''Papa Francisco, faça-nos sonhar que outra Igreja é possível''. Artigo de Enzo Bianchi

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12 Junho 2013

“Francisco nos autoriza a sonhar ou, melhor, a invocar que a Igreja, que nós, cristãos, sejamos mais conformes ao Evangelho, à vida humana vivida por Jesus, à vida em que ele deixou os rastros para chegar a Deus”.

O texto que publicamos é uma síntese da lectio magistralis que o monge italiano Enzo Bianchi, prior de Bose, proferiu nesse domingo no Palazzo del Collegio di Asti, inaugurando o festival Passepartout (www.passepartoutfestival.it), dedicado este ano ao tema "1963-2013: I have a dream".

O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 09-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há quase 100 dias ressoa a expressão "Papa Francisco", uma expressão que acende uma serenidade e às vezes também uma alegria em quem a pronuncia e em quem a escuta. Eu tenho a clara memória de que isso já acontecia há mais de 50 anos quando se evocava o Papa João (simplesmente, sem a indicação do número que o seguia).

Deve-se reconhecer: na Igreja Católica "mudou o ar", "há um novo fôlego". Essas são palavras muito significativas que se ouvem dos lábios de bispos, presbíteros e simples fiéis. Negar a mudança que se verificou seria não querer aderir à realidade nova que se configurou. Agora, muitos temem que afirmar a mudança, a novidade desse pontificado pode coincidir com uma crítica ou até mesmo com uma contraposição com relação ao papa anterior, mas isso se deve a uma "mitologia" persistente com relação ao papado, que se gostaria que fosse marcado por uma absoluta continuidade. A continuidade diz respeito, na verdade, à fé professada, mas os estilos, os modos de presidir e de ser pastor devem ser muito diferentes, porque os dons do Senhor são diferentes entre si e não apenas abundantes.

É tempo que os católicos compreendam que o ministério de Pedro assumido pelos bispos de Roma está no seu conteúdo sempre o mesmo – confirmar na fé os irmãos e estar a serviço da comunhão entre as Igrejas –, enquanto a forma desse ministério, assim como mudou nos 20 séculos da história da Igreja, ainda muda ou, melhor, deverá mudar se entre as Igrejas se realizar uma convergência ecumênica rumo a uma comunhão visível.

Houve uma mudança palpável, que a Igreja acolheu com espanto, por causa da novidade trazida pelo Papa Francisco no estilo da vida cotidiana; houve uma mudança no modo de ensinar por parte do papa; houve a promessa de uma renovação do exercício do ministério petrino, através do início de uma reforma da Cúria Romana, que, justamente na vigília da renúncia de Bento XVI, se encontrava em contradição com a evangelicidade que lhe é exigida no seu estar a serviço do sucessor de Pedro.

Francisco não é um papa "teólogo", isto é, exercitado na teologia especulativa e doutrinal, nem é exercitado na arte exegética da interpretação das Escrituras, mas é exercitado no conhecimento e na assunção dos "pensamentos e atitudes que havia em Cristo Jesus" (cf. Fil 2, 5). Isso emerge de toda a sua pessoa e do seu ministério. Mas não se pense que isso não revela a sua qualidade de teólogo: "teólogo porque reza" – segundo a definição de Evágrio do Ponto – teólogo porque conhece Cristo na escuta das Escrituras e na sua busca no rosto das pessoas, nas "periferias do mundo", nas ruas que estão sempre abertas por quem inicia caminhos, nas regiões infernais em que as pessoas às vezes caem e habitam...

Não sendo de língua italiana, a sua linguagem é pouco nuançada, às vezes dura, às vezes ele também pode parecer rude a alguns, mas é uma linguagem do coração, é a linguagem do pastor que conhece as suas ovelhas, as ama e compartilha a sua vida. O Papa Francisco está "in medio ecclesiae", não acima, sem isenções nem imunidade. Por isso, ele nos autoriza a sonhar ou, melhor, a invocar que a Igreja, que nós, cristãos, sejamos mais conformes ao Evangelho, à vida humana vivida por Jesus, à vida em que ele deixou os rastros para chegar a Deus

Quais expectativas, portanto, desperta o ministério petrino exercido pelo Papa Francisco? Acima de tudo, ele anunciou "uma Igreja pobre e para os pobres". Não só uma Igreja que leva os pobres no coração, que "faz o bem" para eles, mas que se faz pobre à imagem do Senhor, que "sendo rico se fez pobre por nós" (2Cor 8, 9), para ser solidária em tudo com as pessoas.

A expressão "Igreja serva e pobre", forjada pelo teólogo Yves Congar nos anos 1960, assumida pelo Concílio, não conheceu no pós-Concílio a atenção que merecia. Porém, esse é o primeiro ponto decisivo para a reforma da Igreja. O Papa Francisco vem de uma Igreja que elaborou "a necessidade da opção preferencial pelos pobres", primeiros destinatários de direito da Palavra de Deus, e, portanto, está habilitado a fazer com que a Igreja volte à pobreza evangélica. Nenhum pauperismo ideológico, mas ou a Igreja é pobre, ou não é conforme ao seu Senhor e, portanto, está em contradição com a encarnação do Senhor, com o Deus-homem que é Jesus Cristo, o único Senhor de todos.

Mas também precisamos de uma Igreja sinodal, isto é, na qual se caminha juntos, papa, bispos, presbíteros, povo de Deus. O Vaticano II expressou linhas que, depois desenvolvidas, deram origem à chamada "eclesiologia de comunhão"; mas a comunhão verdadeira, ordenada, eficaz requer que o ministério de quem preside seja exercido em uma sinodalidade em que todos são ouvidos naquilo que lhes diz respeito, todos são sujeitos que têm direitos a tomar a palavra, todos são chamados à unidade, à comunhão que pode ser doada pelo Espírito Santo, que compagina a pluralidade em unidade.

É nessa sinodalidade que as Igrejas das periferias poderão fazer ouvir a sua voz no centro e poderão confiar as suas aquisições e o seu testemunho àqueles que estão encarregados do serviço da comunhão entre as Igrejas e da confirmação delas na unidade. Na sinodalidade também poderão ser abertos caminhos de subsidiariedade, esta também tão necessária para uma unidade respeitosa das diferenças, dos dons e dos carismas plurais que o Senhor concede à Igreja.

Enfim, a minha expectativa pessoal é a da unidade de todos aqueles que confessam Jesus Cristo como Senhor e Filho de Deus, exegese do Deus que ninguém jamais viu nem pode ver, senão no além da vida terrena. O ecumenismo deve ser não uma opção na Igreja, mas simplesmente a condição para ser cristão: essa foi a vontade do Senhor, e, portanto, o reconhecimento de quem é batizado como membro do único corpo de Cristo deve encontrar formas de manifestação concreta e ser dinamismo de uma comunhão que "o amor", que "é a primeira verdade", deve confirmar.

Sim, vêm tempos em que "a Palavra de Deus não é rara" (cf. 1Sam 3, 1), em que "reina a paz na Igreja" (At 9, 31), tempos em que se busca a comunhão dentro da Igreja e a solidariedade com todas as pessoas. Que a Igreja saia de si mesma, que seja "extrovertida", porque olha não para si mesma, mas para o seu Senhor e para os rostos do Senhor na história: os homens e as mulheres e, entre eles, os últimos, sobretudo os pobres.

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