Conjuntura da Semana. Trabalho Escravo. Ruralistas ameaçam descaracterizar legislação que é referência internacional

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Por: Jonas | 18 Novembro 2013

O trabalho escravo, “gosto de fazer esta analogia, diz Sakamoto, não é uma doença, mas é um sintoma, é um indicador de que algo não está bem, ou seja, de que há um modelo de desenvolvimento extremamente excludente, concentrador”. Para combatê-lo, diz o coordenador da ONG Repórter Brasil “é preciso fazer a reforma agrária, gerar empregos, melhorar a qualidade de vida das pessoas, atuar na melhoria da situação dos trabalhadores em geral, atuar na formação dos trabalhadores, no desenvolvimento social, punir efetivamente, aprovar leis que ajudem na punição das pessoas que utilizam o trabalho escravo”.

 

 

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.

Índice:

Trator ruralista em ação

Risco de retrocesso no conceito de trabalho escravo
Escravidão ‘moderna’
O tripé que sustenta o trabalho escravo

Conjuntura da Semana em frases

Eis a análise.

Trator ruralista em ação

A bancada ruralista após desconfigurar o Código Florestal, impedir a redefinição dos critérios dos índices de produtividade utilizados na reforma agrária e inviabilizar a demarcação de Terras Indígenas, volta à ofensiva em duas frentes: 1ª – impor um Código da Mineração que coloque a mineração como prioridade absoluta acima de todos os outros usos do território – de sua biodiversidade e dos povos tradicionais; 2ª – descaracterizar o conceito de trabalho escravo.

O trator ruralista não cessa em sua voracidade de submeter tudo aos seus interesses e caprichos. Convictos de sua força política, a bancada do agrobusiness ataca em frentes que a rigor até então não se envolvia, como se observou faz poucos dias com a apresentação do Projeto de Lei 4.193, de 2012 que retoma a tese de que negociações podem prevalecer sobre legislação trabalhista.

O projeto foi apresentado por Irajá Abreu (TO), ex-DEM e atual PSD, filho da senadora Kátia Abreu, presidenta da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e líder maior da bancada ruralista. Esse projeto, associado a outro, o Projeto de Lei 4.330, conhecido como projeto da terceirização indica uma ofensiva articulada entre a bancada do capital produtivo e a bancada ruralista. Os projetos se aprovados resultarão numa tremenda flexibilização das relações de trabalho num mercado já bastante precário.

Risco de enorme retrocesso no conceito de trabalho escravo

De todas as iniciativas mais recentes, a mais emblemática, entretanto, da ‘vanguarda do atraso’ em que se transformou a bancada ruralista é a tentativa de alterar o conceito de trabalho escravo. Os ruralistas nunca engoliram a aprovação da PEC 438 – conhecida como a PEC do Trabalho Escravo na Câmara dos Deputados e, agora, no Senado estão fazendo de tudo para deformá-la, descaracterizá-la e anular a essência do seu significado.

A PEC 438 tramitou por mais de uma década no Congresso brasileiro e foi aprovada em 2012 sob protestos dos ruralistas. No Senado, a PEC 438, se transformou em PEC 57 e logos após o início do seu trâmite foi constituída uma comissão para discutir a regulamentação da referida emenda. Nos últimos dias, a comissão hegemonizada pelos ruralistas, sugere alterações que caso aprovadas significarão um enorme retrocesso no conceito de trabalho escravo.

A legislação brasileira em vigor desde 2003 considera quatro aspectos que configuram trabalho em condições semelhantes à escravidão:

- condições degradantes de trabalho (incompatíveis com a dignidade humana, caracterizadas pela violação de direitos fundamentais que coloquem em risco a saúde e a vida do trabalhador);

-  jornada exaustiva (em que o trabalhador é submetido a esforço excessivo ou sobrecarga de trabalho que acarreta a danos à sua saúde ou risco de vida);

- trabalho forçado (manter a pessoa no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas);

- servidão por dívida (fazer o trabalhador contrair ilegalmente um débito e prendê-lo a ele).

Os ruralistas argumentam que não há clareza sobre o conceito de trabalho escravo e que isso causa “insegurança jurídica”. Afirmam que os conceitos “jornada exaustiva” e “condições degradantes” são gerais demais e que o conceito “trabalho forçado” precisa ser melhor tipificado.

O jornalista Leonardo Sakamoto, um especialista do tema, coordenador da ONG Repórter Brasil, sobre essa “queixa” dos ruralistas afirma: “Vira e mexe ouve-se o argumento de que fiscais do trabalho consideram como trabalho escravo a pequena distância entre beliches, a espessura de colchões, a falta de copos descartáveis. Cascata da grossa. Afinal de contas, qualquer fiscalização do governo é obrigada a aplicar multas por todos os problemas encontrados”.

Entretanto, diz ele, “se ouvir esse blá-blá-blá, peça que se comente sobre o teor de outras 30 autuações que o fazendeiro em questão deve ter recebido. É esse conjunto, que exclui o trabalhador de sua dignidade que configura trabalho escravo. Ou solicite-as à Secretaria Nacional de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego. Já fizemos uma aposta: qualquer pessoa que provar que um caso de trabalho escravo se configurou apenas pelo beliche ou o copo plástico, a gente encerra os trabalhos”.

Para Sakamoto, está claro que os ruralistas “afirmam que não há clareza sobre o conceito de trabalho escravo, porque não concordam com o conceito de trabalho escravo”.

Na opinião de Frei Xavier Plassat coordenador da Campanha Nacional contra trabalho escravo da Comissão Pastoral da Terra e profundo conhecedor da área em entrevista ao IHU o que os ruralistas querem é “um conceito de trabalho escravo que ficaria preso à forma como este se dava nos tempos da Colônia e do Império, a do negro acorrentado”.

O jornalista Leonardo Sakamoto vai ainda mais longe para exemplificar o que querem os ruralistas com a exigência de que o ‘trabalho forçado’ seja configurado apenas quando há claro cerceamento de liberdade ou coação. Diz ele: “façamos paralelos: aceita-se punir casos de estupro. Mas só nos casos em que a vítima for ameaçada com arma de fogo. Caso contrário, não vale. Ou aceita-se punir homicídios. Desde que o bandido tenha gravado um vídeo com o assalto e postado no YouTube ou em seu Instagram.”
 
Segundo ele, “não é apenas a ausência de liberdade que faz um trabalhador escravo, mas sim de dignidade. Todo ser humano nasce igual em direito à mesma dignidade. E, portanto, nascemos todos com os mesmos direitos fundamentais que, quando violados, nos arrancam dessa condição e nos transformam em coisas, instrumentos descartáveis de trabalho”.

Na análise de Sakamoto, “a legislação brasileira, pasmem, é de vanguarda, pois leva isso em conta. Quando um trabalhador mantém sua liberdade, mas é excluído de condições mínimas de dignidade, temos também caracterizado trabalho escravo. Qualquer pessoa que veja as fotos de um resgate de escravos entende isso perfeitamente. Mas alguns senadores, não”.

Se a teses dos ruralistas avançarem, a Lei do Trabalho Escravo será totalmente descaracterizada e aumentará ainda mais a impunidade que já é enorme. Embora a legislação em vigor puna casos de trabalho escravo com a expropriação da terra para Reforma Agrária ou moradias populares – no caso de flagrantes urbanos - e até com prisão, o que se viu até o momento são raras expropriações de propriedades e nenhuma prisão.

Segundo dados do governo em 17 anos, 44 mil pessoas foram tiradas de situações análogas à escravidão, mas punição aos “escravocratas” não passou de pagamento de cestas básicas. A sensação de impunidade é grande, o que estimula a prática. Apesar do zero estatístico nas penitenciárias, o resultado prático no combate ao trabalho escravo, via de regra, tem resultado na libertação dos trabalhadores, o pagamento de indenizações e a divulgação do caso.

Em 2003, avançou-se para a criação de uma lista suja, com restrições de financiamento para empresas e fazendeiros que praticam trabalho escravo. Na opinião de Leonardo Sakamoto na entrevista ao IHU, “a lista suja é um dos principais instrumentos brasileiros de combate ao trabalho escravo. Criada em 2003,  traz o nome dos empregadores flagrados como reutilizando mão de obra escrava, e que tiveram direito de se defender em primeira e em segunda instância administrativa”.

Então, diz ele, a “Lista Suja é um instrumento de transparência importantíssimo, que tem servido aos trabalhadores do Brasil, mas também ao sistema econômico empresarial, porque os empresários acabam utilizando a lista - apesar do Ministério do Trabalho não obrigar - no sentido de se precaver, de fazer gerenciamento de risco, de evitar parcerias com empresas que utilizam trabalho escravo”.

De acordo com Sakamoto, “a Lista Suja é reconhecida internacionalmente como um grande instrumento de combate ao trabalho escravo, e no Brasil ela acabou ajudando muitos trabalhadores, porque ao cortar produtores que se utilizam desse tipo de exploração, você está forçando não apenas aquele produtor a se adequar, mas também todos os produtores que trabalham em volta a seguir a lei e a adotar critérios responsáveis, como o trato com seus funcionários”.

O jornalista especializado em acompanhamento de casos de trabalho escravo cita o caso da Cosan que quando entrou na lista teve uma queda de 5% no valor de suas ações na Bolsa de Valores de São Paulo. Cita também o caso da MRV, uma grande construtora, que quando entrou na lista, também caiu na Bolsa de Valores.

Escravidão ‘moderna’

Mais de um terço dos incluídos na “lista suja” da escravidão são pecuaristas. A criação de bovinos é a atividade econômica com mais inclusões na atualização A divulgação da última lista indica que dos 56 nomes incluídos no cadastro, a pecuária bovina soma um total de 20 novas entradas, ou seja, 35,7%, mais de um terço dos incluídos, são pecuaristas.  

A constatação reforça a relação entre exploração de escravos e desmatamento. A expansão da pecuária em áreas de floresta amazônica é uma tendência. Em outubro, relatório apresentado pela Comissão Pastoral da Terra sobre as libertações feitas até então já apontava a ligação entre a abertura e manutenção de pastos em áreas isoladas e a exploração de pessoas.

Depois da pecuária, é a produção de carvão que puxa as inclusões da lista.  Na sequência, foram 7 inserções no carvão, 6 na silvicultura, 4 no extrativismo vegetal com atividades ligadas ao desmatamento, 3 na cultura de cana-de-açúcar e 3 na cultura de soja.

Engana-se, porém quem pensa que escravidão seja coisa do interior, dos fundões da Amazônia ou de áreas isoladas. Ela acontece também em setores de ponta do capitalismo e nas grandes metrópoles.

Recentemente a maior multa na história brasileira foi aplicada contra a construtora OAS em virtude das condições análogas às de escravidão encontradas entre os trabalhadores contratados para as obras de expansão do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica, município de Guarulhos.

No mesmo espaço em que circula o mais alto PIB brasileiro e mundial, trabalhadores eram submetidos a situações de trabalho escravo. De acordo com Christiane Vieira Nogueira, procuradora do Trabalho responsável pelo caso, “houve aliciamento de trabalhadores, que eram mantidos em alojamentos em condições degradantes”.

Ao todo, 111 migrantes do Maranhão, Sergipe, Bahia e Pernambuco foram submetidos a condições análogas à de escravidão e resgatados por auditores do Ministério do Trabalho e Emprego e procuradores do Ministério Público do Trabalho. Eles haviam sido contratados para trabalhar na ampliação do aeroporto mais movimentado da América Latina e passaram fome, segundo a fiscalização. Posteriormente, mais 39 trabalhadores nas mesmas condições foram encontrados e inseridos no acordo.

As vítimas aguardavam ser chamadas para trabalhar alojadas em onze casas de Cumbica que estavam em condições degradantes. Dos trabalhadores resgatados, seis eram indígenas da etnia Pankararu. Além do aliciamento e da situação das moradias, também pesou para a caracterização de trabalho escravo pelo Ministério do Trabalho e Emprego o tráfico de pessoas e a servidão por dívida.

Em um dos três alojamentos fiscalizados, 38 homens se espremiam na casa de dois andares com quatro quartos e dois banheiros. Devido à falta de espaço para todos, muitos dormiam na cozinha e até debaixo da escada. Quem não trazia colchão tinha que comprar um, dividir o espaço com os demais ou dormir no chão enrolado em lençóis. Já a cozinha não tinha fogão ou geladeira e a comida era paga por eles mesmos. A água faltava quase todo dia.

Destaque-se que além de ser uma das maiores construtoras do Brasil, a OAS é também a terceira empresa que mais faz doações a candidatos de cargos políticos. Entre 2002 e 2012, a empreiteira doou R$ 146,6 milhões (valor corrigido pela inflação). A OAS é uma das quatro empresas que formam o consórcio Invepar que, junto com a Airports Company South Africa, detêm 51% da sociedade com a Infraero para a administração do Aeroporto Internacional de Guarulhos através da GRU Airport. Para as obras de ampliação do aeroporto, onde foi flagrado trabalho escravo, o BNDES fez um empréstimo-ponte de R$ 1,2 bilhões.

Outro caso de trabalho escravo encontrado recentemente em grandes metrópoles se deu na rica Caxias do Sul (RS). Segundo as investigações da Polícia Federal, uma quadrilha aliciava pessoas no Estado da Paraíba para atuarem em Caxias do Sul como vendedores ambulantes de CDs e DVDs falsificados. Ao chegarem a Caxias do Sul, eram alojados em locais precários e submetidos a jornadas exaustivas. Além disso, os trabalhadores eram impedidos de retornar à Paraíba devido a ameaças e dívidas com o empregador.

O tripé que sustenta o trabalho escravo

A origem e manutenção do trabalho escravo é consequência de um tripé: ganância, impunidade e pobreza, afirma Leonardo Sakamoto  em entrevista exclusiva ao IHU.

Segundo ele, “o trabalho escravo não é decorrência da maldade do coração humano, mas é decorrência de um cálculo econômico de cortar custos visando ao aumento da competitividade”. Outro fator que contribui para a escravidão na opinião de Sakamoto é a  impunidade, “uma vez que há certeza de que as pessoas podem usar trabalho escravo e raramente irão para a cadeia”.

Para completar o ciclo, “a pobreza, a falta de oportunidades, a má qualidade de vida faz com que as pessoas acabem caindo na rede de gatos, fazendeiros, empresários, que, no intuito de cortar custos, acabam utilizando essa forma de exploração”.

O trabalho escravo, “gosto de fazer esta analogia, diz Sakamoto, não é uma doença, mas é um sintoma, é um indicador de que algo não está bem, ou seja, de que há um modelo de desenvolvimento extremamente excludente, concentrador”. Para combatê-lo, diz o coordenador da ONG Repórter Brasil “é preciso fazer a reforma agrária, gerar empregos, melhorar a qualidade de vida das pessoas, atuar na melhoria da situação dos trabalhadores em geral, atuar na formação dos trabalhadores, no desenvolvimento social, punir efetivamente, aprovar leis que ajudem na punição das pessoas que utilizam o trabalho escravo”.

Segundo Sakamoto, o “Brasil é uma referência para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, é uma referência para a Organização Internacional do Trabalho, para outros países no que tange ao combate ao trabalho escravo, mas ainda temos muito a avançar nesta questão”.

Frei Xavier Plassat, outra referência no debate da problemática do trabalho escravo, tem opinião similar. Segundo ele, “lucrar é a razão derradeira que move o escravagista, não a maldade em si. Esse motor é cego, tanto é que, se flagrado, o escravagista moderno ‘justifica’ que nem sabia que aquilo estava acontecendo em suas terras, sob seu comando. Esse motor cego não tem época: somente encontra mais ou menos freios na lei, no Estado, na sociedade”, diz ele.

Obviamente, diz Frei Xavier, “há diferenças em relação à forma antiga de escravizar”. Esclarece que “sobre o escravo moderno, o patrão não exerce como antigamente um direito de propriedade, mas sim de uso e abuso, o que muitas vezes se revela até pior, pois não se responsabiliza pela ‘conservação’ deste patrimônio ou a reprodução de sua prole. Pelo contrário, descarta-o quando não lhe serve mais, depois de explorá-lo até ou além do limite, em serviços braçais necessariamente de limitada duração (a duração média dos serviços ‘contratados’ nessa modalidade não passa geralmente de 3 a 4 meses). Carvoeiro, roçador de pasto ou cortador de cana do século XXI tem expectativa de vida inferior a muitos escravos dos séculos passados”, afirma.

O coordenador da CPT na área de combate ao trabalho escravo explica que “o trabalho escravo segue o rastro do agronegócio o qual, na última década, se tornou a menina dos olhos das políticas públicas: na fumaça das carvoarias que sacrifica homens e florestas para produzir aço; nas pegadas do gado que continua avançando sobre a Amazônia Legal, com desmatamento em grande escala; na onda da lavoura de soja que conquistou os cerrados centrais; no boom do etanol que explode de norte a sul e ressuscita o velho canavial”.

Se faz presente, diz ainda, “nas principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro: carne e madeira (metade das denúncias), cana e demais lavouras (metade dos libertados), e carvão vegetal para uso na siderurgia. Operadores internacionais demandam produtos sempre mais baratos sem se preocupar com o que isso implica lá na ponta. Parece haver ligação entre essa expansão desenfreada do agronegócio, no contexto da economia globalizada, e a precarização das relações trabalhistas”.

O mais triste é que enquanto escrevemos essa análise ou no mesmo momento em que você a lê, milhares de trabalhadores e trabalhadoras se encontram na situação de trabalho escravo. Segundo Frei Xavier Plassat, “não é possível falar um valor certo: nenhum IBGE da vida se arrisca a contabilizar um crime ainda por ser desvelado. O que existe são estimativas: a CPT avançou anos atrás uma hipótese conservadora de pelo menos 25.000 trabalhadores entrando anualmente no ciclo da escravidão, somente na Amazônia. Muitos fiscais do trabalho hoje falam em 40 a 100.000 pessoas, para o conjunto do país”.

“É muito e pouco ao mesmo tempo”, diz Frei Xavier. Segundo o frei, “significa que só uma fração dos empregadores rurais mantém essa prática criminosa e que seria teoricamente fácil acabar com isso. Para isso já precisaria uma CNA mais responsável. Comparado aos números disponíveis para o mundo (entre 12,5 e 27 milhões de escravos), o Brasil não está entre os piores;  está entre os poucos que adotaram uma política de combate”.

O reconhecimento da Legislação brasileira contra a escravidão como uma das mais avançadas do mundo vem da Organização Internacional do Trabalho – OIT para quem “o Brasil é uma referência para a comunidade internacional no combate às formas contemporâneas de escravidão”. É essa legislação que os ruralistas querem suprimir.

Conjuntura da Semana em frases

Seleção de frases extraídas das “Frases do dia” publicadas diariamente no sítio do IHU. Frases publicadas entre os dias 08 a 16 de novembro de 2013:

Bolsa assentado

“Uma nova Bolsa de transferência de renda será lançada pelo governo Dilma. Ainda sem nome, vai para os assentados pela reforma agrária. Ela vai substituir o crédito instalação, financiamento com 100% de inadimplência. Cada assentado terá seu cartão e receberá os recursos sem ter que pagar depois. O objetivo da Bolsa é garantir a subsistência e fomentar o aumento da produção pelos assentados” - Ilimar Franco, jornalista – O Globo, 16-11-2013.

Raiva social    

“Ele (Joaquim Barbosa) foi um canal de expressão de uma rejeição difusa do sistema político. Novidade, sim. Um sentimento difuso de rejeição que não tem conteúdo e é pouco politizado. Ao mesmo tempo, expressa uma raiva social muito interessante. Raiva contra o sistema político, contra a discriminação histórica. E essa rejeição difusa da política, ela se expressa de maneira brutal e grosseira. Isso introduz um elemento novo no Judiciário, pois o Judiciário gosta de se entender num clube de cavalheiros. Ele rompe com isso” – Marcos Nobre, filósofo – Folha de S. Paulo, 16-11-2013.

Já foi pior

"Já passei por situações piores. Enfrentarei esse momento com dignidade" – José Genoíno, ex-presidente nacional do PT, antes de se apresentar à Polícia Federal – Folha de S. Paulo, 16-11-2013.

Sem ideologia

“(Dilma) Não tem posição ideológica nenhuma. Eu ouço dizer que ela é brizolista, como se isso fosse um negócio grave. A Dilma é uma tecnocrata pragmática. Tudo o que ela propõe está na direção certa” – Antonio Delfim Netto, economista – O Estado de S. Paulo, 15-11-2013.

Não é mais aquele

“O MST perdeu seu vigor. Relatório da Ouvidoria Agrária Nacional fez um Raio-X da ação da organização e constatou que as ocupações de terra caem a cada ano. Neste, até novembro, ocorreram 78 ocupações. É o menor número da história. O MST perdeu gás devido à redução do desemprego e ao aumento da renda da agricultura familiar” – Ilimar Franco, jornalista – O Globo, 15-11-2013.

Mal em si

“A corrupção não tem partidos e é um mal em si. Nesses poucos meses, explodiram escândalos em um Ministério, em um importante Estado e em uma importante Prefeitura” - Luís Roberto Barroso,  ministro do STF, no julgamento do Mensalão – O Globo, 15-11-2013.

Sistema falho

“O Ministério da Justiça estima que 10% dos 420 mil presos do país ou já cumpriram sua pena e não foram soltos ou teriam direito a algum benefício, como progressão de regime, mas não conseguem obtê-lo porque o sistema é falho” – Helio Schwartsman, jornalista – Folha de S. Paulo, 15-11-2013.

Conspiração

“É claro que, em qualquer país capitalista, ser mais rico e poder contratar bons defensores ajuda. No Brasil, porém, a diferença no tratamento dado a cada um dos grupos é tamanha que é como se tivéssemos dois sistemas distintos, o que conspira contra a ideia de um Judiciário republicano” – Helio Schwartsman, jornalista – Folha de S. Paulo, 15-11-2013.

Geopolítica da aliança

“Em almoço ontem após a homenagem a João Goulart, Dilma Rousseff, Lula e Rui Falcão se debruçaram sobre os entraves à aliança com o PMDB em 2014: justamente os Estados dos principais caciques peemedebistas. O apoio do PT só está assegurado ao filho de Jader Barbalho, Helder, para o governo do Pará, e ao candidato da família Sarney no Maranhão. Há preocupação quanto ao impasse no Ceará e em Alagoas. No Rio, os dois partidos estão conformados em marchar separados” – Vera Magalhães, jornalista – Folha de S. Paulo, 15-11-2013.

Ruído

“A interpretação de dirigentes do PT e de outros partidos é a de que a prisão dos réus agora favorece Dilma. Na campanha eleitoral, o impacto da medida já estaria amenizado pelo tempo. E ela não teria que responder a acusações de que seu governo se esforçava para garantir a "impunidade" dos petistas” – Mônica Bergamo, jornalista – Folha de S. Paulo, 15-11-2013.

Mulher Pera

“Sabe por que proclamaram a República? Pra gente votar no Collor, no Romário, no Tiririca, no Maluf e na Mulher Pera!” – José Simão, humorista – Folha de S. Paulo, 15-11-2013.

Ressuscitando a ALCA?!

"Defendemos um acordo com os EUA, que compram principalmente manufaturados" - Robson Andrade, presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria) – Folha de S. Paulo, 14-11-2013.

Ressuscitando a ALCA?! (2)

"Mudamos o posicionamento. Há dez anos éramos refratários, e havia um açodamento para fechar um tratado. Agora estamos isolados, o Brasil está fora das cadeias de valor, daqui a pouco estaremos parecidos com países da antiga Cortina de Ferro” - Humberto Barbato, presidente da associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica – Folha de S. Paulo, 14-11-2013.

Regime assassino

“A ditadura foi um regime assassino e torturador montado por militares com o apoio da maior parte da camada economicamente privilegiada do país. Não há motivo algum para dúvida” – Jânio de Freitas, jornalista – Folha de S. Paulo, 14-11-2013.

Pragmatismo

“O "aggiornamento" econômico da China é mais uma etapa da consolidação do que a esquerda convencionou chamar de pensamento único, com o reino do capitalismo. Espaços para visões alternativas são estreitos. O princípio da competitividade se espraia, e os atores políticos emulam o comportamento dos agentes econômicos” – Cristian Klein, jornalista – Valor, 14-11-2013.

Pragmatismo 2

“O cidadão é o cliente e, na falta de condições para lhe oferecer o produto, governos e partidos, antes refratários, passam a convocar a iniciativa privada. Foi o que fez, no mesmo dia da plenária do PC chinês, o presidente do PT, Rui Falcão, reconduzido para mais quatro anos no cargo, depois de vitória no Processo de Eleições Diretas (PED)” – Cristian Klein, jornalista – Valor, 14-11-2013.

Pensamente quase único

“Expurgados os dissidentes, o PT caminhou, ele próprio, para o pensamento quase único da prioridade absoluta pela manutenção do governo federal” – Cristian Klein, jornalista – Valor, 14-11-2013.

Mao e o mercado

“É a mesma toada do realismo chinês, que acende uma vela para Mao e outra para o mercado” – Cristian Klein, jornalista – Valor, 14-11-2013.

Classe média

"O problema é que o Brasil aprendeu a chegar ao mais pobre do pobre, mas ninguém tem muita ideia de como fazer política para essa classe média” - Ricardo Paes de Barros, subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) – Valor, 13-11-2013.

O que ela quer?

“Na classe média baixa, vai ser preciso escutar o cara para saber o que ele quer" - Ricardo Paes de Barros, subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) – Valor, 13-11-2013.

Média

"A desigualdade não caiu, mas a pobreza, sim. A renda dos mais pobres continuou crescendo acima da média. Só que antes quem estava pagando a conta eram os ricos. No ano passado, quem pagou a conta foi mais a classe média. Logo, o Brasil continuou fazendo com que a renda dos mais pobres crescesse mais rápido do que a [renda] média. O que aconteceu de não usual é que o Brasil vinha numa trajetória em que a renda dos ricos crescia muito abaixo da média e, de repente, cresceu acima da média" - Ricardo Paes de Barros, subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) – Valor, 13-11-2013.

Maioria consolidada

“A principal tendência do PT, a CNB, nunca havia tido vitória tão eloquente nas eleições internas do partido. Emblemático o fato de pela primeira vez, em 30 anos, o candidato, do chamado Campo Majoritário, Rui Falcão, ter vencido no Rio Grande do Sul. A direção petista terá agora maior poder de fogo para acomodar os apetites locais à lógica da aliança para reeleger a presidente Dilma” – Ilimar Franco, jornalista – O Globo, 13-11-2013.

Verão passado

“Ex-ministro da Agricultura de Lula, Roberto Rodrigues relatou episódio em que Campos, então ministro da Ciência e Tecnologia, mediou discussão sobre transgênicos entre ele e Marina Silva, à época titular do Meio Ambiente” – Vera Magalhães, jornalista – Folha de S. Paulo, 13-11-2013.

Professor

“Essa mania de chamar técnico de professor? Então eles deviam receber salário de professor. Todo técnico chamado de professor tem que receber salário de professor!" – José Simão, humorista – Folha de S. Paulo, 13-11-2013.

Eikex Fudidex

"E o Eikex Fudidex? Novas empresas do Eike: Calotex, Durex e Jontex! Jontex é pra proteger os membros da Calotex! O Rei do Xis-Salada! O Eike é o nosso X-Man" – José Simão, humorista – Folha de S. Paulo, 13-11-2013.

Retrovisor

"Nós não podemos ir para as eleições apresentando apenas o que realizamos, olhando para o retrovisor. Nós temos de ter a ousadia, a capacidade de dizer o seguinte: realizamos muito pelo país, mas há muito ainda que se realizar" – Gilberto Carvalho, ministro – Valor, 12-11-2013.

O revisionismo

“Analistas políticos registram como reviravolta a homenagem dos petistas ao ex-presidente João Goulart. O PT foi criado para ser uma negação do trabalhismo, ao qual se referem como “populista” – Ilimar Franco, jornalista – O Globo, 12-11-2013.

Silêncio

“Lula ilustrou bem o que é o PT atual, ao pedir que o outrora partido da juventude saia à caça de jovens. Com que ideias, com que ação política que não seja a mera prestação de serviço ao governo? Silêncio” – Jânio de Freitas, jornalista – Folha de S. Paulo, 12-11-2013.

Cumprir tabela

“Como se diz no futebol, a eleição no PT foi só para cumprir tabela” – Jânio de Freitas, jornalista – Folha de S. Paulo, 12-11-2013.

Pizzolato

"Meu cliente cometeu crimes contra a administração pública. Preciso garantir que sua integridade física seja garantida no caso do início do cumprimento da pena. Ele não pode ficar ao lado de presos de alta periculosidade, como milicianos e traficantes (no presídio de Bangu 8 no Rio)" - Marthius Sávio Cavalcante Lobato, advogado de Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil condenado a 12 anos e 7 meses no processo do mensalão – Folha de S. Paulo, 10-11-2013.

Nem, nem

“O Brasil não está tão ruim quanto dizem os críticos, mas também não está tão bem quanto o governo afirma. Acho que o governo tem dificuldade para se comunicar com os empresários e os grandes investidores. Ele se sai muito melhor com a sociedade civil, tanto que seu nível de aceitação tem sido elevado. A comunicação com o mundo empresarial carece de mais clareza” – Roger Agnelli, ex-presidente da Vale – Folha de S. Paulo, 10-11-2013.

Eike querido

“Eike era um empresário querido pelo governo e pelo mercado e seu sucesso foi vendido no mundo inteiro como o sucesso do Brasil. Quando vem um tombo desse tamanho, deixa uma dúvida: será que o Brasil é tudo isso mesmo ou não? Mas a derrocada do Eike é um ponto fora da curva. Pode afetar a imagem do país no curto prazo, mas o investidor é profissional e vai entender que é um ponto fora da curva” – Roger Agnelli, ex-presidente da Vale – Folha de S. Paulo, 10-11-2013.

Continente novo

“A África é um continente novo, institucionalmente falando. Tem países que já estão na quinta eleição democrática, tem outros que estão na primeira. A África passa por um processo acelerado de urbanização, como o Brasil dos anos 1960. É a hora de estar lá” – Roger Agnelli, ex-presidente da Vale – Folha de S. Paulo, 10-11-2013.

Baratos?!

“O Jérôme Valcke prometeu que os ingressos da Copa iriam ser os mais baratos da história. Na África do Sul foi R$ 40. O mais barato aqui é R$ 150. Tem coisa que não bate. Se o cara não tem nem palavra, não dá pra confiar nada a ele. Sem contar as falcatruas, as pilantragens, as sacanagens, a roubalheira que esses caras fazem dentro das entidades” – Romário, deputado federal – PSB-RJ – Zero Hora, 10-11-2013.

“Pô, o José Maria Marin é ladrão de medalha, de terreno da prefeitura, de energia do vizinho... Como é que um cara corrupto desse jeito pode ser presidente da CBF? Eu queria entender a concepção da nossa presidenta e do nosso Ministério do Esporte. Início da Copa do Mundo, Maracanã, bilhões de pessoas assistindo e estarão lá: Dilma e Aldo Rebelo ao lado de (Joseph) Blatter e José Maria Marin. São dois caras que não condizem com um evento desses. Bom, se eles querem isso, tudo bem. Eu vou é fazer o meu trabalho” – Romário, deputado federal – PSB-RJ – Zero Hora, 10-11-2013.

Quem vai ganhar?

"Espero que seja o último PED do PT. O partido trouxe para sua estrutura interna as mazelas do sistema político que queremos reformar" - Renato Simões, deputado federal - PT - um dos candidatos a presidente da legenda - Valor, 08-11-2013.

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