A expansão da floresta industrial no Rio Grande do Sul. Entrevista especial com Patrícia Binkowski

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01 Junho 2015

“Uma das promessas das empresas florestais ao instalarem seus empreendimentos madeireiros foi a geração de vagas de emprego para os municípios da região florestal. No entanto, o que se constata em Encruzilhada do Sul, RS, é a diminuição das vagas de emprego”, informa a engenheira agrônoma.

Foto: ciflorestas.com.br
Uma análise comparativa do plantio de eucalipto, pinus e acácia no Rio Grande do Sul, considerando a extensão de terra plantada nos anos 1980 e, posteriormente, nos anos 2000, mostra que houve uma ampliação da silvicultura no estado a partir de 2003, diz Patrícia Binkowski em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail.

Autora da tese “Dinâmicas Socioambientais e Disputas Territoriais em torno dos Empreendimentos Florestais no Sul do Rio Grande do Sul”, Patrícia tem investigado as causas de o Rio Grande do Sul ter se tornado uma das “bases florestais” para o plantio de eucalipto no país e as implicações que esse tipo de plantio tem gerado em termos ambientais e sociais. De acordo com ela, no município de Encruzilhada do Sul, que tradicionalmente é conhecido como o “berço dos empreendimentos florestais”, o setor madeireiro-celulósico tem substituído atividades econômicas típicas da região. “Para a população local, principalmente aquela que vive na zona rural onde os plantios de ‘mato’ são realizados, o que preocupa é o risco de que eles percam sua ‘identidade’ e que ‘desapareçam’ com o avanço da silvicultura. (...) Neste processo de substituição do ‘antigo’ pelo ‘novo’, observou-se o aumento do êxodo rural, tendo muitos agricultores/produtores optado por vender a terra, não aderindo assim aos plantios de ‘mato’”, informa a engenheira agrônoma.

Segundo ela, embora se conheçam os impactos da silvicultura, a “aceitação da atividade se dá em virtude de ela ser uma oportunidade econômica, ou seja, se conhecem os impactos (os próprios interlocutores enumeram as transformações no território) e mesmo assim ela é ‘aceita’”. Patrícia Binkowski enfatiza ainda que os conflitos ambientais existem, mas a visibilidade deles “é dependente do rumo das negociações sociopolíticas entre os agentes sociais envolvidos”.

Patrícia Binkowski é professora Adjunta de Desenvolvimento Rural nos cursos de graduação em Gestão Ambiental e Administração Rural e Agroindústria na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - UERGS, na unidade de São Francisco de Paula - RS. É Engenheira Agrônoma pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, mestre em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PGDR/UFRGS e doutora em Desenvolvimento Rural pelo PGDR/UFRGS.

Confira a entrevista.

Fonte: Portal Ufrgs
IHU On-Line - Quais são os empreendimentos florestais que mais disputam territórios para a realização de seus negócios no Rio Grande do Sul?

Patrícia Binkowski - Bom, de certa forma, quase todas as regiões do RS apresentam atividades e empreendimentos florestais ou de silvicultura, focados, especialmente, na produção de árvores exóticas comerciais como pinus, acácia e eucalipto. De forma representativa e em termos de produção florestal industrial, as regiões fisiográficas conhecidas como “Campos de Cima da Serra”, “Encosta Inferior do Nordeste” e “Litoral” abarcariam as plantações de pinus e acácia. As regiões fisiográficas da “Depressão Central”, “Serra do Sudeste”, “Campanha” e “Encosta do Sudeste” teriam maior representatividade na produção de eucalipto e acácia. Estas últimas e parte da região “Litoral” comporiam a região denominada de “Metade Sul”. Esta divisão se baseia nos dados de produção florestal industrial no Rio Grande do Sul, que estão disponíveis no sítio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 2012. No entanto, vale ressaltar que isso não significa que não se produzam outras espécies florestais no estado, porém aqui foram analisadas apenas estas três espécies comerciais florestais (pinus, acácia e eucalipto).

A silvicultura realizada a partir de eucalipto, pinus e acácia apresenta uma geografia peculiar no mapa do RS. Se tomarmos como base a década de 1980, os plantios estariam alocados desta forma: eucalipto principalmente na região metropolitana de Porto Alegre, pinus nos Campos de Cima da Serra e acácia na região do Vale do Taquari. No entanto, se tomarmos como parâmetro os dados dos anos 2000, teríamos a expansão destes plantios alastrando-se cada vez mais para a Depressão Central e Serra do Sudeste.

IHU On-Line - Como se dá essa disputa pelos territórios no estado? Quais são as áreas mais visadas e por quê?

Patrícia Binkowski - A expansão na área da silvicultura, principalmente no caso do eucalipto, se dá em meados de 2003 no RS e se deve, sobretudo, à expansão do mercado brasileiro na busca por novas áreas de produção. A conjuntura socioeconômica e política favorável aliada às características edafoclimáticas favoráveis no Rio Grande do Sul fazia do estado (ou, mais especificamente, da Metade Sul) um ambiente propício à alocação dos empreendimentos madeireiro-celulósicos. Segundo dados do Centro de Agronegócios - CENAG (2006), sobre a ocupação de área dos estabelecimentos por diferentes formas de exploração agrícola na Metade Sul do RS, a expansão da silvicultura se deu pelo seguinte contexto:

a) cenário sociopolítico favorável – com políticas públicas voltadas ao incentivo do setor florestal e o desenvolvimento regional para a Metade Sul;

b) em termos econômicos – o baixo custo das terras, baixo custo de implantação e manutenção dos cultivos e mão de obra abundante e barata;

c) localização estratégica – a Metade Sul do RS possui localização geográfica privilegiada, equidistante de São Paulo e de Buenos Aires, os dois principais mercados da América do Sul. Conta com extensa área retroportuária, malha de transporte terrestre e uma rede ferroviária que une o centro e oeste do estado ao Porto de Rio Grande;

d) condições de clima e solo – a precipitação é uniformemente distribuída ao longo do ano e as temperaturas são amenas, propiciando um crescimento vegetativo ininterrupto do eucalipto com corte raso para celulose aos sete anos e corte para toras com 12 anos.

Com base nesses fatores é que o estado foi escolhido por algumas empresas nacionais e transnacionais para a implantação de sua base florestal com eucalipto. Com a decisão das empresas de localizar os empreendimentos florestais no RS, o governador na época – Germano Rigotto – implantou em 2004 o “Programa Floresta-Indústria”, política pública de incentivo às atividades florestais, que previa uma triangulação de responsabilidades entre governo do Estado, empresas florestais e sociedade civil.

"Os riscos iminentes da atividade de silvicultura no município seriam em relação à fauna e à flora local, à transformação da paisagem e à substituição das atividades econômicas típicas da região"

 

 

 

Mesmo cientes das críticas que o setor florestal recebia, tanto o Estado quanto as empresas prosseguiram com seus planos de negócios no RS. E assim as empresas florestais estabeleceram seus plantios na Metade Sul, aproveitando-se das vantagens político-econômica-ambiental da região. Entre as empresas estavam a Votorantim Celulose e Papel - VCP e a Stora Enso, estreantes no cenário gaúcho, e a Aracruz Celulose S.A., instalada no município de Guaíba, que a partir da nova política florestal do governo do estado visava expandir ainda mais sua produção. Obviamente que existiam à época outras empresas do setor florestal instaladas no RS, porém aqui estou considerando apenas as empresas que desenvolvem exclusivamente a silvicultura de eucalipto e o montante de investimentos realizados por elas naquela época no estado.

De 2004 para cá ocorreram mudanças empresariais consideráveis nos negócios florestais destas empresas aqui no estado, por exemplo:

a) em 2009, a fusão da Aracruz com a Votorantim Celulose e Papel, originando a Fibria;

b) ao final de 2009 houve a compra da fábrica de celulose da Fibria (Guaíba/RS) pela chilena CMPC - Compañía Manufacturera de Papeles y Cartones (empresa de capital chileno), originando a Celulose Riograndense;

c) e a desistência da Fibria e da Stora Enso de construírem suas fábricas de celulose no estado.

A partir dos investimentos realizados por estas empresas e com as mudanças empresariais sofridas ao longo destes últimos anos, o mapa da localização dos empreendimentos de eucalipto (celulose) no Rio Grande do Sul poderia ser visualizado da seguinte forma: 

Mapa com a localização dos plantios de eucalipto por empresa florestal.
Fonte: BINKOWSKI (2014)

A partir disso o contexto atual das três empresas que mais investiram na expansão da silvicultura no estado é:

a) a Aracruz Celulose S.A., hoje Celulose Riograndense, permanece investindo em plantios na região da Depressão Central e Serra do Sudeste e em 2015 inaugura a ampliação da fábrica de celulose no município de Guaíba;

b) a antiga VCP, hoje Fibria, permaneceu com as áreas de plantios na Serra do Sudeste e Encosta do Sudeste, já está “colhendo os frutos” do negócio florestal nestas áreas; porém, os investimentos em novas áreas estão tímidos; a empresa estaria investindo em outros estados como, por exemplo, o Mato Grosso do Sul; e

c) a empresa Stora Enso permaneceu com os plantios em município da região da Campanha; algumas áreas já estão em fase de colheita, porém não está mais investindo na compra de terras no estado, já que passou a investir em terras uruguaias.

IHU On-Line - É possível estimar qual é o percentual de eucalipto, acácia e pinus plantados no Rio Grande do Sul, com destinação à produção de madeira e celulose?

Patrícia Binkowski – Olha, este dado foi realmente muito difícil de obter nesses anos de pesquisa, pois cada entidade divulgava estimativas distintas. Nos anos em que fiz meu trabalho (2010 a 2014) não consegui obter nenhum dado oficial por parte de órgãos do governo. Então recorri a entidades como Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul - FIERGS e Associação Gaúcha de Empresas Florestais - AGEFLOR, mas estes também não disponibilizavam estes dados. Só em 2014 obtive um dado que posso considerar bem representativo do percentual de eucalipto, acácia e pinus plantados no Rio Grande do Sul.

A publicação “Forestación, territorio y ambiente: 25 años de silvicultura transnacional en Uruguay, Brasil y Argentina”, cujo autor é o pesquisador francês Pierre Gautreau, da Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne, de Paris, que fala sobre a expansão da silvicultura no Sul da América do Sul. Por meio de imagens de satélite cedidas pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler - FEPAM/RS é que o pesquisador conseguiu estimar as áreas destes plantios no estado. Conforme Gautreau (2014), as três empresas, Celulose Riograndense, Stora Enso e Fibria, concentram 30% do total plantado com monocultivos de árvores no estado, em torno de 178 mil hectares sobre os 592 mil hectares estimados. O mesmo pesquisador estimou que em 2014 o total de plantios giraria em torno de 640 mil hectares.

Portanto, o que se observa a partir da figura anterior (mapa) é que as três empresas – Celulose Riograndense, Stora Enso e Fibria – se estabeleceram geográfica e estrategicamente, instalando suas plantações em regiões do estado onde não houvesse disputa pela compra de terras, pois isso poderia acarretar o aumento do valor pago por hectare.

"O que se manifesta é uma “lógica empresarial florestal”, onde tais empresas desenvolvem suas atividades econômicas e lidam com os impactos no entorno, na medida em que ocorram"

IHU On-Line - Que outros empreendimentos poderiam ser desenvolvidos nesses territórios? Há algum tipo de empreendimento que poderia ser ambientalmente correto e que traria ganhos para a população local?

Patrícia Binkowski - Já existem no território outros empreendimentos alternativos à silvicultura, como, por exemplo, a produção vinícola e de olivas. Empresas como Vinícola Salton, Casa Valduga e Lídio Carraro instalaram parreirais em Encruzilhada do Sul, por constatarem que o clima da região é propício para a produção de certas variedades de uva. Além disso, existe uma gama de pequenas propriedades que está produzindo frutas como pêssego, melancia e maçã para empresas de grande porte. A política do município tem sido a de incentivar novos sistemas de produção para a geração de renda e de vagas de trabalho.

Outra dinâmica observada no município é que algumas áreas de pecuária e de silvicultura estão sendo substituídas por outra commoditie que é a soja. No entanto, a grande crítica que se faz nessa situação é a de substituir “seis por meia dúzia”, ou seja, um monocultivo de árvores por outro monocultivo de soja, e que sem cuidados adequados de manejo o efeito pode ser desastroso, seja social, econômica e/ou ambientalmente.

No município, alguns moradores comentam que a pecuária deveria ser incentivada por parte do governo, retomando e fortalecendo esta que é uma atividade tão tradicional na região. Enfim, o que parece estar em jogo, a meu ver, é a necessidade de elaboração e aplicação de políticas de desenvolvimento rural e urbano que sejam eficazes e eficientes para este território.

IHU On-Line - De que modo esses empreendimentos têm implicado em mudanças tanto nas práticas sociais quanto no meio natural dos espaços urbano e rural no Rio Grande do Sul?

Patrícia Binkowski - Alguns autores com quem dialoguei na elaboração da minha tese (ACSELRAD, 2004; 2007; ZHOURI; OLIVEIRA, 2005; ZHOURI; LASCHEFSKI, 2010) têm averiguado que grande parte dos espaços rurais tem sido impactada por dinâmicas sociais e ambientais estabelecidas a partir de disputas entre agentes sociais “do campo”, empresas capitalistas e Estado. Sem dúvida que na centralidade destas questões está a luta pela consolidação de grandes projetos de desenvolvimento e diferentes noções sobre o que é desenvolvimento. O que se tem observado, portanto, são disputas entre agentes que representam o crescimento econômico (e hegemônico!) e a ideia de estabelecer relações menos impactantes entre sociedade e natureza em determinados territórios.

No entanto, a pergunta que você me faz é quais seriam as possíveis transformações socioambientais provocadas por estes empreendimentos de produção de madeira e celulose no RS? Meu trabalho de pesquisa foi realizado em Encruzilhada do Sul, tradicional berço dos empreendimentos florestais, onde, por exemplo, a empresa Celulose Riograndense tem mais de 20 mil hectares de áreas próprias plantadas com eucalipto. É nesse território que os empreendimentos madeireiro-celulósicos têm exercido influência direta nas dinâmicas socioambientais na medida em que contribuem para mudanças importantes nas atividades econômico-produtivas, na paisagem rural e nas relações sociais no espaço rural e urbano do município. Resumidamente comento algumas destas principais mudanças averiguadas no contexto de Encruzilhada do Sul.

Em termos de estratégias territoriais, as empresas florestais de grande porte e que plantam eucalipto, como a Celulose Riograndense (antiga Aracruz), por exemplo, no início dos anos 2000 passou a comprar grandes extensões de terras (antigas fazendas ou estâncias) para realizar os plantios de eucalipto. Já os pecuaristas descapitalizados acabaram aproveitando a “oportunidade” para venderem suas terras e conseguiram investir em outras áreas e se aperfeiçoar ainda mais na atividade pecuária. Um dos corretores do município comenta que no início dos anos 2000 a Celulose Riograndense comprou todas as terras disponíveis em Encruzilhada do Sul, valorizando ainda mais o preço da terra.

Outra tática realizada pelas grandes empresas de produção de madeira é a de contratarem empresas terceirizadas para realizar os “serviços do mato” (preparação da terra, plantio, manejo, poda, colheita, transporte, etc.). Nesses municípios onde ocorrem os plantios de árvores em grande escala já se observa a “quarteirização” e a “quinteirização” das empresas prestadoras de serviços. O que se averigua é que com a contratação destas empresas terceirizadas pelas grandes empresas do setor de produção de madeira, estas se eximem dos encargos trabalhistas, como também das possíveis preocupações jurídicas.

Trabalhadores do mato

Uma das mudanças mais importantes que ocorreram na silvicultura da região em relação aos trabalhadores do “mato” e às empresas florestais foram as leis trabalhistas que entraram em vigor na década de 1990, que influenciaram diretamente as condições de trabalho e moradia das pessoas envolvidas. Na década de 1990 era comum visualizar na zona rural de Encruzilhada do Sul, entre a margem dos plantios de árvores e a estrada, pequenas casas itinerantes chamadas de “bolantas”, onde se alojavam os trabalhadores e suas famílias. Nestas casas ou nas pequenas vilas que se formavam à beira dos “matos” não havia luz nem água encanada, tampouco tratamento de esgoto, e as famílias viviam em más condições. Atualmente a utilização destas “bolantas” está proibida, no entanto, ainda se averiguam denúncias deste tipo de moradia no “mato”.

Outros problemas em relação às condições de trabalho são os acidentes no “mato”, cujos mais comuns são lesões nos olhos e cortes de membros inferiores e superiores – pernas, mãos e braços – em função, principalmente, dos instrumentos utilizados para o corte das madeiras – facão, machado, serra e motosserra. Outro tipo de acidente é referente às quedas de árvores e galhos atingindo a cabeça e as costas/coluna dos trabalhadores. Na década de 1990 era muito comum ocorrerem denúncias contra trabalho análogo ao escravo nos municípios da região florestal, exatamente em função das más condições de vida dos trabalhadores. No entanto, segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Extração de Madeira e Lenha - SITIEML, 40% dos trabalhadores da Metade Sul ainda são informais e vivem em condições de trabalho “escravo”.

Uma das promessas das empresas florestais ao instalarem seus empreendimentos madeireiros foi a geração de vagas de emprego para os municípios da região florestal. No entanto, o que se constata em Encruzilhada do Sul é a diminuição das vagas de emprego. De acordo com a opinião dos interlocutores do município, a adoção de novas tecnologias e a mecanização específica para o setor florestal seriam alguns desses motivos. Outro ponto mencionado pelos entrevistados é que o “trabalho no mato” tem salários baixos, muitas vezes não apresenta garantias trabalhistas, é realizado em longas jornadas de trabalho, certas empreitadas são realizadas em condições arriscadas, entre outras situações precárias e negativas. No entanto, para alguns trabalhadores é a única oportunidade, como me disse um morador da Vila da Fonte: “não tenho estudo, trabalhei minha vida inteira no mato, quem vai dar trabalho pra mim na cidade?”.

Segundo os entrevistados em minha pesquisa, os riscos iminentes da atividade de silvicultura no município seriam em relação à fauna e à flora local, à transformação da paisagem e à substituição das atividades econômicas típicas da região (a pecuária e a agricultura de subsistência). Para a população local, principalmente aquela que vive na zona rural onde os plantios de “mato” são realizados, o que preocupa é o risco de que eles percam sua “identidade” e que “desapareçam” com o avanço da silvicultura. A mudança na paisagem rural é fato, pois, em áreas onde antes havia campo e mato nativos, lavoura anual ou pecuária extensiva foram substituídas pelo “mato”. Neste processo de substituição do “antigo” pelo “novo”, observou-se o aumento do êxodo rural, tendo muitos agricultores/produtores optado por vender a terra, não aderindo assim aos plantios de “mato”.

 

 

 

 

 

"A população rural no município literalmente teve que (re)organização seus modos de vida em função das transformações decorrentes da atividade de silvicultura"

IHU On-Line - Em sua pesquisa, a senhora menciona que os empreendimentos florestais geraram um processo de desterritorialização e reterritorialização da população local de Encruzilhada do Sul. Como se deu esse processo e como a população local reagiu a ele?

Patrícia Binkowski - Em Encruzilhada do Sul percebi dois tipos de territorialidades:

a) uma territorialidade dos agentes hegemônicos (empresas florestais, Estado e poder público municipal/local); e

b) outra territorialidade da população local (trabalhadores do “mato”, trabalhadores rurais, pecuaristas extensivos, pecuaristas familiares, agricultores familiares, assentados de reforma agrária, população urbana, entre outros).

A territorialidade apresentada pelos agentes hegemônicos, por exemplo, indica que estes utilizam a terra como “valor de compra”, se organizam por meio de relações de trabalho e do controle do território, e o lugar é visto como “recurso” para geração de lucro. Já a territorialidade da população local pode ser caracterizada de duas formas: parte apresenta uma territorialidade onde a terra é utilizada como “valor de uso”, os agentes se organizando por meio dos sistemas produtivos e vendo o lugar como espaço de sobrevivência, memória e identidade. A outra parte da população exprime uma territorialidade onde a terra tem “valor de troca”, os agentes se organizando por meio dos sistemas produtivos e de relações de trabalho e percebendo o lugar como “recurso” para sua sobrevivência.

Em função destas territorialidades observadas em Encruzilhada do Sul, se caracterizam duas percepções distintas da população local em relação à presença e expansão dos empreendimentos de produção de madeira. Parte da população ou certos grupos sociais são a favor do desenvolvimento da atividade, assim como apoiam sua expansão. Esses grupos percebem as transformações sociais e ambientais que ocorrem no território, principalmente aqueles relacionados às suas propriedades ou locais de moradia, no entanto as dissociam dos empreendimentos madeireiro-celulósicos. Outra parte da população (outros grupos sociais) é contrária ao desenvolvimento da atividade no município, exatamente pelo fato de terem constatado transformações socioambientais e as relacionarem diretamente aos empreendimentos.

Discurso do desenvolvimento econômico

De forma prática o que estes conceitos representam no território? Observam-se em Encruzilhada do Sul práticas e discursos diferentes em relação ao território. No grupo dos agentes hegemônicos, por exemplo, o discurso é o do desenvolvimento econômico e, portanto, parece não existir uma preocupação maior com o entorno ou a paisagem do local. Estes ocupam e apropriam-se do espaço, sem a existência de uma consciência de “proteção do território”. O que se manifesta é uma “lógica empresarial florestal”, onde tais empresas desenvolvem suas atividades econômicas e lidam com os impactos no entorno, na medida em que ocorram.

Por outro lado, essa “consciência de pertencimento do território” é perceptível na conduta e no discurso de pessoas que são ligadas ao espaço rural do município e cujo lugar de vivência foi invadido pela atividade de silvicultura. Nestes casos, é a iniciativa de “preservação do território” que tende a se evidenciar, ou seja, aquela que procura dar conta das tradições e de sua territorialidade.

IHU On-Line - Como a população local de Encruzilhada do Sul, especialmente a da área rural, avaliou e reagiu à implantação da silvicultura?

Patrícia Binkowski - A população rural no município literalmente teve que (re)organizar seus modos de vida em função das transformações decorrentes da atividade de silvicultura.

Em relação à pecuária, de maneira geral, os pecuaristas extensivos do município não substituíram a atividade pecuária pela silvicultura, mas sim adotaram uma nova estratégia de produção – o “consórcio” –, reduzindo a área de pecuária para a introdução de eucalipto ou acácia. Outra estratégia adotada foi a de arrendar somente parte da terra, incorporando o valor pago pelo arrendamento à atividade pecuária. O curioso no fato de os pecuaristas extensivos aderirem à produção de silvicultura (ou arrendarem suas terras) é que o fazem com o intuito de gerar capital para manter a atividade pecuária. Porém, do outro lado estão aqueles pecuaristas extensivos que venderam suas propriedades. Estes geralmente apresentam uma trajetória que não foi marcada pelo convívio com a terra e/ou com a atividade agropecuária e normalmente não vivem na propriedade e tampouco no município; eles vendem suas terras para as empresas florestais porque não querem manter as propriedades e, neste caso, preferem aproveitar os altos preços pagos por hectare.

Em relação à agricultura, entre os pequenos agricultores e assentados de reforma agrária, a adesão à produção de árvores se deu, acima de tudo, pela necessidade de aumentar a renda familiar. Em Encruzilhada do Sul, os pequenos agricultores e assentados aderiram fortemente à produção de árvores. Entre eles existe certo descontentamento em relação à atividade, pois não estão conseguindo comercializar a madeira. Nos assentamentos do município é possível observar três formas de relacionamento com o “mato”:

a) aqueles que não aderiram ao plantio de “mato”, pois seguem as regras impostas pelo Movimento de Trabalhadores Rurais Sem-Terra - MST e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA;

b) os que não aderiram por “ideologia”, pois são contrários aos empreendimentos florestais; e

c) os que são favoráveis aos plantios e que, portanto, plantam as árvores nos seus lotes.

Um dos efeitos sociais da atividade de silvicultura na região foi a migração campo-cidade e a consequente “taperização” do campo e a formação de vilas periféricas à cidade. No caso dos pequenos agricultores, foi pela necessidade de aumentar a renda familiar que eles saíram da zona rural, por isso a opção de vender ou arrendar a terra para as empresas florestais, passando a procurar novas oportunidades na cidade. Outro motivo constatado na pesquisa foi a descapitalização dos agricultores frente à crise na agropecuária, atingindo mais os pecuaristas extensivos e em menor intensidade os pecuaristas familiares e pequenos agricultores. Em algumas localidades do interior de Encruzilhada do Sul foi possível visualizar inúmeras casas abandonadas na zona rural, ocasionando o que estou chamando aqui de um processo de “taperização do campo”. Além disso, houve a formação de novas vilas na região periférica à sede municipal, como a Paraíso, Urbana, da Fonte, Lava-pés e Campos Verdes que, em grande parte, são formadas pela desterritorialização de pessoas da zona rural.

"Não tenho dúvida, a atividade de silvicultura em Encruzilhada do Sul é vista como uma estratégia de desenvolvimento pelas empresas florestais, pelo poder público local e também por parte da população local"

IHU On-Line - Que noção de desenvolvimento os municípios que investem na silvicultura têm, a exemplo de Encruzilhada do Sul? O que eles esperam em termos de ganhos para o município?

Patrícia Binkowski - Não tenho dúvida, a atividade de silvicultura em Encruzilhada do Sul é vista como uma estratégia de desenvolvimento pelas empresas florestais, pelo poder público local e também por parte da população local. Na visão dos dois últimos, a silvicultura é, literalmente, a “salvação da lavoura”. As empresas florestais ao se instalarem em Encruzilhada do Sul fizeram diversas “promessas” de desenvolvimento, traduzidas no aumento de renda da população, na renovação das vagas de emprego, na melhoria da qualidade de vida da população envolvida, aumento do PIB do(s) município(s), maior arrecadação de impostos, melhoria da infraestrutura local e incentivo à enfraquecida produção agropecuária, entre outros.

A noção de desenvolvimento instaurada no município é a de uma concepção desenvolvimentista, onde o enfoque é de cunho totalmente econômico. Portanto, o que se analisa é que os empreendimentos florestais não determinaram desenvolvimento à população de Encruzilhada do Sul, pelo contrário, têm comprometido a própria reprodução social dessas comunidades que passam a criar novas estratégias de (re)adaptação e enfrentamento à “lógica florestal” instaurada na região. Em última análise, o que se observa é que as empresas florestais não mudaram o cenário anterior, cenário este que elas mesmas, aliadas aos poderes públicos locais, se propuseram a alterar. As “promessas” das empresas e do poder público acabaram por não se concretizar e a dúvida que paira é quando esta realidade mudará.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Patrícia Binkowski - Sim, gostaria ainda de comentar sobre a existência de um conflito ambiental em Encruzilhada do Sul, pois a população constata os efeitos, demonstra sua preocupação ambiental e social, mas, no entanto, se mostra passiva em termos de mobilização ou de alguma articulação em prol de denúncias mais eficazes em relação aos efeitos dos empreendimentos de monocultivos de árvores. Dessa forma, fica evidente uma resistência ao nível apenas do discurso.

O que se constata no município é que mesmo que a atividade de silvicultura provoque efeitos socioambientais negativos, ela ainda é a única alternativa de renda para determinados grupos locais. Isto é, a aceitação da atividade de silvicultura se dá em virtude de ela ser uma “oportunidade econômica”, ou seja, se conhecem os impactos (os próprios interlocutores enumeram as transformações no território) e mesmo assim ela é “aceita”.

Além disso, a falta de informação da população, aliada ao baixo nível de mobilização e resistência, faz com que a denúncia, requisito básico para que o conflito ambiental seja deflagrado, ainda não tenha sido efetivamente consolidada e legitimada. Desse modo, é possível afirmar que o conflito ambiental existe, porém, velado-latente, a ponto de emergir a qualquer momento. No entanto, a sua visibilidade é dependente do rumo das negociações sociopolíticas entre os agentes sociais envolvidos.

Por Patricia Fachin

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