Antropoceno: ou mudamos nosso estilo de vida, ou vamos sucumbir. Entrevista especial com Wagner Costa Ribeiro

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29 Fevereiro 2016

“De fato, um desafio importante significa repensar o significado da vida: o que queremos da nossa vida, da nossa organização social? Para que vivemos?”, provoca o geógrafo.

Imagem: www.eltribuno.info

O consumo exagerado, que anseia sempre o novo e descarta com facilidade quaisquer objetos, é o comportamento que tem predominado na sociedade. Com o aumento da capacidade de produção em nome do lucro, a oferta de produtos de toda ordem se amplia cada vez mais e, no sentido oposto, alguns recursos naturais já dão sinais de esgotamento. Essas são algumas das características do tempo em que vivemos e que os estudiosos têm denominado de Antropoceno. Trata-se de uma era em que a capacidade de intervenção da espécie humana no ambiente recebe o foco das atenções.

Conforme ressalta, em entrevista por telefone à IHU On-Line, o geógrafo e professor Wagner Costa Ribeiro, a importância e grande diferença do Antropoceno em relação às eras anteriores é que “pela primeira vez na história geológica da natureza – das eras – se assumiu a espécie humana como principal força motriz de transformação da superfície terrestre, com consequências tanto na biosfera quanto na litosfera e atmosfera”.

As transformações no ambiente se intensificam na medida em que o avanço tecnológico desenvolve, especializa e potencializa o poder dos humanos de manejar os elementos da natureza de acordo com seus interesses. No entanto, a exploração indiscriminada do planeta já apresenta as contas das consequências que começam a ser pagas pelos que vivem o presente, mas serão cobradas com veemência dos que ainda estão por vir se o estilo de vida da sociedade não for repensado.

Para o geógrafo, “esse é um debate de caráter ético que nós devemos começar cada vez mais a aprofundar. Apesar de já se ter começado a falar sobre esse tema, as discussões ainda são muito incipientes. Trata-se da questão do direito geracional, que de algum modo nasceu com a preocupação com a sustentabilidade, que em linhas gerais significa deixar para as gerações futuras as condições atuais do planeta. Aos poucos estamos vendo que será impossível manter esse ritmo intenso de uso de recursos naturais”.

Wagner Costa Ribeiro é graduado em Geografia, mestre e doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor do Departamento de Geografia e dos Programas de Pós-Graduação em Geografia Humana e Ciência Ambiental da USP. Obteve a livre docência também na USP e realizou estudos de pós-doutorado na Universidad de Barcelona – UB, na Espanha. Também coordenou o Grupo de Pesquisa de Ciências Ambientais do Instituto de Estudos Avançados da USP. Entre suas obras, destaca-se A ordem ambiental internacional (São Paulo: Contexto, 2001).

Confira a entrevista.

Foto: www.imagens.usp.br

IHU On-Line - O que as últimas pesquisas que têm sido feitas indicam sobre o Antropoceno? Já se pode afirmar que de fato o mundo entrou mesmo em uma nova época geológica?

Wagner Costa Ribeiro – O primeiro a anunciar e popularizar a ideia do Antropoceno como nova era geológica foi o Prêmio Nobel de Química Paul Crutzen, em 2002. Em 2008, a Sociedade Geológica do Reino Unido, em uma reunião, acabou afirmando a existência do Antropoceno, portanto não há mais controvérsias em relação a estarmos ou não diante de uma nova era geológica. A questão é procurar identificar o que caracterizaria esse novo momento a ponto de merecer um novo rótulo ou título. Já temos algumas características que nos permitem dizer que de fato estamos em outro momento. Agora, o primeiro aspecto a deixar muito claro é que, pela primeira vez na história geológica da natureza – das eras –, se assumiu a espécie humana como principal força motriz de transformação da superfície terrestre, com consequências tanto na biosfera quanto na litosfera e atmosfera.

Se analisarmos do ponto de vista da existência da sociedade, corresponde ao período da modernização, que começa com a Revolução Industrial. Logo, temos em torno de 250 anos nessa nova era geológica, que é marcada por algumas características bastante importantes, e são todas elas características humanas:

- a primeira é o incremento tecnológico importante a partir da máquina a vapor, que faz com que o uso de combustíveis fósseis cresça muito - teremos aí, no primeiro momento, o carvão;

- depois temos a invenção do motor a explosão, inclusive com o uso de outro combustível de matriz fóssil, que é justamente o petróleo.

E o que representa ter máquinas como as que são movidas a vapor ou as que são movidas a partir da queima de combustível, como é o caso do motor a explosão? Nós incrementamos a nossa força motriz, nossa força de transformação da superfície terrestre. Assim, uma tarefa que era feita por muitos homens em muito tempo, passa a ser feita com uma simples máquina, e isso faz com que tenhamos uma capacidade muito maior de transformação da superfície terrestre.

Essa é de fato uma característica fundamental do chamado Antropoceno, ou seja, do ponto de vista das ciências sociais corresponde à modernização e tem grandes implicações na organização social. Assim, após a invenção dos motores, tivemos a reafirmação da sociedade capitalista, e bem mais tarde, na segunda metade do século XX – para alguns é um pouco antes, mas eu prefiro demarcar depois da Segunda Guerra Mundial – tivemos a sociedade de consumo em escala bastante abrangente.

Depois, a partir dos anos 1980 e, principalmente, a partir dos últimos anos, com a saída da pobreza de uma parte expressiva da população de países como Brasil, China e Índia, houve um incremento desse consumo e se passou a ter outra característica importante do Antropoceno: um consumo bastante elevado, que faz com a demanda sobre os recursos naturais aumente drasticamente. Esta é outra característica importante do Antropoceno: o uso intensivo de recursos naturais.

Se analisarmos as reservas de minério de Ferro, por exemplo, e comparar o uso que se tinha até o século XIX com o que se usou no século XX e mesmo agora no XXI é possível perceber que o incremento de consumo desse tipo de material é muito maior. Essa atitude faz com que a superfície terrestre seja muito alterada.

A partir dessas intervenções humanas temos diversas implicações, como as mudanças climáticas, por exemplo, pois grande parte do uso dos combustíveis fósseis acaba liberando carbono e isso se concentra na atmosfera, fazendo com que tenhamos consequências para além da superfície terrestre.

“Não há dúvidas de que temos de mudar nosso estilo de vida

 

IHU On-Line - Quais são os sinais geológicos que indicam que estamos numa nova época e quais são as características centrais desse período?

Wagner Costa Ribeiro – Os sinais geológicos virão das ações dos humanos. Por exemplo, já estão ocorrendo intervenções na superfície marinha. É um dado que devemos ressaltar, porque não se trata apenas da extração de petróleo, como é o caso do Brasil, mas também em alguns países, como Papua-Nova Guiné e Austrália, já teve início a mineração na superfície marinha. Ou seja, além de alterar a superfície terrestre, passaremos a mexer também nas profundezas marinhas, o que pode trazer consequências muito sérias, já que teremos uma alteração drástica do fundo marinho e isso pode afetar, por exemplo, toda a microfauna local, pode liberar gases para atmosfera, que estão armazenados de alguma maneira, assim como pode trazer consequências ainda não muito bem conhecidas.

Portanto, a nossa característica de intervenção, nossa capacidade motriz aumentou muito. O nosso movimento de pinça, que é o primeiro elemento que faz com que tenhamos a capacidade de capturar algo, que era feito simplesmente com o polegar, hoje ganhou uma força motriz infinitamente maior; temos capacidade tecnológica de produzir máquinas que fazem com que esse movimento simples de coletar algo ocorra, por exemplo, no caso do pré-sal, a 7 mil metros a partir do fundo do mar.

Isso mostra que temos uma enorme capacidade de extração, o que é de fato muito preocupante, porque estamos extraindo recursos, muitos dos quais não são reaproveitados e, principalmente, é uma herança de processos naturais que algumas gerações do planeta Terra estão usando sem se preocupar com as gerações futuras. Esse é um debate de caráter ético que nós devemos começar cada vez mais a aprofundar. Apesar de já se ter começado a falar sobre esse tema, as discussões ainda são muito incipientes. Trata-se da questão do direito geracional, que de algum modo nasceu com a preocupação com a sustentabilidade, que em linhas gerais significa deixar para as gerações futuras as condições atuais do planeta. Aos poucos estamos vendo que será impossível manter esse ritmo intenso de uso de recursos naturais.

As mudanças no campo são "um exemplo bastante singelo
do quanto nós incrementamos a nossa capacidade
de alteração do ambiente". Créditos das Imagems:
virtualmuseu.blogspot.com.br e capitaldocampo.com.br.

IHU On-Line - O que distingue o Antropoceno do Holoceno?

Wagner Costa Ribeiro – O que distingue de fato é a ação humana como a principal força motriz de transformação da superfície terrestre, inclusive com implicações na atmosfera e na biosfera. Há 10 mil anos, no final da primeira Revolução Agrícola, nossa capacidade de revolver a terra estava baseada no arado, então era muito menor. Hoje nós temos, por exemplo, máquinas agrícolas que não só revolvem a terra, mas que também plantam; e outras que além de cultivar, praticamente embalam o produto.

As diferenças ficam claras se fizermos uma comparação entre um arado puxado por um homem ou eventualmente um animal e uma máquina dessas, que tem até oito palhetas funcionando ao mesmo tempo, com apenas um operário dando conta de uma vasta área. Esse parece um exemplo bastante singelo, mas muito claro, do quanto nós incrementamos a nossa capacidade de alteração do ambiente e isso está associado ao processo de modernização tecnológica; portanto, antes de mais nada, é um processo histórico. A grande diferença do Antropoceno é admitir a espécie humana, portanto admitir a história, a sociedade como a força motriz de processos de alteração da natureza em larga escala.

IHU On-Line - Na prática, alguma mudança no nosso estilo de vida é necessária pelo fato de estarmos entrando nessa nova era?

Wagner Costa Ribeiro – Essa é questão central. Não há dúvidas de que temos de mudar nosso estilo de vida. O planeta terra é finito, ele tem uma certa capacidade de fornecer elementos naturais, e se tivermos cada vez mais demanda sobre essa mesma base, ou seja, se temos um volume de minério de ferro, determinado volume de bauxita, de petróleo, de água e de fontes energéticas, é evidente que se aumentar a pressão sobre essa quantidade, que é fixa, nós teremos conflito.

Então, não por acaso, organismos multilaterais, como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, criaram órgãos para discutir conflitos ambientais. De fato, temos que mudar o estilo de vida, porque esse modelo de crescimento da produção sem limites não pode continuar, é um engano, é uma ilusão achar que continuaremos produzindo sem limitações. Ações como reciclagem e reaproveitamento de materiais não são mais um modismo ecológico, passam a ser uma necessidade para a própria manutenção de produção da sociedade de consumo contemporânea.

Nos últimos tempos, todos nós que trabalhamos com as questões socioambientais há muitos anos ganhamos um aliado muito importante, eu diria até inesperado, que foi o Papa Francisco. O Papa, com sua Encíclica [Carta Encíclica Laudato Si' do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum], lançada no ano passado, de maneira bastante contundente e com uma penetração maior do que muitos pesquisadores, deixou claro que nós teremos de alterar, sim, o nosso estilo de vida.

Não é possível manter essa sociedade pouco inteligente, que faz um enorme esforço científico e tecnológico para gerar um objeto, e, poucos meses depois - quando muito um ano depois - o descarta sem a menor necessidade, para fazer com que as pessoas comprem um novo. É o que ocorre, por exemplo, com aparelhos de telefone celular, computadores, tablets e outros eletrônicos; nesses casos, o apelo da inovação é utilizado para fomentar a venda, a qual, se verificarmos na essência, apresenta uma diferença pouco expressiva, mas reforça a ideia de que sempre se deve buscar algo novo, que de fato nem é tão novo.

Então, esse é de fato um desafio importante e que significa repensar o significado da vida: o que queremos da nossa vida, da nossa organização social? Para que vivemos? Algumas pessoas, infelizmente, vivem para ter, para consumir, para comprar, e isso efetivamente não satisfaz. Já há vários trabalhos de psicologia de massa acerca do consumo que mostram que determinado nível de consumo e de renda faz com que as pessoas não tenham mais no consumo em si uma forma de realização pessoal, sendo preciso buscar outros elementos, e aí as escolhas são as mais diversas. Não entrarei nesse campo, mas há quem vá para o campo das drogas, da violência, ou então da religião, dos esportes radicais etc.

Há uma busca de sentido para a vida, porque a sociedade do consumo efetivamente é muito ingrata, pois gera sempre a frustração. Por exemplo, você acabou de comprar um aparelho ou instrumento tecnológico que deseja e pouco tempo depois você se sente frustrado porque o mesmo fabricante que vendeu aquilo diz: “agora isso não vale mais, o que vale é esse novo”. E essa frustração permanente tem gerado muita inquietação, muito mercado de trabalho para o pessoal da saúde mental. Não por acaso, a área da saúde mental cresce e as doenças mentais crescem em escala muito preocupante, por isso essa frustração permanente deve ser cessada. É preciso, portanto, reorganizar a vida, pensá-la a partir do que significa estar vivo no planeta Terra e do que podemos usufruir, não apenas da base material.

Isso não significa, evidentemente, abandonar a base material. Ninguém está dizendo que não é mais para ter computador, nem telefone celular, mas talvez não seja necessário trocar de aparelhos celulares e computadores a cada seis meses, como ocorre em alguns lugares do mundo, em especial nas camadas mais abastadas.

IHU On-Line - Algumas notícias informam que um dado em aberto entre os pesquisadores que estudam o Antropoceno é definir qual é a data formal do seu início. Como está essa discussão e qual data indica melhor o início dessa nova era geológica?

Wagner Costa Ribeiro – Essa discussão é polêmica. Eu diria que a Revolução Industrial é o grande marco e corresponde ao que na história se chama de processo de modernização. Acredito que a Revolução Industrial é o grande marco, que é quando passamos a ter uma força motriz bastante ampliada; ou seja, como já disse anteriormente, foi desenvolvida a máquina a vapor e depois incrementada ainda mais por uma máquina com motor a explosão, com uma capacidade de produção e de extração de recursos naturais bastante ampliada.

Então, esse é realmente o grande marco, mas é um marco das ciências da sociedade e, muitas vezes, os colegas das ciências da natureza não são muito sensíveis a esse tipo de argumento. Não são todos os pesquisadores, evidentemente, mas eu diria que alguns ainda não são sensíveis e têm alguma dificuldade em assimilar essa ideia. Mas parece razoável esse pensamento se tivermos em conta que o Antropoceno é marcado pela ação humana em larga escala, e isso começou com a Revolução Industrial.

Portanto, se fosse para marcar um ponto, apesar de que acho isso pouco útil na história – confesso a você, pois não vejo necessidade em precisar -, mas eu diria que a partir da Revolução Industrial nós tivemos de fato uma aceleração muito intensa dessa transformação da superfície terrestre.

“O Antropoceno é marcado pela ação humana em larga escala, que começa com a Revolução Industrial

IHU On-Line - A discussão sobre mudanças climáticas tem algum peso nessa nova era geológica?

Wagner Costa Ribeiro – Essa é outra questão extremamente importante, que tem algumas interpretações possíveis: uma interpretação apresenta o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima], que, ao contrário do que alguns dizem, estaria mostrando dados que não apresentam claramente a gravidade das mudanças climáticas. Então é uma crítica ao IPCC, que, segundo esse grupo, não estaria apresentando claramente a gravidade das mudanças climáticas e estaria, de alguma maneira, atenuando um pouco os problemas.

A outra posição é minoritária e critica o IPCC dizendo que não há mudança climática e nem aquecimento global. Já a visão do IPCC diz que temos de controlar o aquecimento em até 2 graus Celsius, que é bastante conhecida. Nesse debate, destas três visões, posso dizer que nós temos cada vez mais evidências de que as condições climáticas do planeta, pelos menos na escala local, estão mudando bastante.

Eu posso falar um pouco da cidade onde moro, São Paulo. Já tenho 53 anos e São Paulo não é mais a terra da garoa de quando eu tinha entre oito e dez anos de idade. Houve uma mudança no microclima, mas isso tem a ver com mudança climática? Necessariamente, não. Nós tivemos um processo de intensificação da urbanização e não só em São Paulo, mas também em várias outras metrópoles no mundo, fazendo com que as condições locais tenham uma alteração bastante expressiva. Portanto é uma característica do Antropoceno, ou seja, nós mudamos a superfície terrestre de maneira radical.

Aquela massa de ar frio que chegava tinha um ambiente florestado, mas muitas vezes ela não encontra mais essas condições e segue por uma superfície mais aquecida, tendo uma precipitação muito mais intensa. Com isso é possível explicar por que São Paulo não é mais a terra da garoa. Mas como se explica a seca que tivemos agora? Aí não é mais a escala local, temos que pensar processos de ordem mais ampla.

É a mesma coisa que estamos vendo junto a Manaus, no município de Presidente Figueiredo, com uma seca bem aguda. Ou seja, acontecem fenômenos extremos com maior recorrência, e isso, segundo o próprio IPCC e vários pesquisadores que se dedicam a analisar a mudança climática, seria de fato uma indicação de que na escala mais ampla, para além da escala local, nós estamos já vivendo processos que têm relação com essa maior presença dos gases de efeito estufa na atmosfera.

Então, o que eu estou dizendo é que ainda é precoce afirmar que estes eventos extremos são decorrência do aquecimento global, mas não é precoce dizer que eles estão confirmando algumas projeções que o IPCC vem fazendo desde os anos 1980 do século passado. Nesse caso, acredito que surja um princípio muito importante que, aliás, está na própria Convenção da Mudança Climática, que é de 1992. Lá já está claro o princípio da precaução. O que é este princípio? Na dúvida, enquanto não houver a certeza científica, é preciso tomar ações de precaução para evitar o acirramento de um problema, e isso devemos ter em mente quando falamos de mudança climática: nós não temos certeza, mas se as previsões se confirmarem, as perspectivas são muito difíceis.

Diante disso, já que não conseguimos controlar a emissão da energia solar, já que não conseguimos controlar a emissão de gases de efeito estufa de um vulcão – alguns pesquisadores defendem que o vulcão emite muito mais gases que toda a espécie humana -, temos que controlar a nossa parte, que implica, justamente, em restringir o uso de combustíveis fósseis, mudar práticas agrícolas etc. É nesse ponto que estamos.

Acabamos de assistir a uma reunião em Paris, agora em dezembro, onde os avanços finalmente apareceram. Nas críticas, alguns dizem que o acordo firmado no encontro é insuficiente e outros dizem que foi o pacto possível. Eu, que trabalho com esses assuntos há alguns anos, fiquei satisfeito com o que foi acordado em Paris e entendo que estamos em um processo de negociação, um processo difícil e penoso que implica em mudança do estilo de vida. Aí voltamos à pergunta que você me fez antes: a mudança climática vai necessariamente impor mudança no estilo de vida, inclusive modificações naquilo que a espécie humana construiu.

Nós teremos que ter ajustes importantes, por exemplo, em cidades costeiras, e pouco disso tem sido debatido e discutido, especialmente no Brasil. Em alguns países, já há estudos profundos mostrando o que fazer em caso de elevação do mar a 20, 50 ou 100 centímetros, por exemplo, baseado em modelos e estudos da costa. Estou falando de casos como a Espanha e outros países mais centrais. Nós temos de fato a mudança climática ainda como uma incerteza, mas com indícios cada vez mais claros de que aquilo que se previa está ocorrendo.

Assim, é preciso tomar ações agora. No caso brasileiro há um agravante, pois temos um histórico social de desigualdade muito aguda, que faz com que muitas pessoas estejam em situação de vulnerabilidade e isso pode ser agravado ainda mais pela mudança climática. Portanto, temos de saldar a dívida social e ao mesmo tempo fazer uma ação de adaptação para a mudança climática.

Essa pode ser uma excelente oportunidade para movimentar o país e nos colocar na direção da geração de emprego e da saída dessa crise conjuntural, apostando, por exemplo, na criação de saneamento básico, habitação de interesse social, revitalização de centros urbanos com moradia social. Enfim, poderíamos gerar muito emprego e muita atividade econômica pensando em oferecer, por exemplo, moradia de menor risco para a população carente do país e, dessa forma, faríamos também uma ação de adaptação, construindo casas mais resistentes às intempéries que podem vir a ocorrer, em se confirmando as mudanças climáticas.

IHU On-Line - Já é possível estimar que mudanças geológicas podem ocorrer futuramente por conta do Antropoceno?

Wagner Costa Ribeiro – Já estão ocorrendo. Se analisarmos, por exemplo, algumas intervenções que ocorrem junto à área costeira, alguns portos alteram toda a dinâmica da geomorfologia costeira. Usarei como exemplo um caso concreto: a praia de Iracema, em Fortaleza - capital do Ceará e uma das principais metrópoles do Nordeste brasileiro –, que sofreu sérias consequências com a construção do Porto de Pecém. Então, temos sim consequências hoje, que não são mais surpreendentes e são muito imediatas.

Outro exemplo: Quantas avenidas de fundo de vale foram construídas no Brasil? O que representa fazer uma avenida de fundo de vale? Haverá uma aceleração da chegada da água no fundo do vale e a consequência é o alagamento. Esse fenômeno tem uma consequência geológica, porque o material será transportado com mais velocidade; mas tem também uma explicação humana, porque nós somos a causa e muitas quem sofre as consequências não é quem causa o problema, mas, infelizmente, quem está vivendo junto à área de alagamento.

Dessa forma, já temos sim elementos dessas consequências. Por exemplo, se pensarmos na quantidade de lagos artificiais que já foram construídos na superfície terrestre, se pensarmos no volume do material que foi retirado para fazer terraplanagem para a construção de estradas, temos uma série de variáveis que mostram que alteramos bastante a superfície terrestre, afetando a dinâmica geológica. Porque a geologia não é só o estudo das rochas, abarca uma série de dinâmicas, como o processo de sedimentação e o transporte de material, que estão sendo bastante afetadas.

“Temos de saldar a dívida social e ao mesmo tempo fazer uma ação de adaptação para a mudança climática

 

IHU On-Line - Que tipo de “pegada, marca geológica” imagina que o homem “pós-antropoceno” deixa na Terra?

Wagner Costa Ribeiro – Nós deixaremos um aglomerado de material, que será muito rico para os arqueólogos do futuro, porque nós não estamos tendo o cuidado de separar elementos que a natureza criou separadamente. Darei um exemplo muito simples: muitas peças do vestuário hoje são altamente complexas, combinando algodão com tecido originário de petróleo e adicionando metais; é só analisarmos qualquer calça jeans com acessórios ou nylon com alguns enxertos de metal. A combinação de elementos de fabricação de utensílios já existia no passado, mas eram apenas elementos naturais. O novo agora é justamente acrescentar esse material a outros com origem do petróleo, tornando-se mais difícil separá-los depois.

Se observarmos as edificações, a situação não é diferente. Nós introduzimos dentro de paredes dutos metálicos para transportar energia, dutos de plástico para proteger os dutos metálicos que transportam energia, enfim, vamos sofisticando os ambientes, misturando materiais. Portanto, essa é uma característica nossa, porque nós misturamos, mas não nos preocupamos depois em separar novamente, até para reaproveitamento.

Dessa forma, a pegada que deixaremos será um grande aglomerado de materiais misturados, ou seja, estamos misturando aquilo que natureza levou anos para deixar organizado, separado. Estamos nos apropriando disso e embaralhando esse material, e isso terá consequências: umas delas é a de que acabaremos com os elementos naturais, e outra poderá ser de que, no futuro, se quiser se reaproveitar esse material, haverá um enorme trabalho para começar a juntar um pouquinho do minério de ferro que está em cada peça, um pouquinho de bauxita que está em outras peças etc.

Isso já está ocorrendo, visto que alguns países já começaram hoje a fazer prospecção em antigos lixões para buscar material de qualidade. Portanto, talvez já tenhamos alguma indicação de que é preciso utilizar de outra maneira essa oferta que a natureza nos deixou como herança. Ninguém garante que somos os únicos usuários desse estoque de material que a natureza nos deixou, por isso temos de pensar que quem está por vir também tem o direito de usar esse material.

Por Patricia Fachin e Leslie Chaves