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15 Março 2021

 

Bergoglio cumpre oito anos de pontificado, deixando claro seu compromisso pela paz e a favor dos mais pobres, aliado com os movimentos populares e buscando a ação conjunta das grandes religiões, enquanto enfrenta resistências na própria Igreja Católica”, escreve Washington Uranga, jornalista argentino, em artigo publicado por Página/12, 13-03-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Em sua última intervenção pública no estádio Franso Hariri de Erbil, durante a recente viagem ao Iraque, o Papa Francisco disse que “para limpar nossos corações, temos que sujar as mãos, sentirmo-nos responsáveis e não apenas olhar, enquanto nossos irmãos e irmãs estão sofrendo”. Poucos dias antes de cumprir oito anos como máxima autoridade da Igreja Católica, Francisco ratificou com palavras e fatos uma das linhas regentes de seu pontificado: transformar-se em “peregrino da paz”, isso é, um permanente lutador pela paz em um mundo que ele mesmo diagnostica como convulsionado.

 

Guerra mundial em capítulos

Para o papa argentino estamos atravessando um momento da humanidade onde a fragmentação e os conflitos permanentes impedem o desenvolvimento de condições de convivência humana. Expressou de diferentes maneiras em sua encíclica Fratelli Tutti, mas também destaca isso em suas reiteradas alocuções públicas. Em 13 de setembro de 2013, durante a homilia que pronunciou no cemitério militar de Fogliano Redipuglia (Itália), onde recordou dos mortos da Primeira Guerra Mundial e dos atingidos por todos os conflitos bélicos, o papa sintetizou que “hoje, depois do segundo fracasso de uma guerra mundial, talvez se possa falar de uma terceira guerra, combatida ‘em capítulos’, com crimes, massacres e destruições”.

Frente a esse diagnóstico, Bergoglio decide, em primeiro lugar, se comprometer pessoalmente na busca de soluções aos conflitos e de uma maneira pouco conhecida na história dos papados. Envolveu-se diretamente na situação síria pedindo aos líderes do mundo para se aprofundarem no diálogo em busca de uma solução.

E a partir daí foram inúmeras as ocasiões nas quais Francisco, com êxitos e fracassos, exerceu seu prestígio pessoal e também o peso institucional da Igreja Católica para encontrar caminhos que garantam a paz. Apenas como exemplo, vale recordar que tentou aproximar israelenses e palestinos, e fez os maiores esforços na busca da paz na Colômbia, entre o Estado e as FARC. Em dezembro de 2014, Estados Unidos e Cuba anunciavam o restabelecimento das comunicações entre ambos os países depois de mais de 30 anos de conflito. Sem negar o grande papel de Barack Obama e Raúl Castro neste marco, o certo é que Bergoglio foi o grande mediador nas sombras.

Diante do cenário da guerra “em capítulos”, o Papa deu uma dupla estratégia. A primeira consiste em somar as vontades das grandes religiões monoteístas (judeus, muçulmanos e cristãos) e somar a lideranças de seus principais referentes a favor deste propósito. Com esse objetivo, manteve reuniões frequentes com autoridades de diferentes credos e formulou expressamente seu pensamento em novembro de 2018, quando, em visita a Mianmar e em razão de um encontro com líderes religiosos, defendeu que “a paz se constrói na voz das diferenças. A unidade sempre se dá com as diferenças” e que “a paz é harmonia”.

Para o Papa foi particularmente importante a busca do diálogo e a aproximação com o islã.

Muito significativo foi o encontro inter-religioso realizado na recente visita ao Iraque, no último 06 de março, na planície de Ur, considerada a terra do profeta Abraão e origem do judaísmo, do islamismo e do cristianismo. Ali o Papa pediu que, “diante da tempestade, rememos todos juntos, na mesma direção”.

 

A aliança com os movimentos populares

A primeira viagem de Francisco após sua eleição foi a Lampedusa, em 8 de julho de 2013, para atender os imigrantes expulsos de suas terras, os “descartados” como o próprio Bergoglio os descreveu. Na ocasião, o Papa advertiu que “a indiferença para com os outros leva à globalização da indiferença”. Nesse gesto do alvorecer de seu pontificado, Francisco traçou uma linha: a reafirmação da opção pelos pobres, que tem sido característica da Igreja latino-americana (64% dos católicos do mundo) e um apelo à solidariedade e responsabilidade coletiva para com os desprezados e segregados da sociedade.

Um argumento que ele desdobrou teórica e magistralmente em vários documentos, mas principalmente naqueles que foram os dois principais textos do ensinamento papal Fratelli Tutti (2020) e Laudato Si' (2015).

Nestes textos o Papa levanta duras críticas à sociedade capitalista desde uma perspectiva cristã e fortemente apegada ao Ensino Social da Igreja que emergiu do Concílio Vaticano II (1962-1965) e trabalhou profusamente na Igreja da América Latina nas conferências gerais de Medellín (1968), Puebla (1979) e Aparecida (2007). Além dessas instâncias institucionais, o olhar de Bergoglio também se concentra na chamada teologia da libertação e na teologia do povo, enraizada na prática pastoral das comunidades católicas comprometidas com os setores populares.

No entanto, é claro que Francisco não é um revolucionário, nem afirma ser. Pode-se dizer que ele é um reformador moderado que tem uma visão altamente crítica do capitalismo e da sociedade atual e que opta por ficar ao lado dos pobres. E nesse sentido também faz uma opção política, escolhendo como aliados e protagonistas os movimentos populares de todo o mundo, entendendo que nessas organizações está o germe de uma possível mudança. Durante seu pontificado, Francisco fez do seu encontro com os movimentos populares um hábito, e em 9 de julho de 2015, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), lhes disse que “precisamos e queremos uma mudança” e os ungiu, lhes dizendo que “vocês são semeadores de mudança”.

Para muitos, esta é a tradução que Bergoglio faz da mensagem do bispo mártir argentino, o beato Enrique Angelelli: “com um ouvido no povo e outro no Evangelho”.

 

A Igreja Católica: o claro-escuro

Outra característica do pontificado de Francisco foi a decisão de criar uma Igreja Católica aberta ao mundo, seus problemas e dificuldades. Também uma Igreja que abre as portas para receber, para acolher e que, nessa posição, também se expõe nas suas limitações, nas suas contradições e nas suas carências.

A primeira levou o Papa a falar não só pelos seus, mas por toda a sociedade. Dirigir-se, nos seus documentos e nas suas declarações, a todos, debatendo as suas atitudes e posições.

A segunda permitiu mostrar as contradições históricas da instituição católica, suas brigas internas, a luta contra o próprio Francisco e os muitos problemas não resolvidos: gestão econômica, pedofilia, modos de governo, machismo clerical. Sobre essas e outras questões, as posições de Francisco têm sido mais declarações do que fatos, além de seu desejo repetidamente expresso por uma “Igreja pobre e para os pobres”. Por exemplo, vale dizer que os anúncios da reforma da Cúria Romana não se tornaram realmente eventos significativos. Talvez porque seja dentro da instituição eclesiástica onde esteja a maior resistência, talvez também porque o Papa não consegue formar alianças suficientemente poderosas em sua própria instituição para modificar uma estrutura secular resistente às mudanças. Na verdade, uma grande tarefa pendente é a reforma da própria Igreja, suas formas de governo e a construção de consensos coletivos.

Resumindo: Francisco é um Papa que vive olhando para a sociedade, com a estatura de líder político cultural com repercussão mundial, disposto a olhar o mundo “desde baixo” e se comprometer a mudá-lo, mas com problemas internos e resistências que ele ainda não consegue resolver na própria Igreja.

 

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