Trump ou Biden? Em quem um eleitor católico deve votar? Artigo de Thomas Reese

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31 Agosto 2020

O vencedor das eleições presidenciais de 2020 nos Estados Unidos dependerá de alguns católicos persuadíveis em Estados-chave, assim como da participação católica, especialmente de católicos hispânicos.

A opinião é de Thomas J. Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998). O artigo foi publicado por Religion News Service, 28-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Com a escolha de Joe Biden como candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, os católicos estadunidenses estão se esforçando para saber se Biden pode ser chamado de político católico. Ligada a essa questão, está esta outra: “Um católico pode votar em Biden?”.

Existem pelo menos seis maneiras de definir quem é um político católico:

1. Um político católico é um político que, por acaso, é católico.

2. Um político católico é um político que segue as diretrizes dos bispos dos Estados Unidos sobre questões políticas.

3. Um político católico é um político que segue as diretrizes do papa sobre questões políticas.

4. Um político católico é um político que adota todo o espectro do ensino social católico.

5. Um político católico é aquele que adota a maior parte do ensino social católico, mesmo apoiando a legalização do aborto e do casamento gay.

6. Um político católico é um político que é contra o aborto e o casamento gay, mesmo rejeitando a maior parte do ensino social católico.

Joe Biden é claramente um católico de acordo com a primeira definição. Ele nasceu em família católica, foi batizado católico, estudou em escolas católicas, frequenta a igreja e se apresenta ao mundo como católico.

De acordo com essa definição, há 22 católicos no Senado dos Estados Unidos, 141 na Câmara dos Deputados e seis na Suprema Corte dos Estados Unidos.

Não importa se eles são pecadores; mesmo assim, eles são católicos. Eles podem ser ladrões, adúlteros, assassinos, mentirosos, divorciados, praticantes do controle de natalidade ou o que quer que seja; mesmo assim, eles são católicos. Você pode até ser excomungado e, mesmo assim, ser católico.

Durante as perseguições romanas, houve um debate sobre o que fazer com os cristãos que negavam a fé para salvar suas vidas. Eles tinham que ser rebatizados? A resposta foi não.

Resumindo: é difícil sair da Igreja Católica, a menos que você saia voluntariamente, e, mesmo assim, a porta está sempre aberta para que você volte livremente.

Durante a campanha presidencial de 1960, muitos protestantes temiam que John Kennedy fosse um político católico que receberia ordens dos bispos e do papa, de acordo com as definições dois e três. É por isso que Norman Vincent Peale, Billy Graham e muitos ministros protestantes, abertamente ou a portas fechadas, fizeram campanha contra Kennedy.

Kennedy, no entanto, deixou claro que não aceitaria ordens dos bispos ou do Vaticano.

Os católicos estadunidenses viram os problemas que a Igreja enfrentou na Europa quando a hierarquia se alinhou com governantes ou partidos políticos específicos. Os católicos estadunidenses, incluindo a maioria dos bispos, não queriam seguir esse caminho.

Historicamente, como imigrantes pobres, a maioria dos católicos votou nos democratas, especialmente quando Al Smith enfrentou uma avalanche anticatólica dos republicanos em 1928. A Depressão e o New Deal cimentaram esses católicos no partido. Mas, quando começaram a ingressar na classe média após a Segunda Guerra Mundial, cada vez mais católicos brancos abandonaram o partido de seus pais e votariam nos republicanos.

Os bispos mantiveram a tradição de não endossar candidatos ou partidos, mas falam, sim, abertamente sobre as questões. Seria difícil, senão impossível, encontrar um político que concorde com os bispos ou com o papa sobre todas as questões. Eles são liberais demais para os republicanos no que diz respeito à pena de morte, assim como à economia, à saúde, ao bem-estar social, à imigração e à política externa. Eles são conservadores demais para os democratas no que diz respeito ao aborto, ao controle de natalidade e ao casamento gay.

Para estar totalmente alinhado com os bispos e com o papa, você teria que ser um democrata liberal pró-vida. Esses unicórnios têm dificuldade em ganhar eleições. Tal político também se qualificaria como um político católico de acordo com a quarta definição, alguém que adota todo o espectro do ensino social católico.

Se quase nenhum político adota todo o espectro do ensino social católico, o que um eleitor deve fazer?

Os democratas católicos defendem os candidatos que adotam a maior parte do ensino social católico, mesmo apoiando a legalização do aborto e do casamento gay, de acordo com a definição cinco. Os católicos republicanos defendem os candidatos que são contra o aborto e o casamento gay, mesmo rejeitando a maior parte do ensino social católico, de acordo com a definição seis.

Os bispos tentaram orientar os eleitores católicos na sua declaração “Forming Consciences for Faithful Citizenship” [Formando consciências para uma cidadania fiel]. Nele, eles reconhecem que “os católicos muitas vezes enfrentam escolhas difíceis sobre como votar”.

Em dois parágrafos cuidadosamente elaborados, eles dão os seus conselhos. Os ativistas tendem a citar apenas as suas frases favoritas desses parágrafos, então, eu apresento o texto completo abaixo. O parágrafo 34 diz:

“Um católico não pode votar em um candidato que defende uma política que promove um ato intrinsecamente mau, como o aborto, a eutanásia, o suicídio assistido, a sujeição deliberada dos trabalhadores ou pobres a condições de vida subumanas, a redefinição do matrimônio de forma a violar o seu significado essencial, ou comportamentos racistas, se a intenção do eleitor for apoiar essa posição. Em tais casos, um católico seria culpado de cooperar formalmente com um mal grave. Mas, ao mesmo tempo, um eleitor não deveria usar a oposição de um candidato a um mal intrínseco para justificar a indiferença ou a falta de atenção a outras questões morais importantes que envolvam a vida e a dignidade humanas.”

Em primeiro lugar, é preciso notar que, além do aborto, da eutanásia, do suicídio assistido e do casamento gay, os bispos também listam como “intrinsecamente más” as políticas que sujeitam deliberadamente os “trabalhadores ou pobres a condições de vida subumanas”, assim como políticas que promovem “comportamentos racistas”.

Uma interpretação liberal desse texto abre a porta para uma gama mais ampla do ensino social católico do que apenas o aborto e o casamento gay.

Em segundo lugar, a cláusula “se” é muito importante. Um católico está em apuros apenas “se a intenção do eleitor for apoiar essa posição”.

Portanto, um republicano católico pode votar em Trump, mesmo que suas políticas promovam o racismo ou sujeitem os imigrantes a condições de vida subumanas, desde que a intenção do eleitor não seja apoiar essas posições.

E um democrata católico pode votar em Biden, mesmo que suas políticas promovam o aborto e o casamento gay, desde que a intenção do eleitor não seja apoiar essas posições.

Na teologia católica, a intenção – o porquê você está fazendo algo – é essencial para a compreensão da moralidade de uma ação.

O parágrafo 35 do documentoFaithful Citizenship" reconhece o mundo confuso da política, em que um candidato pode discordar do ensino da Igreja sobre uma questão importante, mas um católico ainda pode votar nesse candidato por outras razões moralmente graves.

Pode haver ocasiões em que um católico que rejeita a posição inaceitável de um candidato mesmo sobre políticas que promovam um ato intrinsecamente mau possa razoavelmente decidir votar nesse candidato por outras razões moralmente graves. Votar desse modo seria permitido apenas por razões morais verdadeiramente graves, não para promover interesses mesquinhos, ou preferências partidárias, ou para ignorar um mal moral fundamental.

Assim, um republicano católico pode se sentir impelido a votar em Trump apesar das suas políticas de promoção do racismo ou de sujeição dos imigrantes a condições de vida subumanas, por outras razões moralmente graves, por exemplo, a sua oposição ao aborto.

Um católico democrata pode se sentir impelido a votar em Biden, apesar da sua posição sobre o aborto e o casamento gay, por causa de outras razões moralmente graves, por exemplo, as suas posições sobre o racismo, a imigração, o aquecimento global e a Covid-19.

De fato, a maioria dos católicos não faz esse tipo de análise sofisticada antes de votar.

A maioria dos republicanos católicos brancos concorda com o tratamento de Trump aos imigrantes, e a maioria dos democratas católicos concorda com Biden que o aborto deve ser legal.

A maioria dos padres também não oferecerá muita orientação. Alguns dirão falsamente aos seus rebanhos que eles irão para o inferno se votarem em Biden ou em qualquer candidato pró-escolha. Outros sinalizarão suas preferências pregando apenas sobre o aborto ou apenas sobre a justiça social antes das eleições.

O efeito que isso tem sobre a eleição é uma questão em aberto. A maioria dos católicos, assim como a maioria dos eleitores, já se decidiu. Poucos estão abertos à persuasão, mas esses poucos importam muito em eleições disputadas. A participação nas eleições também é importante. Os republicanos trabalharão para levar os católicos brancos às urnas, enquanto os democratas se concentrarão nos católicos hispânicos.

O vencedor das eleições presidenciais de 2020 dependerá de alguns católicos persuadíveis em Estados-chave, assim como da participação católica, especialmente de católicos hispânicos.

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