Qual é a história da missa em latim?

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19 Julho 2021

 

O anúncio do Vaticano nessa sexta-feira de que o Papa Francisco revogou a decisão do Papa Bento XVI que permitia que qualquer padre católico celebrasse a missa usando as rubricas da liturgia pré-Vaticano II pode ter levado um ou dois leitores a ouvir uma expressão que ele ou ela achava que tinha se perdido nas brumas do tempo: “missa em latim”.

O comentário é de James T. Keane, editor sênior da revista America, 16-07-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas não chame isso de um retorno. Ela está aqui há anos. Para um subconjunto relativamente pequeno de católicos, a missa dominical (ou, neste caso, a missa diária) é sempre em latim e inclui muitas das armadilhas da liturgia do modo como era celebrada antes do Concílio Vaticano II. Um visitante dessa missa pode se sentir transportado de volta para 1950 – ou para 1650. Todas as leituras são em latim; há um gradil ao redor do altar; o padre está voltado para o Oriente e de costas para a assembleia; a Comunhão é recebida na língua e de joelhos; há véus e terços em abundância (e, em uma “Missa Solene” de domingo, o latim é cantado pelo padre com o acompanhamento de um coro).

Se você encontrar um homem católico que cresceu nos anos 1950 ou antes (a Igreja não tinha muitas acólitas naqueles tempos) e sussurrar para ele: “Introibo ad altare Dei”, não se passará sequer um segundo antes de se receber como resposta: “Ad Deum qui laetificat juventutem meum”. Os leitores do “Ulisses”, de James Joyce, também podem reconhecer a frase anterior, no uso blasfemo de Buck Mulligan nas frases de abertura do romance.

Mas do que exatamente estamos falando quando falamos de “missa em latim”?

 

Missa em latim e forma extraordinária

 

É importante notar que há uma diferença bastante substancial entre a “missa em latim” e a missa que é mencionada no motu proprio papal Summorum pontificum, de 2007, agora conhecida como a “forma extraordinária” da missa. Ela também é frequentemente chamada de “Missa Tridentina” ou “Missa Tradicional em Latim”.

Esta última é a forma de liturgia católica cujo uso o Papa Francisco restringiu com o seu motu proprio Traditionis custodes. A “forma ordinária” da missa – a versão que 99% dos católicos experimentam quando vão à missa –, na realidade, tem uma raiz latina. De fato, todas as traduções vernáculas da missa se baseiam na edição latina do Missal Romano, cuja primeira versão foi promulgada em 1970 após a constituição apostólica Missale Romanum, do Papa Paulo VI de 1969. A atual edição latina do Missale Romanum é a “editio typica tertia”, a “terceira edição típica”, e foi promulgada pelo Papa João Paulo II em 2002.

Quando você participa de uma missa rezada em sua língua local, trata-se de uma tradução do ur-texto latino aprovado pela Conferência Episcopal local. Os leitores da revista America devem se lembrar que a última tradução da Igreja dos Estados Unidos em 2011 causou um grande alvoroço, em grande parte por causa do uso de uma tradução mais literal do latim, palavra por palavra, em vez de uma “tradução dinâmica” e mais livre. Foi um lembrete da dificuldade de traduzir as expressões litúrgicas no vernáculo em qualquer época. [...]

Em todo o caso, ainda é perfeitamente válido para qualquer padre celebrar a missa de acordo com o texto em latim de 2002: ela se parece e é sentida exatamente como uma missa normal – apenas é em latim, e não em inglês.

No entanto, na grande maioria das vezes em que você ouve uma referência à “missa em latim”, a forma litúrgica em questão é a “forma extraordinária”, que é bastante diferente. A sua história anterior às mudanças litúrgicas pós-Vaticano II é longa: quatro séculos, para ser exato.

Em 1570, o Papa Pio V promulgou uma edição do Missale Romanum que deveria ser usada em toda a Igreja latina, com exceção daqueles lugares onde outro rito era celebrado há pelo menos dois séculos. Um exemplo proeminente entre muitos é o “Rito Ambrosiano”, celebrado em torno de Milão, na Itália. Como parte de um programa de reformas abrangentes em muitas áreas da vida da Igreja estimuladas pelo Concílio de Trento, o Missale Romanum de Pio V pretendia estabelecer a uniformidade na celebração da Eucaristia. Em uso generalizado desde o fim do século XVI até 1962 (com remendos aqui e ali por vários papas), o rito herdou o nome latino de Trento, “Tridentum”, e por isso é frequentemente chamado de “Rito Tridentino”.

Em 1962, o Papa João XXIII promulgou uma nova versão do rito. Seu antecessor, o Papa Pio XII, já havia modificado substancialmente a celebração da Semana Santa na década anterior. João XXIII também havia retirado anteriormente das orações tradicionais da Sexta-Feira Santa as menções depreciativas aos “pérfidos judeus” (em latim, “perfidis Judaeis”).

Essas mudanças, entre outras, foram codificadas na promulgação de 1962, junto com um calendário da Igreja bastante simplificado e uma revisão das rubricas usadas para a celebração da missa.

 

O papel do Vaticano II

 

As mudanças litúrgicas que se seguiram ao Vaticano II e a sua constituição sobre a liturgia, Sacrosanctum Concilium (1963), resultaram no quase desaparecimento da missa pré-Vaticano II aos olhos do público. Em 1971, o Papa Paulo VI permitiu a sua celebração, mas com restrições cuidadosas ao seu uso.

Em um artigo de 2019 em italiano no L’Osservatore Romano (relatado no início de julho de 2021 por Christopher Lamb na The Tablet), Corrado Maggioni, SMM, subsecretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, disse que a instrução de Paulo VI de 1971 destinava-se a ser uma expressão de misericórdia aos padres idosos ou doentes que ofereciam a missa sem a presença da assembleia. Para o Papa Paulo VI, pelo menos, a Igreja Católica agora tinha um rito universal.

Nos anos posteriores, o Papa João Paulo II permitiu o uso do Missale Romanum de 1962 em casos específicos, em parte para promover uma reconciliação com um grupo tradicionalista dissidente, a Fraternidade São Pio X, que rejeitava as reformas litúrgicas que se seguiram ao Vaticano II.

Em 2007, o Papa Bento XVI emitiu um motu proprio, Summorum pontificum, que concedia a permissão para uma celebração muito mais ampla da Missa Tridentina. Os padres podiam celebrar a forma antiga em privado sempre que desejassem, e “nas paróquias onde houver um grupo estável de fiéis aderentes à precedente tradição litúrgica, o pároco acolha de bom grado as suas solicitações de terem a celebração da Santa Missa segundo o rito do Missal Romano editado em 1962” (Art. 5). Além disso, “se um grupo de fiéis leigos (...) não vir satisfeitas as suas solicitações por parte do pároco, informe o bispo diocesano. Pede-se vivamente ao bispo que satisfaça o desejo deles” (Art. 7).

Qual a razão para as duas formas? Há muito tempo o Papa Bento XVI é um crítico da forma como as reformas litúrgicas foram realizadas nas décadas posteriores ao Vaticano II, condenando aquilo que ele via como uma perda de reverência e uma ênfase cada vez menor na missa como um sacrifício na liturgia pós-conciliar. Ele também via a normalização da “forma extraordinária” dentro da vida litúrgica da Igreja como um possível fermento para a missa que a maioria de nós vê todos os domingos. Em outras palavras, não seria apenas uma alternativa para aqueles que desejavam celebrar de acordo com o Missal de 1962, mas também uma influência para as liturgias em geral – tornando-as mais reverentes, mais conectadas às raízes latinas da Igreja e mais historicamente contínuas com o Rito Tridentino celebrado quase em todo o mundo durante séculos.

De fato, de acordo com John Thavis, em The Vatican Diaries, Bento XVI reconhecia que a “missa baixa”, típica da liturgia pré-Vaticano II – um evento rápido e eficiente em que o padre quase murmurava as orações da missa para si mesmo e seus acólitos, enquanto a assembleia ficava em silêncio –, “não era o que a liturgia deveria ser” e também reconhecia que muitos não lamentaram a sua superação. Bento XVI falava de um “enriquecimento mútuo” entre os melhores elementos da forma extraordinária e o melhor da forma ordinária.

Em 2008, o cardeal Darío Castrillón Hoyos, da Comissão Ecclesia Dei, disse que o Papa Bento XVI queria que o Rito Tridentino fosse celebrado em todas as paróquias do mundo. A Comissão Ecclesia Dei foi criada pelo Papa João Paulo II em 1988 para o diálogo com a Fraternidade São Pio X. A comissão foi suprimida pelo Papa Francisco em 2019, e suas funções restantes foram atribuídas à Congregação para a Doutrina da Fé. Embora a Fraternidade São Pio X continue em cisma, o Summorum pontificum teve o efeito de tirar um pouco do vento das suas velas. Um bom número dos seus aderentes participa agora das liturgias extraordinárias aprovadas pelo Vaticano.

 

Fusão de dois ritos

 

Em 2011, o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, disse que o objetivo de longo prazo do papa, na verdade, era uma fusão dos dois ritos em algo novo. “De fato, o Papa Bento XVI sabe muito bem que, em longo prazo, não podemos parar na coexistência entre a forma ordinária e a forma extraordinária do rito romano, mas que, no futuro, a Igreja naturalmente precisará mais uma vez de um rito comum”, disse ele em um congresso vaticano sobre o Summorum pontificum.

No entanto, “como uma nova reforma litúrgica não pode ser decidida teoricamente, mas requer um processo de crescimento e de purificação, o papa neste momento está sublinhando acima de tudo que as duas formas do rito romano podem e devem se enriquecer”, concluiu o cardeal Koch.

Enquanto alguns padres e paróquias começaram a oferecer a opção da forma extraordinária da missa depois de 2007, as reações variavam. Em alguns lugares, a celebração dominical da forma extraordinária se tornou uma grande atração para os católicos de mente tradicionalista, que estavam insatisfeitos com as ofertas da sua própria paróquia. Em outros, tornou-se um refúgio para uma pequena minoria de linhas-duras litúrgicos.

Entre o clero, a resposta também foi díspar: muitos padres formados na espiritualidade e na teologia da Igreja pós-conciliar foram inflexíveis na sua oposição à sua disseminação. Entre os “padres de João Paulo II” mais jovens, ordenados nos anos 1990 e 2000, a forma extraordinária alcançou um nível relativamente mais alto de aceitação.

Escrevendo na revista America em 2007, o Pe. Michael Kerper, que se descrevia como alguém que “foi moldado pelo Concílio Vaticano II”, entretanto, considerou positiva a experiência de celebrar na forma extraordinária:

“Meu engajamento relutante com a missa em latim não abalou a minha espiritualidade presbiteral, nascida do Vaticano II. Pelo contrário, complementou e reforçou o magistério conciliar de que o padre é um instrumento de Cristo chamado a servir a todos, independentemente do estilo teológico ou litúrgico.”

Escrevendo alguns anos depois, outro padre, Peter Schineller, SJ (um ex-colunista da America), teve uma experiência muito diferente:

“Na minha mente, eu não pude deixar de pensar no Concílio Vaticano II e em tudo o que o Concílio e os documentos subsequentes tentaram realizar – a participação ativa, a ênfase nas coisas importantes, a língua vernácula, a eliminação de acréscimos e repetições etc. Foi triste e desanimador. O que aconteceu? Por que os fiéis católicos buscariam e assistiriam a essa forma mais antiga da missa?”

“Uma coisa eu sei”, concluiu o Pe. Schineller. “Eu mesmo nunca irei optar livremente por celebrar a Missa Tridentina”.

 

Aprendizagens mútuas

 

Um colaborador da revista America em 2017, Timothy Kirchoff, apresentou uma defesa da forma extraordinária da missa, que se concentrava na possibilidade de ultrapassar as divisões. “Muitos jovens católicos buscam um maior entendimento e continuidade com a Igreja pré-conciliar. Muitos católicos mais velhos que viveram o Concílio e estão intimamente familiarizados com as falhas da Igreja pré-conciliar temem que revisitar práticas antiquadas trará de volta problemas que o Vaticano II se esforçou para corrigir. Cada grupo tem algo a aprender com o outro”, escreveu ele.

“Essas lições só ficam claras quando deixamos de lado as preocupações ideológicas e temos paciência para entender as experiências uns dos outros. A forma de rigidez com a qual mais precisamos nos preocupar é a rigidez ideológica que nos impede de ver como Deus está agindo nos nossos irmãos católicos.”

“Encontramos pontos em comum quando temos paciência para procurá-los, assim como as liturgias que frequentamos parecem bem diferentes, mas, no fundo, são a mesma celebração do mistério pascal.”

Em muitas paróquias onde a forma extraordinária é oferecida agora, todo enriquecimento mútuo foi acompanhado por um sentimento semelhante de uma séria divisão. Em vez de levar a um novo rito universal, em alguns casos a instituição de uma missa em forma extraordinária resultou na divisão da comunidade paroquial, em parte porque muitos aderentes (e opositores) consideram a forma extraordinária como uma parte da rejeição da teologia do Vaticano II como um todo.

O Papa Francisco tem deixado claro que a aceitação do Vaticano II é uma condição sine qua non para ser um fiel católico hoje. “O Concílio é magistério da Igreja”, disse o papa em janeiro deste ano. “Ou você está com a Igreja e, portanto, segue o Concílio, ou, se você não segue o Concílio ou o interpreta a seu modo, como quer, você não está com a Igreja. Devemos ser exigentes, severos nesse ponto.”

O édito do Papa Bento XVI “infelizmente abriu as comportas para quem queria rejeitar o Concílio”, disse John Baldovin, SJ, professor de Teologia Histórica e Litúrgica na Escola de Teologia e Ministério do Boston College e autor de “Reforming the Liturgy: A Response to the Critics” [Reformando a liturgia: uma respostas aos críticos], em uma entrevista por e-mail com a America.

“O propósito declarado do Papa Bento XVI era atender a pequenos grupos de fiéis que não podiam romper um apego às velhas formas. A realidade é bastante diferente. Agora, muitos padres e seminaristas mais jovens são devotos do rito antigo – e, pior, tentam impô-lo às suas assembleias.”

“Eu acredito que o Papa Francisco reconhece a natureza divisiva do movimento para retornar à missa antiga e a outras liturgias pré-Vaticano II”, continuou o Pe. Baldovin. “A liturgia pós-Vaticano II está centrada na premissa de que o povo de Deus celebra a liturgia junto em virtude do seu batismo compartilhado.”

 

Duas formas diferentes

 

Em vez disso, a Igreja experimentou duas formas diferentes coexistindo desconfortavelmente, sendo que a forma ordinária da missa era de longe de uso predominante. Mas a promulgação do Traditionis custodes trouxe a forma extraordinária de volta para as notícias católicas.

Em junho, o Papa Francisco restringiu o uso do Rito Tridentino na Basílica de São Pedro, permitindo-o para “grupos com necessidades particulares e legítimas”, mas pondo fim à prática de padres individuais que celebravam a forma extraordinária em missas privadas em toda a basílica. Mas o Traditionis custodes vai muito mais longe.

A liturgia da Igreja, afirma Francisco claramente, é o rito promulgado no rastro do Vaticano II. “Tomo a firme decisão de revogar todas as normas, as instruções, as concessões e os costumes precedentes ao presente motu proprio, e de considerar os livros litúrgicos promulgados pelos santos pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, como a única expressão da lex orandi do Rito Romano”, disse Francisco em uma carta que acompanha a divulgação do Traditionis custodes [...].

Qual será a reação dos fiéis nos bancos? Em alguns lugares, a apoplexia e um sentimento de traição, de modo particular por ser uma medida que vem logo após o motu proprio de Bento XVI em 2007. “A minha suspeita é de que a maioria dos católicos, especialmente os bispos, ficarão aliviados. Os defensores mais fervorosos das formas antigas ficarão enfurecidos”, comentou o Pe. Baldovin. Mas isso levará à mais drástica das situações, um possível cisma na Igreja?

“É triste dizer, mas há muitos elementos que contribuem para um possível cisma hoje”, escreveu o Pe. Baldovin. “Muitos deles são realmente questões de teologia moral; outros, simplesmente de política. Mas não seria surpreendente se uma Igreja que entrou em cisma gravitasse em torno da liturgia pré-Vaticano II.”

 

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