COP-20: tensão de interesses marca a Conferência do Clima em Lima. Entrevista especial com Ricardo Baitelo

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10 Dezembro 2014

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Foto: Cambio Climático

"As maiores notícias da COP vieram antes e, nesse sentido, o acordo entre Estados Unidos e China foi a grande notícia, mas que dificilmente será debatida aqui”, avalia o coordenador de Clima e Energia do Greenpeace Brasil

A principal tensão entre os 190 países que participam da COP-20 é chegar a um acordo acerca do ano em que as nações irão se comprometer com as metas de redução de CO², diz Ricardo Baitelo, que representa o Greenpeace na Conferência do Clima, em Lima, à IHU On-Line, por telefone.

“Um ponto bastante relevante é a divisão de grupos de países que querem jogar o começo do compromisso para 2030 e grupos de países que já assumem o começo dessas novas metas para 2025”, pontua. Segundo ele, a tensão para se chegar a um consenso para o cumprimento de metas demonstra que será difícil estabelecer um acordo para o próximo ano, em Paris. “Com isso dá para dizer que será bem difícil chegar a um consenso, porque, por um lado, só o Brasil e os Estados Unidos querem 2025 como o prazo limite, enquanto a Europa quer o prazo para 2030 e a China e a Índia querem um prazo maior ainda. Então este ponto deve ser negociado”.

Baitelo informa que, entre as notícias que podem ser comemoradas na COP-20, estão a de que a Alemanha já anunciou a data de quando deixará de utilizar usinas nucleares, a de que a União Europeia reduzirá suas emissões em 40% até 2030 e a de que a Índia, apesar de insistir no uso de carvão, vai instalar 100 mil MW de energia solar até o fim da década.  

De acordo com ele, ao longo das negociações da primeira semana, o Itamaraty fez uma proposta metodológica de situar as responsabilidades de cada país a partir da ideia de círculos concêntricos, ou seja, cada nação poderá assumir metas mais ambiciosas ao longo do tempo. Contudo, adverte, “o Brasil se liberou da responsabilidade, por enquanto, de dizer onde se situaria nesse círculo concêntrico. O nosso papel enquanto Greenpeace é realmente pressionar e dizer que o Brasil tem todas as condições e também a responsabilidade de estar no grupo do centro, já que somos um dos seis maiores emissores do mundo e estamos entre o sétimo e oitavo maior PIB do mundo. Então, devemos assumir essa responsabilidade”.

Ricardo Baitelo é coordenador de Clima e Energia do Greenpeace Brasil e doutor em Planejamento Integrado de Recursos pela Poli-USP.

Confira a entrevista.

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Foto: Rede Brasil Atual

IHU On-Line - Como estão as negociações na COP-20 até o momento? Pode nos dar um panorama geral da primeira semana de negociações?

Ricardo Baitelo – Na primeira semana, as negociações foram lentas, sendo que nos primeiros três dias foram basicamente plenárias de apresentação, com todas as delegações falando, discutindo o texto rascunho, que será trabalhado aqui e depois em Paris. Então, diria que ainda é muito cedo para traçar um diagnóstico. Entre alguns pontos que podem ser colocados, um deles é a discussão do Brasil com relação à contabilização de carbono; essa é uma discussão dentro do subgrupo de florestas.

Em um panorama mais geral, posso dizer que as maiores notícias da COP vieram antes e, nesse sentido, o acordo entre Estados Unidos e China foi a grande notícia, mas que dificilmente será debatida aqui. Esses dois países finalmente se comprometeram com metas para 2030. Da parte do Brasil, o Itamaraty fez uma proposta de metodologia de como outros países devem se situar em termos de responsabilidade no futuro, já que propuseram essa nova divisão de círculos concêntricos, onde, ao longo do tempo, cada país vai se comprometendo com metas mais ambiciosas — obviamente, de acordo com o número de riqueza e de possibilidades.

A única crítica que fazemos é ao fato de que o Brasil se liberou da responsabilidade, por enquanto, de dizer onde se situaria nesse círculo concêntrico. O nosso papel enquanto Greenpeace é realmente pressionar e dizer que o Brasil tem todas as condições e também a responsabilidade de estar no grupo do centro, já que somos um dos seis maiores emissores do mundo e estamos entre o sétimo e oitavo maior PIB do mundo. Então, devemos assumir essa responsabilidade.

IHU On-Line - Quais são as críticas em relação ao rascunho do acordo de Paris feitas pelas delegações?

Ricardo Baitelo – Ainda é cedo para traçarmos um comentário sobre esse assunto. Um ponto bastante relevante é a divisão de grupos de países que querem jogar o começo do compromisso para 2030 e grupos de países que já assumem o começo dessas novas metas para 2025. Com isso dá para dizer que será bem difícil chegar a um consenso, porque, por um lado, só o Brasil e os Estados Unidos querem 2025 como o prazo limite, enquanto a Europa quer o prazo para 2030 e a China e a Índia querem um prazo maior ainda. Então, este ponto deve ser negociado.

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"O Brasil diz que os números brasileiros em Copenhague já eram mais ambiciosos. A delegação brasileira diz que aquela meta que se tinha em 2009 de reduzir de 36% a 39% é mais avançada do que as metas que os Estados Unidos estão propondo"

IHU On-Line - O acordo entre China e EUA foi bem visto na COP-20, apesar de os comprometimentos serem também para 2030?

Ricardo Baitelo – Eu ainda não tenho um panorama dos demais países. Posso dizer, informalmente, que, segundo o Brasil, as metas em Copenhague eram mais ambiciosas. A delegação brasileira diz que a meta que se tinha em 2009, de uma redução de 36 a 39%, é mais avançada do que as metas que os Estados Unidos estão propondo. É claro que se tem essa confusão, se cada um coloca uma porcentagem e coloca um ano de referência diferente, fica uma grande salada de frutas. O Brasil argumenta que a proposta dos Estados Unidos, se tomada pela base da brasileira, é menor, porque é só de 19% de redução, e a China, por sua vez, também não disse em que ano vai atingir o pico das emissões. Os chineses mencionam 2030, mas seria, obviamente, mais importante que isso acontecesse antes, considerando que eles são os maiores emissores do mundo.

Outro fator relevante é que a Alemanha anunciou uma data de quando deve deixar de usar energia nuclear internamente. Essa é outra notícia bastante importante. A Alemanha, como uma das maiores potências, deve não só  deixar de utilizar usinas nucleares, mas, em relação ao carvão, esperamos que ela dê o exemplo para o resto da Europa também.  

IHU On-Line – Além da Alemanha, algum outro país já se manifestou sobre quais propostas domésticas irá adotar para enfrentar as mudanças climáticas?

Ricardo Baitelo – A União Europeia quer reduzir em 40% o número  de emissões até 2030. Esse é um número, sem dúvida, mais ousado do que o proposto pela China e pelos Estados Unidos, mas, considerando a responsabilidade histórica, o número poderia ser maior, ou se poderia chegar antes a essa redução de 40%.

De qualquer maneira, é alguma coisa. Dentro das grandes potências, o que é digno de nota é a Índia: parte da proposta deles é muito boa, e outra parte é muito ruim. Os indianos querem instalar  100 mil MW de energia solar até o fim da década — isso é basicamente o tamanho da matriz brasileira inteira. O problema é o outro lado da moeda, relacionado à emissão de carvão, porque eles não querem tocar as fontes de carvão. Nesse sentido, a pressão que estamos colocando para que os países digam quando vão atingir o pico de emissão não está chegando à Índia. A Índia diz que não se deve colocar esse limite imediatamente e que as metas devem ser a partir de 2040 ou 2045, o que é um absurdo.

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"No dia 10 deve ocorrer a Marcha dos Povos, porque, por mais que se tenha essa discussão importante dos textos do novo acordo, que é uma discussão muito fechada, difícil de acompanhar, temos essa característica positiva da COP no Peru, que é de ser uma COP muito mais atrelada aos movimentos sociais, uma COP dos indígenas"

IHU On-Line – Quais têm sido as atividades da Cúpula dos povos frente à COP-20?

Ricardo Baitelo – Posso responder pelo Greenpeace. Tivemos uma grande atividade antes do começo da COP, em Machu Picchu, pedindo para que as grandes economias ajam em função da energia solar.

O Greenpeace Brasil desenvolveu algumas atividades, entre os dias 6 e 9, com os Munduruku, os quais trouxemos para o evento, e indígenas locais do Peru. Devemos fazer essa ponte entre os indígenas daqui, especialmente com a etnia que conseguiu interromper a construção de uma hidrelétrica no Peru. Então os colocamos em contato com os indígenas que devem ser impactados pelo projeto de Belo Monte.

A nossa meta internacional é pedir que os países tenham 100% de energias renováveis no mundo até 2050. No dia 10 de dezembro deve ocorrer a Marcha dos Povos, porque, por mais que se tenha essa discussão importante dos textos do novo acordo, que é uma discussão muito fechada, difícil de acompanhar, temos essa característica positiva da COP no Peru, que é de ser uma COP muito mais atrelada aos movimentos sociais, uma COP dos indígenas. Considerando que ultimamente, no governo Dilma, os direitos indígenas foram totalmente negligenciados, essa é outra pauta que estamos trazendo para discutir aqui.

(Por Patricia Fachin)

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