O manifesto do cardeal Marx. Artigo de Massimo Faggioli

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08 Junho 2021

 

Reinhard Marx apresentou ao papa a sua renúncia como arcebispo de Munique e Freising, tendo amadurecido a consciência do escândalo dos abusos e da frustração com a resistência da Igreja às mudanças, reformas e inovações.

A opinião é de Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA. O artigo foi publicado em Il Mulino, 07-06-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

O cardeal Reinhard Marx apresentou ao Papa Francisco a sua renúncia como arcebispo de Munique e Freising em uma carta enviada no dia 21 de maio e tornada pública (com a permissão do papa) no dia 4 de junho.

Um passo inesperado e sem precedentes: o cardeal Giacomo Lercaro, de Bolonha, foi traumaticamente expulso, provavelmente por um complô das cúrias (romana e bolonhesa) em 1968, enquanto, no ano anterior, o cardeal Paul-Émile Léger, de Montreal, havia renunciado por servir aos leprosos na África.

Em dezembro de 2002, o cardeal Bernard Law renunciou ao cargo de arcebispo de Boston na tempestade do “sex abuse scandal”, para receber imediatamente do Vaticano da época uma sinecura eclesiástica adequada ao cargo e à proteção da lei estadunidense.

Não é o caso de Marx, que não é acusado de responsabilidades pessoais na gestão do escândalo dos abusos sexuais (como, ao invés disso, era o caso do cardeal de Lyon, que renunciou em 2019), tem apenas 67 anos e podia permanecer como ordinário da capital da Baviera até os 75 anos de idade ou mais, como muitas vezes acontece.

Não é usual que um cardeal da Igreja Católica deixe a diocese muitos anos antes do prazo natural, sem ser promovido (ou removido) a um alto cargo no Vaticano (algo, aliás, poderia acontecer no caso de Marx).

Além disso, o cardeal de Munique e Freising ainda detém um papel de magistratura moral e pública naquele mundo entre a pré e a pós-secularização que é a Baviera.

Na carta ao papa, Marx motiva a sua decisão com o amadurecimento de uma consciência diante do escândalo dos abusos sexuais: “Em essência, para mim, trata-se de compartilhar a responsabilidade pela catástrofe dos abusos sexuais por parte das autoridades da Igreja nas últimas décadas”.

Marx mostra-se frustrado com a resistência às mudanças que considera necessárias: “As discussões recentes mostraram que alguns membros da Igreja se recusam a admitir esse elemento de corresponsabilidade e, portanto, a cumplicidade da Igreja como instituição, opondo-se a qualquer diálogo sobre reformas e renovação em relação à crise dos abusos sexuais”.

Marx fala de “erros pelos quais somos pessoalmente responsáveis e o fracasso institucional que requer mudanças e reformas da Igreja”.

Ele também se inclui nos fracassos institucionais: “Nós fracassamos. Mas quem é esse ‘nós’? Eu também pertenço a ele. E isso significa que eu também tenho que tirar consequências pessoais disso. Isso está ficando cada vez mais claro para mim”.

Responsabilidades

Em relação a outras Igrejas Católicas do mundo, a Igreja alemã, a de Munique em particular, é um modelo de assunção de responsabilidade sobre a questão dos abusos sexuais cometidos pelo clero. Aquilo que se mexeu em Roma e no Vaticano nos últimos 10 anos se mexeu também e especialmente graças ao impulso da Igreja alemã no plano intelectual e financeiro: foi em 2010 que o escândalo explodiu na Alemanha (durante o pontificado de Bento XVI, ex-arcebispo de Munique e Freising).

Desde então, também em Roma, algo começou a ser construído em nível institucional e cultural. Marx liderou em 2012 a iniciativa de instituir o Center for Child Protection em colaboração com a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Originalmente sediado em Munique, o centro foi transferido para a sede da Gregoriana em Roma em 2014. O centro, liderado pelo jesuíta bávaro Hans Zollner, teólogo e psicoterapeuta, é hoje a ponta de lança no esforço para uma mudança cultural de longo prazo na Igreja.

No mesmo ano de 2014, Francisco anunciou a instituição da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores. Mais uma vez, Marx era o principal promotor dessa iniciativa. Em 2020, a Diocese de Munique e Freising criou a fundação Spes et salus, para apoiar as vítimas de abusos.

Então, por que a decisão de renunciar? Assunção de responsabilidade pessoal, mas também um senso de frustração com as resistências às reformas institucionais na Igreja, que, na opinião dele, são necessárias à luz do escândalo dos abusos.

Além de Francisco, a carta de Marx tem outros destinatários, hostis às reformas, que não são explicitados, como o cardeal de Colônia e os bispos de Regensburg e Passau, na Baviera (sedes ratzingerianas, não apenas geograficamente).

A cena alemã é importante para compreender o que está acontecendo na Igreja global. Levando em consideração aquilo que o Papa Francisco está dizendo desde 2015, pelo menos, é desde 2019 que a Igreja Católica na Alemanha deu início a um “caminho sinodal” nacional, com o envolvimento de diversos componentes da Igreja, voltado a elaborar um plano de reformas: institucionais, doutrinais e disciplinares (papel das mulheres nos ministérios da Igreja, modelo de padre, ensino sobre a sexualidade).

Na Alemanha, há resistências a esse sínodo por parte de uma minoria do clero e do povo, mas também de almas reformadoras diferentes entre si. Em outras Igrejas católicas, como por exemplo nos Estados Unidos e na Itália, o modelo sinodal alemão tornou-se um bicho-papão, o antimodelo progressista a ser evitado (basta ver o que foi dito pela cúpula da Conferência Episcopal Italiana no assembleia do fim de maio).

Na Alemanha, a carta de Marx consolidou a já sólida reputação do cardeal. O presidente da Conferência Episcopal, Georg Bätzing, serviu-lhe de eco: um front comum na luta contra a resistência à mudança.

O segundo destinatário direto da carta é o cardeal de Colônia, Rainer Maria Woelki, atualmente sob ataque por parte da opinião pública pela sua gestão da questão dos abusos (e o Vaticano acaba de ordenar uma inspeção da diocese, uma medida muito rara).

Sinodalidade

Mas não está excluído que a mensagem de Marx também seja para Roma. Francisco está acompanhando os desdobramentos do sínodo alemão, mas parece entender que as ideias de sinodalidade que existem no Vaticano e na Alemanha são diferentes.

O sínodo alemão é voltado para reformas institucionais, teólogo-doutrinais e disciplinares; em vez disso, o Papa Francisco expressa, pelo menos por enquanto, uma ideia predominantemente pastoral e afetiva de sinodalidade.

Por exemplo, no documento do dia 21 de maio (o mesmo dia da carta de Marx ao papa) do Sínodo dos Bispos que anuncia o plano bienal para a celebração dos sínodos em todas as Igrejas do mundo, a palavra “reforma” sequer aparece. Tanto Francisco quanto a Cúria Romana de Francisco enviaram à Alemanha, em mais de uma ocasião, sinais de preocupação acerca das reformas em discussão no “Caminho Sinodal”. É do dia 10 de maio a iniciativa nacional de abençoar os casais gays, em um ato de desobediência ao documento vaticano do dia 15 de março que proibia isso.

A carta de Marx ao papa começa com uma afirmação forte: “A minha impressão é de que estamos em um ‘ponto morto’, que – e esta é a minha esperança pascal – também pode se tornar um ‘ponto de virada’”.

A expressão “ponto morto” é uma citação dos escritos do cárcere do jesuíta Alfred Delp, condenado e assassinado pelos nazistas em fevereiro de 1945. É uma tomada de posição teológica: de uma Igreja que deve recomeçar do zero também em terras alemães, na “Alemanha Sagrada”. Mas também é uma indicação da frustração de Marx com a hesitação em dar o passo de uma Igreja que sabe se arrepender a uma Igreja que sabe mudar.

Circulam caricaturas antiprogressistas de Reinhard Marx. Mas foi João Paulo II quem o nomeou bispo em 1996, foi Bento XVI quem o criou cardeal em 2010. Especialista em doutrina social da Igreja, ele encarna aquela mistura totalmente germanófona de compromisso social e intelectual que não pode ser reduzida a concessão ao espírito do tempo.

Ele é uma personalidade-chave no pontificado de Francisco, e não apenas na questão dos abusos (durante a cúpula extraordinária de fevereiro de 2019, parece que ele foi o único cardeal que conversou com as vítimas após o término oficial do dia de trabalho). Em 2013, ele foi um dos oito chamados por Francisco para o Conselho dos Cardeais que se reúne a cada dois meses para aconselhar o papa. Em 2014, Francisco o nomeou coordenador do novo Conselho para a Economia, dedicado a supervisionar a gestão econômica das entidades da Santa Sé e do Vaticano.

O centro de gravidade da Igreja Católica na Europa se encontra – ainda hoje, como no milênio anterior – na Alemanha, do ponto de vista cultural, político e financeiro. A dialética com Roma é uma das dinâmicas fundamentais: aquilo que acontece do outro lado dos Alpes sempre tem consequências para todo o catolicismo.

Essa renúncia (apresentada, mas ainda não aceita pelo papa: há abaixo-assinados para convencer o papa a rejeitá-las) não privam Marx do cardinalato, e, portanto, ele continuará, mais do que antes e independentemente da posição que ocupará, representando a ala mais avançada no front das reformas entre aqueles que Francisco chamou ao seu redor desde o início do pontificado.

Mas certamente esse ato diz muito sobre aquilo que mudou nas expectativas de reforma entre a primeira e esta segunda fase de Francisco. E, obviamente, também tem a ver com o próximo conclave: é preciso pensar nele sempre, mas não falar dele nunca.

 

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