''Mudanças na Igreja não acontecem como num passe de mágica''. Entrevista especial com Manoel Godoy

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07 Agosto 2013

“Será que os grandes eventos da Igreja continuarão a ser, no pontificado de Francisco, o momento forte de afirmação dos novos movimentos de corte fundamentalista e integralista?", pergunta o diretor executivo do Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, de Belo Horizonte.

            Foto:http://migre.me/fGmKB

Confira a entrevista.

"É interessante a observação que ouvi de quem esteve muito perto de todo o acontecimento da JMJ. Uma coisa é o discurso do Papa, outra a postura do clero presente: nada mudou. Os carreiristas continuaram buscando espaço de poder do mesmo jeito”, constata Manoel Godoy, padre, teólogo, em entrevista à IHU On-Line. Nas falas do papa, enfatiza, ainda não é possível “delinear as linhas mestras de seu pontificado”, mas “alguns acentos, que poderíamos traduzir mais ou menos assim: ‘trabalhem, não se deixem amedrontar, dialoguem muito, sejam simples e testemunhem Jesus Cristo e sua Boa Nova por todos os cantos’”. A postura de Francisco demonstra que ele “não tem tanto preocupações com a ortodoxia, mas muito mais com a paralisia a que fomos submetidos”, avalia em entrevista concedida por e-mail.

Para Godoy, um dos pontos significativos que emerge dos discursos de Bergoglio é a “visão” que ele “tem da pessoa do bispo: homens simples, despojados, alegres, desapegados, na frente, no meio e atrás do povo (tudo ao mesmo tempo), não carreiristas, contentes com o lugar que ocupam, sem ficar aspirando outros lugares, que saibam guiar sem comandar, pastores e não mandatários”. Segundo ele, a cristologia de Francisco “está profundamente unida à eclesiologia, isto é, insistiu que a comunidade eclesial é o espaço concreto para a experiência cristã. Sua moral também tem perspectiva bastante personalista – centrada na pessoa – e não em abstrações. Podemos dizer que Francisco está muito mais próximo da perspectiva pastoral, mais preocupado com a ortopráxis do que com a ortodoxia”

Manoel Godoy é graduado em Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, São Paulo, mestre em Práxis Cristã pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, Belo Horizonte. Foi assessor da CNBB por dez anos e membro da Organização dos Seminários Latino-Americanos, do CELAM/Bogotá. Atualmente é diretor executivo do Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, professor do Instituto de Teologia Pastoral – ITEPAL, e do Centro Loyola, em Belo Horizonte.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que avaliação faz da visita do Papa? Já é possível vislumbrar as linhas mestres de seu pontificado?

                    Foto de www.cnbb.org.br

Manoel Godoy - Cada pessoa tem o seu perfil e o Papa Francisco marcou muito essa viagem com seu estilo pessoal: simples, franco e direto. A primeira vista, parece que há uma continuidade com o jeito do Papa João Paulo II, mas, olhando mais a fundo, percebem-se logo diferenças profundas. Enquanto no Beato os gestos tinham mais aparências teatrais, mais fabricados, em Francisco tudo sai muito natural, com exceção daquela insistência em carregar sua própria bolsa de viagem. Por outro lado, Bento XVI, sua relação com o público, não deixava de transparecer seu enorme esforço por se mostrar simpático e agradável. Saindo deste aspecto mais externo, o conteúdo das mensagens deixadas por Francisco precisa ser analisado com mais cuidado. São níveis diferentes, pois os destinatários variam enormemente: jovens, autoridades civis, hierarquia católica, jornalistas.

Não diria que é possível delinear as linhas mestras de seu pontificado, mas podemos ver alguns acentos, que poderíamos traduzir mais ou menos assim: “trabalhem, não se deixem amedrontar, dialoguem muito, sejam simples e testemunhem Jesus Cristo e sua Boa Nova por todos os cantos”. Já é significativo que ele incentive a todos a colocarem a mão na massa, sem medo. Há muito tempo estamos cercados por escrúpulos e medos, pois as ações na Igreja são sempre alvo de muita vigilância hierárquica. Parece que Francisco não tem tanto preocupações com a ortodoxia, mas muito mais com a paralisia a que fomos submetidos. Vamos ver até onde vai a liberdade de ação em seu pontificado, pois até agora estamos sendo desafiados a trabalhar sem medo. Esse clima de liberdade na Igreja é muito bom e poderá produzir frutos criativos em todos os segmentos eclesiais. Porém, os frutos desta visita ainda estão por vir. Mudanças na Igreja não acontecem como num passe de mágica. Há muitos filtros que se interpõem entre o que Francisco falou e a pastoral concreta na Igreja.

IHU On-Line - Quais foram os pontos mais relevantes do discurso do papa aos bispos da CNBB e do CELAM?

Manoel Godoy - Um dos pontos mais significativos que emerge destes discursos é a visão que Francisco tem da pessoa do bispo: homens simples, despojados, alegres, desapegados, na frente, no meio e atrás do povo (tudo ao mesmo tempo), não carreiristas, contentes com o lugar que ocupam, sem ficar aspirando outros lugares, que saibam guiar sem comandar, pastores e não mandatários. Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham “psicologia de príncipes”.

Outro ponto de destaque é sua visão de Igreja: capaz de derrubar as estruturas caducas, com um espírito mais pastoral que administrativo; com parâmetros baseados em novas culturas, não encarcerada numa mentalidade meramente rural; marcada pela ampla participação de todos os batizados, por meio de conselhos em todos os níveis; superando clericalismos de toda a ordem e funcionalismos; atenta as periferias existenciais e não centrada em si mesma. Uma Igreja com coragem de assumir o hoje que lhe cabe e não viver se refugiando no passado e nem no futuro. Francisco critica a postura de quem, perante os males da Igreja, busca solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas superadas.

Destaco ainda um terceiro ponto: o papel dos leigos. Francisco deixa claro que a Igreja não pode continuar infantilizando os leigos e que isso, às vezes, acontece com profunda conivência dos próprios leigos. Desafiou a todos a desenvolverem alguns valores que revelam a mais profunda raiz cristã: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, frater¬nidade, alegria. Insistiu nesta última, afirmando que o cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto.

E o último ponto é sua visão sobre as ideologias, onde alertou para possíveis desvios, classificados como reducionismo socializante, ideologização psicológica, proposta gnóstica, proposta pelagiana. Alerta, porém, que não há uma hermenêutica asséptica. E sobre os desvios, é bastante incisivo quando fala sobre a desviação pelagiana. Afirma que ela aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Na América Latina costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a “segurança” doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura “recuperar” o passado perdido.

IHU On-Line - O que é possível entender por reforçar e reformar as estruturas da igreja, mencionado pelo papa em seus discursos?

Manoel Godoy - Quando Francisco fala especificamente de mudanças de estrutura não fica muito claro, aponta a missionariedade como instrumento para superação das estruturas caducas da Igreja, mas, pelos discursos, pode-se deduzir que Francisco pretenda uma Igreja mais simples, uma Igreja que vá ao encontro dos pobres e viva mais próxima deles; uma Igreja com um laicato mais atuante, menos passivo; uma Igreja que seja capaz de viver nas “periferias existenciais”, descentralizada. Nesse sentido, é grande a perspectiva sobre os resultados da Reforma da Cúria, comandada pelo grupo de oito cardeais nomeados pelo Papa para essa tarefa.

IHU On-Line - Considerando que Francisco participou da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, que postura a Igreja de Roma deve adotar em relação à Igreja do Brasil? Vislumbra uma proximidade ou um diálogo mais estreito com a Igreja latino-americana? E qual o significado dessa aproximação?

Manoel Godoy - Creio que haverá muito mais diálogo, mais entendimento, pois o Papa conhece a Igreja do Brasil e da América Latina. Os dois papas anteriores tinham uma postura muito eurocentrista e quando se dirigiam à Igreja do nosso Continente falavam a partir de informações de alguns que eles elegiam como interlocutores privilegiados. Pelo que se viu na Jornada Mundial da Juventude - JMJ, nas falas do papa com o episcopado brasileiro e latino-americano, podemos esperar que seja muito frutuosa essa aproximação, pois ele fala diretamente e não manda recados por meio desse ou daquele. Francisco deixou claro que não precisará de fontes privilegiadas para se comunicar com nosso continente. Isso evitará o clima que vivemos nos dois últimos pontificados.

IHU On-Line - A partir dos discursos do Papa, como seu pontificado deve compreender as Comunidades Eclesiais de Base? Depois de alguns anos de recesso das CEBs, percebe a sinalização de uma retomada?

Manoel Godoy - Por conhecer a realidade das CEBs, ele próprio apresentou a proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais como caminho de superação do clericalismo, rumo a um crescimento da responsabilidade laical. Quando imaginaríamos que um papa falasse das CEBs e as recomendasse como meio válido de evangelização? È claro que os contextos são outros e que hoje as CEBs têm características bem diferentes das dos anos 1970 e 1980, mas é muito significativo que a proposta de sua retomada venha do próprio papa. Quem sabe ele mande uma palavra de estímulo para o próximo Intereclesial a ser realizado em Juazeiro, no Ceará. Devemos encaminhar esse pedido a ele.

IHU On-Line - Quais são os pontos principais da teologia de Francisco e como o senhor compara àqueles de Bento XVI e de João Paulo II?

Manoel Godoy - No campo teológico, valorizamos muito as áreas da dogmática, da sistemática, e quase nem aparece, como teologia propriamente dita, a dimensão da práxis cristã, da pastoral. Sua cristologia está profundamente unida à eclesiologia, isto é, insistiu que a comunidade eclesial é o espaço concreto para a experiência cristã. Sua moral também tem perspectiva bastante personalista – centrada na pessoa – e não em abstrações. Podemos dizer que Francisco está muito mais próximo da perspectiva pastoral, mais preocupado com a ortopráxis do que com a ortodoxia. Isso não quer dizer que a ortodoxia não lhe interesse, mas está muito mais interessado na ortopráxis, se diferenciando dos dois papas anteriores, onde a preocupação com a ortodoxia criou um clima muito ruim para o desenvolvimento da teologia.  Acredito que o período de perseguição aos teólogos tenha terminado. Com Francisco vai prevalecer muito mais o diálogo.

IHU On-Line - Como avalia a primeira encíclica do Francisco, a Lumen Fidei?

Manoel Godoy - Como o próprio papa afirmou, essa encíclica foi escrita a quatro mãos. Pelo que li, penso que podemos afirmar que foi escrita pelo papa emérito e que Francisco emprestou sua assinatura somente. È um texto clássico, que privilegia como seu interlocutor básico o homem moderno europeu. Acontece que esse discurso não convence a este interlocutor e não faz arder o coração do povo crente de nossas comunidades. As expressões concretas de fé vivida pelo povo não aparecem. Não dá para identificar Francisco em nenhum parágrafo da Lumen Fidei. O interlocutor do papa emérito é o homem europeu; creio que Francisco destacaria as formas concretas de testemunho de fé presente na vida do povo, sobretudo dos pobres. Ademais, seria muito pertinente ligar a reflexão sobre a Fé com as encíclicas anteriores – sobre a caridade e a esperança. A Fé, tratada em conjunto com as outras virtudes teologais, destacaria que o mais importante é o amor, a caridade (ICor. 13,13). Não acredito na força evangelizadora desse tipo de discurso. Como o papa Francisco alertou ao clero que não deve ficar preso em seus escritórios produzindo documentos abstratos, esperemos a originalidade de sua, verdadeiramente sua, encíclica sobre a Igreja dos Pobres.

IHU On-Line - O papa tem organizado várias comissões para reformar a Cúria Romana.
Que tipo de reforma vislumbra?

Manoel Godoy - A comissão composta pelos oito cardeais para implementar a reforma da Cúria tem nas suas fileiras o arcebispo de Boston, Sean Patrick O'Malley, um dos cardeais mais comprometidos na luta contra os padres pedófilos. Seguramente, se destacará como uma das vozes mais claras contra o estado de coisas a que chegou a Cúria romana. Dentre as medidas para sanar tal estrutura eclesiástica se espera, no mínimo, que se acabe com essa prática de eclesiásticos aposentados permanecerem vivendo por lá. No momento, vários elementos que compuseram a equipe de trabalho do Papa João Paulo seguem na Cúria. Torna-se muito difícil implementar mudanças mais radicais com esse pessoal por perto. Também, pode-se imaginar que o Papa Francisco dará mais reforço às representações continentais e não ficará tão preso a um só continente, o europeu, como fizeram seus predecessores. Era tal essa mentalidade que mesmo os de outros continentes que eram convocados para o trabalho da Cúria tinham forte mentalidade europeia. Quem sabe também consiga implementar verdadeiras reformas na condução das finanças do Vaticano, tornando esse tema bem transparente, evitando escândalos. Outro ponto crucial da reforma são as nunciaturas. Por exemplo, de que adianta o Papa Francisco falar de bispos pastores se as nunciaturas seguirem escolhendo administradores, canonistas?  Não é possível enxugar a sala sem fechar a torneira.

IHU On-Line - Entre as declarações do Papa, está a afirmação de que “se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem ou eu para julgá-la?” O que essa declaração significa do ponto de vista da doutrina da Igreja e de sua postura em relação aos homossexuais?

Manoel Godoy - A maneira como Francisco reagiu à pergunta do jornalista sobre os gays faz parte de sua maneira direta e simples de enfrentar temas mais complexos, porém não apontou para mudanças doutrinarias. Dá para deduzir que continua vigente o axioma de sempre: a Igreja condena o pecado e não o pecador. Continuará a Igreja afirmando que a homossexualidade é um mal intrínseco? Aqui está o no górdio da questão. Por outro lado, um discurso mais ameno sem mudanças práticas, pode ir levando as palavras para um enorme descrédito.  

IHU On-Line - O senhor tem informações de bastidores sobre a visita do Papa ao Brasil?

Manoel Godoy - Não chega a ser informações de bastidores, porem é interessante a observação que ouvi de quem esteve muito perto de todo o acontecimento da JMJ. Uma coisa é o discurso do Papa, outra a postura do clero presente: nada mudou. Os carreiristas continuaram buscando espaço de poder do mesmo jeito. Muita gente terá que adaptar-se em alguns aspectos, frente à nova agenda trazida pelo papa Francisco à Igreja, mas a mentalidade nociva de busca de poder, pelo que se viu durante a JMJ, continua sem grandes alterações. Também a performance dos novos movimentos continuou, como nas JMJ anteriores, a mesma. Será que os grandes eventos da Igreja continuarão a ser o momento forte de afirmação dos novos movimentos de corte fundamentalista e integralista?

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Manoel Godoy - Achei significativo o fato de o Papa Francisco ter descartado fazer de sua visita algo como de Chefe de Estado. Não começar por Brasília já é algo muito bom. Apesar de não termos ainda nada claro do que será a caminhada da Igreja no pontificado de Francisco, podemos afirmar que há um clima diferente, um clima bom. O ambiente de boataria que sufocou, sobretudo, os últimos anos do pontificado de Bento XVI parece ter dado uma trégua. O diálogo será sempre a maneira mais cristã de viver entre irmãos. E isso parece ser o que Francisco mais deseja!

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