A amizade espiritual entre Paulo VI e Dom Helder Camara. Entrevista especial com Ivanir Rampon

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02 Novembro 2014

“Para ambos, o Vaticano II não se reduziu apenas a um evento pontual, mas era um ‘espírito’, uma ‘nova forma de ser Igreja’”, constata o teólogo.

Foto: nucleodememoria.vrac.puc-rio.br

A amizade entre Dom Helder Camara e Paulo VI teve reflexos para além da relação que ambos mantiveram ao longo de quase 30 anos. “Para ambos, o Concílio Vaticano II tornou-se uma missão”, e suas preocupações sociais repercutiram posteriormente no papado de Paulo VI, na encíclica Populorum Progresso e no desenvolvimento da Igreja brasileira durante o regime militar.

De acordo com Ivanir Rampon, autor do livro Paulo VI e Dom Helder Camara - Exemplo de uma amizade espiritual, recém lançado pela Editora Paulinas, “Dom Helder e Paulo VI eram abertos à ação do Espírito Santo em suas vidas, na Igreja, no mundo... E isto não era um discurso formal, mas um modo de ser, uma espiritualidade”.

Publicado como “uma homenagem ao novo beato e a Dom Helder (tendo em vista o pedido de abertura do processo de beatificação)”, o livro de Rampon assinala, entre outras questões, como o Concílio Vaticano II deu aos amigos “fundamentos consistentes para propagar um ‘cristianismo libertador, promotor da paz e da justiça’”, e como ambos “entendiam que a ‘religião’ não poderia ser tida como ópio do povo porque ‘esquecia a vida terrena’ e defendia a ordem social que, não raro, era injusta, usava do freio da prudência para evitar mudanças sociais. Ora, a Igreja Católica estava no propósito de tornar-se servidora e pobre e de engajar-se, decididamente, na luta por uma sociedade fraterna”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Ivanir Rampon faz referência a cartas e conversas entre Dom Helder e o papa Paulo VI, mencionando que “Montini gostava de saber as opiniões de Dom Helder e as considerava de suma importância. Nos dias anteriores ao Concílio, os dois amigos se encontraram porque já estava planejado um ataque à colegialidade episcopal. Os dois defendiam esta ideia e muito labutaram para que a mesma se tornasse uma prática constante na vida da Igreja. Dom Helder levava a experiência positiva da CNBB e do CELAM, os quais viviam a colegialidade antes de esta ser definida pelo Vaticano II. Dom Helder e Dom Montini estiveram profundamente envolvidos na história das duas conferências”. Rampon assinala ainda que Paulo VI e Dom Helder conversavam sobre a missão da Igreja no aspecto político durante a ditadura militar. “Para se ter uma ideia, em 1966, Dom Helder não presidiu a celebração pelo segundo ano de aniversário da ‘revolução’.

Por causa disto, pagou um preço alto. Foi caluniado e difamado na imprensa. Alguns dias depois, em visita ao Papa, Paulo VI quis saber como o amigo estava sendo tratado pelo governo brasileiro, e Dom Helder lhe contou o episódio de não ter rezado a Missa em ação de graças pelo regime militar e das ameaças de que seria removido da Arquidiocese. O Papa concordou com ele de não ter rezado a Missa e afirmou textualmente: ‘Esta pobre Revolução não resolveu e não resolverá os problemas fundamentais do país. Falta-lhe energia e envergadura para tanto’. Convém lembrar que quando Dom Montini fora Arcebispo de Milão também fora acusado de ser comunista por defender os trabalhadores”. 

Ivanir Rampon é graduado em Teologia pelo Itepa Faculdades, em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo – UPF, mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE e doutor em Teologia pela Pontificia Università Gregoriana, Roma. Atualmente leciona no Itepa Faculdades, em Passo Fundo - RS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como e em que contexto Dom Helder Camara e Paulo VI se conheceram, em 1950?

Ivanir Rampon - Poderíamos dizer que o antecedente imediato ao primeiro encontro entre o Pe. Helder e o Pe. Montini aconteceu em 1948. Naquele ano, tendo em vista os bons resultados que o Pe. Helder vinha adquirindo na organização do Secretariado Nacional da Ação Católica Brasileira, bem como as boas relações com o Episcopado, o Núncio Apostólico do Brasil, Dom Carlo Chiarlo, resolveu convidá-lo para ser Conselheiro da Nunciatura. Dom Chiarlo, na ocasião, queixou-se que, até então, não havia tido sucesso com os seus Conselheiros, mas que agora parecia ter acertado.

Para o recém-titulado Monsenhor Helder, o convite representava uma verdadeira honra, mas também uma oportunidade de realizar um sonho de lideranças da ACB, ou seja, criar uma conferência de Bispos que fosse capaz de analisar os problemas nacionais e colaborar para criar uma ordem evangélica na sociedade brasileira. Helder também queria que fossem oferecidos bons textos aos Bispos, escritos por especialistas, a fim de ajudá-los a tomarem as melhores decisões diante dos problemas. Dom Chiarlo apoiava estas ideias e, no final do Ano Santo de 1950, encaminhou Monsenhor Helder ao Subsecretário de Estado de Pio XII, Monsenhor Montini, a fim de que lhe apresentasse a proposta da ACB.

Na ocasião, Montini estava com 53 anos e contava com uma história de vida muito semelhante ao longínquo padre brasileiro. A história de ambos é análoga em muitos aspectos familiares, estudantis, eclesiásticos e espirituais, em que pese a distância geográfica e cultural entre Itália e Brasil. Chegando ao Vaticano, Helder foi logo recebido e, em francês, expôs a ideia da criação da assembleia dos Bispos. Montini o escutou e não falou quase nada. Disse, apenas, que a decisão iria depender da cúria e do próprio Papa. Dias depois, num segundo encontro, Montini comprometeu-se em dar pleno apoio à iniciativa. Mas alertou que o sacerdote brasileiro precisava tomar muito cuidado. Então lhe mostrou uma pequena publicação, a revista Juventude, editada por algumas moças que o auxiliavam no Secretariado da ACB, que chegara ao Vaticano sublinhada em vermelho e com grandes pontos de interrogação, enviada por autoridades brasileiras sugerindo alguma necessidade de censura à publicação, em razão de excesso de modernismo. Tal “aviso”, no entanto, deu efeito contrário, pois fortaleceu a amizade que estava nascendo e que nunca conheceu interrupção. Montini conhecia tal método de denúncia e os interesses que eles tinham por trás. No livro Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual, relato com mais detalhes sobre estes dois encontros que aconteceram no Ano Santo e que foram importantíssimos para a história da Igreja no Brasil no período posterior. A amizade entre Montini e Camara se abriu para amplos horizontes eclesiais e sociais.

IHU On-Line - Como o senhor descreve a relação de amizade entre eles? Pode nos relatar como essa amizade se desenvolveu ao longo de quase três décadas em que eles foram amigos, até a morte de Paulo VI?

Ivanir Rampon - Em Teologia Espiritual, analisamos os diversos tipos de amizades existentes, tais como a superficial e a profunda, a infiel e a fiel, a falsa e a verdadeira... A tradição monástica cristã desenvolveu o conceito de amizade espiritual, que é marcada, principalmente, pela comunhão de ideais, bem como a busca contínua de Deus. Esta se dá com “a presença de Jesus” que abre a amizade para horizontes mais vastos, pois os amigos revelam traços de Jesus. É estabelecida uma comunicação baseada na caridade e na devoção que provêm de Deus e a Deus conduzem. Na minha compreensão, entre Camara e Montini houve uma grande amizade espiritual. Esta se desenvolveu em sete etapas interligadas: 1) início da amizade espiritual; 2) amizade com amplos horizontes; 3) amizade aggiornada; 4) amizade guiada pela Providência; 5) amizade provada; 6) amizade sintonizada; 7) amizade confirmada e eterna.

IHU On-Line - Quais os traços da espiritualidade de D. Helder e de Paulo VI?

Ivanir Rampon - Dom Helder e Paulo VI eram abertos à ação do Espírito Santo em suas vidas, na Igreja, no mundo... E isto não era um discurso formal, mas um modo de ser, uma espiritualidade. Por isso, é difícil falar de traços da espiritualidade em sentido estático, mas pode-se falar em processo ou caminho como, no caso helderiano, foi dissertado no livro O caminho espiritual de Dom Helder Camara. 

Entre os traços comuns a ambos, gostaria aqui de destacar apenas um, a saber, de conduzir ou concretizar a fase pós-conciliar à altura do próprio Concílio. Por causa deste traço espiritual, ambos se alegravam e sofriam, foram amados e incompreendidos, viveram calmarias e tempestades. Por causa deste traço, entre eles, a amizade espiritual se fortificou com compreensão e apoio mútuos.

Deste modo, pode-se dizer que, para ambos, o Concílio Vaticano II tornou-se uma missão. Dom Helder dizia: “Quanto a mim, se me fosse pedido um programa de vida, uma incumbência, uma missão, não vacilaria em dizer: procuremos ser testemunhas do Vaticano II; exemplos vivos de cristianismo aberto, arejado, construtivo, confiante, corajoso; cristãos de nome e de fato; cristãos adultos”. O Concílio dava-lhes fundamentos consistentes para propagar um “cristianismo libertador, promotor da paz e da justiça”.

Religião não é ópio do povo

Entendiam que a “religião” não poderia ser tida como ópio do povo porque “esquecia a vida terrena” e defendia a ordem social que, não raro, era injusta, usava do freio da prudência para evitar mudanças sociais. Ora, a Igreja Católica estava no propósito de tornar-se servidora e pobre e de engajar-se, decididamente, na luta por uma sociedade fraterna. Por isso, apoiavam o avanço da ciência e a prática da justiça e da caridade; evitavam deixar-se prender às estruturas do capitalismo; denunciavam as desigualdades sociais, propondo e buscando a superação da distância entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, crendo sinceramente que “a justiça é condição para a paz”. Para ambos, o Vaticano II não se reduziu apenas a um evento pontual, mas era um “espírito”, uma “nova forma de ser Igreja”. Dom Helder, por sua vez, com prece e ação, ajudava o amigo Paulo VI neste momento ímpar da sucessão petrina.

IHU On-Line - Qual foi a influência de Dom Helder Camara sobre o papado de Paulo VI, especialmente durante o Concílio Vaticano II? Há registro de correspondências trocadas entre eles sobre os temas do Concílio, por exemplo?

Ivanir Rampon - Montini gostava de saber as opiniões de Dom Helder e as considerava de suma importância. Nos dias anteriores ao Concílio, os dois amigos se encontraram porque já estava planejado um ataque à colegialidade episcopal. Os dois defendiam esta ideia e muito labutaram para que a mesma se tornasse uma prática constante na vida da Igreja. Dom Helder levava a experiência positiva da CNBB e do CELAM, os quais viviam a colegialidade antes de esta ser definida pelo Vaticano II. Dom Helder e Dom Montini estiveram profundamente envolvidos na história das duas conferências.

Também após a Missa de abertura do Concílio, os dois se encontraram para conversar, entre outros aspectos, sobre a própria Missa. Dom Helder sofreu vendo excesso de pompa, de pobreza litúrgica, de falta de sentido comunitário... No encontro com o amigo comentou a sua “impressão dolorosa” e o Cardeal disse: “Admiro a altura e a beleza de seus planos. O senhor só sabe pensar nas dimensões do mundo, ou melhor, da Igreja”. Entre a primeira e segunda sessão do Concílio, faleceu João XXIII. Em sua primeira mensagem, Paulo VI comprometeu-se em continuar os trabalhos iniciados por João XXIII. Dom Helder viajou para Roma a fim de participar do segundo período do Concílio, ansioso para ver o querido amigo Montini banhado de João XXIII. Devido à intensa amizade entre o Papa e o Arcebispo brasileiro, era comentário geral entre os cronistas e observadores de que Dom Helder exerceria influência sobre o Papa.

Sintonia em prol do Vaticano II

De fato, em seu discurso à cúria, Paulo VI falou abertamente na representação dos Bispos do mundo inteiro, destinada a ajudá-lo no governo da Igreja. Ora, esta era uma das ideias mais defendidas por Dom Helder, tanto que, após o discurso papal, ele começou a preparar, para a reunião do Ecumênico, um pequeno trabalho levantando ideias a respeito do assunto. No primeiro encontro dos Bispos brasileiros com o novo Papa, Paulo VI lembrou que o padre deve ficar no meio do povo, participando dos seus problemas, lutando em seu favor, não ficando indiferente aos que vivem nas favelas e fechando os olhos diante da injustiça social.

Lembrou-se, então, do convite que Dom Helder havia feito para pregar um retiro aos Bispos do Brasil e entregou uma placa — obra de arte — para o secretário da CNBB, Dom Helder. Durante a segunda sessão do Concílio, o Arcebispo brasileiro tinha escrito uma carta ousada ao Papa. Antes de retornar, no final de uma Missa, segurando nas mãos do Arcebispo brasileiro, Paulo VI lhe disse amavelmente, em italiano: “Recebi sua carta. Precisamos conversar, antes de seu regresso”.

Além disso, podemos dizer que Paulo VI acompanhou o trabalho de Dom Helder na comissão que elaborava a futura Gaudium et Spes; pedia para que alguns amigos, como Dom Colombo, seu sucessor em Milão, procurasse e conversasse com o Arcebispo brasileiro; pediu estudo ao Ecumênico, grupo informal liderado por Dom Helder. Convém salientar que, na terceira sessão do Concílio, o Papa deu pessoalmente o Pálio ao Arcebispo brasileiro, ao passo que os outros receberam do Cardeal Ottaviani. A cerimônia se deu na capela privada, vizinha ao quarto do Papa. Paulo VI, muito amável, lhe disse: “Deus sabe a alegria que tenho de dar-lhe este Pálio”. Enfim, entre Montini e Camara houve profunda sintonia nos trabalhos em prol do Vaticano II.

IHU On-Line - Dom Helder fez sugestões a Paulo VI à época da elaboração da Populorum Progresso, a encíclica de Paulo VI sobre o Progresso dos povos?

Ivanir Rampon - Dom Helder, consciente que não alcançava institucionalmente no Concílio, nem com a Gaudium et Spes, às necessidades e expectativas do Terceiro Mundo, pediu a Paulo VI uma encíclica que tratasse do desenvolvimento dos povos, e esta se concretizou na Populorum Progressio de 1967. Ao ler a encíclica, o Arcebispo muito se emocionou. Era mais um gesto ousado de seu amigo Paulo VI.

Logo após o lançamento do documento, Dom Helder recebeu do “mundo inteiro” cabogramas pedindo comentários (especialmente da França e dos Estados Unidos) porque pensavam que ele havia colaborado no texto. De fato, a Encíclica possui uma grande sintonia com o pensamento socioespiritual helderiano a ponto de setores eclesiásticos e da imprensa terem comentado que o espírito, o tema e até certas expressões pareciam ser de Dom Helder e, que talvez, ele teria sido um dos autores oficiais do texto.

O Arcebispo, no entanto, sempre negou sua participação na autoria, mas reconhecia a identificação de seu pensamento no conteúdo da Encíclica. Antes mesmo dos teólogos e outros especialistas fazerem estudos analíticos da Encíclica, Dom Helder preparou um texto, escrito em francês e português, para ser divulgado no mundo inteiro. Inicia dizendo: “Obrigado, Santo Padre, em nome do Terceiro Mundo”. Então comenta dez principais razões pelas quais a Encíclica será decisiva “em nossa luta pelo desenvolvimento”. Além de ser solicitado para fazer comentários à Populorum Progressio, Dom Helder recebeu muitos convites, no Brasil e no estrangeiro, para abordar temáticas da Encíclica. Ele peregrinou em vários países — tais como Canadá, Itália, Suiça, Bélgica — a fim de falar da Populorum Progressio.

IHU On-Line - Quais foram as relações de D. Helder Camara com a Santa Sé durante o regime militar brasileiro e como a Santa Sé avaliava sua atuação na Igreja do Brasil? Como Paulo VI se manifestou acerca da posição adotada pela Igreja brasileira à época do regime militar, considerando tanto a postura de D. Helder quanto de outros bispos que, ao contrário, foram favoráveis ao regime?

Ivanir Rampon - O pastoreio de Dom Helder Camara como Arcebispo de Olinda e Recife (1964-1985) coincidiu com o período da repressão militar e da lenta abertura democrática. Em nome do Evangelho de Jesus Cristo, Dom Helder fez uma profunda opção pelos pobres e se dispôs a dialogar com todos, inclusive com o regime militar, mas este foi fechando todas as portas e janelas, pois não queria diálogo e não suportava a verdade evangélica defendida pelo Arcebispo.

O regime fez uma grande perseguição a Dom Helder, criando situações para denunciá-lo como perigoso ou maléfico para o Brasil e para Igreja, e esta deveria tomar sérias providências. Assim, os sustentadores da ditadura queriam salvar a Igreja do perigo que lhe representava Dom Helder...

Como agiu Paulo VI? A amizade espiritual dos dois se manteria perante tantas denúncias, fofocas, maldades, mal-entendidos? Diversos e excelentes estudos foram feitos sobre as calúnias que foram impetradas a Dom Helder. Mas, brevemente, podemos dizer que alguns dicastérios romanos acolheram as queixas do governo autoritário brasileiro e de setores conservadores da própria Igreja no Brasil, que se opunham à linha conciliar adotada por Dom Helder.

No quinto capítulo do livro descrevemos, inclusive, a tentativa de fazer com que Paulo VI se opusesse a Dom Helder. Secretários do Papa interceptaram correspondências e por duas vezes negaram a audiência privada entre os amigos — sem que Paulo VI soubesse da negativa...

Porém, Paulo VI sempre afirmou que o Arcebispo gozava de confiança total. Portanto, Paulo VI apoiava a luta de Dom Helder em prol da justiça, da vida, da liberdade, da democracia. Mas o regime também buscava apoios do Papa, tentando criar uma mentalidade de que Dom Helder era contra Paulo VI...

O intento do regime, felizmente, faliu desde o início. A amizade espiritual transcendeu as fofocas, as mentiras, as intrigas... Por ocasião do martírio do Pe. Henrique (Pereira Neto), Paulo VI abertamente consolou Dom Helder enviando um telegrama no qual pedia “penhor divino” para o amigo e para os familiares do Pe. Henrique, bem como para todo o povo de Deus, a fim de que tivessem forças para superar aquele momento de provação. Escreveu também que estava pesaroso por aquele triste acontecimento.

IHU On-Line - D. Helder e Paulo VI conversavam sobre política e, mais especificamente, sobre a relação entre política e religião, considerando o contexto latino-americano dos anos 1960? Ainda nesse sentido, a Igreja de Roma sempre manteve uma postura firme contra o comunismo, e D. Helder, no Brasil, sempre dialogou e apoiou militantes de esquerda que eram contra o regime. Esses temas apareciam nas conversas deles? Como?

Ivanir Rampon - Paulo VI e Dom Helder conversavam sobre a missão da Igreja no aspecto político. Para se ter uma ideia, em 1966, Dom Helder não presidiu a celebração pelo segundo ano de aniversário da “revolução”. Por causa disto, pagou um preço alto. Foi caluniado e difamado na imprensa. Alguns dias depois, em visita ao Papa, Paulo VI quis saber como o amigo estava sendo tratado pelo governo brasileiro, e Dom Helder lhe contou o episódio de não ter rezado a Missa em ação de graças pelo regime militar e das ameaças de que seria removido da Arquidiocese. O Papa concordou com ele de não ter rezado a Missa e afirmou textualmente: “Esta pobre Revolução não resolveu e não resolverá os problemas fundamentais do país. Falta-lhe energia e envergadura para tanto”.

Convém lembrar que quando Dom Montini fora Arcebispo de Milão também fora acusado de ser comunista por defender os trabalhadores. No mais, em 1960, Montini conheceu pessoalmente o trabalho de Dom Helder nas favelas do Rio de Janeiro, além de ser admirador da mística helderiana desde os anos 50. Quando Dom Helder foi denunciado pela imprensa conservadora, por políticos e pela TFP como comunista, Paulo VI não deu importância a tais denúncias levianas. O conhecimento que ele tinha da trajetória de Dom Helder e a amizade sincera devotada mutuamente falavam mais alto. A amizade dos dois era tão profunda que, na década de 60, alguns funcionários do Vaticano sabiam que, quando o Arcebispo brasileiro chegava à antecâmara pontifícia, o próprio Papa saía para abraçá-lo, pois não queria que o amigo esperasse o abraço.

Entre os assessores do Papa corria até uma piadinha — não se sabe se é verídica — que, certa vez, Paulo VI, sorrindo, cordialmente, disse-lhe: “Eccolo qui, il nostro ‘Arcivescovo rosso’” e, Dom Helder completou: “In umile presenza del ‘Papa comunista’”. Perguntado se era verdade que o Papa o havia chamado de “Arcebispo Vermelho”, Dom Helder respondeu que “sim”, mas que o fizera como brincadeira, pois Paulo VI sabia que, no Brasil, quem não era reacionário, era considerado comunista ou estava a serviço do comunismo.

IHU On-Line - Em que medida a vida espiritual de D. Helder e do Papa Paulo VI se manifesta na condução de cada diante da Igreja, seja no Brasil, no caso de D. Helder, seja acerca dos rumos da Igreja, no caso de Paulo VI?

Ivanir Rampon - A vida espiritual de cada qual, bem como a amizade entre os dois, foram fundamentais para a história da Igreja e para a história da Espiritualidade na América Latina de tal maneira que será impossível escrever a história da Igreja no século passado, sobretudo na América Latina, sem destacar a importância ímpar de Dom Helder na reforma da Ação Católica, na fundação da CNBB e do CELAM, na ação profética, na atuação em prol do Concílio, na preparação da geração que fez Medellín, na atuação para não desfazer Medellín em Puebla... Dom Helder também aconselhou Paulo VI a ser peregrino da paz, a escrever uma encíclica sobre o progresso dos povos, a reunir o Episcopado Latino-Americano para “aplicar” o Vaticano II no Continente — que se concretizou na Conferência de Medellín; a abandonar o Vaticano e ir morar na periferia de Roma... Em relação a Paulo VI estou plenamente de acordo com o Papa Francisco: foi um grande Papa, um cristão corajoso, um apóstolo incansável... Foi o grande e humilde timoneiro do Concílio.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Ivanir Rampon - Em 2014, o Papa Francisco decidiu beatificar Paulo VI, e o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, por sua vez, decidiu solicitar a autorização da Congregação para a Causa dos Santos a fim de iniciar o processo de beatificação de Dom Helder. Louvado seja Deus! O livro Paulo VI e Dom Helder Camara – exemplo de uma amizade espiritual quer ser uma singela e sincera homenagem ao Beato Paulo VI e ao seu amigo Helder Camara, refletindo a amizade espiritual que permeava a vida destes dois homens do Evangelho! Que Montini e Camara nos inspirem a viver profundas amizades espirituais nestes novos tempos em que precisamos da “revolução da ternura”, da “cultura do encontro” e de exemplos inspiradores, pois “as palavras comovem, mas o testemunho arrasta”, produzindo muitos frutos!

(Por Patricia Fachin)

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