EUA: a divisão dos bispos em relação a Biden. Artigo de Thomas Reese

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23 Janeiro 2021

Um grande número de bispos estadunidenses quer caminhar e mascar chiclete ao mesmo tempo. Eles preferem apoiar o governo nas questões em que concordam e se opor quando discordam.

A opinião é de Thomas J. Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998).

O artigo foi publicado em Religion News Service, 22-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Os bispos católicos estadunidenses estão divididos sobre como lidar com Joe Biden, o primeiro presidente católico desde John F. Kennedy, mas não é apenas uma divisão.

Uma pequena mas expressiva minoria quer punir o novo presidente pelo seu apoio ao aborto legalizado, aos direitos das pessoas homossexuais e ao controle de natalidade. São os bispos que consideram Biden um mau católico que não deveria poder ir comungar. Mas até o falecido cardeal Francis George, de Chicago, que não era liberal, achava que essa era uma má ideia e disse aos seus padres para não bancarem os “policiais” na fila da Comunhão.

Um grupo maior de bispos conservadores quer evitar penalidades eclesiais, como negar a Comunhão a Biden, mas, mesmo assim, quer declarar guerra aos democratas por causa do seu apoio a essas questões. São os bispos para os quais o aborto é a questão mais importante, acima de todas as outras preocupações. Eles acreditam que não há nenhum espaço para concessões.

Uma minoria de bispos liberais gostaria de minimizar as diferenças com o governo e, em vez disso, trabalhar com ele em questões de justiça social e paz.

No dia da posse, o Papa Francisco pareceu apoiar esta facção quando enviou a Biden uma mensagem que não mencionava áreas de desacordo. Em vez disso, o papa rezava para que Deus “guie seus esforços para fomentar o entendimento, a reconciliação e a paz nos Estados Unidos e entre as nações do mundo, a fim de promover o bem comum universal”.

Tal mensagem não é surpreendente. O serviço diplomático vaticano é idealista em seus objetivos, mas realista em sua abordagem às nações, incluindo os Estados Unidos. Ele procura áreas de acordo onde possa trabalhar com outros governos, em vez de procurar brigas.

Isso nem sempre é aparente, em parte porque todo mundo gosta de ver uma briga. Um embaixador dos Estados Unidos na Santa Sé descreveu um encontro entre um secretário de Estado democrata e o Vaticano, no qual eles passaram quase todo o tempo conversando sobre áreas de interesse comum. Quando estavam saindo pela porta, a autoridade vaticana disse: “Obviamente, você sabe que, no comunicado à imprensa, teremos de mencionar a nossa discordância sobre o aborto”.

A mídia se concentrou nessa única frase do comunicado à imprensa, sem saber que o aborto sequer havia sido discutido.

Um grande número de bispos estadunidenses quer caminhar e mascar chiclete ao mesmo tempo. Eles preferem apoiar o governo nas questões em que concordam e se opor quando discordam.

O arcebispo de Los Angeles, José Gomez, como presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, tentou falar em nome desses bispos em sua declaração no dia da posse.

Sua declaração começou com uma nota positiva quando ele rezou para que Deus ajude o presidente “a curar as feridas causadas por esta pandemia, a aliviar as nossas intensas divisões políticas e culturais e a reunir as pessoas com dedicação renovada aos propósitos fundadores dos Estados Unidos, para seja uma nação sob Deus, comprometida com a liberdade e a igualdade para todos”.

Ele declarou que os “bispos não são atores partidários na política da nossa nação”, mas, “quando falamos sobre questões da vida pública estadunidense, tentamos guiar as consciências e oferecemos princípios”.

Ele observou que “nossos princípios morais nos levam a julgamentos prudenciais e a posições que não se alinham perfeitamente com as categorias políticas da esquerda ou da direita, ou com as plataformas dos nossos dois principais partidos políticos”.

“Estou ansioso para trabalhar com o presidente Biden, o seu governo e o novo Congresso”, escreveu ele. “Como acontece com todo governo, haverá áreas em que concordaremos e trabalharemos juntos mais de perto e áreas em que teremos um desacordo de princípios e forte oposição”.

A primeira parte da carta colocava Gomez claramente nas fileiras dos bispos que queriam caminhar e mascar chiclete ao mesmo tempo.

Depois, ele reconheceu que Biden, como católico, será um caso especial.

“Será revigorante se engajar com um presidente que entende claramente, de uma forma profunda e pessoal, a importância da fé e das instituições religiosas”, escreveu Gomez. “A piedade e a história pessoal do Sr. Biden, seu comovente testemunho de como a sua fé lhe trouxe consolo em tempos de escuridão e tragédia, seu compromisso de longa data com a prioridade do Evangelho aos pobres – eu acho tudo isso esperançoso e inspirador.”

Certamente, essa é uma das declarações mais positivas feitas por um bispo sobre a fé de Biden. Ninguém mais pode chamá-lo ainda de um mau católico.

Mas o tom muda rapidamente no parágrafo seguinte, quando o presidente da Conferência declara: “Nosso novo presidente se comprometeu a seguir certas políticas que promoveriam os males morais e ameaçariam a vida e a dignidade humanas, mais seriamente nas áreas do aborto, da contracepção, do casamento e do gênero. De profunda preocupação é a liberdade da Igreja e a liberdade dos fiéis de viverem de acordo com as suas consciências”.

Os quatro parágrafos seguintes continuam expondo em detalhes as diferenças dos bispos com o novo governo Biden sobre essas questões. Não há nenhum parágrafo detalhando as suas áreas de concordância.

Relatos vindos de Roma indicam que o Vaticano não gostou da declaração da Conferência, achando que ela era muito negativa para tal ocasião. Os bispos não emitiram uma declaração semelhante quando Trump tomou posse.

Em uma medida incomum, o cardeal Blase Cupich, de Chicago, criticou a declaração de Gomez.

“Hoje, a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos emitiu uma declaração imprudente no dia da posse do presidente Biden”, tuitou ele. “Além do fato de que aparentemente não há nenhum precedente nesse sentido, a declaração, crítica ao presidente Biden, veio como uma surpresa para muitos bispos, que a receberam poucas horas antes de ser divulgada”.

Ele disse que a declaração foi feita sem a consulta colegiada normal e necessária para um documento tão importante.

Embora Gomez pudesse querer caminhar e mascar chiclete ao mesmo tempo, a carta acabou enfatizando as diferenças dos bispos com o novo governo. Os bispos pareceram obstrucionistas em um momento em que até mesmo os republicanos estão proferindo palavras bipartidárias.

A facção dos bispos que deseja travar uma guerra contra o governo parece ainda estar no controle da Conferência Episcopal. Resta saber se bispos como Cupich serão capazes de dar a volta no Titanic antes que ele afunde.

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