Negócios florestais: uma opinião polêmica. Entrevista especial com Leonel de Freitas Menezes

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24 Julho 2007

O crescimento das áreas de cultivo de espécies exóticas no Rio Grande do Sul, principalmente a monocultura de eucalipto, tem sido tema de um intenso debate que envolve ambientalistas, empresas e profissionais da área florestal. No último Fórum Florestal Estadual do Rio Grande do Sul, ocorrido em Santa Maria, o engenheiro florestal Leonel de Freitas Menezes proferiu a palestra "Negócios Florestais Internacionais: O RS atendendo o mercado consumidor", na qual discutiu as questões referentes ao plantio de novas florestas no Estado. “O setor de base florestal do Rio Grande do Sul tem uma projeção de dobrar a área plantada em dez anos”, constatou Leonel, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Na entrevista, Leonel descreve a atual situação do Estado em relação ao uso das florestas e campos e à importância de uma gestão responsável dos recursos florestais. Segundo ele, o Brasil está dentro de uma lista que é responsável pelo desmatamento de metade das florestas do planeta, cujo modelo adotado já é ultrapassado e, por isso, deveria ser repensado. No entanto, Leonel é dono de uma opinião bastante polêmica. Para o engenheiro, “as empresas serão as primeiras interessadas na capacidade de crescimento das florestas e no uso desse solo adequado”.

Leonel de Freitas Menezes é graduado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Santa Maria. Na mesma universidade, concluiu seu mestrado na área de Engenharia de Produção. Atualmente, é diretor da IBE – International Business Eucalyptus.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a sua análise da expansão do setor de base florestal no Rio Grande do Sul?

Leonel de Freitas Menezes – O setor de base florestal do Rio Grande do Sul tem uma projeção de dobrar a área plantada em dez anos. A base hoje é de 360 mil hectares e a projeção para os próximos dez anos é de algo entre 600 e 800 mil hectares plantados. Até o ano passado, essa projeção se confirmou, pois se plantou entre 80 e 90 mil hectares de florestas, e, para esse ano, em função de alguns problemas, essa área ficará um pouco abaixo da meta.

IHU On-Line – Qual é a atual situação do Estado em relação ao uso ou intocabilidade dos campos e florestas?

Leonel de Freitas Menezes –
Na verdade, desde a ministra Marina Silva passando pelo presidente Lula, até a comunidade em geral, ou seja, os consumidores, todos devem entender que o Brasil precisa plantar florestas. E o único jeito de fazer com que o setor cresça é por meio das florestas plantadas, pois fazer uma indústria e uma exportação baseada na floresta da Amazônia é uma insanidade. Porque, além de estarmos destruindo o meio ambiente, é difícil manter uma sustentabilidade em cima de uma floresta nativa.

O Rio Grande do Sul tem um potencial enorme com uma vastíssima área disponível na metade sul, com 16 milhões de hectares. A ocupação deste espaço é muito pequena: pode-se tranqüilamente escolher áreas em que podem e outras em que não podem existir florestas. E, nas áreas em que não é possível que elas existam, devemos continuar com a agricultura, pecuária etc. Então, temos um potencial enorme, solos disponíveis, água e, por uma questão mais ideológica do que técnica, estamos passando por esse processo de discussão. Agora, seguramente, se nós não usarmos estes solos para plantar florestas, elas se deslocarão para outros estados. O Rio Grande do Sul tem uma ótima condição, ou seja, capital querendo vir para cá. Existem solos, água e todas as condições naturais para produzir florestas com qualidade nesse ambiente da metade sul do Estado.

Nós só não vamos conseguir fazer isto se não tivermos uma capacidade de convencimento de alguns setores não-governamentais e da população geral. A população já disse, em audiências públicas, que deseja que existam florestas nesta região. A academia e as universidades dizem que é possível. Nós, técnicos do setor, também temos certeza que é possível criá-las, com qualidade, naquela região. O que falta é transformar isso em política pública.

IHU On-Line – Atendendo às necessidades do meio ambiente, não seria o momento de repensar no mercado consumidor, no que diz respeito ao que é retirado da natureza e o que realmente precisa ser retirado?

Leonel de Freitas Menezes – Temos toda a região Norte do Brasil coberta de florestas. Lá existe um potencial/capital fantástico, que poderia ser utilizado se trabalhado de forma correta. Quando você tem esse enfoque na Floresta Amazônica, uma floresta tropical, eu acredito que é preciso repensar o modelo, pois o atual não funciona há décadas. O Brasil, além disso, é responsável por metade do desmatamento mundial.

É preciso repensar em como utilizar esses recursos como fator econômico e para o desenvolvimento do País. A floresta plantada, além de proteger todo manancial, sempre leva em conta o tripé econômico, social e ambiental. Mas, devido à atual situação, hoje não se admite a produção de uma floresta de maneira econômica, pois um bem de consumo da população não deve permitir a destruição do ambiente e a escravização da sociedade. A empresa que pretende se perpetuar no mercado deve contribuir para o desenvolvimento da comunidade na qual está inserida e precisa levar em conta todos esses fatores.

Em minha opinião, as empresas florestais e produtores ambientais têm feito isso de uma forma muito bem conduzida. Hoje, por exemplo, a área média em que se está plantando no Rio Grande do Sul tem ficado em 50% da área total, ou seja, se existe um hectare para plantar, há, no mínimo, 20% de reserva legal. Depois, temos ainda as áreas de preservação permanentes: banhados, encostas, morros íngrimes, formações nativas etc. Quando somamos essas duas partes (preservação permanente e área de reserva legal) a um planejamento do plantio, a área plantada não passa de 50%, ou seja, para cada hectare que se está plantando são preservados os outros 50%.

Na medida em que estivermos aumentando a área de floresta plantada, também estamos aumentando paralelamente a área de florestas protegidas. Esse tripé está muito bem contemplado pelos grandes industriais e pelos produtores independentes. Nós já pensamos nisso há muito mais tempo, mas a grande mídia descobriu isso só agora. Esse assunto tem ganhado muito espaço, mas, se houver oportunidade de analisar essa sistemática nova de plantio florestal, será possível ver como esse tripé está muito bem fundamentado.

IHU On-Line – Como o senhor vê a importância da gestão responsável dos recursos florestais?

Leonel de Freitas Menezes – A gestão responsável é uma questão de sobrevivência. Você pode até fazer alguma coisa por algum tempo com responsabilidade ambiental, mas, seguramente, quem vai continuar no mercado é aquele que manejar os recursos naturais - não só as florestas, mas a água, solos etc. – de forma responsável. Uma característica peculiar dos investimentos na área de floresta são os investimentos de longo prazo e de capital intensivo. Então, ninguém vai investir em algo a longo prazo baseado naquilo que vá destruir o ambiente, que não vá garantir capacidade para que um determinado solo continue produzindo florestas de qualidade ao longo do tempo. O prazo de maturação, por exemplo, de um projeto de celulose, são 60 anos e, dentro desse período, você terá de oito a dez rotações de florestas e, logicamente, as empresas serão as primeiras interessadas na capacidade de crescimento das florestas, em fazer uso desse solo de forma adequada etc. E, além disso, todas essas empresas são mundiais e o mundo todo está cobrando que a gestão delas seja responsável. É uma condição de sobrevivência, ou seja, quem não respeitar o meio ambiente não sobrevive.

IHU On-Line – Quais são as potencialidades do Rio Grande do Sul na atração de Indústrias de Base Florestal?

Leonel de Freitas Menezes – Como eu disse antes, existe um potencial enorme de crescimento nestes setores, e não é por acaso. Em 1994, já falávamos que o Rio Grande do Sul tinha todas as condições de solo, clima, localização e logística para ser um grande produtor de florestas. O Estado não precisou de governo nenhum oferecendo incentivos fiscais, redução de impostos, porque os investimentos espontaneamente se deslocaram para cá e o potencial de crescimento florestal, de expansão dessa área, é muito grande.

IHU On-Line – E qual é o desenho atual deste setor no Rio Grande do Sul?

Leonel de Freitas Menezes – Primeiramente, os investimentos na área de celulose e papel. Naturalmente, atrás desse setor vem os setores móvel, madeira, tornearia, que empregam mais e geram uma renda muito maior, além de um desenvolvimento econômico e social bastante interessantes. Há exemplos disso no mundo todo.

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