Os bispos e a Comunhão negada a políticos católicos: uma abordagem “distintamente estadunidense”

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26 Mai 2021

 

Quando os eleitores irlandeses aprovaram um referendo que revogava uma emenda constitucional que proibia o aborto em 2018, os bispos católicos de todo o país consideraram isso um golpe devastador para uma fé que há muito tempo é a marca registrada da identidade do país.

A reportagem é de Christopher White, publicada em National Catholic Reporter, 24-05-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O que a Conferência dos Bispos da Irlanda não fez, foi sugerir que se deveria negar a Comunhão aos políticos católicos que eram a favor de derrubar as antigas proteções pró-vida do país.

“Pode ter havido alguns bispos que pensassem isso em silêncio, mas ninguém disse isso em voz alta”, disse a teóloga irlandesa Suzanne Mulligan. Na realidade, após a votação, um bispo sugeriu, de fato, que os católicos irlandeses, que constituíam a maioria do eleitorado, que votaram a favor da medida poderiam pensar em se confessar.

Antes da votação, os bispos católicos do país fizeram suas declarações, tanto coletiva quanto individualmente, naquilo que ela descreveu como “parte do seu dever como defensores do magistério”.

“Em geral, isso foi feito para apresentar o ensino magisterial e dizer: ‘É nisto que acreditamos como católicos’, mas nunca houve realmente a sensação de que, se você fosse católico, você deveria votar de uma determinada forma, e nunca houve qualquer ameaça a um político ou legislador público de que, se votassem em uma legislação específica, a Comunhão lhes seria negada”, disse Mulligan ao NCR. “Isso nunca foi levantado.”

Enquanto os bispos católicos dos Estados Unidos avaliam um novo documento para abordar os políticos católicos que apoiam o aborto legal – uma proposta sobre a qual o escritório doutrinal do Vaticano os exortou a proceder com cautela – uma série de historiadores e teólogos descrevem o confronto Igreja-Estado nos Estados Unidos como algo sem muitos precedentes.

“Eu realmente acho que é algo distintamente estadunidense”, disse o historiador John McGreevy, da Universidade de Notre Dame. “Acho que nenhum bispo de algum país está fazendo algo assim.”

“Isso faz parte do fato de os bispos estadunidenses estarem envolvidos nas guerras culturais”, disse McGreevy ao NCR, acrescentando que um esforço para redigir uma declaração geral sobre os políticos católicos e a Comunhão parece “ir contra o teor daquilo que o Papa Francisco está tentando fazer”.

 

Diálogo com outras Conferências Episcopais

 

Quando o cardeal Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, escreveu aos bispos dos Estados Unidos no início deste mês, ele encorajou que “todos os esforços devem ser feitos para dialogar com outras Conferências Episcopais, tanto para aprender uns com os outros quanto para preservar a unidade na Igreja universal”.

Mulligan, que leciona na Pontifícia Universidade de St. Patrick’s College, em Maynooth, disse que Ladaria parecia sinalizar aos bispos dos Estados Unidos que uma pesquisa sobre como outras Conferências Episcopais abordam políticos católicos que diferem do ensino da Igreja sobre questões políticas mostrará que o “tom e abordagem são bastante diferentes”.

Anna Rowlands, professora da cátedra St. Hilda de Ensino e Prática Sociais Católicos na Durham University, na Inglaterra, concordou, dizendo que, “a partir da Europa, parece que a Igreja estadunidense está perigosamente propagando, embora pense que esteja fazendo o oposto, uma espécie de individualismo eclesial”.

“A Comunhão se torna uma recompensa pela virtude individual, mas a virtude é rebaixada, sem atenção à complexidade moral”, disse Rowlands, ex-vice-diretor do Centro de Estudos Católicos da Durham University, ao NCR.

Para Rowlands, um ponto de comparação útil é a aprovação em 2013 da lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo pelo Parlamento no Reino Unido. Embora ela tenha dito que o debate sobre o casamento gay levou a um “exame de consciência” entre os políticos católicos, o debate político no país “não teve o mesmo tipo de enfoque eclesial”.

“Não há nenhuma linha direta entre o ensino da Igreja e o papel de um político representativo em uma democracia liberal”, disse ela ao NCR, acrescentando que, na Inglaterra, “não tivemos o mesmo tipo de tensões entre Roma e a nossa Conferência Episcopal”.

“Parece que essa é uma questão exclusivamente estadunidense”, continuou Rowlands. “À distância, parece como assistir a uma batalha dentro da alma do catolicismo e da cultura estadunidenses sobre a relação entre Igreja e política.”

“A política nunca foi proeminente dessa forma”, advertiu ela, acrescentando que a maneira como o debate da Comunhão parece estar se moldando nos Estados Unidos corre o “risco de distorcer a tradição católica”.

Embora o documento final do encontro da Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho de 2007 observa que os legisladores e políticos católicos devem ater-se à “‘coerência eucarística’, isto é, ser conscientes de que não podem receber a sagrada comunhão e ao mesmo tempo agir com atos ou palavras contra os mandamentos, em particular quando se propicia o aborto, a eutanásia e outros graves delitos contra a vida e a família”, o historiador Daniel Levine diz que não se lembra de nenhum confronto específico em que se tenha ameaçado negar a Comunhão especificamente.

Levine, autor de “Politics, Religion and Society in Latin America” [Política, religião e sociedade na América Latina], disse que, embora existam tensões históricas na América Latina entre as Conferências Episcopais sobre uma série de batalhas políticas, incluindo as leis do divórcio e, cada vez mais, um relaxamento nas restrições ao aborto, ele disse que elas dificilmente chegaram ao nível da ameaça dos bispos de negarem a Comunhão a presidentes, primeiros-ministros e lideranças políticas católicas.

“Nunca vi esse tipo de oposição”, disse ele.

 

Precedente papal

 

Quando o prefeito de Roma, Francesco Rutelli, um católico de destaque que também liderou a campanha do seu partido pela liberalização das leis do aborto, se apresentou para a Comunhão em uma missa papal pública em 2001, o Papa João Paulo II pessoalmente administrou o sacramento a ele.

O Papa João Paulo II, conhecido pela sua firme oposição ao aborto, fez o mesmo quando o então primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, compareceu a uma missa particular no apartamento do papa. Na época, Blair nem mesmo era católico e era um notável político pro-choice. A presidente da Câmara dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, e o então senador de Massachusetts John Kerry receberam a Comunhão em uma missa papal presidida pelo Papa Bento XVI durante a sua visita de 2008 aos Estados Unidos.

De acordo com Rocco Buttiglione, autor de “Karol Wojtyla: The Thought of the Man Who Became Pope John Paul II” [Karol Wojtyla: o pensamento do homem que se tornou o Papa João Paulo II], o falecido papa polonês “reforçou a doutrina comum da Igreja” no que diz respeito à Comunhão e à Eucaristia.

Ele acredita que o Papa Francisco está fazendo o mesmo hoje.

Embora Buttiglione não duvide que o aborto seja um pecado grave, ele também acredita que os bispos e padres devem se lembrar dos ensinamentos de São Tomás de Aquino, o frade dominicano do século XIII cujos ensinamentos morais ainda moldam a prática da Igreja hoje.

Quando alguém se apresenta para a Comunhão sem ter recebido a absolvição por um pecado mortal, “São Tomás diz que o padre tem o dever de dar a Comunhão em tais casos”, disse Buttiglione ao NCR.

“Ele [Aquino] explica que o padre que recusa a Comunhão fere o bom nome do pecador, e esse é um pecado comparável ao homicídio.”

“Parece estranho aos nossos ouvidos”, disse Buttiligione, que observa que esse é o “equivalente medieval” da convicção do Papa Francisco de que “o confessor deve iluminar, mas não substituir a consciência do confessante”.

Refletindo sobre os comentários anteriores do presidente Joe Biden sobre o aborto, Buttiglione, professor de Ciências Políticas na Universidade São Pio V, em Roma, membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais e ex-ministro da União Europeia, disse que “Biden está convencido de que o aborto é um pecado”, embora ao mesmo tempo “ele não ache que se deva fazer uma lei nos Estados Unidos para punir o aborto com uma sanção criminal”.

Buttiglione diz que um leigo católico como Biden não tem o dever de consagrar o ensino da Igreja como lei, mas, em vez disso, de ver quais “outros passos rumo a uma boa sociedade” ele pode ajudar a dar, incluindo o fornecimento às mulheres de um maior acesso aos cuidados de saúde e de bem-estar econômico para que elas não tenham que optar pelo aborto.

Se o segundo presidente católico dos Estados Unidos fosse excomungado, Buttiglione diz que isso seria uma “ferida profunda na colaboração entre a Igreja e o Estado nos Estados Unidos”, que também teria “consequências dramáticas para as relações entre os Estados Unidos e a Santa Sé”.

“Um padre não pode tomar uma decisão tão difícil sozinho”, acrescentou. “Um bispo não pode tomar tal decisão sozinho, nem mesmo após uma consulta com a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos. Ele deve consultar e receber a aprovação do papa.”

 

Aborto como uma questão partidária

 

Repassando a história dos debates sobre o aborto na Europa ocidental, McGreevy, da Notre Dame, observa que a questão se resolveu mais ou menos após a sua legalização nos anos 1970, com o estabelecimento de alguns limites para o aborto e de um maior apoio materno às mulheres.

“Ele não se tornou uma questão partidária”, disse ele.

Em contraste, observou McGreevy, a decisão “extrema” da Suprema Corte no caso Roe v. Wade anulou 50 conjuntos de leis estaduais e “efetivamente tornou o aborto legal durante a gravidez”.

“Isso ajudou a catalisar um movimento antiaborto e pró-vida”, disse ele, acrescentando que, em 1980, o aborto havia se tornado uma questão predominantemente partidária, na qual os republicanos se identificavam como o partido pró-vida, e os democratas se opunham às restrições ao aborto.

“Se você se perguntasse qual partido era mais pro-choice ou pró-vida em 1975, isso não seria óbvio”, disse ele. Mas, 50 anos após a legalização do aborto nos Estados Unidos, “isso se integrou ao sistema político-partidário, mas é algo que parece não ter acontecido na Europa ocidental e na maior parte da América Latina”.

O fato de o movimento profissional pró-vida ter se aliado a um partido político de uma forma que não ocorreu em outros países apenas elevou a natureza do debate sobre a Comunhão, disse Rowlands, da Durham University.

Embora os bispos católicos dos Estados Unidos participem regularmente e falem em eventos como a Marcha pela Vida, incluindo a de janeiro passado, quando o arcebispo Joseph Naumann, presidente da Comissão Pró-Vida dos bispos dos Estados Unidos, fez sua homilia na Vigília Nacional de Oração pela Vida criticando o apoio de Biden ao aborto, no Reino Unido “a Conferência Episcopal não está envolvida nesse tipo de questões políticas”, disse Rowlands.

Para Rowlands, o estreito alinhamento dos bispos dos Estados Unidos com um partido político é uma das razões pelas quais o debate sobre a proibição da Comunhão aos legisladores católicos corre o risco de estabelecer um precedente perigoso para o engajamento católico na vida política.

“O risco é de isso parecer uma forma de cooperação, e é algo muito perigoso”, disse ela. “A Igreja não se alinha com nenhum movimento político singular”, mas prefere falar sobre um “conjunto integrado de questões da vida”.

 

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