Aborto. Votação na Irlanda mostra a necessidade de nova estratégia pró-vida. Artigo de Thomas Reese

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15 Junho 2018

Em quase todos os países onde o aborto foi às urnas, ele ganhou. Raramente as leis pró-escolha foram revertidas. Essa tendência não vai mudar. Pensar de outra forma é simplesmente ignorar a realidade.

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998).

O artigo foi publicado em Religion News Service, 27-05-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A esmagadora votação na Irlanda em favor da permissão do acesso ao aborto mostra que o movimento pró-vida precisa de uma nova estratégia. Tentar preservar as leis antiaborto ou tentar reverter a legalização do aborto simplesmente não está funcionando.

Em quase todos os países onde o aborto foi às urnas, ele ganhou. Raramente as leis pró-escolha foram revertidas. Essa tendência não vai mudar. Pensar de outra forma é simplesmente ignorar a realidade.

O movimento pró-vida estadunidense ainda mantém a esperança de que a Suprema Corte dos Estados Unidos irá reverter o caso Roe versus Wade [caso judicial pelo qual a Suprema Corte estadunidense reconheceu o direito ao aborto], mas, mesmo que isso aconteça, a maioria dos estadunidenses ainda viverá em Estados onde o aborto é legal. Aqueles que não vivam, conseguirão viajar para um Estado onde ele é legal, assim como as mulheres irlandesas, por muito tempo, viajaram para a Grã-Bretanha.

A realidade é que a maioria dos estadunidenses acha que o aborto deveria ser legal, mesmo achando que ele é imoral. Não há nenhuma indicação de que esse pensamento vai mudar. De fato, a opinião está se movendo na direção oposta, graças às atitudes das gerações mais jovens.

O Pew Research Center mostra que os estadunidenses com menos de 50 anos são mais propensos do que os mais velhos a apoiar o aborto em todos os casos ou na maioria deles. Da mesma forma, na Irlanda, os mais jovens votaram mais fortemente para mudar a lei. O tempo está do lado do movimento pró-escolha.

Se tornar o aborto ilegal é um objetivo impossível, qual deveria ser a estratégia pró-vida para um futuro previsível?

A resposta é simples e óbvia: trabalhar para reduzir o número de abortos.

Quando as mulheres são perguntadas por que estão fazendo um aborto, as principais razões oferecidas são que ter um bebê interferiria na educação, no trabalho ou na capacidade delas de cuidarem dos filhos que já estão criando, ou que simplesmente não podem custear outro filho neste momento.

Os ativistas pró-vida devem levar essas razões em consideração ao desenvolverem uma nova estratégia.

Os defensores pró-vida deveriam apoiar fortemente os programas que dão às mulheres uma escolha real – aumento do salário mínimo, creches gratuitas ou acessíveis para mães trabalhadoras e estudantes, assistência médica gratuita ou acessível para as mães e seus filhos, programas de licença parental, programas de educação e de formação profissional, suplementos de renda e alimentares etc.

Em suma, o movimento pró-vida deve apoiar qualquer programa que alivie o fardo para as mães e seus filhos.

Não se deveria mais permitir que os republicanos se chamem de pró-vida quanto votam contra programas que ajudam as mães e seus filhos. No início dos anos 1990, os republicanos na legislatura de Nova Jersey votaram pelo não aumento dos benefícios para as mulheres assistidas, caso tivessem mais filhos. Assim, uma mãe com dois filhos teria que cuidar de três sem um aumento do apoio. As consequências foram rápidas e previsíveis: um aumento no número de abortos entre mulheres assistidas.

Se o aborto se encaminha para nunca ser ilegal, os pró-vida devem levar em consideração o fato de votarem em candidatos, inclusive democratas, pró-escolha, que reduzirão o número de abortos apoiando programas que ajudem as mães e seus filhos.

Não é por acaso que o número de abortos diminuiu durante os dois últimos governos democratas, de acordo com os CDC [Centros de Controle e Prevenção de Doenças] (Clinton: 1.330.414 abortos em 1993 para 857.457 em 2000; Obama: 789.217 em 2009 para 652.639 em 2014).

Os eleitores pró-vida devem escolher entre a retórica republicana e os resultados democratas.

As Igrejas também devem entrar em campo. No mundo de hoje, uma mulher solteira que deseje dar à luz deve ser tratada como uma heroína, não como uma prostituta. Ela não é a única mulher solteira em sua faixa etária que engravidou, muito menos a única pessoa que faz sexo. No entanto, ela é a única mulher corajosa o suficiente para escolher a vida. Que vergonha dos fariseus que tentam envergonhá-la.

As escolas também devem fazer mais para ajudar essas mulheres. As universidades, hoje, falam muito sobre diversidade, mas um dos grupos menos representados nos campi são as mães solteiras. As universidades, especialmente as universidades católicas, devem projetar programas e moradias para atender às suas necessidades. Tais programas beneficiariam não apenas as mães e seus filhos, mas também outros estudantes. Talvez eles aprenderiam que “é preciso um dormitório inteiro para educar uma criança”.

Além de apoiar programas para ajudar mães e crianças, o movimento pró-vida também tem que apoiar o controle de natalidade como um meio para evitar gravidezes indesejadas. As gravidezes planejadas não são abortadas; muitas gravidezes não planejadas, sim.

Aqueles que consideram errada a contracepção artificial também devem reconhecer que o aborto é um mal maior. Quando forçada a escolher, a pessoa precisa escolher o menor de dois males.

O mandato contraceptivo do governo Obama fará mais para reduzir o número de abortos do que todos os truques legislativos dos legisladores republicanos. Se as instituições católicas europeias podem pagar por programas nacionais de saúde que realizam abortos, então os empregadores católicos estadunidenses podem pagar por programas de seguro que pagam pelo controle da natalidade.

E, embora eu ficaria feliz em ver a Planned Parenthood encerrar suas atividades, fechar clínicas que prestam assistência médica e controle de natalidade às mulheres antes que seus substitutivos estejam em funcionamento é irresponsável e contraproducente.

O objetivo de apoiar mães e crianças e de diminuir o número de gravidezes não planejadas deveria receber um apoio bipartidário. Embora muitas pessoas, sem dúvida, apoiem esses programas como fins em si mesmos, não há nenhuma razão para que o movimento pró-vida não os apoie como meios para reduzir os abortos.

O número de abortos nos Estados Unidos atingiu o pico em 1990 em 1.429.247 casos. Trabalhando juntos, poderíamos reduzir razoavelmente os abortos para menos de 100.000 por ano – um número ainda excessivo, mas uma meta alcançável e melhor do que onde estamos hoje.

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