“As religiões estão se tornando cada vez mais globais”. Entrevista com Jose Casanova

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09 Abril 2012

O catolicismo se globaliza, mas as outras religiões também e formam um mundo de religiões globais, todas abertas, sem monopólio em parte alguma, constata o sociólogo, Senior Fellow da Georgetown University.

“O catolicismo sempre significou uma religião universal”. Essa afirmação foi feita pelo sociólogo da religião Jose Casanova, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, quando esteve na Unisinos a convite do Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Segundo ele, o catolicismo se faz global “porém se desterritorializa, e isso quer dizer que os territórios que eram católicos se tornam religiosamente pluralistas”.

E continua: “há um pluralismo religioso muito grande no Brasil que é parte desse processo global. Portanto, o catolicismo se globaliza, mas as outras religiões também, formando um mundo de religiões globais, todas abertas, sem monopólio em parte alguma”.

Há dois modelos de secularização, segundo o autor de Public religions in the modern world. Ele explica: “um que é secularização sem religião, e, de alguma maneira, sobrevive à religião. E outro, que é abrir um espaço neutro para todas as religiões, para todas as culturas, para todas as formas de pensar”.

Esses, segundo Casanova, são os dois modelos de estágio secular: “um modelo de estágio laicista, que quer marginalizar a religião para que ela não tenha um papel na vida pública; e o outro modelo de estágio secular, que é um estado neutro que garante a todas as religiões igualdade e possibilidade de participar da vida pública”.

Jose Casanova esteve na Unisinos, onde ministrou as palestras: “As religiões na sociedade e na academia. Desafios e perspectivas” e “Teologia e religiões no espaço público da academia e da sociedade”.

Casanova é um dos mais respeitados sociólogos da religião na atualidade. É professor titular no departamento de sociologia da Georgetown University em Washington/DC, EUA, uma universidade jesuíta fundada em 1789, e diretor do programa “Globalização, religião e o secular” do Center Berkley daquela universidade.

Sua obra-prima é Public religions in the modern world (Chicago/London: The University of Chicago Press, 1994), considerado um clássico na área. Nela contradiz a muito postulada conexão íntima entre modernidade (ocidental, mas vista como universal) e secularização, em especial onde mantém que a religião seria fadada a virar algo meramente privado, sem incidência pública. Além dessa obra, é autor entre outros, do seguinte título: A secular age: dawn or twilight? [capítulo tirado de uma coletânea sobre o livro de Charles Taylor Uma era secular (São Leopoldo: Unisinos, 2010)].

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a contribuição do catolicismo em uma época onde avança a secularização?

Jose Casanova – Depende do que se entende por secularização. O catolicismo seguia um modelo de religião estatal, territorial, confessional. Desde o aggiornamento (1) , em 1960, ele abandonou esse modelo e se tornou uma religião mais livre, mais independente da sociedade civil. E isso o permitiu se desterritorializar e se tornar mais aberto a um modelo de religião global. O catolicismo sempre significou uma religião universal. Nesse sentido, a Igreja sempre foi universal. No entanto, isso é o que se pretendia. Na realidade, só se constituiu em uma religião global nos últimos cem anos.

IHU On-Line – O senhor considera que o catolicismo está se tornando uma religião global?

Jose Casanova – Até o século XVI, o catolicismo esteve restringido à Europa. Com o colonialismo europeu, estendeu-se a todas as Américas e à Ásia. Nos últimos 50 anos, ampliou sua abrangência por outras terras. No entanto, a grande expressão do catolicismo surge com o colonialismo espanhol e português principalmente. Hoje em dia, na Ásia, por exemplo, com exceção das Filipinas, trata-se de uma religião muito pequena.

IHU On-Line – Então, acredita que ele tem tudo para se tornar uma religião global, é isso?

Jose Casanova – Sim. Mas simultaneamente, enquanto o catolicismo se torna global, ele se desterritorializa, e isso quer dizer que os territórios, que antes eram católicos, agora se tornam também pluralistas (do ponto de vista do pluralismo religioso). Então, a religião católica se torna uma religião global, mas ela tem que competir com outras religiões, inclusive nos países que eram católicos e já não o são mais (pelo menos não oficialmente). Por exemplo, o Brasil era oficialmente um país católico e as outras religiões estavam ocultas. Nos últimos 40 anos, apareceram com força o pentecostalismo e as religiões afro-brasileiras. Então, há um pluralismo religioso muito grande no país e isso também é parte do processo global. Portanto, o catolicismo se globaliza, mas as outras religiões também, formando um mundo de religiões globais, todas abertas, sem monopólio em parte alguma.

IHU On-Line – Nesse caso, de que modo a secularização pode ou não conviver com o religioso?

Jose Casanova – Havia um modelo de secularização que era visto como um processo superior ao estágio religioso, como se o estágio secular fosse sua sequência natural. Agora, há um processo pelo qual se entende o secular como um espaço neutro, onde todas as religiões, não religiões e ideologias não religiosas podem viver conjuntamente. Há dois modelos de secularização: um que é secularização sem religião, e de certa maneira ele sobrevive à religião. E há outro modelo de secularização que permite abrir um espaço neutro para todas as religiões, para todas as culturas, para todas as formas de pensar. Esses são os dois modelos de estágio secular: um modelo de estágio laicista, que quer marginalizar a religião, para que ela não tenha um papel na vida pública; e o outro modelo que é um estado neutro, para que todas as religiões tenham igualdade e possam participar de uma vida pública.

IHU On-Line – Quais são as diversas formas e aplicabilidades da secularização?

Jose Casanova – O conceito de secularização é muito ambíguo e multivalente, motivo pelo qual eu diria que há três significados distintos: secularização simplesmente como diferenciação de esferas seculares (o Estado, a economia, a ciência da religião), tal como um processo geral de modernização; secularização como o declínio, a perda de crenças e práticas religiosas; e secularização como a privatização, ou seja, a religião deve se privatizar e se tornar mais “fina”. Na Europa, esses três processos andaram conjuntamente e pensava-se que a modernidade necessariamente tendia não só à diferenciação de esferas seculares e religiosas, mas também à perda da religião, à queda de práticas e crenças religiosas. A experiência global nos indica que a secularização como diferenciação é compatível com muitas dinâmicas religiosas diferentes. As sociedades seculares europeias são praticamente “sem religião”. No entanto, nos EUA, a secularização de diferenciação leva ao crescimento das religiões. No Brasil vemos o mesmo caso: nos últimos 40 anos a sociedade brasileira se modernizou. O catolicismo perdeu sua hegemonia, mas há o crescimento de diversas religiões. Então, em muitas partes do mundo, o que chamamos de “a primeira secularização” é compatível e até ajuda no crescimento das religiões. Ou seja, diferenciação não significa necessariamente perda ou queda das religiões.

IHU On-Line – Qual a relação entre secularização e democracia?

Jose Casanova – Ambos são modelos de pluralização, que exigem a perda do monopólio. Mas a democracia simplesmente significa pluralização de esquemas e de propostas políticas que, em vez de imporem a hegemonia, mostram a necessidade de se conviver uns com os outros. Nesse sentido, a democratização leva necessariamente a um caminho de pluralização religiosa. Há uma teoria que diz que a pluralização religiosa põe em questão a pretensão de verdade absoluta de uma única religião e, portanto, questiona todas as religiões. Porque, se todas são verdadeiras, nenhuma é verdadeira. Sociologicamente, o que vemos é que os países mais pluralistas religiosamente não são aqueles em que a religião desaparece, pelo contrário. A Índia e os EUA são possivelmente as duas sociedades mais pluralistas do mundo, ambas democráticas. Entretanto, são muito religiosas. Então, não há evidência sociológica nenhuma de que a pluralização religiosa leve à perda da religião. Pelo contrário.

IHU On-Line – Nesse sentido, quais são as religiões que mais contribuem com a democracia de um país? O senhor pode citar como exemplo alguma religião que tenha uma importante contribuição na América Latina?

Jose Casanova – Essa é uma pergunta histórica, pois vivemos um momento em que as religiões dos países autoritários, que estão em viés de democratização, são justamente as que têm a possibilidade de contribuir para a democracia. O catolicismo, durante muitas décadas, não deu sua contribuição nesse sentido. Pelo contrário, era um obstáculo em muitos países. Nos anos 1960, a maioria dos países católicos do mundo era autoritária, não democrática. Entretanto, o processo de aggiornamento do Concílio Ecumêmico Vaticano II ajudou a transformar a ideia de modelo político da Igreja, que adotou o discurso dos direitos humanos e do valor da democracia. Então, pela primeira vez na história, muitos movimentos católicos participaram ativamente e desempenharam um papel muito importante na democratização dos países. Esse processo começou na Espanha, depois seguiu por toda a América Latina, logo passou ao leste da Europa (como a Polônia) e se estendeu, inclusive, por países que não eram católicos, mas onde minorias católicas desempenharam um papel importante, como em Taiwan, Coreia do Sul e África do Sul. Por isso essa terceira onda democrática pode ser chamada de uma “onda católica”. Hoje em dia, presenciamos uma quarta onda democrática muçulmana. Pensava-se que a religião muçulmana era antidemocrática, mas o islamismo se converteu em democracia muçulmana, e movimentos muçulmanos desempenham um papel muito importante na democratização da Indonésia, que é o maior país muçulmano do mundo, ou na Turquia, cujo partido que a governa é muçulmano e que tem feito uma nação mais democrática do que era antes (basta ver a Primavera Árabe, que não sabemos como acabará). Há claramente um processo de democratização dos países árabes.

IHU On-Line – Nesse sentido, que fenômeno está surgindo com as religiões e/ou com a secularização no mundo globalizado?

Jose Casanova – Uma questão que pode ser citada como resposta é a globalização, que leva à desterritorialização de todas as religiões e à perda de hegemonia territorial. O que temos percebido é um crescimento do pluralismo religioso associado à imigração. Por exemplo, o Brasil é um país de imigrantes, onde cada grupo trouxe sua religião: os africanos, os portugueses, os chineses, os japoneses, etc. Hoje em dia, em função da globalização, da imigração e de movimentos intelectuais dos meios de comunicação, tudo se globaliza, incluindo as religiões. O que vemos é um processo de formação do que se chamariam “comunidades imaginárias religiosas globais” (comunidades católica global, muçulmana global, hindu global, etc.). Dessa forma, todas as religiões estão se reconstituindo globalmente como comunidades imaginárias, competindo e também convivendo umas com as outras. É um processo de reconhecimento múltiplo de todas as religiões do mundo.

IHU On-Line – Em relação ao segundo modelo de secularização abordado pelo senhor, ou seja, o contexto da secularização em que as religiões terão que aprender a se aproximar e a dialogar minimamente, como se dará esse processo, uma vez que a maioria das religiões tem, em sua essência, um sentido missionário, sempre atuando mais na sociedade, buscando novos adeptos etc.? Nesse sentido, como essa segunda secularização dialoga com essa pretensão?

Jose Casanova – Trata-se de um processo de aprendizagem. Possivelmente o primeiro lugar onde isso aconteceu foi nos EUA, país no qual não havia processo de encontro ou de conflito entre várias religiões cristãs, mas entre várias religiões protestantes. Não havia apenas uma igreja protestante, mas sim várias seitas, dúzias delas tiveram que aprender a conviver umas com outras. Em princípio, não reconheciam o catolicismo. Eventualmente, reconheceram os católicos e os judeus. A questão é como pluralizar a situação para que não haja uma igreja em minoria, e sim equivalência. A Igreja Católica, por uma parte, afirma que é a detentora da verdade, mas reconhece a liberdade religiosa e, portanto, o pluralismo religioso. Logo, não pode lutar contra esse pluralismo. E isso leva à obrigação de reconhecer a liberdade religiosa. Esse processo de cada religião se apresentar ao mundo inteiro como verdadeira, e o direito de cada uma ser diferente e única, é, hoje em dia, um princípio universal de todas as religiões. Isso foi o grande ensinamento do judaísmo, que resistiu à insistência do cristianismo, de que este último era uma religião verdadeira, e que os judeus deviam se tornar cristãos. O judaísmo insistiu no direito de os judeus serem judeus, particulares, não universais. Então, é o conflito entre universalismo e particularismo. A verdade sempre pretende ser universal, mas, na realidade, cada verdade universal é sempre particular. Ademais, nenhuma religião precisa se converter às outras. No entanto, ao mesmo tempo, todas pretendem que sua mensagem, por mais particular e única, seja também uma mensagem universal para toda a humanidade. Além disso, não são as religiões que têm direito, pois elas não existem. Somente as pessoas têm direito. Então, o mundo moderno sacraliza a pessoa humana. E é ela quem tem direito sagrado inalienável à verdade. Portanto, as religiões não têm direitos absolutos, e sim os indivíduos.

IHU On-Line – Como analisa daqui para frente as religiões? As vê cada vez mais desterritorializadas e globais?

Jose Casanova – O catolicismo vivia na tradição das famílias; batizavam-se as crianças e esperava-se que elas seguissem católicas por toda a vida. Esse era o modelo. Hoje em dia, isso não serve mais. A fé atualmente tem que ser voluntária e assumida individualmente. Não é suficiente batizar uma criança. Ela tem que, quando adulta, confirmar sua fé. É um processo que necessita de evangelização contínua. A religião deve ser algo individual e voluntário. Isso ocasiona uma competição entre todas as crenças, e elas podem se tornar um mercado livre. Ademais, estamos em um processo de globalização que implica no reconhecimento da pluralidade da humanidade, certamente nunca homogênea. Reconhecemos que o universalismo é plural e que, inclusive, todas as ideias universalistas humanas têm formas distintas historicamente.

IHU On-Line – Como avalia o diálogo da teologia com outras ciências na academia?

Jose Casanova – É uma questão de contexto. Na Alemanha, é muito simples, pois a teologia sempre fez parte da universidade moderna. Ele é um conceito mais amplo do que o conceito latino de ciência e significa a “atual forma de saber”, ou seja, é a produção de conhecimento literalmente. Na Espanha ou na França, isso é impossível. Por definição, a universidade é um espaço laico, e não há lugar para as religiões. Uma universidade pública na França ou na Espanha não pode possuir nenhuma faculdade de teologia, nem sequer formar uma ciência das religiões, porque na França se trata de uma ciência secularista, que estuda as religiões de uma perspectiva laicista.

A obra de Charles Taylor (2)  – A secular age – é uma análise de como se formou a referida era, mas é também uma tentativa de chamar a atenção à possibilidade de encontrar formas de transcendência nesta idade secular e de questionar o fato de que há uma razão secular natural que é superior à razão religiosa. Portanto, esta última não pode ser inserida na cena pública. Seria um fator arbitrário, privado, que não pode ser submetido a um discurso público. Há a possibilidade de que o conceito de religião seja demasiado ambíguo e equivalente, e que se torne totalmente ineficaz. Logo, seria melhor abandoná-lo, porque não há nenhum conceito de religião que possa incorporar tudo o que hoje, no mundo, denomina-se “religião”.

IHU On-Line – Já que citou a obra de Charles Taylor – A Secular Age – gostaríamos que o senhor fizesse uma apresentação geral da obra.

Jose Casanova – Muito difícil. É uma obra de 900 páginas: são três livros em um. Seria impossível eu oferecer um resumo sucinto. Convidei Charles Taylor a ir a Georgetown para ministrar três palestras e elaborar um resumo de sua obra para o público geral, e ele foi incapaz de fazê-lo. Portanto, eu também não poderei. Mas posso dizer que o livro é possivelmente a reconstrução genealógica mais completa que temos de como se transformaram as sociedades cristãs ocidentais de uma situação em que todo mundo acreditava em Deus – e a crença Nele era aceita como o normal, sendo muito difícil, quase impossível, não acreditar – a uma situação em que, ao inverso, o natural é não acreditar, sendo a fé que exige um processo reflexivo. Então, ele toma esse modelo que começa em 1500, quando o natural era acreditar, e a reflexão quase impossível em não acreditar. Por um lado, Taylor quer explicar esse processo, também comparando como é diferente o que ocorre na Europa e na América do Norte. O que ele quer fazer é mostrar àqueles que não creem, principalmente porque não crer não é natural, a refletir por que não creem, que a não crença não é algo simplesmente natural, mas que se trata de um produto desse processo histórico. Além disso, ser reflexivo não é tarefa apenas dos crentes. Os não crentes também o devem ser. Então, a questão é como, dentro do pluralismo enorme, pode reaparecer a transcendência, principalmente porque ela é muito importante para Charles Taylor.

IHU On-Line – Qual é o grande mérito da obra?

Jose Casanova – É precisamente forçar, na idade secular, todos os grandes pensadores seculares a repensar a história, sendo que esta era uma genealogia da religião como uma forma de liberação da ignorância e do avanço da ciência. O que Charles Taylor faz é unir todas as religiões, não como alternativas que se excluem, mas sim como todas construíram o presente. Talvez, a função mais importante seja levar todos a refletirem. Ademais, percebe-se que esse era um tema que os cientistas e os filósofos não abordavam. Já os não religiosos não tratavam do referido assunto porque se pensava que era um tema irrelevante, mas Charles Taylor apostou nele: da crença e da transcendência, e o que esta última significa na humanidade. Aliás, ele apostou em todos os discursos sérios e filosóficos contemporâneos.

IHU On-Line – Quais são as suas críticas perante o livro de Taylor?

Jose Casanova – O livro está restringido ao que chamam Atlântico Norte. É baseado numa experiência de países do norte europeu, sobretudo a França, a Alemanha, assim como na experiência da América do Norte. Os EUA são os que Taylor conhece melhor, mas ele passa muito tempo trabalhando na Índia e sabe que a situação global é muito mais complexa. Então, faz-se necessário reconstruir essa história dentro do marco norte-atlântico para poder globalizar.

Não é tanto uma crítica. A minha diferença com Taylor, e o que na crítica havia lhe proposto, é que um mesmo modelo de experiência fenomenológica nos força a repensar sua própria teoria e, principalmente, a refletir por que essa secularização na Europa teve uma experiência fenomenológica de não crença, que é muito radicalmente diferente da norte-americana, uma vez que, se pensamos no que Taylor afirma, de que na Europa, hoje em dia, o normal é não crer e acreditar é muito difícil, é verdade.

Para que uma pessoa seja crente atualmente na Europa, ela tem que fazer um esforço de pensamento reflexivo. O que reflete hoje em dia é o crente; o não crente não precisa ter refletido. É a opção natural. Mas nos EUA não é assim. Pelo contrário, lá todo mundo crê ainda. E é a pessoa jovem não crente que tem que ter uma coragem muito grande para se opor à crença da sociedade. Então, para mim Taylor não refletiu suficientemente, porque esse mesmo marco que ele construiu leva a essas experiências fenomenológicas tão diferentes na Europa e nos EUA. E, se esta experiência é tão diferente nesses países, a perspectiva se faz global. Logo, a pergunta que Taylor nos faz é: de que maneiras diferentes se experimentam fenomenologicamente, em diferentes culturas, essa expansão global do marco imanente secular?

IHU On-Line – Quais as principais críticas de Taylor à nossa época?

Jose Casanova – Uma das principais críticas de Taylor é que o ser secular é um ser não reflexivo. E a humanidade necessita sempre ser reflexiva. Então, a não crença se converte na crença. Quando a não crença se converte em crença reflexiva, ele convida a refletir sobre a transcendência, constituindo uma maneira de convidar o homem moderno à reflexão para que não considere natural o que é naturalizado, mas sim se encontre sempre em processos contingentes não naturalizados. Enfim, o mais importante de Taylor não é reproduzir como chegamos a ser seculares, mas questionar a forma como naturalizamos essa secularidade, como se isso fosse algo natural.

IHU On-Line – Qual é o conceito de secularização adotado por Taylor e no que esse conceito se diferencia do seu?

Jose Casanova – Há diferenças. Ele fala de três: secular one, secular two, secular three. Dois dos nossos conceitos são muito parecidos: o conceito de secularização como diferenciação e o conceito de secularização como perda de religião. No que nos diferenciamos tomaria muito tempo; prefiro não responder, porque é muito complicado. Taylor mesmo não está claro nisso. Ele escreveu o livro quando estávamos juntos. Certamente nossas posições, hoje, estão muito mais próximas do que quando eu escrevi ou quando ele escreveu, uma vez que estão continuamente mudando. Não há fórmula válida que explique. É muito complexo.

IHU On-Line – Para Charles Taylor, o que significa crer em Deus no mundo de hoje?

Jose Casanova – O que significava acreditar em Deus está mais ou menos definido por uma tradição cristã de uma ideia de transcendência. Taylor naturalmente acentua a importância do deísmo como uma face que passa do teísmo, da crença em Deus particular, o Deus do Abraão, de Jacó, de Jesus Cristo, ao Deus deísta universal natural. E isso levou do teísmo para o deísmo e deste ao ateísmo. Houve uma transformação, segundo a análise de Taylor.

A explicação

Teísmo é simplesmente a crença em um deus particular, é unido à fé cristã, a Deus, principalmente à Revelação. O deísmo é a busca por um Deus natural, universal abstrato, que não está relacionado com nenhuma revelação particular. Então, é da passagem do teísmo ao deísmo que, na análise de Taylor, faz-se possível que chegue ao ateísmo, sendo esse um marco imanente secular completo. Logo, para o referido autor a questão é como se pode voltar a introduzir a ideia de transcendência que rompe com o marco imanente, sem necessidade de se voltar para o teísmo antigo e nem para o deísmo. Ademais, já não se pode pensar em uma forma de transcendência imposta a toda a sociedade como modelo, como marco.

A divinização

Ao final do livro de Charles Taylor há uma expressão de fé enorme; uma ânsia de divinização e encarnação: “Deus encarna em mim e eu me divinizo”. Então, o que Taylor quer oferecer é a possibilidade de cada indivíduo no mundo moderno procurar e experimentar essa divinização. O autor oferece a possibilidade de romper com os marcos analíticos que faziam a transcendência impensável dentro do mundo imanente da ciência, da democracia, da economia moderna, do individualismo. Mostra, inclusive com sua própria experiência, como grandes indivíduos, inclusive os santos, são modelos de procura da transcendência.

Logo, ele almejava abrir lacunas, romper barreiras dentro desse marco imanente pelo qual a transcendência pode ser inserida novamente. Com isso os indivíduos podem estar abertos a ela. E, na última parte de seu livro, há uma afirmação de uma experiência própria de transcendência – “se eu experimentei, outros indivíduos do mundo podem também experimentar”.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a crença, nos últimos séculos, visto que, outrora, ela era apenas a um Deus, e agora passa a ser a vários outros deuses ou outras coisas?

Jose Casanova – A crença em Deus é algo muito complexo. Alá se tornou um deus particular muçulmano. Então, a questão é se outros indivíduos que não são muçulmanos podem usar o nome de Alá. Em árabe, ele é simplesmente deus. No cristianismo, a questão é se Deus é trinitário ou unitário. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. E o que significa isso? Como sabemos, para os pentecostais, é um renascimento do Espírito Santo na crença de Pentecostes. Há outras tradições que são politeístas ou panteístas, que Deus está em tudo e é tudo. A nossa crença ocidental acredita que Deus é um ser criador e que há um hiato enorme entre Ele e a criação.

Sagrado na natureza

Estamos, hoje, em um momento de crise ecológica global em que é necessário encontrar outra vez o sagrado na natureza. Devemos encontrar a transcendência, a imanência e o sagrado no natural. Por isso, na atualidade são as religiões mais primitivas, as afro-brasileiras ou as ameríndias que sempre sacralizaram a natureza. E o homem moderno se quiser se salvar e não destruir a si próprio e ao meio ambiente, do qual necessita para viver, precisa ressacralizar, de algum jeito, a natureza, e não impor essa divisão moderna cartesiana entre sujeito e objeto, matéria e espírito.

Idade global

A questão não é acreditar em Deus, mas no que é Deus e como acreditar nele. A globalização nos força a reconhecer como a humanidade desenvolveu, construiu e encontrou formas universais de conceitualizar, de ver, de experienciar Deus, e como cada uma é experiente, é positiva. Além disso, a ideia de que uma delas é verdadeira e as outras são falsas é problemática. Logo, a questão é sempre estar aberto a uma experiência que vai além de qualquer experimento histórico contingente, inclusive a que acredita que Deus pode encarnar-se não somente em Jesus Cristo, mas em outras culturas. A mesma ideia da contingência histórica nos força a reconhecer as possibilidades de uma encarnação contínua. Deus em manifestações distintas é o que seria precisamente o espírito trinitário. A cristologia tem que aceitar um espírito que está aberto a toda criação e a toda a experiência da humanidade. Então, não é questão de acreditar em Deus como acreditávamos, mas sim de uma abertura de significado de Deus em uma idade global, em que se devem incorporar todas as experiências religiosas de toda humanidade.

Notas:

1.- Aggiornamento: termo italiano utilizado durante o Concílio Ecumênico Vaticano II e que o Papa João XXIII popularizou como “expressão do desejo de que a Igreja Católica saísse atualizada do Concílio Vaticano II”. Em outras palavras, aggiornamento é a adaptação e a nova apresentação dos princípios católicos ao mundo atual e moderno. (Nota da IHU On-Line).

2.- Charles Taylor: filósofo canadense e professor emérito da Universidade McGill, Montreal. É conhecido pelos seus contributos em filosofia política, filosofia social e história da filosofia. É autor de Uma era secular. São Leopoldo: Unisinos, 2010; Imaginários sociais modernos. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2010; As fontes do self. São Paulo: Loyola, 2005; Hegel e a sociedade moderna. São Paulo: Loyola, 2005; e Argumentos filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000, entre outros. (Nota da IHU On-Line).

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