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Cortes profundos nas emissões de gases são para já

"Estamos caminhando para bater no iceberg". A frase contundente da engenheira brasileira Suzana Kahn, vice-presidente do Grupo III do IPCC, o painel científico das Nações Unidas, resume uma das mensagens-chave do sumário para formuladores de políticas públicas divulgado ontem, em Berlim, sobre mitigação da mudança do clima.

A reportagem é de Daniela Chiaretti, publicada pelo jornal Valor, 14-04-2014.

Se o mundo quiser conter o aumento da temperatura em 2º C e evitar desastres maiores, terá que reverter já a tendência atual de aumento nas emissões de gases-estufa, diz o texto. Nunca se emitiu tanto quanto na última década. A boa notícia é que há margem para mudar a situação, desde que cortes vigorosos de emissões sejam decididos e adotados agora. Os caminhos passam por triplicar o uso de energias renováveis, deixar de queimar combustíveis fósseis e controlar o consumo exacerbado. "O Brasil deve estar atento a estes sinais", diz a professora da Coppe/UFRJ.

O sumário tem 33 páginas e resume o relatório científico de 16 capítulos produzido pelo IPCC. Foi debatido, palavra a palavra, por representantes de governos reunidos na Alemanha. Será usado nas negociações do novo acordo climático a ser assinado na França, em 2015.

Eis a entrevista.

Qual é a principal mensagem do sumário?

Que um corte profundo nas emissões é absolutamente necessário e urgente para que se atinja a meta de limitar o aumento de temperatura a 2º C até 2100. Isto requer a adoção de políticas de mitigação, novas tecnologias e mudança no padrão de consumo e comportamento.

É possível ainda chegar a 2º C?

Sim, desde que se tomem medidas drásticas já. Não dá para atrasar, esperar até 2020. Primeiro porque há a inércia do sistema climático, os gases ficam na atmosfera muito tempo. Tem que se começar imediatamente, não dá para esperar as negociações internacionais porque se reduzem muito as opções viáveis de mitigação. Esta é uma mensagem-chave: tem que começar agora. São esforços que implicam mudanças fundamentais, estruturais, em instituições e governança. Estamos no caminho oposto ao que deveríamos. E há as incertezas climáticas.

O que quer dizer?

Se continuarmos a emitir muito podemos ter um aquecimento de mais de 5º C e não se sabe como o sistema climático irá responder. Se quisermos tentar segurar em 2º C há que haver cortes muito fortes de emissão e mudanças fundamentais no uso de energia e no uso da terra. Exigem uma redução de emissão de 40% a 70% em 2050 em relação a 2010. E triplicar a participação de renováveis na matriz. Renováveis, nuclear, bioenergia e combustíveis fósseis com CCS - a tecnologia para sequestrar a emissão da queima de combustíveis.

O IPCC alerta que estamos em zona de perigo.

Estamos caminhando para bater no iceberg. E promessas de corte de emissão obtidas até agora nas conferências de clima não são suficientes, mesmo se cumpridas à risca.

Há uma recomendação para nuclear?

O IPCC não sugere nada, é um painel científico que mostra o estado da arte da ciência. Quem decide são os países. Ficou claro que o etanol de cana é exemplo de sucesso. Mas o sumário ressalta cuidados que devem ser tomados quando se trata desta opção, pois há o risco de afetar a segurança alimentar e a biodiversidade. Ressaltar os riscos foi a mesma estratégia adotada ao se falar de nuclear.

O que importa ao Brasil?

Espera-se uma mudança mundial no padrão de investimento no setor de energia. O Brasil deveria estar atento a estes sinais. Nas próximas duas décadas, o investimento anual em tecnologias de geração de energia com fósseis pode cair US$ 30 bilhões. Por outro lado, investimentos anuais na geração com baixo carbono - renováveis, nuclear e fóssil com CCS - devem aumentar US$ 147 bilhões. Isto não inclui investimentos para eficiência energética, que podem crescer US$ 336 bilhões. Ou seja, mercados de eficiência energética e renováveis tendem a aquecer. Para se ter uma ideia, o valor de investimentos anuais, no mundo, em energia, é de US$ 1,2 trilhão.

O que é mais eficaz?

O relatório apresenta caminhos de mitigação, de longo prazo, e tem um viés muito econômico. Mostra que a alternativa mais eficaz é a descarbonização da energia, ou seja reduzir a intensidade de carbono em cada MWh gerado. Migrar do carvão para gás natural já é um avanço, mas o mundo tem ido na direção contrária, aumentando a participação do carvão. O Brasil tem um potencial ainda não explorado de uso do bagaço de cana, resíduos, solar e eólica.

Quais são as tendências das emissões?

De um aumento muito forte no futuro puxado pelo aumento da população e crescimento econômico atrelado ao aumento no uso de combustíveis fósseis. Isso foi muito debatido porque pode existir crescimento econômico sem estar vinculado a uma base intensiva de carbono.

Como?

Depende do modelo de desenvolvimento adotado. Pode ser um caminho para a economia verde com indústrias de baixo carbono. Um dos pontos da Rio+20 era como descolar o crescimento das emissões. Pode-se ter mais eficiência com atividades que gerem renda, emprego, crescimento e bem-estar.

A crise econômica reduziu emissões?

Apenas temporariamente, entre 2007 e 2008. Estão crescendo muito. A última década foi a que mais emitiu em relação às últimas três. As emissões, entre 2000 e 2010, cresceram 2,2% ao ano. Entre 1970 e 2000 o ritmo médio foi de 1,3% ao ano.

O vilão são os combustíveis fósseis?

A queima de combustível fóssil está provocando este crescimento; 80% se deve a fósseis e não mais ao uso da terra. Países árabes e Venezuela falaram muito que o vilão não é o combustível, mas a demanda por ele. É o consumo o problema.

Quais são estes volumes?

Em 2010 foram emitidas 32 Gt de CO2 relacionadas a combustíveis fósseis, alta de 2,7%. De 2010 para 2011, foram mais 3% e entre 1% a 2% entre 2011 e 2012. Mais da metade das emissões, desde a época pré-industrial, ocorreram nos últimos 40 anos.

O que se falou sobre consumo?

Há um alerta sobre o consumo excessivo e um novo critério que mostra as emissões por padrão de consumo. Normalmente esta divisão é feita por país ou per capita. Mas, o que acontece é que, muitas vezes um determinado país consome mas é outro que produz e emite, caso da China. A emissão está sendo atribuída a um país que não está consumindo aquilo.

Isso acontece no Brasil?

Sim. No Rio se produz aço e cimento que são exportados ou vão para o mercado interno. É justo que essas emissões fiquem com o Rio se ele está produzindo pelo país como um todo?

Esta foi a briga em Berlim, não?

Foi uma grande discussão, mas saiu do texto final do sumário, embora o relatório continue com esta abordagem de países reunidos por grupos de alta, média ou baixa renda, segundo o critério do Banco Mundial. Nestes caso, a responsabilidade pelas emissões é pela renda. É uma forma mais interessante de classificar os países, mesmo com a grande transitoriedade. Nos últimos anos, 15 países mudaram de classificação. Em países com muita desigualdade, como no Brasil, isto é complicado.

Por que?

Em países muito desiguais esta questão fica mascarada. Há no Brasil uma classe média com padrão de vida de americano, mas por conta da desigualdade temos ainda uma população muito pobre. É difícil em um país grande como o nosso se adotar um critério justo. A injustiça está na nossa estrutura social.

Quais são os grandes vetores de emissões?

A população aumentando, mas o que pressiona mesmo são os combustíveis fósseis associados ao grande consumo.

Há um debate sobre ativos de carbono?

Sim. Se para resolver o problema tem que se reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis, os países que vivem do petróleo dizem que isto é desvalorizar seus ativos. Dizem que são vulneráveis.

E a retirada dos subsídios aos fósseis?

Ainda não existem muitos estudos que quantifiquem o quanto é possível reduzir emissões com isso. A questão provocou muito debate. Os países árabes alegam que subsídios para outros setores, como agricultura, também dificultam a redução das emissões.

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