produz sofrimento, dentro de um círculo vicioso, e que será desestruturante, capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade e causar doenças mentais. Por isso, não há neutralidade no trabalho em relação à saúde mental.”

A análise é de Christophe Dejours, doutor em medicina, especialista em medicina do trabalho e em psiquiatria e psicanalista, e foi publicada no jornal argentino Página/12, 02-05-2013. A tradução é do Cepat.

O texto a seguir é um extrato tirado do seu livro A banalização da injustiça social, editado pela Fundação Getúlio Vargas.

Eis o texto.

Um médico jovem, que não terminou sua formação, é responsável, no entanto, por um serviço de reanimação: o diretor do hospital se nega a contratar mais profissionais e a remuneração deste médico é muito inferior à de um profissional mais experimentado. O jovem médico, sério e trabalhador, realiza corretamente as tarefas. Tudo anda nos trilhos e vai ganhando progressivamente a confiança da equipe médica, dos pacientes e seus familiares. Mas ele está muito preocupado porque há muitas baixas no serviço. Alguns de seus pacientes morrem apesar dos prognósticos favoráveis, em especial quando ele prescreve assistência com respirador artificial em doentes entubados: muitos se asfixiam e ele não consegue entender por que. Começa a pensar que cometeu erros, mas não consegue descobri-los. Sente-se cada vez mais perturbado, perde a confiança em si mesmo e, finalmente, consulta um psiquiatra para que o ajude a lutar contra uma depressão ansiosa. Cada vez mais fechado e irritado, se isola, fica com raiva e pouco a pouco vai perdendo a confiança da sua equipe. Apenas seis meses depois – mesmo com a sua situação psíquica francamente deteriorada – tem uma ideia: coloca a máscara de oxigênio em si mesmo e se afoga ao inalar algo que, pelo cheiro, identifica de imediato como formol. Uma investigação lhe permite descobrir que a empresa responsável pela manutenção dos equipamentos de reanimação não respeita os procedimentos, para ganhar tempo e suprir a falta de pessoal.

Nas situações comuns de trabalho, são frequentes os incidentes e acidentes de origem incompreensível (nem sempre há vontade de engano, como no caso relatado), que transtornam e desestabilizam os trabalhadores mais experimentados. Acontece no manejo de aviões e em todas as situações tecnicamente complexas, que implicam riscos para a proteção das pessoas ou a segurança das instalações. Para os trabalhadores, muitas vezes, é impossível determinar se seus fracassos têm a ver com uma falta de competência ou com anomalias do sistema técnico. E esta perplexidade é uma causa de angústia e sofrimento que toma a forma do medo de ser incompetente, de não estar à altura ou ser incapaz de enfrentar situações excepcionais ou inesperadas, nas quais esteja envolvida a responsabilidade.

Outras vezes, embora quem trabalha saiba o que deve fazer, não pode fazê-lo porque é impedido por restrições sociais do trabalho. Os colegas travam, o clima social é desastroso, cada qual trabalha na solidão e todo o mundo retém informações. Tomemos o exemplo de um técnico em manutenção encarregado do controle técnico de obras realizadas em uma central nuclear por uma subcontratada. São obras enormes, que exigem muita segurança. Os trabalhos são feitos em turnos rotativos, dia e noite. O técnico responsável pelo controle está sozinho, não pode vigiar as obras 24 horas por dia. Mas tem que assinar as fichas e responsabilizar-se pela qualidade do serviço realizado pelo subcontratado e aceitar a palavra do chefe do turno da noite em relação à qualidade do serviço. Não é uma situação psicológica facilmente suportável por um técnico que, justamente por conhecer bem o ofício, sabe bem quantos enganos ou armadilhas pode ocultar.

Com a reorganização do trabalho, em consequência das últimas reformas estruturais, criaram-se condições extremamente dolorosas em relação aos valores do trabalho bem feito, o sentido da responsabilidade e a ética profissional. A obrigação de fazer mal o trabalho, de ter que dá-lo por terminado ou mentir, é uma fonte importantíssima e extremamente frequente de sofrimentos no trabalho: está presente na indústria, nos serviços, na administração.

Vejamos outro exemplo. Trata-se de um engenheiro, recentemente destinado a um depósito da SNCF (Empresa Nacional de Estradas de Ferro da França). Alguns dias depois da sua chegada, toma conhecimento de que ocorreu um incidente no setor das vias que está sob sua responsabilidade: a barreira em uma passagem de nível não baixou ao passar um trem; os sistemas automáticos não funcionaram; felizmente, não havia ninguém no cruzamento, nem pedestre nem carro. O engenheiro reporta o incidente. Segundo parece, depois do incidente e sem nenhum tipo de intervenção técnica nem reparação particular, as barreiras continuaram funcionando normalmente. Mas o acontecimento ocorreu. Qual é a causa? Onde está o defeito? Silêncio generalizado entre os colegas. O engenheiro insiste, mas os demais minimizam a importância do fato. O engenheiro, considerando que se trata de um incidente grave, exige uma investigação técnica completa. É que, com a diminuição de pessoal, o plantel gerencial está sobrecarregado de trabalho e prefere evadir-se. Eles não podem admitir oficialmente esta situação e se limitam a rechaçar a investigação proposta, que anuncia dificuldades e vai consumir muito tempo e trabalho. Por isso, insistem em que as barreiras continuarão funcionando bem. O tom da discussão sobe entre os companheiros. O engenheiro se nega a abandonar a investigação e defende sua opinião sobre a gravidade do incidente. Até que o chefe de depósito coloca um ponto final na discussão: “Houve descarrilamento?” “Não”, responde o engenheiro. “Houve algum veículo ou pedestre atropelado?” “Não.” “Houve feridos ou mortos?” “Não.” “Então, não houve incidente. O assunto está encerrado”.

Ao sair da reunião, o engenheiro não se sente bem. Perdeu o equilíbrio, não entende a posição dos outros nem, sobretudo, sua unanimidade. Tem dúvidas e já não sabe se está respeitando o espírito do regulamento e uma ética do sentido comum (ao mesmo tempo que seus colegas lhe opõem uma negação da realidade) ou se, pelo contrário, está dando provas de um perfeccionismo e uma obstinação fora do comum, em cujo caso toda a sua vida profissional deve ser reexaminada. Nos dias seguintes, seus colegas evitam compartilhar os almoços com ele; não falam com ele. O pobre coitado já não entende mais nada. A pressão aumenta. Sente-se cada vez mais angustiado. Dois dias depois, em seu local de trabalho, joga-se do alto das escadas, atravessando as barreiras (em francês, o termo que designa a varanda da escada é o mesmo que designa a barreira do trem). É hospitalizado com fraturas múltiplas, depressão, estado de confusão, tendência suicida. Mas trata-se de um caso de alienação social, que deve ser diferenciado da alienação mental clássica.

Contrariamente ao que se poderia crer, as situações deste tipo não são nada excepcionais no trabalho, embora tenham desenlaces menos espetaculares. Às vezes, os obstáculos do real podem ser superados, como no caso do médico reanimador. Outras, é preciso capitular diante dos obstáculos que impedem a qualidade do trabalho, como o fez o técnico mecânico. Em outros casos se torna possível trabalhar em boas condições técnicas e sociais. Mas, qualquer que seja o resultado, em geral implica uma série de esforços que comprometem toda a personalidade e a inteligência de quem trabalha.

Reconhecimento

Há seguramente folgados e desonestos, mas, em sua grande maioria, quem trabalha se esforça para fazer as coisas o melhor possível e coloca nisso muita energia, paixão e compromisso pessoal. O justo é que esta contribuição seja reconhecida. Quando não é, quando passa inadvertido em meio à indiferença geral ou os outros o negam, o resultado é um sofrimento muito perigoso para a saúde mental, como vimos no caso do engenheiro da SNCF, e se produz uma desestabilização das referências sobre as quais se apoia a identidade. O reconhecimento não é um apelo marginal de quem trabalha. Muito pelo contrário, se apresenta como um elemento decisivo na dinâmica de mobilização subjetiva da inteligência e da personalidade no trabalho (o que se designava tradicionalmente em psicologia com a expressão “motivação no trabalho”).

O reconhecimento esperado por quem mobiliza sua subjetividade no trabalho passa por formas extremamente reguladas, que foram analisadas e explicadas há alguns anos (“juízo de utilidade” e “juízo de beleza”) e implica a participação de certos atores, também eles rigorosamente situados em relação com a função e o trabalho de quem espera o reconhecimento. Reconhecer a existência da “psicodinâmica do reconhecimento” permite compreender o importante papel que joga no destino do sofrimento no trabalho e a possibilidade de transformar o sofrimento em prazer.

Porque, efetivamente, desse reconhecimento depende o sentido do sofrimento. Quando a qualidade do meu trabalho é reconhecida, o que adquire sentido são meus esforços, minhas angústias, minhas dúvidas, minhas decepções e meus desalentos. Todo esse sofrimento não foi em vão e não só contribuiu para a organização do trabalho, mas que, ao contrário, fez de mim um sujeito diferente daquele que era antes do reconhecimento. O sujeito pode transferir esse reconhecimento do trabalho para o registro da construção de sua identidade. E o trabalho se inscreve assim na dinâmica da autorrealização. A identidade constitui a armadura da saúde mental. Não há crise psicopatológica que não tenha em seu núcleo uma crise de identidade. E isto confere à relação com o trabalho sua dimensão propriamente dramática. Ao não contar com os benefícios do reconhecimento de seu trabalho nem poder aceder ao sentido da relação que vive com esse trabalho, o sujeito se confronta com seu sofrimento e só a ele. Sofrimento absurdo que só produz sofrimento, dentro de um círculo vicioso, e que será desestruturante, capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade e causar doenças mentais. Por isso, não há neutralidade no trabalho em relação à saúde mental. Contudo, as análises sociológicas e políticas subestimam massivamente esta dimensão do trabalho.

Mesmo que o reconhecimento esteja no horizonte de expectativas dos trabalhadores, poucas vezes o recebem de maneira satisfatória. E o esperável é que o trabalho gere uma multiplicidade de manifestações psicopatológicas. Para fazer uma análise e um inventário destas manifestações decidiu-se empreender uma série de investigações clínicas sob o nome de “psicopatologia do trabalho”. Ao começar estas investigações, na década de 1950, nos esforçávamos por constituir uma clínica das “doenças mentais do trabalho”. Apesar de alguns resultados espetaculares – em particular a neurose das telefonistas, descrita por Jean Bégoin em 1957 –, não se chegou a descrever uma patologia mental do trabalho comparável à patologia das afecções profissionais somáticas, cuja variedade e especificidade é bem conhecida.

Se o sofrimento não vem acompanhado de uma descompensação psicopatológica – por uma ruptura do equilíbrio psíquico que se manifesta na eclosão de uma doença mental – é porque o sujeito aplica a si certas defesas que lhe permitem controlá-lo. A investigação clínica demonstrou que, no campo da clínica do trabalho, junto com os mecanismos de defesa clássicos descritos pela psicanálise, estão as defesas construídas e sustentadas coletivamente pelos trabalhadores. Trata-se das “estratégias coletivas de defesa”, pista específica das restrições reais do trabalho. Foram descritas as estratégias coletivas características dos trabalhadores da construção civil e das obras públicas, dos operadores do controle de produção na indústria química, dos agentes de manutenção das centrais nucleares, dos solados do exército, dos marinheiros, enfermeiras, médicos, cirurgiões, pilotos de caças, etc. As investigações se desenvolveram a partir da inversão da pergunta inicial: como fazem estes trabalhadores para não ficarem loucos, apesar das demandas do trabalho a que se veem confrontados? O enigmático é a “normalidade” em si mesma. Podemos defender um conceito de “normalidade no sofrimento”, em que a normalidade aparece não como o efeito passivo de um condicionamento social, de um conformismo ou de uma interiorização da dominação social, mas como um resultado conquistado na luta contra a desestabilização psíquica provocada pelas demandas do trabalho.

As estratégias defensivas podem contribuir para tornar aceitável o que não deveria sê-lo. Por isso, jogam um papel paradoxal, mas capital, na ordem dos estímulos subjetivos da dominação. As estratégias defensivas, necessárias para a proteção da saúde mental contra os efeitos deletérios do sofrimento, podem funcionar também como uma armadilha que desestabiliza diante daquilo que produz sofrimento. E, às vezes, permitem que seja tolerável não apenas o sofrimento psíquico, mas também o sofrimento ético; entendemos por tal o sofrimento que resulta, não de um mal sofrido pelo sujeito, mas daquele que este pode causar ao cometer, por seu trabalho, atos que normalmente reprova. Com outras palavras, será que fazer o mal, isto é, infligir ao outro um sofrimento indevido, não ocasiona também um sofrimento a quem o faz no marco de seu trabalho e que, para salvaguardar seu equilíbrio psíquico, pode construir defesas contra este sofrimento, não têm incidência sobre as posturas morais singulares e sobre as condutas coletivas no campo político? Até agora, esta pergunta não foi colocada, porque aqueles que se dedicam à teoria sociológica e filosófica da ação são geralmente reticentes a dar um espaço, em suas análises, ao sofrimento subjetivo.

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