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14 Julho 2011

Em um ensaio na revista Reset, o filósofo canadense Charles Taylor propõe uma nova política de inclusão para os  imigrantes. A retórica multicultural na Europa reflete uma profunda incompreensão. Se os sonhos daqueles que emigram não forem desfeitos, cria-se um vínculo positivo com aqueles que os acolhem.

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 14-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A retórica antimulticultural no Velho Continente reflete uma profunda incompreensão das dinâmicas da imigração nas democracias liberais dos países ricos do Ocidente. O assunto fundamental parece ser que, excedendo no reconhecimento positivo das diferenças culturais, se favorece a guetização e a rejeição da ética política da própria democracia liberal. Como se a inclinação sobre si mesmos fosse uma escolha a priori dos próprios imigrantes, da qual eles devem ser dissuadidos com "benévola severidade".

Em certo sentido, é compreensível que os políticos que não têm muita experiência das dinâmicas das sociedades de imigração incorram neste erro. No início, de fato, os imigrantes tendem sempre a se agregar a pessoas de origens e experiências semelhantes a eles. Senão, como poderiam encontrar as redes de apoio necessárias para sobreviver e seguir em frente em um ambiente completamente novo? (...)

A principal motivação dos imigrantes nos países ricos e democráticos, no entanto, é a busca de novas oportunidades de trabalho, educação ou expressão individual, para si próprios e especialmente para seus filhos. Se conseguem alcançar esses objetivos, os imigrantes – e ainda mais os seus filhos – ficam muito contentes de se integrar na sociedade. Só se as suas esperanças são desiludidas, se a via de acesso à educação e a um trabalho mais remunerado é bloqueada, pode se gerar uma sensação de alienação e de hostilidade para com a nação de acolhida, ou até mesmo uma rejeição da sociedade "mainstream" e dos seus valores.

Consequentemente, a campanha europeia contra o "multiculturalismo" muitas vezes parece ser um caso clássico de "falsa consciência", em que a culpa de determinados fenômenos de guetização e de alienação dos imigrantes é endossada a uma ideologia externa, em vez de reconhecer a incapacidade da política nacional de promover a integração e de combater a discriminação. (...)

Qual é o objetivo, então, das políticas e dos programas multiculturais? Eles nascem da consciência de que toda sociedade democrática tem um modelo de interação desenvolvido ao longo do tempo e geralmente compartilhado. Com essa fórmula, refiro-me ao conjunto das modalidades com as quais os membros da sociedade se relacionam em uma pluralidade de contextos: como cidadãos de um Estado, como membros de organizações políticas ou de outro tipo, como funcionários ou empregadores dentro de uma empresa, como comerciantes ou clientes, e assim por diante. É assim que se desenvolve a ideia de como deveriam ser o cidadão, o funcionário ou o membro de uma organização modelo, daquilo que se espera dele ou dela, do tipo de relações que deveriam se instaurar com os outros, das diversas formas de intimidade ou de distância, dos pressupostos que determinam o desnível social, e assim por diante.

O desafio multicultural surge quando esse modelo de interação define determinadas categorias de indivíduos como beneficiários do status de cidadãos, membros, atores econômicos etc. a todos os efeitos, que gozam do nível normal de intimidade e de reconhecimento pelos outros, negando tal status ao resto da população. Esse fenômeno ocorre, por exemplo, quando, aos indivíduos de uma determinada descendência genealógica, é concedido, em virtude das origens históricas da sociedade, o status de cidadãos ou membros de pleno direito, enquanto todos os outros são considerados de modo diferente. (...)

Mas como se pode realizar um cenário intercultural? Os líderes e membros das sociedades majoritárias ou "mainstream" devem entrar em contato com os líderes e os membros das minorias, buscar, junto com estes, novas soluções para resolver os conflitos e depois colaborar proficuamente para realizá-las (foi o que Job Cohen fez, por exemplo, quando era prefeito de Amsterdã). O conjunto dessas iniciativas marcadas pela colaboração favorece a criação de um modelo de interação mais inclusivo.

Talvez, seja necessária uma maior consciência das condições dos imigrantes. A grande maioria dos imigrantes nos países ricos do Norte do mundo é levada a abandonar sua terra natal pela esperança de uma vida melhor para si e para seus filhos. Milhões de pessoas aspiram a esse objetivo e às vezes arriscam suas vidas no mar, ou amontoadas em contêineres, para ter pelo menos uma mínima possibilidade de chegar até o destino.

O que significa uma "vida melhor"? Para alguns, é sinônimo de um país que ofereça uma relativa liberdade, segurança e direitos humanos. Para quase todos, porém, significa novas oportunidades e particularmente o acesso a um posto de trabalho mais gratificante e a uma educação que garanta a seus filhos um futuro de maior segurança e bem-estar.

Se as suas tentativas são coroadas pelo sucesso, pode-se criar um laço extraordinariamente positivo com a sociedade de acolhida, um sentimento de gratidão e de pertença semelhante ao que é muitas vezes manifestado pelos imigrantes nos Estados Unidos e às vezes também no Canadá. E normalmente ocorre exatamente isso, contanto que a esperança não seja anulada, que o acesso ao cobiçado posto de trabalho não seja sistematicamente bloqueado pela discriminação ou por outros fatores estruturais, que a participação em outras estruturas sociais não seja impedida por preconceitos e que os imigrantes não sejam estigmatizados e rotulados como estranhos que representam um perigo para a sociedade.

Caso contrário, o rancor que resulta disso é diretamente proporcional ao nível de esperança que o havia precedido e ameaça provocar um profundo sentimento de alienação.

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